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Este é o Bom, o Mau e o Vilão da Rádio Observador, que também pode ouvir em podcast. Fala Miguel Pinheiro, bom dia.
Bom dia.
Bom dia, Miguel. Quem é o teu bom de hoje?
O bom é a ministra do Trabalho, porque ontem houve mais uma reunião da concertação social por causa do pacote laboral. Aparentemente, chegou-se ao fim das negociações sem acordo. Isso, naturalmente, não é incrível. A ministra gostaria que houvesse um acordo nos termos do governo, mas o que correu bem foi que o anúncio desse falhanço foi feito pelos patrões e a responsabilização da UGT também, sem que a ministra precisasse de sujar as mãos. Primeiro foi Francisco Calheiros, presidente da Confederação do Turismo de Portugal, a dar a notícia de que não havia acordo, e ele a seguir acrescentaria: "Discutimos tudo até à exaustão. Se alguém não quis assinar, foi por razões políticas." Depois, João Vieira Lopes, da Confederação do Comércio e Serviços de Portugal, apontou o dedo, disse: "A UGT considerou que aquilo que se tem conseguido de avanços destas negociações não é suficiente pra um acordo." Portanto, UGT. E no fim, Armindo Monteiro, da Confederação Empresarial de Portugal, espetou a faca ao dizer que é da responsabilidade da UGT não haver acordo. Depois ele disse mais: "Não é habitual ver a UGT ter a atitude que teve." E disse pior: "A UGT aderiu a uma greve geral e não sabe como sair disto, por isso foi arrastando as negociações." O governo ainda disse que não desistiu de negociar, mas tudo indica que agora vai começar uma luta política pra culpar o vizinho do lado, e nessa luta, a UGT ontem começou mal.
Pois, todo esse processo começou mal. A UGT, nalguns momentos, até parecia mais radical do que a CGTP, o que não é habitual. Com o segundo dia de greve geral, por exemplo.
Sim, mas se tu olhares pro número de sindicalizados na UGT e na CGTP, percebes que a UGT tem problemas.
Claro.
E além disso, o respaldo político que poderia haver nos tempos de António Costa, agora funciona ao contrário. O Partido Socialista o que quer é que a UGT dificulte a vida ao governo.
Sem dúvida.
O teu mau de hoje quer que toda gente pense o mesmo.
Parece que sim. Eu até me lembrei daquela frase de Cavaco Silva, que dizia quando era presidente, qualquer coisa do estilo: "Duas pessoas sérias com a mesma informação chegarão à mesma conclusão." Mas António José Seguro, que ainda ontem começou e já está no mau, eu peço imensa desculpa por isto.
Que simpatia, Miguel.
Nem penso o gato.
Boas vindas.
É o que há. O discurso de tomada de posse do novo presidente da República teve dois problemas. Primeiro, Seguro começou o discurso a falar sobre o regresso da guerra à Europa, sobre o desmoronar dos pilares da nossa organização internacional, sobre a substituição da força da lei pelo poder dos mais fortes. Portanto, tudo, como diríamos no gabinete de guerra, violinos. Não é, Maria João? É isso. Mas este é o mesmo presidente que durante a campanha anunciou ser contra o aumento das despesas em defesa pra 5% do PIB. E afinal, António José Seguro acha que devemos gastar mais, e bem mais dinheiro em defesa, porque a guerra voltou, desmoronou-se os pilares e agora é o poder dos mais fortes, e então é preciso pôr dinheiro nisto. Ou António José Seguro acha que as armas aparecem à nossa porta por milagre? Convinha que nos ajudasse a perceber. O segundo problema do discurso está relacionado com os pactos. António José Seguro disse que quer promover compromissos entre os partidos na saúde, no acesso à habitação, no rejuvenescimento da nossa população, na criação de melhores oportunidades pra os jovens, numa justiça mais célere, num Estado eficiente e num crescimento económico assente num modelo com melhores salários. E eu ouvi isto e pensei: "Não quer mais nada? Um cafezinho, uma água com gás?" Porque parece que António José Seguro não entende que os partidos têm visões muito diferentes sobre como resolver cada um destes problemas e que essas visões, na maioria das áreas, não são compatíveis. Portanto, Cavaco Silva, pelo menos numa coisa, estava errado. Não, duas pessoas de boa fé não chegam às mesmas conclusões perante os mesmos dados. E eu só me pergunto: naturalmente, estes pactos do novo presidente não vão valer nada e quando as coisas correrem mal, o que é que vai acontecer? O presidente vai culpar os partidos? É esse o plano? No final das contas, quando não for possível chegar a acordo sobre tudo isto, a culpa vai ser de quem? Dos partidos. Questão de má fé, que não querem falar, que não sabem dialogar. Temo o pior.
No limite, é sempre dos partidos, não é? Com a assentativa de pactos.
No limite, não houve roubo. Como dizia um ministro sobre o desaparecimento de armamento da Base de Tancos.
Eu, por acaso, acho que foi um bom discurso, mas pronto.
Acha?
Acho.
Pronto, olha.
Duas pessoas com a mesma informação não têm a mesma percepção.
Desculpem-me a intervenção, mas parecem que é isso que está a acontecer.
O que aqui eu não posso é concordar. Acho que a história do pacto de saúde, de facto Pode ser quase um nado morto, mas genericamente achei um bom discurso.
Pronto. Paulo, fico muito contente por ti.
Obrigado.
O mau do Miguel é o António José Seguro. O teu vilão precisou de fazer umas comprinhas.
É, sabes como é, as pessoas é preciso fazer as compras da semana e depois esquecemo-nos sempre de qualquer coisa, não é? Comigo é assim, eu esqueço-me sempre de qualquer coisa. E sou sempre eu quem se esquece. Marcelo Rebelo de Sousa resolveu acabar o seu mandato com os traquinices de sempre. Eu gosto de sempre lembrar que já antes do Estado Novo, antes da Revolução, no tempo do Estado Novo, houve um artigo de jornal sobre Marcelo Rebelo de Sousa, que lhe dava o nome de o baby group político. E nos últimos minutos como presidente da República, Marcelo desceu a rua de São Bento a pé e a dada altura decidiu entrar, claro, com as câmaras e os microfones, decidiu entrar num supermercado para comprar um pacote de batatas fritas. E foi o seu penúltimo ato oficial como titular do mais alto cargo do Estado. O último foi trocar de cadeiras com António José Seguro, mas este foi o penúltimo. E já se sabe que Marcelo Rebelo de Sousa gosta de surpreender, gosta de mostrar que está próximo do povo, gosta de tirar o protagonismo dos outros, isso é muito importante, tirar sempre o protagonismo dos outros. E para usar as palavras dele, gosta de fazer loucuras. E mesmo sabendo tudo isso, e mesmo dando um enorme desconto a tudo o que Marcelo faz, parece-me que qualquer pessoa sensata, olha, cá voltamos, qualquer pessoa sensata admitirá que parar para comprar umas batatas fritas num supermercado a caminho da posse do sucessor é um pouco de mais. E, portanto, este é o resumo do dia. Sai o presidente da batata frita e entra o presidente dos pactos vazios. Isto vão ser uns anos incríveis, é o que eu tenho para vos dizer.
E pronto.
O presidente da batata frita.
E dos pactos vazios, do pacote vazio.
Sim, para este não, porque aquilo ainda passou um tempo e aquilo dá uma fumeca, parece que não.
Vamos ao resumo. O bom desta terça-feira é a ministra do Trabalho, o mau é António José Seguro e o vilão de hoje é Marcelo Rebelo de Sousa. São as escolhas do Miguel Pinheiro nas manhãs 360 e sempre em podcast.