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Está no ar o Bom, o Mau e o Vilão da Rádio Observador, sempre com o Miguel Pinheiro. Bom dia, Miguel.

Bom dia.

Bom dia. Quem é o bom desta quinta-feira, Miguel?

O bom desta quinta são Marcelo Rebelo de Sousa e Carlos Moedas. Ao longo de anos, os discursos dos responsáveis políticos no 5 de Outubro têm sido um conjunto de falsidades, de fantasias e de mitos históricos. Que me lembre, todos têm tratado a Primeira República como um paraíso de democracia e de liberdade. Quando como sabe qualquer pessoa que tenha lido dois livros, ou só um, desde que seja o livro certo, a Primeira República foi um regime de violência e de repressão. E ontem, para minha enorme surpresa, Carlos Moedas primeiro e Marcelo Rebelo de Sousa depois, não fizeram nada disso, não se deixaram levar pelo facilitismo dos lugares comuns. Nós passamos cada 5 de Outubro, de facto, a ouvir aqueles lugares comuns todos, tudo errado, e os políticos costumam embarcar nisso. Eles não fizeram isso. O presidente da Câmara de Lisboa disse esta frase: "A comemoração do 5 de Outubro não pode esquecer os falhanços do regime que se seguiu e que, embora em nome da República, foi inoperante, instável e divisivo e que por isso conduziu os portugueses a uma longa ditadura." Está certíssimo. E o Presidente da República lembrou que na época não havia uma república democrática e lembrou também que as mulheres, os mais jovens e os mais pobres ou iletrados não tinham direito a voto. Tudo coisas que costumam passar nestas datas. Isto não tem nada a ver com política partidária, tem a ver com o respeito básico pela verdade histórica. E também nisto é bom que os responsáveis políticos nos tratem como adultos. E Carlos Moedas e Marcelo Rebelo de Sousa fizeram isso ontem, e ainda bem.

Pois, assim podem estragar é a festa, não é? Esta coisa de tratar as pessoas como adultas.

É, mas sabes que sempre me irritou esta coisa. Iam para ali falar da Primeira República mentindo. Ou mentindo ou, coitados, numa ignorância completa, a replicar aquilo que ouvem na escola, porque infelizmente a forma como tudo isto também é ensinado nas escolas é tudo muito básico.

Pois, um bocado aquela ideia de que só por ser república já é bom, já é positivo e já corre tudo bem. E não é verdade, é instrumental.

E há um velho mito que era usado por outras razões pela oposição democrática durante o salazarismo, que era dizer que tinha havido um momento de democracia e que o Estado Novo tinha acabado com esse momento de democracia. Para criticarmos o Estado Novo, não temos que criar mentiras sobre a Primeira República. De facto, foi um regime horrível. Tudo bem, comemoramos a implantação da República, mas também não é preciso entrar em adulterações da história.

O bom são Marcelo Rebelo de Sousa e Carlos Moedas, e quem é o mau?

O mau é António Costa, que continua a falar com os portugueses como se vivêssemos em Marte. O planeta Terra está a perceber que a guerra na Ucrânia ainda vai durar. O planeta Terra está a tentar perceber como e quando é que a inflação vai parar, e o planeta Terra está a preparar-se para um período indeterminado de crise e de perda de poder de compra. Mas aqui em Marte, também conhecido como Portugal, o nosso primeiro-ministro veio ontem dizer-nos que não vamos ter recessão, que vamos continuar a crescer acima da média europeia e que a inflação vai desacelerar de forma significativa. Não há nada de mau a dizer aos portugueses, só coisas boas. E eu só não entendo dois ou três pontos que me escapam um bocadinho. Porque se de facto é assim, se Portugal está espetacular e se estamos a salvo de todos os males do mundo, então por que as pensões dos reformados não aumentam de acordo com o que está na lei? E por que os funcionários públicos vão perder poder de compra no próximo ano? E por que os produtos estão mais caros? E por que as prestações dos créditos à habitação vão ter saltos gigantescos? Por que isto acontece? Se está tudo bem e para o ano ainda vai estar melhor, então por que andamos nisto? Antes, realmente António Costa era um otimista irritante e agora, pelos vistos, passou a ser um otimista delirante. E isto num primeiro-ministro não é nada tranquilizador.

Pois, sabes que mais? Ardeu aquilo tudo, mas podia ter ardido mais. Só ardeu 70% daquilo que estava previsto.

Pois, o algoritmo dizia-nos que podia ser pior. Portanto, afinal estamos ótimos.

Só fica a faltar o vilão.

Fica, sim, senhora. O vilão é a administração da TAP. Nós nestes dias ficámos a saber que a administração da companhia aérea decidiu renovar a frota automóvel de administradores executivos e de diretores de topo, trocando Peugeots por 50 BMWs plug-in híbridos. Já sabemos que são possíveis todos os populismos e todas as demagogias à volta disto. E eu não quero fazer populismo nem demagogia, mas também não quero que me tratem por parvo. E a defesa desta medida foi feita por parte da administração com argumentos meramente burocráticos. O anterior contrato de renting estava a terminar e era preciso fazer alguma coisa. E esta decisão, segundo a empresa, permitiu poupar 630 mil euros. Só que havia pelo menos uma forma da TAP poupar ainda mais dinheiro. Mais uma vez, não quero ser demagógico, mas se acabássemos com os automóveis entregues a administradores executivos e a diretores de topo, poupávamos mais dinheiro e dávamos um outro exemplo. E não me parece que isto seja demagogia, porque se os pilotos puderam ter cortes nos salários, por exemplo, foi uma das medidas deste novo plano, se era possível cortar nos salários, então seguramente também é possível pedir a administradores executivos e a diretores de topo que deem pelo menos um sinal a quem está a pagar tudo isto e pudessem ter um corte nos carros, deixar de ter carros. Acontece, quer dizer, as empresas às vezes deixam de dar carros e cada pessoa vai tratar de si. Aqui o ponto é que a administração da TAP nunca se pode esquecer que já recebeu centenas de milhões de euros em ajudas dos portugueses e que esse dinheiro não veio de uma entidade abstrata qualquer. Veio de mim, veio de vocês, veio de cada uma das pessoas que está a ouvir isto e especialmente numa altura como esta, de cada vez que os portugueses vão ao supermercado, fazem contas e a partir de agora, claro, pensam nos BMW novos da TAP.

Vamos então ao resumo. O bom desta quinta-feira são Marcelo Rebelo de Sousa e Carlos Moedas, o mau é António Costa e o vilão de hoje é a administração da TAP. Foram estas as escolhas do Miguel Pinheiro.