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Começa agora uma nova edição do Bom, Mau e o Vilão da Rádio Observador. Fala Miguel Pinheiro. Bom dia.
Bom dia.
Bom dia, Miguel. O teu bom fez uma coisa rara.
Sim, o ex-ministro da Educação, João Costa, fez uma coisa rara. Ontem saíram os resultados do PISA, um estudo internacional sobre o estado da educação dos alunos em vários países, é um estudo realizado pela OCDE, e os resultados para Portugal foram desastrosos. Em matemática, em leitura e em ciências, nós recuamos 20 anos para os valores que tínhamos em 2006. É assim, não é, Paulo? Não estou a enganar. 2006, 20 anos.
Sim, 20 aninhos. Bem medidos.
É que hoje em dia, com estes resultados, nunca se sabe. Perante isto, João Costa, que foi ministro até 2024, disse o seguinte: "Estive oito anos e meio no governo e seria absolutamente irresponsável da minha parte não assumir responsabilidades." E depois continuou. Disse que estando há dois anos no governo e sendo os resultados de médio e longo prazo, não é este governo que se deve sentir responsável. É verdade que a seguir João Costa argumentou que os péssimos resultados de Portugal, no fundo, estão em linha com o resto do mundo e ao fazer isso coletivizou o nosso fracasso. O ponto dele é: está a ser assim no mundo inteiro, e por isso não fomos nós que fizemos nada de especialmente errado, é mesmo assim. E também é verdade que ele não soube identificar uma medida do seu governo que tivesse contribuído para isto. Lá está, e tinha mesmo de ser assim, se o problema é do mundo, não há nada de especial que tivesse sido mal feito ou alguma coisa contrária que pudesse ter levado a outros resultados. É um pouco a ideia que fica ao ouvi-lo. Mas enfim, apesar disso, não é comum haver um político que assume as responsabilidades em vez de culpar o vizinho do lado e poderia ter tido a tentação de dizer: "Estão a ver? Estes malvados entraram no governo há dois anos e já se começam a ver os resultados." Não fez isso. Agora só é preciso trabalhar na outra parte, que é perceber o que é que de fato nós fizemos mal, porque isto não é uma inevitabilidade. Não me parece que seja propriamente uma coisa em que faça-se o que se fizer, o resultado vai sempre ser péssimo.
Mas foi uma atitude que é raríssima e nem me lembro de uma assim tão evidente.
Sem dúvida.
Em muitos anos.
Então quem é o teu mau, Miguel?
É Luís Montenegro, que ontem foi obrigado a dizer em público, em voz alta, perante todo o Parlamento e perante milhões de portugueses, a seguinte frase: "O ministro da Administração Interna é um excelente ministro e Portugal precisa dele." Atenção, Portugal precisa dele. E qualquer pessoa que tenha visto a prestação de Luís Neves ontem numa comissão do Parlamento, só pode ter sorrido com melancolia, com uma melancolia triste ao ouvir isto, porque o ministro nuns casos fez de conta que não percebia algumas perguntas, noutros casos recusou-se a responder e noutros casos ainda deu respostas que entram em contradição com as suas próprias ideias. Não foi um espetáculo bonito. E Luís Montenegro tinha tanta dificuldade em dizer a frase: "O ministro da Administração Interna é um excelente ministro e Portugal precisa dele", que até teve de arranjar à pressa um suplemento para os pensionistas e uma ligeiríssima redução do IRS. Apesar de tudo, foi a única coisa boa a sair disto, mas não se esqueçam, e Luís Montenegro que não se esqueça, o ministro Luís Neves continua lá. Ele não desapareceu só porque houve uma ligeiríssima baixa do IRS.
E o assunto não morre aqui, até porque há inquéritos a decorrer.
Pois, vamos ver agora o que é que se segue.
Miguel, e afinal, o que quer o teu vilão?
O que quer, afinal, o PS é uma grande pergunta. Ontem o Partido Socialista parecia uma galinha sem cabeça, a andar de um lado para o outro, sem saber o destino. O líder parlamentar do PS, Eurico Brilhante Dias, disse num discurso que André Ventura não pode ser levado a sério e que a moção de censura era uma fuga aos problemas do país. Mariana Vieira da Silva afirmou que todo este episódio mostra a extrema-direita agarrada à polêmica do dia. Portanto, Luís Neves é só a polêmica do dia. José Luís Carneiro disse que o Chega veio ajudar o governo a distrair as atenções da opinião pública com a moção de censura. Mas então depois de dizer tudo isso sobre o Chega e sobre a moção, o que o PS fez? Absteve-se. Em 2025 nós tivemos duas moções de censura seguidas, o PS votou contra a do Chega e absteve-se na do PCP, porque Deus nos livre de não votar contra qualquer coisa que o Chega faça. Agora deixou cair essa cerca sanitária a André Ventura e já optou pela abstenção, mas a sensação que dá é que o PS queria e não queria a moção de censura. Eu cheguei ao final daquele dia longo sem perceber se, afinal, o PS quer que Luís Neves fique ou saia do governo. Enfim, acho que o Partido Socialista não sabe o que quer, não sabe para onde vai e assim é difícil.
Estamos perante um daqueles casos do governante de governo de centro-direita de que a esquerda gosta, não é?
É possível. E se calhar vice-versa.
Pode ser atribuído, de facto, carinho.
Eu suspeito que tudo isto deixa os eleitores muito baralhados.