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O Miguel Pinheiro já está conosco para uma nova edição do "O Bom, o Mau e o Vilão". Olá, Miguel, bom dia.

Bom dia.

Bom dia. Quem é o teu bom de hoje?

Olha, é António José Seguro, porque perante as três mortes por falta de assistência do INEM, o candidato apoiado pelo PS disse duas coisas com que qualquer pessoa que esteja em casa a ver televisão se pode identificar. A primeira foi uma pergunta retórica, foi esta: isto agora é todos os dias? E a segunda foi uma constatação. Ele disse que começa a haver o medo de se adoecer, porque há muitas dúvidas sobre se pode haver socorro numa emergência. E isto faz com que, ao mesmo tempo, Seguro tenha evitado passar a ideia de que ia mandar o governo abaixo por causa disto. Ele foi muito cauteloso. Ou seja, ele falou pra esquerda, de que vai precisar na primeira volta, e falou também pra direita moderada, de que vai precisar se passar à segunda volta, por exemplo, contra André Ventura. E por isso, do ponto de vista dele, fez tudo bem. Ele fez tudo bem. Agora, os outros candidatos convinha que também começassem a fazer as coisas bem, se querem disputar a eleição decentemente.

Sim, Seguro, claramente o tom mais presidencial.

Sim, ele tem vindo a conseguir acertar e os adversários não estão a arranjar um caminho para o combater, nomeadamente o almirante Covilhã Melo, porque é ele quem disputa votos com Seguro. Ali o voto dos socialistas está dividido entre os dois e vê-se que o Covilhã Melo está com dificuldades em arranjar um ponto por onde pegar. Realmente dizem que António José Seguro é redondo. E lá está, o problema dele ser redondo é que quando é preciso pegar numa coisa qualquer, não se consegue.

O bom é António José Seguro, o teu mau escreveu uma carta.

Foi. Cotrim Figueiredo não só escreveu uma carta, é que a carta foi divulgada publicamente. Ele escreveu uma carta ao primeiro-ministro. A carta foi apresentada como sendo um texto de apoio, mas, na verdade, aquilo não é de apoio, aquilo é de ameaça, porque primeiro Cotrim escreve que esteve a analisar com detalhe a agenda transformadora para Portugal, constante do programa do governo de Luís Montenegro, e dos 10 eixos que constam dessa agenda, escolheu ele próprio três: saúde, economia e segurança social. Ou seja, se Cotrim vencer, será o presidente a escolher quais devem ser as prioridades do primeiro-ministro. O presidente é que vai dizer: "Olhe, você tem aqui 10 coisas muito bonitas. São estas três." E ele diz o seguinte: se o governo estiver determinado a implementar reformas profundas e corajosas, nomeadamente nestas três áreas, contará com a minha ajuda enquanto presidente da República. Ora, a pergunta, obviamente, é esta: e se, no entendimento de Cotrim, o governo não estiver determinado a fazer o que ele julga ser mais importante? O que é que acontece? Nessa altura, acontece o quê? Já não conta com a ajuda do presidente? Eu fiquei com esta dúvida. Depois, a carta pede ao primeiro-ministro que escolha ele as suas três áreas de intervenção prioritárias no que diz respeito a reformas estruturais. Ou seja, Cotrim faz a pergunta depois terá dado a resposta. Então primeiro dá a resposta: eu acho que são estas três. E depois diz: "E o senhor, o que é que acha? Concorda com a minha ideia maravilhosa ou tem aí outras ideias suas?" E isto mostra que quem manda é ele e não Montenegro. E por fim, a carta deixa um alerta. Cotrim escreve o seguinte: os portugueses, ou seja, ele, mas enfim, o que está lá escrito é: os portugueses não condescenderão com mais demoras ou adiamentos. Ora, Cotrim apresenta-se como o candidato mais fiável pra o governo, são as palavras dele, mas ainda nem foi eleito e já está a usar o chicote contra o primeiro-ministro. Por isso eu diria que isto promete.

Pois, e esta tentação de ir no banco do lado, não é? Dizer: agora virar à direita, agora virar à esquerda. É sempre complicada.

Há muitos candidatos que querem que venhamos a ter um presidente da República mais interventivo. As sondagens mostram que os portugueses querem isso, que o que é difícil de conjugar é Cotrim ao mesmo tempo dizer que é o candidato mais fiável do governo e depois escrever uma carta destas. Isso é que eu acho que tem que escolher o que é que quer, afinal.

Miguel, só falta o teu vilão, que é Marques Mendes.

Pois é, nos últimos dias o candidato recorreu a uma estratégia de desespero, sem ser capaz de atrair o eleitorado da AD por si. Ele colocou-se às cavalitas de Luís Montenegro e transformou-se no candidato do governo. O seu argumento único de campanha passou a ser este: se não querem que o próximo presidente mande abaixo o governo da AD, votem em mim. Pronto, é isto. E a estratégia até pode fazer sentido, pelo menos numa primeira volta, mas vamos ver. Há limites pra tudo. Sinceramente, quer dizer, há limites. E ontem, confrontado com as mortes por problemas na assistência do INEM, Marques Mendes mais do que exagerou, porque perante as perguntas insistentes dos jornalistas, ele fez tudo Deu todas as cambalhotas, realizou todas as acrobacias para não criticar o governo em nada. Para Marques Mendes, o primeiro-ministro não tem nada a ver com isto, a ministra da Saúde também não tem nada a ver com isto e a culpa é todinha do diretor executivo do SNS. É a direção executiva do SNS que anda desaparecida em combate, diz ele, é ela que tem que dar explicações, é ela que não abre a boca e é ela que não tem humanidade. Foi a expressão usada por Marques Mendes. E as pessoas são forçadas a constatar que para ganhar votos, Marques Mendes abdicou da sua independência e autonomia, e por isso vamos ver se isto resulta.

E quando se compara então com o Seguro, vê-se a diferença da posição de ambos.

Mas repara, Paulo, eu até acho que pode haver diferença.

Claro.

Pode haver, tem de haver, porque eles estão a apelar a eleitorados diferentes. Seguro está a apelar ao eleitorado de esquerda e Marques Mendes está a apelar ao eleitorado de direita, nomeadamente da AD, porque o eleitorado do Chega está com André Ventura e, portanto, é normal que eles tenham estratégias diferentes, discursos diferentes, posições diferentes. Está tudo certo, está tudo muito bem. Nenhum candidato vai ter 100% dos votos. Eles têm que ter os votos dos que pensam como eles. Portanto, não vale a pena pensar que vão ter mais do que isso. Mas isto é demais. Quer dizer, tudo na vida, Paulo Maria João, tudo na vida tem que ser feito com equilíbrio. E esta falta total de equilíbrio mostra que Marques Mendes está de cabeça perdida e o tempo está a contar. Hoje é, se não me engano, sexta-feira, o que quer dizer que falta uma semana de campanha, porque depois temos o dia para todos refletirmos.

É verdade, esse grande dia.

Eu diria que Marques Mendes tem que descobrir onde é que deixou a cabeça para tentar recuperar isto um bocadinho.

Vamos ao resumo. O bom desta sexta-feira é António José Seguro, o mau é João Cotrim de Figueiredo e o vilão de hoje é Luís Marques Mendes. São as escolhas do Miguel Pinheiro, num episódio que daqui a minutos também fica disponível em podcast.