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Havia muito esta questão da sensibilidade artística, da cultura, que eu valorizo muito. Valorizo muito porque acho que são zonas de liberdade de pensamento, de emoção. E quando vejo alguém, como este jovem, que tem uma alma de artista dentro dele, muitas vezes amordaçada no seu isolamento, isso inquieta-me. Chamo-me Pedro Aires Fernandes, sou psicólogo e psicoterapeuta há cerca de 25 anos. Estamos a falar de um jovem que chega à minha consulta com 23 anos, à procura por dificuldades de autorregulação emocional. Portanto, encontrava-se numa fase da vida muito tenso, com muita irritabilidade e com muita dificuldade em gerir os desafios que ia tendo diariamente. Estava também numa fase a terminar o seu curso, Engenharia, um curso exigente e bastante complexo. Alguém com 23 anos, numa fase da vida tão gira, tão desafiante, onde desenhamos projetos de vida, onde pensamos o que queremos fazer, com quem queremos estar, queremos viajar. É essa a ideia que nós temos do jovem adulto e alguém que entra muito desligado de tudo isso. E esse desligar mexeu muito comigo. É quase como se aquela luz que ele trazia, ténue, merecesse um cuidado especial, porque podia apagar. E tive esse receio desde o início. Este jovem foi crescendo sem conhecer o mundo, sem saber como é que o mundo é na sua realidade, com todas as coisas boas e menos boas. E de repente, a uma determinada altura, já no contexto de faculdade, ele acaba por conhecer o mundo por si só. Então há um choque muito grande entre aquilo que eu achava que era o mundo e aquilo que eu vejo ser o mundo. Esse foi muito o trabalho, que é não tanto o que eu posso fazer para mudar o mundo, mas o que eu posso começar por fazer para mudar o meu mundo interior. Toda esta sensibilidade que ele trazia faz falta. E eu digo-lhe uma coisa, muitas vezes a brincar, que é: "Somos poucos. Temos que ser mais". Houve um momento de partilha em que este paciente traz vídeos dele a tocar piano e naquele momento, levantamo-nos e sentamo-nos lado a lado. E estivemos os dois deliciados a vê-lo tocar piano. E eu acho que esse momento é tão simbólico daquilo que muitas vezes, mesmo estando sentados frente a frente, é o que nós fazemos com os nossos pacientes. Muitas vezes somos nós que nos vamos para o lado deles, outras vezes são eles que vêm para o nosso lado e muitas vezes mudamos as cadeiras simbolicamente e estamos juntos. A relação terapêutica é uma coisa muito especial. Nós estamos no mesmo barco, nós não estamos a ver a outra pessoa no seu barco. Nós estamos lá, é o nosso barco. Isso traz identificação e se calhar estas idades têm impacto em mim também, se calhar do Pedro da altura, mas também do Pedro de hoje. O Pedro de hoje de quase 48 anos, acima de tudo, identifica-me muito com esta parte do sonho, com esta parte da vontade. Em muitos casos, muitas vezes um sonho amordaçado ou um sonho receoso. Todos nós somos muito confrontados com as nossas dúvidas, com as nossas inquietações e estas idades, acima de tudo, e o que este jovem me trouxe foi: inquietou-me. Inquietou-me também do ponto de vista enquanto terapeuta, enquanto pessoa, enquanto homem, enquanto pai, inquietou-me. Mas essa inquietação é muito gira, porque faz-nos, de alguma forma, erguer e também continuarmos o nosso trabalho interno, muitas vezes silencioso. Veio por mim muitas vezes entre consultas e até muitas vezes no fim de semana a pensar nas nossas conversas. Ou seja, não no sentido negativo, em que isso estava a ser intrusivo, mas no sentido quanto o trabalho que estamos aqui a fazer está também a mexer comigo e com a minha própria estrutura e com o meu próprio desenvolvimento. E isso é uma coisa extraordinária que acontece. Atualmente, este jovem tem 27 anos, está a construir a sua vida, trabalha, tem uma relação, tem outra capacidade de regulação e de dar mais espaço na sua vida às coisas que realmente são importantes. Está num estado tão interessante ao ponto de já não estarmos a fazer sessões regulares. Sinto enorme confiança relativamente ao percurso que este jovem vai fazer, seja ele qual for. Acima de tudo, acredito e aquilo que eu vejo é que ele hoje, quer no trabalho, quer nas relações familiares e acima de tudo na conquista e na construção da sua autonomia, é um jovem mais pleno. Pleno de si. Estamos numa zona boa e parece-me que é uma zona boa, que é base para a construção de tudo aquilo que vai surgir a seguir e que eu, mantendo o contacto com ele, assumo, tenho muita curiosidade, curiosidade terapêutica, naturalmente, mas também muita satisfação enquanto vou tendo estas situações do: "Está tudo bem, estamos bem, se calhar marcávamos só para o próximo mês, porque está tudo a correr bem". Isso para mim é uma satisfação imensa.
O Mental é uma parceria do Observador com o Hospital da Luz e com a Johnson & Johnson Innovative Medicine. Conta ainda com o apoio científico do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos.