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Houve um sequestro da liberdade da pessoa pela biologia. É, de facto, muito impactante. Viver uma patologia pela primeira vez é muito diferente do que estudá-la e nunca a ter visto. O meu nome é Sérgio Saraiva, sou médico psiquiatra e psiquiatra forense. Estou em psiquiatria há 14 anos e atualmente trabalho no sistema prisional. No início do meu percurso no sistema prisional, deparei-me com um caso que me marcou grandemente. No fundo, era um senhor, aquilo a que nós podemos chamar uma pessoa exemplar, um cidadão exemplar, que tinha uma vida estável, preenchida, com um núcleo de amigos grande, uma ótima relação familiar, um emprego, portanto, uma profissão de grande responsabilidade, e que pouco a pouco começou a verificar ou a suspeitar que de alguma maneira pudesse estar a ser vigiado. Essa convicção foi crescendo até ao dia em que ele teve a certeza absoluta de ter encontrado o seu carrasco, a pessoa responsável por aquela perseguição. Deparou-se com uma pessoa banal, que nunca havia visto no passado, e as peças do puzzle juntaram-se todas e ele teve a convicção absoluta de que aquela pessoa era a responsável por estar a persegui-lo e que o quereria matar. E perante a iminência da sua morte, apenas teve como alternativa defender-se. O que para ele era uma legítima defesa, acabou por consumar num homicídio e uma pessoa inocente acabou por falecer. Este senhor acabou por dar entrada no âmbito do internamento preventivo. Ou seja, perante um primeiro interrogatório judicial, o juiz de instrução verificou que aquela pessoa de facto apresentava indícios de que poderia ter uma anomalia psíquica e enviou para o hospital prisional. O senhor já apresentava o historial de uma patologia depressiva prévia, sem qualquer sintomatologia psicótica, portanto, era um primeiro episódio psicótico. Essa pessoa deu entrada no sistema prisional, eu recebi-a, iniciou terapêutica medicamentosa, foi respondendo. E o que foi verdadeiramente flagrante neste caso é que, de forma altamente contrastante, esse senhor era muito afável, tinha uma postura extremamente adequada, nada sedutora nem manipuladora, com uma empatia que não era simulada, que não era fingida, era genuína, mas ao mesmo tempo contrastava com a frieza com que falava do caso que o tinha levado à prisão. Ele tinha a certeza de que nada daquilo tinha verdadeiramente acontecido. E eu soube isso um dia após ele ter ido a tribunal. A sala de audiência foi claramente o ponto de viragem. Ele pediu para falar comigo e os enfermeiros estavam bastante preocupados e eu acedi falar com ele. E quando eu vi, ele estava lívido, estava branco. Disse-me que, tal como eu suspeitava, como a única coisa que verdadeiramente fazia sentido era ele achar que aquilo era um equívoco, que iria ser ilibado, que os juízes iriam facilmente entender que nada daquilo tinha acontecido. Mas, na verdade, ele foi confrontado com imagens de videovigilância e confrontou-se com o facto de o homicídio ter sido por ele praticado. E eu nunca me vou esquecer daquilo que ele me disse naquele dia, que foi: "Fui mesmo eu". Ou seja, só naquele momento, perante a prova inegável de que tinha sido ele, é que ele percebeu aquilo que tinha acontecido. Eu, na verdade, não respondi nada na altura. Deixei-o processar. Eu também processei, porque também não estava à espera que ele me dissesse isso daquela maneira. E passado algum tempo, acabei por abordar a questão de que, na verdade, foi ele, mas não foi. Ou seja, ele não padecendo naquele exato momento da anomalia psíquica que ele cometeu, ele não teria praticado esses factos. Tanto é que no âmbito da avaliação pericial, ele foi considerado inimputável, em razão da anomalia psíquica. A partir do momento em que existe uma alteração do funcionamento cerebral, podemos perder o nosso controle e foi aquilo que aconteceu. Portanto, é resultado de uma doença. Tal como nós não conseguimos controlar uma arritmia cardíaca, também não conseguimos controlar uma epilepsia ou o desenvolvimento de um sistema delirante, que foi aquilo que aconteceu. Ele já se encontrava privado de liberdade muito tempo antes de estar preso. Muito não, mas algumas semanas, porque o controlo, o contacto com a realidade, a liberdade de interagir com o meio ambiente, a sua liberdade interior de fazer aquilo que queria, o seu livre-arbítrio, estava abolido pela doença. E, na verdade, aquando do tratamento, apesar de ter sido efetuado no sistema prisional, houve um resgate e foi possível devolver-lhe a sua liberdade interior. Uma das coisas que este caso fez ou alterou na minha prática, julgo que será a vigilância que eu tenho dos meus doentes a partir do momento em que eles começam a voltar a entrar em contacto com a realidade. Portanto, ele esteve preso. Não esteve preso no sentido em que foi considerado culpado, porque ele não foi culpado por não ter capacidade de culpa, mas acabou por ser sujeito a uma medida de segurança para tratamento e houve um processo reabilitativo. Hoje em dia esta pessoa está bem, no sentido em que está a trabalhar, está inserida, tem um grupo de amigos, mantém a relação com a sua família. É uma pessoa que novamente voltou a ser uma pessoa aparentemente sem qualquer tipo de problema, mas para além desta aparência de normalidade, é patente o sofrimento que esta pessoa mantém sempre que entra em contacto, ou melhor, quando ela entra em contacto comigo. Mais ou menos de três em três meses dá-me novidades, fala-me do seguimento, das suas preocupações. Está muito bem entregue em termos de seguimento. Está com uma pessoa também muito sensível a esta problemática e eu acho que o facto de frequentemente entrar em contacto comigo é extremamente gratificante, por um lado, e é o testemunho de que aquilo, mais do que a reclusão, o crime, a culpabilidade, o sofrimento dessa pessoa é algo que continua a pesar e acho que será um peso, uma espada que irá carregar para o resto da vida dela.

O Mental é uma parceria do Observador com o Hospital da Luz e com a Johnson & Johnson Innovative Medicine. Conta ainda com o apoio científico do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos.