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Está no ar mais um episódio do "O Bom, o Mau e o Vilão" da Rádio Observador e que também pode ouvir já em podcast. Olá, Miguel Pinheiro, bom dia.
Bom dia, muito bom dia.
Bom dia, Miguel. Quem é o teu bom dia hoje?
É o governo, pelos vistos, vai apoiar a criação de uma comissão técnica independente para analisar o combate aos fogos deste ano. Ontem, na Universidade de Verão do PSD, Hugo Soares recusou apoiar a comissão parlamentar de inquérito que o Chega quer impor, mas aceitou a sugestão do PS. E vamos então ter técnicos a analisar tecnicamente o que correu bem e mal na forma como lidámos com os incêndios este ano, para depois tirarmos conclusões sobre a melhor forma de atuar no futuro. Nós agora só precisamos de duas coisas: precisamos que esta comissão técnica tenha um prazo curto para trabalhar, não podemos esperar pelo próximo verão, e precisamos que, no dia em que as conclusões dos técnicos forem divulgadas, o país político ainda queira saber deste assunto e não tenha passado para outra, porque se passaram para outra e já não querem saber, não serve de muito.
Já estás a pedir um bocadinho o impossível. E já que é para pedir tudo à lua, deixa-me acrescentar mais uma: que depois as recomendações sejam executadas, implementadas.
Tenho a certeza de que assim será, Paulo.
Claro, como aconteceu em 2017.
Mas já viste, vamos ter técnicos a analisar tecnicamente um assunto técnico. Tu já viste isto? O avanço civilizacional que isto representa? Por amor de Deus.
Miguel, o teu mau está contra.
Está contra. A FENPROF está contra. Pronto, é só isto. Podíamos ficar por aqui, porque ontem o Sindicato dos Professores veio, mais uma vez, criticar o governo por causa do aumento dos pagamentos que são feitos aos colégios privados com contratos de associação. É uma velha luta. Nós até já tivemos uma Secretária de Estado da Educação que começou a construir a sua carreira política contra os contratos de associação. Foi a saudosa Alexandra Leitão. E a FENPROF falou deste assunto, mas sempre neste registo. A FENPROF faz de conta que não vê que o governo só paga aos colégios privados, obviamente, em zonas onde não há cobertura de escolas públicas. Faz de conta que não vê que este é o único dinheiro que os colégios recebem para acolherem os alunos, porque não podem cobrar mais nada aos pais. Faz de conta que não vê que o valor pago aos colégios esteve congelado durante 15 anos. Faz de conta que não vê que a própria FENPROF reivindica o aumento do salário dos professores e que esse aumento, obviamente, implica que se gaste mais dinheiro. E faz de conta que não vê que seria muito mais caro o Estado ter uma escola pública em cada esquina, em vez de pagar aos privados através de contratos de associação. A FENPROF só vê aquilo que quer.
Pois, e mais uma vez estás a trazer dados e factos para os assuntos, Miguel. Não sei onde é que isto vai parar, se continuamos assim.
Não, era acabar com isto tudo, era acabar com colégios privados, acabar com tudo. Pronto, só escolas públicas, mais nada. Em cada terrinha uma escola pública. Pronto, está resolvido.
E depois viesse o orçamento pagar isso tudo.
Se desse.
Miguel, só falta o teu vilão que descobriu um culpado.
Descobriu. A Ministra da Saúde deu ontem uma entrevista à SIC e disse-nos que há problemas com a linha SNS 24, disse-nos que existe descoordenação entre o ministério e a linha SNS 24, disse-nos que a comunicação na linha SNS 24 tem falhado muito, disse-nos que é preciso haver mais formação na linha SNS 24, disse-nos que na linha SNS Grávida, que integra o SNS 24, os sistemas informáticos têm de ser qualificados para se saber quais são os blocos de partos que têm disponibilidade para receber pessoas e disse-nos que é preciso intervir rapidamente para fazer melhorias na linha SNS 24. E depois disse-nos mais uma coisa muito importante, para que ela seja o vilão de hoje. Disse-nos que a linha SNS 24 não é do Ministério da Saúde. Isto não tem nada a ver com isto, isto nem é nosso. Isto é de uma operadora privada e agora a ministra vai reunir-se com a Altice para apertar com a empresa. Portanto, se eu bem percebi, o Ministério da Saúde coloca todo o peso da gestão das urgências na linha SNS 24, manda toda a gente telefonar para a linha SNS 24 antes de sequer pensar em ir a um hospital, diz a todas as grávidas que a primeiríssima coisa que têm de fazer é ligar para a linha SNS 24 e depois, quando a linha começa a ter problemas por causa do excesso de procura, a ministra vem dizer: "Não tem nada a ver com isso, porque aquilo é de um operador privado e esse operador privado é que tem de conseguir dar resposta, tem de fazer formações e tem de resolver as coisas que não correm bem." Pelos vistos, à ministra nunca lhe passou pela cabeça que ao incentivar a procura massiva da linha SNS 24 ia criar um problema. Não lhe ocorreu. "Eu agora vou pôr toda a gente a ligar para este número. O que é que poderá correr mal do outro lado? Nada, vai tudo correr bem." E de facto, na saúde há sempre algum privado para levar com as culpas. Encontra-se sempre um privado nalgum sítio que é o culpado pelos problemas no SNS.
E o sistema é público, não é? Imagina se fosse privado.
Ó Paulo, então aí era chamar Satanás.
Vamos ao resumo: o bom desta terça-feira é o governo, o mau é a FENPROF, o vilão é a Ministra da Saúde, Ana Paula Martins. Foram as escolhas do Miguel Pinheiro nas manhãs 360 e sempre em podcast.