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Passa agora uma nova edição do Bom, o Mau e o Vilão. Olá, Miguel. Bom dia.
Bom dia.
Miguel, o teu bom desta segunda-feira é André Ventura.
Sim, porque nestas eleições presidenciais só há uma certeza que é partilhada por toda a gente. Ninguém sabe quem vai ganhar a primeira volta, quem passa à segunda, exatamente que votos vão ter, ninguém sabe. Mas há uma coisa que toda a gente tem a certeza: é que qualquer candidato que chegue à segunda volta com André Ventura será presidente da República, porque o líder do Chega tem um índice de rejeição tão grande que é impossível ele ter 50% dos votos mais um. E já se tornou um lugar-comum repetir a ideia, mas pelos vistos, André Ventura não está disposto a aceitar isso como uma inevitabilidade e por isso ainda estamos na primeira volta e ele já arranjou uma estratégia pra segunda. Ontem e durante o fim de semana, muito bem comportado, sem berros nem gritos de vergonha, André Ventura explicou que se passar à segunda volta com António José Seguro, por exemplo, vai tentar transformar-se no candidato de toda a direita. Ele disse isto: "Vai ter de ser a consciência de Luís Montenegro a decidir se numa segunda volta prefere ter alguém que não é do partido dele, mas com quem conseguiu trabalhar em muitos diplomas fundamentais, ou se quer um socialista que nós combatemos e tentamos derrotar." As pessoas gostam de comparar Ventura com Jean-Marie Le Pen, o pai de Marine Le Pen, que chegou à segunda volta das presidenciais em França em 2002 e perdeu contra o conservador Jacques Chirac. Mas há duas diferenças: a primeira é que Ventura não é Jean-Marie Le Pen. Ventura não andou a desvalorizar o Holocausto como fez Le Pen. E a segunda diferença é que Le Pen concorreu contra um candidato da direita, enquanto Ventura pode concorrer contra um candidato da esquerda. E por isso eu não teria tanta certeza de que numa segunda volta Ventura perde sempre.
E taticamente não é mal colocado o problema. Atirando a bola para o campo do PSD.
Eu imagino que ele vá fazer a mesma pergunta a todo o eleitorado de direita. Vai perguntar: "Então, afinal, querem uma pessoa do PS? É isso que querem? E Luís Montenegro anda a aprovar com o Chega a lei dos estrangeiros, a lei da nacionalidade, uma série de leis, e depois, afinal, quer que seja o PS a estar no Palácio de Belém?" Enfim, eu acho que estas eleições ainda nos podem trazer muito mais surpresas.
Vamos ver no domingo. Miguel, então o bom é André Ventura, e quem é o teu mau?
Olha, é Gouveia e Melo, porque ontem o almirante teve um comício lotado em Ponte de Lima. Isso correu bem, claro. O problema foi o tom. A campanha pôs a discursar Isaltino Morais, que classificou João Cotrim Figueiredo como "queque da terceira categoria", André Ventura como um "protoditadorzeco" e Marques Mendes como um "muralista de Goela". E a seguir, o próprio Gouveia e Melo subiu ao palco para dizer: "Eu não sou um tio de Cascais". E tudo isto me parece um enorme erro. Alguém que apareceu nesta campanha contra a velha política, contra as politiquices, uma pessoa dessas não pode permitir que os adversários sejam tratados e desqualificados desta maneira. A ideia que fica é a que o almirante só consegue combater os adversários atacando-os pessoalmente, chamando-lhes nomes. Não combate as ideias, não combate as propostas, não combate as convicções, combate as pessoas. E vamos ver, se os eleitores achassem mesmo que Cotrim, Ventura e Marques Mendes são pessoas horríveis, então não haveria razão para termos tantos indecisos. Se eles realmente achassem isto, então o almirante até ganhava à primeira volta. Não acham. E, portanto, não vale a pena desqualificar com esta violência os adversários. Não me parece que seja uma boa estratégia.
E ainda falta até o fim desta semana de campanha.
Sim.
Com este ranhido, a tentação de entrar por aqui é muito grande, não é?
Sim, isto só vai apertar mais daqui até sexta-feira.
Miguel, o teu vilão quer derrotar Donald Trump.
Pois, parece que sim. É o grande objetivo de vida da Alexandra Leitão. A líder dos socialistas na Câmara de Lisboa anunciou que o PS vai entregar hoje na autarquia um voto de repúdio pela morte da norte-americana Renée Nicole Good, em Minneapolis, num confronto com a Polícia de Imigração dos Estados Unidos. Toda a gente já viu estas imagens dela a acelerar o carro e um agente da imigração a disparar. Segundo Alexandra Leitão, o que está a acontecer na América é demasiado grave pra cada um, no seu pequeno palco, não se pronunciar. Ela diz que há uma escalada de repressão e defende até que dificilmente hoje os Estados Unidos podem ser considerados uma democracia. E então o plano de Alexandra Leitão é aprovar este voto de repúdio e depois entregá-lo à Embaixada Americana, às Nações Unidas e a organizações internacionais de defesa dos direitos humanos. Enfim, cada pessoa pode ter a sua opinião sobre o que aconteceu em Minneapolis, como é evidente. Assim como qualquer pessoa pode ter a sua opinião sobre mortes de pessoas em Portugal envolvendo a polícia portuguesa. As pessoas podem ter a opinião que entenderem, o ponto não é esse. O ponto é o seguinte: o que a Câmara Municipal de Lisboa tem a ver com isto? Não tem nada a ver com isto. E faz-me lembrar Mariana Mortágua. Mariana Mortágua achava que o grande objetivo do Bloco de Esquerda era derrotar Israel, e Alexandra Leitão, pelos vistos, acha que o grande objetivo do PS é derrotar Trump. Aliás, nem é do PS, é do PS da Câmara de Lisboa. O que o PS na Câmara de Lisboa tem de fazer, pelos vistos, segundo Alexandra Leitão, é derrotar Trump. Parece-me que isto é capaz de não acabar bem eleitoralmente. Pensem os eleitores o que pensarem sobre o que se passa nos Estados Unidos, se calhar, entendem que a Câmara de Lisboa e os partidos que estão na Câmara de Lisboa não estão lá propriamente pra fazer política externa, mas enfim.
Pois, e eles ainda não pediram a intervenção do grupo Terra Nostra, porque quando chegarmos a esse ponto, vai ver.
Paulo, sim. Isso quando o Jorge Pinto chegar à Câmara de Lisboa e se aliar à Alexandra Leitão, então...
Vamos ao resumo: o bom é André Ventura, o mau é Henrique Gouveia e Melo e o vilão desta segunda-feira é Alexandra Leitão.