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Está no ar o "O Bom, o Mau e o Vilão" com Miguel Pinheiro. Escolhas que vamos conhecer já de seguida. Muito bom dia, Miguel. Bem-vindo.

Bom dia.

Então o bom de hoje é o Ministério Público?

Sim, porque ontem a Procuradoria-Geral da República emitiu um comunicado sobre o inquérito ao atrelado apreendido num caso de droga e que estava com o empreiteiro amigo de Luís Neves e nesse comunicado deu uma informação muito importante. Esta investigação fica a cargo do próprio Ministério Público e apenas do Ministério Público e, ao contrário do que é habitual, não é delegada em nenhum órgão de polícia criminal. A investigação não é delegada na Polícia Judiciária, porque obviamente a PJ também está em causa aqui, e a investigação não é delegada, por exemplo, na Polícia de Segurança Pública, porque a PSP está na dependência direta do ministro da Administração Interna. E esta é a forma de a Procuradoria nos tranquilizar, dizendo que não quer qualquer suspeita sobre este inquérito, mas isto serve também indiretamente para mostrar a gravidade de tudo isto, porque as suspeitas que estão agora a ser investigadas colocam numa posição difícil o governo e também todos os órgãos de polícia criminal. E só Luís Neves é que não percebe isso e continua em silêncio, como se estivesse tudo bem, a reunir papéis que não nos diz quais são para eventualmente um dia, quem sabe, talvez falar publicamente sobre isto.

Eu aposto que quando Luís Montenegro pensou em convidar Luís Neves e começou a traçar cenários de coisas que poderiam correr mal, o pior cenário possível era este. Se é que ele o contemplou.

Eu diria que deve ter pensado: "Olha, pelo menos de uma coisa destas estou livre. O homem vem da PJ, tenho a certeza de que pelo menos este problema não vou ter."

Não vai haver um casinho. Mas houve.

Vamos ao mau de hoje, Miguel, escolheste o ministro das Infraestruturas.

Sim, porque tem a ver com isto. Ontem Miguel Pinto Luz falou sobre o novo aeroporto e no final deixou um agradecimento a vários membros do governo, entre eles o ministro da Administração Interna. Segundo Pinto Luz, as filas no aeroporto de Lisboa chegaram a ser um embaraço nacional, e chegaram, lembramo-nos todos disso, e disse-nos que as coisas só se solucionaram graças à liderança e à capacidade de resolver de Luís Neves. O ministro das Infraestruturas, atenção, sublinhou que o reconhecimento não resultava das circunstâncias políticas do momento, ou seja, tentou afastar tudo isto de que se está a falar. Mas a verdade é que ele disse a frase: "Ao meu colega de governo Luís Neves, o nosso sincero obrigado. E digo o nosso em nome dos portugueses." Portanto, Miguel Pinto Luz, em nome de todos nós, a agradecer a Luís Neves. E pelos vistos, além de Luís Neves, Miguel Pinto Luz também não percebeu totalmente a gravidade do que está em causa. Até se ver como isto acaba, eu diria que a discrição seria preferível ao espalhafato. Era melhor ter arranjado outra forma de fazer o discurso de ontem, diria eu.

É bonito ver solidariedade ministerial ou interministerial. É uma coisa bonita de ter de conferir.

É isso. Eu percebo que o ponto seja não vou agora deixar cair esta pessoa quando nada disto está esclarecido. Eu percebo isso tudo, mas tem de haver prudência.

Ainda por cima, na apresentação do projeto do aeroporto, foi um bocadinho esticado. Arranjar maneira de encontrar um elogio para o ministro.

Mas eu acho que Miguel Pinto Luz tem sempre isto de envolver os outros ministros. Nunca nos esqueçamos que Miguel Pinto Luz não é propriamente um ministro como os outros. Foi candidato a líder do PSD mais do que uma vez, se calhar admite no futuro vir a fazer isso. Portanto, ele gosta de congregar. Ele não está a correr só por ele, só por este cargo. Acho que também está a correr pensando no futuro e gosta de congregar, juntar pessoas.

Temos agradecimentos que congregou os portugueses.

Congregou, juntou todos os portugueses.

Ora nem mais.

Vamos ao vilão, dizes, Miguel, que é quase toda a esquerda.

Sim, porque o Bloco decidiu apresentar na Câmara de Lisboa uma proposta para a criação de mercearias públicas. Portanto, mercearias que segundo o Bloco, iriam assegurar, e vou citar, "a venda de produtos alimentares essenciais com qualidade e a preços acessíveis." Se dependesse do Bloco, nós teríamos agora o Estado, a Câmara e depois eventualmente o governo a ser dono e gestor de supermercados. Era só o que nos faltava. Os bloquistas invocam a promessa eleitoral que foi feita pelo novo mayor de Nova York, Zora Mandani. Claro, a esquerda caviar gosta sempre de imaginar que está em Manhattan, mas eu acho que em vez de ter invocado a ideia de Mandani, que para já é só uma ideia, o Bloco podia ter falado do exemplo muito concreto da Bulgária. Na Bulgária não é só uma ideia. A Bulgária foi o único país europeu onde recentemente foi de fato posta em prática esta coisa dos supermercados públicos com as chamadas Lojas do Povo, que é também um grande nome. Eu se fosse ao Bloco ia registrar este nome para o usar no futuro, quando voltar a ter uma geringonça. E então o que é que aconteceu na Bulgária? Ao fim de uns meses, o governo mandou fechar o supermercado, porque havia perdas enormes de dinheiro, havia queixas de prateleiras vazias e então achou-se que tinha sido muito bonito. A festa foi muito bonita, mas vamos lá fechar isto. De qualquer forma, esta experiência não impede o Bloco de tentar seguir em frente com isto. E não é só o Bloco, por isso é que eu falei de esquerda, porque o Livre e o PS também votaram a favor desta pequena desgraça. Apesar de tudo, nem toda a esquerda se deixou levar. O PCP absteve-se. O PCP pôs um bocadinho de veneno no chá, porque a argumentação foi a de que a proposta, vou citar: "Peca pelo seu rudimentar desenvolvimento conceptual." Como quem diz: "Estes coitadinhos apareceram aqui com a primeira ideia que lhes surgiu na cabeça, puseram num papel e mandaram isto para votação. É um bocadinho rudimentar.", diz o PCP. De qualquer maneira, os lisboetas podem estar tranquilos, calma, a proposta foi chumbada e vamos continuar a ter comida nas prateleiras.

Eu quando tu falaste de Bulgária, Miguel, pensei que fosses falar do período antes de 1989.

Não.

Prateleiras vazias.

Não, isso é importante. Não estou a falar, obviamente, de supermercados nos regimes comunistas. Foi agora, há pouco tempo, que na Bulgária, como precursores de Mamdani, se achou que era incrível termos as Lojas do Povo. E isto acabou como acaba sempre. Repara, não há grande suspense aqui. Estas coisas acabam sempre da mesma maneira. O Bloco é que nunca viu o filme até ao fim. Deve adormecer antes do filme acabar, porque o filme acaba sempre da mesma maneira.

O bom de hoje: o Ministério Público, o mau: o ministro das Infraestruturas, o vilão: quase toda a esquerda. As escolhas do Miguel Pinheiro, que regressa amanhã depois das 20h20, mais coisa menos coisa. Até amanhã, Miguel.

Até amanhã.