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Começa agora uma nova edição do Bom, Mau e o Vilão, sempre com Miguel Pinheiro. Olá, Miguel, bom dia.
Bom dia.
Bom dia. O teu bom é o vencedor do debate de ontem.
Pois, nós tivemos um frente a frente importante entre Marques Mendes e António José Seguro, e não me parece que tenha havido grandes dúvidas de que Marques Mendes ganhou. E ganhou porque finalmente tem uma estratégia clara de campanha. Ele abandonou aquele posicionamento inicial do construtor de pontes. "Eu queria vir construir pontes, queria vir aqui ajudar toda a gente a ser feliz, queria ajudar a que aparecessem flores na estrada, termos os passarinhos a cantar." Isso não mobiliza os votos de ninguém, portanto acabou-se o construtor de pontes e Marques Mendes passou a assumir-se como o candidato da ação, que quer forçar o governo a mexer-se. Sendo que, só um pequeno detalhe de contexto pra quem nos está a ouvir, a última sondagem do Expresso mostrava que é precisamente isso que os portugueses querem neste momento. Não querem simpatias em Belém, querem quem force o governo a fazer coisas, quem force o sistema político a fazer coisas. E portanto, Marques Mendes transformou-se nesse candidato e ainda por cima teve a tarefa facilitada porque estava à frente de António José Seguro, que não é propriamente visto como o político mais dinâmico do planeta. Não é. E portanto ajudou, Marques Mendes disse, repetiu e insistiu uma e outra vez, a cada novo tema, ele ia dizendo: "Eu sou mais interventivo, eu sou mais proativo, eu quero ser mais interventivo, eu quero ser mais proativo." E a dada altura até lembrou uma frase célebre de António José Seguro, em que quando era líder do PS, pressionado pelos críticos a convocar um congresso do partido, Seguro na altura respondeu: "Qual é a pressa?" E ontem Marques Mendes atirou-lhe com um: "Há pressa." Na minha infância, na nossa infância, a minha é mais longínqua.
Pois, como sabemos.
Mas na minha infância havia um anúncio às pilhas Duracell, assim com uns bonecos de um escuro a tocar em uns tambores. E havia uma voz a dizer: "Com as pilhas Duracell, os seus aparelhos funcionam por mais tempo, porque as pilhas comuns acabam rapidamente, mas Duracell pode durar cinco vezes mais." E havia até aquele slogan do: "E dura, dura, dura." E ontem parecia que Marques Mendes tinha engolido três embalagens de pilhas Duracell. Ele, de facto, estava muito ativo a querer fazer muitas coisas e os estudos de opinião mostram que os eleitores querem isso. Portanto, em princípio, pode ser que lhe corra bem.
Pelo menos sentou mesmo que fosse essa a grande diferença que o separa de António José Seguro.
Sim, e eu acho interessante ter havido uma mudança de estratégia da parte de Marques Mendes. É sinal de que está com os ouvidos abertos.
E as sondagens servem pra alguma coisa.
Enfim, os ouvidos não se fecham.
Tapados.
Peço desculpa, está com os olhos abertos e os ouvidos não estão tapados. Qualquer coisa assim.
Miguel, o teu mau é o candidato que perdeu o debate.
Pois, foi António José Seguro. Houve duas coisas que lhe correram muito mal. Houve uma que lhe correu bem quando ele disse a Marques Mendes: "Bem, então quer fazer tanta coisa, está no Conselho de Estado há 15 anos, esteve à espera do quê?" Essa parte saiu-lhe bem, mas depois Marques Mendes não deu seguimento e aquilo acabou por se perder. Mas houve duas que lhe correram mal. Uma foi quando invocou a velha teoria de Mário Soares de que os portugueses não querem ter os ovos todos no mesmo cesto. A tese é: se o governo já é do PSD, se as principais câmaras já são do PSD, se os governos regionais já são do PSD, então o próximo presidente não deve ser do PSD. O problema é que esta teoria é antiga e tem história na política portuguesa, mas o problema foi que Marques Mendes respondeu-lhe com um argumento que já tinha usado noutro debate, que foi o de que Portugal já teve um momento em que o governo e o presidente eram ambos do PS, na altura de Guterres e de Sampaio, e que portanto, ninguém se queixou quando isso aconteceu. Mas ontem acrescentou um detalhe que não tinha dito no outro debate: é que quando os ovos estiveram todos no mesmo cesto, um dos ovos era António José Seguro, que pertencia ao governo de Guterres, e que na altura não estaria incomodado com isso. Enfim, António José Seguro respondeu com a resposta que se dá sempre. Sempre que um político não tem resposta, diz sempre a mesma coisa, usa sempre a mesma palavra: Chega. Pronto, o problema é que agora há o Chega. O Chega explica tudo. Outro problema pra Seguro aconteceu quando Marques Mendes afirmou que uma das suas prioridades seria aumentar o combate à pobreza e apresentou ali uma série de medidas. Enfim, depois podemos discutir se aquilo vale alguma coisa ou não, mas apresentou ali uma série de medidas e Seguro foi a correr dizer que ele também queria fazer isso. Aliás, ele até aí a primeira conversa com o primeiro-ministro ia ser sobre esse assunto. E a resposta de Marques Mendes foi fatal, porque disse-lhe: "Bem, se António José Seguro subscreve a minha ideia, então estamos de acordo." E até a mim, que não tenho nada a ver com o assunto, doeu. Eu estava a ver aquilo sentado no meu sofá, descansadinho, e senti assim até uma pontada com aquela resposta.
Sim, foi mauzinha aí, foi aquela alfinetadazinha que dá.
Foi.
A experiência nos debates também faz isso, não é?
Sim, foi eficaz.
Miguel, o teu vilão é lento.
É lento, porque na nossa reforma do Estado passamos do pró-ativo Marques Mendes para as lentidões da nossa reforma do Estado. Ontem o Público contou uma história que é ao mesmo tempo exemplar e deprimente. O que aconteceu foi que o governo decidiu nomear três consultores para o grupo de trabalho da reforma do Estado. Portanto, agora é que vamos pôr isto a andar, vamos nomear três consultores para o grupo de trabalho. Para nomear três consultores foi preciso a assinatura de três ministros, um não bastava, eram precisos três, porque isto é uma medida de proporções homéricas. Estamos a nomear três consultores, ou há aqui três assinaturas para garantir que não temos marosca, ou então a pátria fica num pântano de corrupção. Então é preciso três ministros para nomear os três consultores. Não sei se é um ministro por consultor, não faço ideia. Enfim, adivinhem. O ministro adjunto e da Reforma do Estado, Gonçalo Matias, assinou o documento diligentemente a 15 de outubro. Primeira assinatura. Feito. Depois, segunda assinatura, o ministro da Presidência do Conselho de Ministros, António Leitão Amaro, assinou o documento a 22 de outubro. Portanto, 15 de outubro, 22 de outubro. E depois o ministro do Estado e das Finanças, Miranda Sarmento, assinou o documento a 21 de novembro. Portanto, 15 de outubro, 22 de outubro, 21 de novembro. Enfim, vamos olhar para isto por partes, porque eu acho que vale a pena. Acho que já todos percebemos que aqui há coisas para dizer. Então vamos a isto. Entre a assinatura do ministro Gonçalo Matias e do ministro Leitão Amaro, como vimos, passaram-se sete dias. Sendo que, atenção, há um detalhe: eles trabalham um ao lado um do outro. Não sei se sabiam. No mesmo edifício.
Foi para isso que mudaram muitos ministérios para ali.
Sim, ó Paulo, é o mesmo edifício, é o mesmo piso. Estão um ao lado do outro. Chocam um com o outro no corredor. Sete dias. Depois, entre a assinatura do ministro Leitão Amaro e a assinatura do ministro Miranda Sarmento, passaram-se 30 dias, sendo que a distância entre os gabinetes destes dois ministros, eles não trabalham lado a lado, portanto, não é fácil esta operação.
É complicado.
A distância, eu fui confirmar, é de 5,4 quilômetros. Ora, 5400 metros em 30 dias dá 180 metros por dia e dá 7,5 metros por hora. O que quer dizer que os documentos deslocaram-se à vertiginosa velocidade de 7,5 metros por hora para chegarem de um ministro ao outro. De facto, não é fácil ser papel.
Claro.
Estou a imaginar que aquilo foi em papel. Se tiverem usado esta coisa nova que se chama internet, se calhar é mais fácil chegar lá. Mas enfim, depois de saber disto, depois de ler a notícia, a notícia pedia esclarecimentos, não tinha havido esclarecimentos, não sei se entretanto os jornalistas vão querer explicar o que é que aconteceu.
É melhor que não expliquem.
Depois de meditar sobre tudo isto, eu posso dizer-vos com 100% de garantias que estou muitíssimo otimista com esta reforma do Estado. Eu acho que o candidato Luís Marques Mendes podia oferecer umas pilhas Duracell, se é que lhe sobraram algumas. Oferecer algumas no próximo Conselho de Ministros, podia ir lá distribuir.
Estamos tramados, é o que eu te digo.
Ó Paulo, eu usaria outras palavras, mas tu és um gentleman.
Estamos na Manhã da Rádio. Há crianças muito novas.
Elas sabem. As crianças sabem qual era a palavra que eu ia usar. Eu sei que sabem.
Vamos ao resumo. O bom desta quinta-feira é Marques Mendes, o mau António José Guterres, o vilão é a reforma do Estado. Foram as escolhas do Miguel Pinheiro. Nas manhãs, 360 e sempre em podcast.
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