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A relação médico-doente tem um efeito terapêutico e as palavras têm mais efeitos secundários do que os medicamentos. Nós ainda nos lembramos de uma coisa que nos disseram há 10 anos e não nos lembramos do efeito secundário de um medicamento que tomámos há 10 anos. O que realmente me deu este caso, esta situação, foi a confiança de que, de facto, isto não é só os medicamentos, não são só os exames complementares de diagnóstico, é a relação que eu criei com o doente que faz a diferença no final do dia. É diferente eu telefonar-lhe a dizer: "Olhe, vamos ter que alterar o dia da injeção", ou ligar a um administrativo. Portanto, a relação que eu criei foi comigo e ele confia em mim. O meu nome é Tiago Duarte, sou médico psiquiatra e trabalho há 10 anos. Nós conhecemo-nos há 10 anos. Na altura, eu era interno de primeiro ano de Psiquiatria e foi-me comunicado que haveria um doente que estaria na neurocirurgia para ser transferido para o serviço de psiquiatria e que tinha se fenestrado, portanto, tinha se atirado de uma janela de um primeiro andar, de uma altura de quatro metros, tinha batido com a cabeça no chão, estava internado na neurocirurgia com uma hemorragia, que entretanto já estaria estabilizada e que seria para ser observado e seguido na psiquiatria. Na altura, ele tinha 46 anos. O que nós considerávamos era que ele tinha feito uma tentativa de suicídio. Há vários motivos para as pessoas se suicidarem. E na altura achei que seria um quadro depressivo. Não na primeira entrevista, mas depois fomos apurando ao longo do internamento, era que ele sentia-se em perigo, portanto, havia uma rutura com a realidade e interpretações erróneas das coisas que se passavam à volta dele, e ele começou a achar que havia carros na rua que o andavam a perseguir. E atira-se da janela para fugir destes senhores que o podiam matar. Portanto, no fundo, ele ia se matar antes que o matassem. Era por isso que ele se tentou suicidar e não por estar num episódio depressivo. Não estava deprimido, estava era muito assustado. E tinha uma coisa, que são vozes de comando, é um termo técnico, que são vozes que nos dizem para fazer coisas, dão-nos comandos. E as vozes diziam: "Atira-te que é a única maneira de te safares." O que nós apuramos era que ele tinha uma esquizofrenia, no sentido em que havia sintomas psicóticos e outra coisa que são sintomas negativos, ou seja, um retraimento social, uma ausência de motivação, um isolamento marcado, uma vida quase solitária, viver em casa dos pais, sozinho, sem trabalhar. Conseguimos também, à medida que fomos fazendo a entrevista com o pai, com a mãe, também há uma irmã, perceber que os sintomas tinham começado pelos 20 anos. Na altura, o primeiro contato com a psiquiatria foi também por uma tentativa de suicídio. Foi observado, teve um internamento curto, teve alta e passou a ter um seguimento em psiquiatria. O seguimento foi altamente errático. A mãe, como era enfermeira, ia pedindo a alguns médicos medicação e foi fazendo medicamentos que não seriam indicados para um quadro de esquizofrenia. Eram benzodiazepinas, que são ansiolíticos, cujo objetivo é uma toma durante dois, três meses, e ele estava a tomar há 20 anos. Ou seja, ele estava desde os 20 anos a morar em casa dos pais, tinha frequência universitária, mas não acabou o curso e começou daí para frente, foi só para trás. Ou seja, não conseguiu autonomizar-se, nunca teve uma profissão estável, nunca acabou por ter uma relação também estável, nunca saiu de casa dos pais e cingiu-se a uma vida muito precária, muito deficitária, muito isolada, que se tivesse feito um seguimento mais regular, seria diferente. No fundo, o que se verificava é que a mãe tem um tio que teria um diagnóstico de um quadro psicótico, não sei se era uma esquizofrenia, se era uma doença bipolar. E a mãe tinha muito medo que o filho fosse igual ao que ela achava que o tio era. Que tomasse medicação, que o deixava a salivar, que ficaria internado eternamente. E portanto, o estigma da mãe, face ao que ela considerava que era uma esquizofrenia, fazia com que ela não deixasse o filho procurar ajuda à psiquiatria, porque se lhe metiam este carimbo, era um desastre. Ela percebia que alguma coisa não estava certa. Tinha muito medo era de assumir que era isso. Mas ao ter medo de assumir que era isso, também nunca procurou o tratamento que poderia ajudá-lo. Este caso marcou-me em primeiro lugar, porque foi o primeiro doente com quem eu fiquei como sendo médico assistente. Em segundo lugar, porque ao ser o médico assistente dele, teria de ser eu a tomar as decisões, no melhor interesse dele. E o maior problema para mim era como é que eu vou convencer um doente que acha que não tem uma doença a tomar um medicamento que o pode ajudar nessa doença, quando a própria família também acha que ele não tem essa doença. Portanto, ninguém acha, só eu e a equipa médica. As coisas acabaram por correr bem, porque apesar de ele achar que não tinha a doença, ele concordava que algo não estava certo e confiou em mim. E é isso que também mexeu um pouquinho comigo. Eu com muito pouca experiência em psiquiatria, este senhor, muito mais velho que eu, estava a depositar a confiança e a autonomia da vida dele em mim. E isso acabou por mexer comigo e ao atribuírem-me essa confiança, eu também senti que tinha que estar à altura da mesma. Ele é muito interessado em política, em ciência política, em direito, gosta muito de livros. E então começámos a debater livros. Na altura, um livro qualquer que ele estava a ler, eu comecei a ir mais por esse lado, porque eu percebi que se ele confiasse em mim, eu teria capacidade de conseguir ajustar a medicação, mesmo ele discordando. Mexeu comigo na altura o impacto que a minha relação com ele tem em termos terapêuticos, porque ele tinha um preconceito, uma ideia concebida do que seria um psiquiatra. A mãe também tinha uma ideia preconcebida do que seriam os efeitos dos medicamentos, a carga de um diagnóstico e qual seria a minha abordagem. Ela achava que eu só lhe ia dar comprimidos e não queria saber mais nada dele. E, de facto, não foi isso que aconteceu. Ou seja, é uma relação muito empática. Ele pergunta pela minha família, preocupa-se comigo. Ficou muito contente quando eu fiz o exame de saída, quando depois passei a ser psiquiatra. Até me levou uma prenda. Ou seja, ele de facto reconhece que eu o ajudo. E isso veio da relação que eu criei com ele, não foi dos medicamentos. Estamos numa fase em que ele já está a fazer há quatro anos a medicação injetável. Tem estado muito bem, agora está a ajudar numa oficina, a ir buscar peças que o senhor pede. Ele sente-se útil e isso traz-lhe prazer, dá-lhe autoconfiança, dá-lhe sensação de cumprir uma utilidade para a sociedade que o faz sentir bem. Está confiante, tem uma relação. E a mãe, atualmente, à data de hoje, 10 anos desde esse internamento, já concorda que ele de facto tem uma esquizofrenia. E concorda que a esquizofrenia não é o que ela achava que era. E acho que era aí que estava o abusilizar. Ela achava que era uma doença dilacerante, que não tinha tratamento e que não é. E através do filho, ela também percebeu isso.
O Mental é uma parceria do Observador com o Hospital da Luz e com a Johnson & Johnson Innovative Medicine. Conta ainda com o apoio científico do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos.