Dos três vice-presidentes que tinha nas três maiores bancadas no Parlamento Europeu, Portugal passou a ter apenas uma representante. João Cotrim Figueiredo, que era até esta semana vice-presidente da bancada dos liberais do Renew, falhou a reeleição por três votos. A derrota do liberal — que há dois anos até ponderou candidatar-se à liderança da bancada — surge na mesma semana em que Sebastião Bugalho falhou a eleição na bancada do Partido Popular Europeu. Nas midterms europeias, só mesmo Ana Catarina Mendes conseguiu a reeleição como vice-presidente da bancada dos socialistas europeus (S&D).

Ao contrário de Bugalho, que tentava ser eleito pela primeira vez (o cargo era antes ocupado por Lídia Pereira), João Cotrim Figueiredo já era vice-presidente e não conseguiu ser reeleito, tendo apenas 33 votos. Há dois anos e meio, Cotrim tinha chegado a anunciar a candidatura a líder parlamentar, mas depois recuou para evitar a derrota. Ainda assim, em 2024 conseguiu ser o segundo mais votado (de oito) vice-presidentes, com 48 votos em 71 possíveis. Agora desceu a votação e perdeu.

João Cotrim Figueiredo seria, segundo a sua ala, uma sombra à presidente macronista da bancada Renew (Valérie Hayer) e alinhava com frequência com a ala que desafiava o status quo do grupo, que é dominado por franceses. Têm sido notórias as divergências entre a ala de Cotrim — que é mais pela liberdade económica e de mercado — e a dos macronistas — mais à esquerda e pela intervenção estatal na economia. Mas foi essa que ganhou. O grupo de Cotrim vê ainda este como o último fôlego do Renaissance de Macron, que teve uma última oportunidade de demonstração de força antes de ser reduzido à irrelevância após as próximas europeias (senão logo após as presidenciais francesas).

Cotrim não falou, mas o liberal dinamarquês Morten Løkkegaard partilhou uma fotografia na sua página de Instagram ao lado do português a lamentar a não eleição de ambos: “Mau dia no escritório”. O dinamarquês foi duro nas palavras e diz que “os liberais de centro-direita do Renew Europe”, onde se incluem ele e Cotrim, “foram afastados da liderança numa manobra política bem coordenada e de esquerda. Três dos mais acérrimos “fiscais” liberais da liderança do grupo [onde se inclui Cotrim] foram destituídos e substituídos por apoiantes da linha francesa, ou seja, o protecionismo, as regras especiais nacionais e a ajuda estatal.”

Løkkegaard diz que ficou “definitivamente confirmado que a linha liberal de centro-direita do Renew Europe está em minoria, o que representa naturalmente desafios para as eleições europeias de 2029.” O dinamarquês diz que ele e o português vão continuar “a lutar por uma linha liberal clara e moderna, com uma geopolítica realista, soluções de mercado para a competitividade da Europa e respostas claras para os desafios da migração.” O eurodeputado acusava ainda o Renew de ter dado “um passo longe do centro e em direção à esquerda“.

Nos midterms do Parlamento Europeu, Sebastião Bugalho também falhou a eleição para vice-presidente do grupo do Partido Popular Europeu, a maior bancada do Parlamento Europeu. Depois de uma guerra fratricida no grupo parlamentar e a oposição do presidente Manfred Weber, Portugal perdeu pela primeira vez em 22 anos um cargo que garantiu até quando estava na oposição a nível nacional. Ao Observador, o eurodeputado e porta-voz do PSD assumiu as responsabilidades pela derrota: “Foi uma candidatura pessoal e é, por isso, um resultado exclusivamente pessoal”.

Já Ana Catarina Mendes foi bem-sucedida nos socialistas europeus. Após ser reeleita vice-presidente, a socialista disse receber o resultado com “enorme satisfação, mas também com um profundo sentido de responsabilidade e compromisso.” A ex-ministra do PS propôs-se a “defender a democracia, proteger o Estado de direito e combater todas as ameaças aos nossos valores fundamentais são prioridades que exigem determinação e trabalho diário.”