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Eu acho que uma das coisas que me marcou mais foi, depois de sentir alguma alegria e sensação de missão cumprida, depois de se conseguir que o filho tinha, de facto, tido esta ajuda, ver o quão pouco tempo ela se calhar iria conseguir usufruir disto, deixou-me muito triste e com um sentimento de injustiça muito grande. Como assim, ao fim de tanto tempo de ele estar com estes sintomas, de se tentar ajuda, e logo agora é que isto vai acontecer? Eu chamo-me Hugo Carnas Simeão, sou médico especialista em psiquiatria e trabalho nesta área há oito anos. Quando eu penso em casos que marcaram no meu percurso na psiquiatria, é sem dúvida o desta mãe e deste filho. Eu conheci a mãe no meu primeiro ano de internato. Ela trabalhava como doméstica, muitas vezes não tinha forma de ter água quente em casa, tinha dificuldades em garantir que havia alimentação em casa, inclusive para o filho, que era a única pessoa com quem ela vivia nessa altura. E além dos temas que ela trazia na consulta terem esta relação com as dificuldades que ela tinha e dos sintomas depressivos e de insônia, ela trazia um tema muito marcante, que era o filho que apresentava uma série de alterações no comportamento dele e no pensamento, e que eram, de facto, sugestivos de uma doença mental preocupante, mas ela sentia-se sempre muito angustiada e frustrada porque não conseguia que o filho tivesse uma avaliação psiquiátrica, tivesse um tratamento e pudesse ficar bem. E isto era uma história que já acompanhava há muito tempo, diria, anos. Eu, nessa altura, no meu primeiro ano, trabalhava numa equipa comunitária de saúde mental. Penso que isso foi um ponto de viragem na forma como esta situação mudou para melhor. Graças a uma articulação com enfermeiros, com psicólogos, assistentes sociais, foi possível nós chegarmos a este jovem. Ele acabou por ter, efetivamente, um internamento. Foi o único internamento que ele teve. E desde esse internamento, logo após esse internamento, ele melhorou. Mas, de facto, aquilo que me marcou muito nesta história foi o facto de pouco tempo depois, cerca de três meses, esta senhora começa a desenvolver um quadro respiratório. Entretanto, faz alguns exames e é diagnosticada uma neoplasia, um cancro do pulmão num estádio avançado. Eu, na altura, fiquei mesmo triste. Isto faz parte de um trabalho também em equipa. Eu lembro-me de partilhar este caso com a psicóloga que estava a seguir esta senhora e lembro-me de, inclusive, tanto eu como a psicóloga, chegarmos a ir ver a senhora ao internamento do hospital, chegamos a ir lá falar com ela. Foi com grande pesar, honestamente. Quase gera em nós um sentimento de injustiça. Como é que esta pessoa que esteve tanto tempo a desejar por uma coisa e nós conseguimos, e infelizmente, ela não consegue usufruir durante o tempo que se calhar merecia, pelo menos à nossa luz e aos nossos olhos, de ver o filho com estabilidade clínica e poder ter muito maior tranquilidade em casa e poder usufruir também de um filho saudável e de um filho estável. Portanto, este jovem acabou por sair do internamento. O diagnóstico a que se chegou à conclusão seria de uma esquizofrenia. E entretanto, ela acabou por falecer. O filho, entretanto, passou a ser seguido por uma colega minha. E outro reverso aqui que me marcou foi que, entretanto, o internato em psiquiatria são cinco anos, e no meu último ano de internato, esta minha colega acaba por ter de ficar de baixa e os utentes dela terão de ser distribuídos por outros colegas da equipa, e eu acabo por receber este mesmo jovem na consulta, e ele sabia que eu tinha seguido a mãe. E foi muito bonito ver como ele estava muito estável, com imensa crítica para o problema de saúde mental dele, integrado na sociedade, a trabalhar, autônomo, a conseguir pagar as contas dele e a ser autônomo na vida dele. E foi muito bonito ver como ele tinha chegado a esse ponto. Uma das coisas que eu acabei por pensar também, e foi um caso que falei com a psicóloga acerca disto, é como é que as coisas teriam decorrido se o filho não tivesse tido a ajuda antes de ela falecer. Ia ser mais difícil de conseguirmos este objetivo. E tranquilizou-me, de alguma forma, ela no meio do sofrimento que estava a ter, ela também se sentir mais tranquila pelo facto do filho já estar a ter um acompanhamento e não estar sozinho. E acho que isto também foi importante, não só para ela, na tranquilidade dela, mas também para nós, que estamos deste lado. Acho que esta mãe deixou um legado, sobretudo, de esperança. Acho que foi aquilo que a definiu. Acho que acaba por ser um exemplo de esperança para uma doença mental grave, para a doença mental em geral, uma esperança para a forma como os cuidados de saúde também são prestados, de uma forma articulada e não cingida apenas ao medicamento e ao consultório, e também uma esperança de que mesmo a doença mental grave consegue ter uma pessoa por trás disso, um ser humano que está integrado, que funciona e que não se resume a esse diagnóstico, e que o diagnóstico é apenas isso, um diagnóstico, não é a pessoa.

O Mental é uma parceria do Observador com o Hospital da Luz e com a Johnson & Johnson Innovative Medicine. Conta ainda com o apoio científico do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos.