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Está no ar o Domínio da Guerra da Rádio Observador, sempre com o Major-General Carlos Moreira. Bom dia!

Olá, muito bom dia a todos.

Bem-vindo, General. No início desta semana, na segunda-feira, pelas 11h33, Portugal continental ficou sem eletricidade durante largas horas. O colapso energético paralisou praticamente o país e afetou a vida de milhões de portugueses e de empresas. Agora que tudo regressou à normalidade, General, que balanço devemos fazer do ponto de vista da segurança e da defesa?

É, e nós temos que trazer obrigatoriamente este tema para o Domínio da Guerra, porque o que nós estamos perante é um acontecimento muito relevante do ponto de vista das implicações para o funcionamento da sociedade e, consequentemente, também para o domínio da segurança e da defesa.

Como é óbvio, sim. Até porque muito se especulou logo na altura.

Temos muito para aprender com aquilo que não é um exercício, aquilo é a realidade que colapsou em cima de nós. O que eu vou transmitir é aquilo que é a minha opinião pessoal, muito institucional e muito virada para uma observação ao longo de muitos anos deste sistema. Eu diria que há quatro sistemas que eu defino como sistemas de resiliência máxima. São sistemas que não podem falhar. Aconteça o que acontecer, há quatro sistemas no país que não podem falhar. O primeiro é o sistema de segurança pública. O sistema de segurança pública garante a segurança das pessoas e dos seus bens. Ora, quando acontece uma realidade destas em que colapsa um dos sistemas críticos, é importante que se mantenha, por um lado, a serenidade e, por outro lado, isso também se consegue com uma enorme visibilidade das forças de segurança. Eu julgo que os portugueses ficaram exatamente também com essa ideia, que quer a GNR, quer a PSP responderam em tempo e tiveram uma visibilidade e uma presença naqueles pontos.

Arranjar forma de chegar às pessoas.

Portanto, eu julgo que o sistema de segurança pública é um dos que não pode falhar, qualquer que seja a circunstância. Há um outro sistema que não pode falhar. É o sistema dos hospitais e da emergência médica.

Grande preocupação.

Nós, na verdade, não testámos este sistema. Nós só testamos a reação do sistema à falta da energia, porque se tivesse havido um terramoto de proporções brutais, aí sim, iríamos testar na sua plenitude a capacidade de resposta do sistema de emergência e dos hospitais. Mas nós não testámos isso. Este acontecimento apenas testou a capacidade de resposta à falha de um sistema crítico. Verificou-se que alguns geradores não têm depósitos com a dimensão que deveria ter e, portanto, há aqui um conjunto de detalhes que têm que ser afinados. O terceiro sistema que nunca pode falhar é o sistema do resgate e socorro às vítimas. Houve pessoas que ficaram presas nos elevadores.

Estamos a noticiar a morte de uma pessoa por causa da falta de resgate.

Isto não pode falhar. O resgate e o socorro às vítimas é uma coisa para a qual nós temos que estar preparados em qualquer circunstância. E depois há um quarto sistema, que nós normalmente não colocamos nesta lista, mas que eu coloco, é o sistema da informação pública. As pessoas têm que saber o que se está a passar.

E aqui a rádio foi mais uma vez fundamental.

E a rádio foi fundamental. Simplesmente. O problema da sociedade moderna é que nós já não andamos com os rádios no bolso.

Os rádios a pilhas.

Nós habituamo-nos a andar com os telemóveis.

A internet.

E, portanto, nós temos que receber esta informação pelos meios que temos, porque os rádios até podemos ter, mas deixámos os rádios em casa. Nós não andamos com o rádio no bolso. Nós andamos é com os telemóveis. Portanto, é através dos telemóveis que as pessoas têm que ser informadas. Este sistema tem que ser todo revisto.

Mesmo os telefones que temos em casa não funcionam, não são os telefones fixos de antigamente.

Os rádios que estão em casa têm informação, mas nós não estamos em casa. Portanto, este sistema tem que ser todo revisto. Como é que a informação de emergência chega às pessoas através dos telemóveis? Porque elas podem querer ver televisão, mas a televisão não está a funcionar. Podem querer aceder ao rádio, mas deixaram o rádio em casa. Portanto, tem que ser através dos telemóveis. Estes são os quatro sistemas que não podem falhar. Se falhar o sistema de informação pública, vai haver filas nos supermercados que eram desnecessárias, porque o sistema já está a ser reposto e as pessoas não tinham que correr para os supermercados. E, portanto, é importante manter estes quatro sistemas, são o que se chamam os sistemas de resiliência máxima: segurança pública, hospitais e emergência médica, resgate e socorro às vítimas e informação pública. Depois, há aquilo que eu chamo os sistemas críticos. Os sistemas críticos são aqueles que dão qualidade de vida às pessoas. Isto é, a sua ausência, a sua inoperância, o não acesso a estes sistemas críticos transtorna a vida das pessoas e provoca um grau de desconforto tremendo. Normalmente, as pessoas não morrem por falta destes sistemas críticos, mas eles impactam no funcionamento da sociedade e da sua economia. São três os sistemas críticos. É o sistema elétrico, é o sistema de telecomunicações móvel e é o sistema de água. Estes três sistemas são sistemas críticos e estão interligados uns aos outros, como aliás está demonstrado.

Exatamente.

Estes sistemas vão falhar em cadeia. Quando falhar o sistema elétrico, uma hora, duas horas, três horas depois vai falhar o segundo sistema das telecomunicações móveis. E passado mais uma hora ou duas, vai falhar o sistema de abastecimento de água.

Aliás, como se viu.

A rapidez com que nós somos capazes de repor o sistema elétrico vai evitar o colapso dos outros sistemas. É fundamental termos esta ideia da importância da rapidez de repor o sistema elétrico outra vez. Sobre o sistema de telecomunicações móveis, elas falham por três razões. A primeira é que, sendo uma situação anormal na vida das pessoas, toda a gente vai procurar fazer chamadas telefónicas e, portanto, a rede fica congestionada, porque ela não está preparada para estas situações críticas.

É como no fim do ano.

Depois, falham porque as baterias que alimentam as células, os postes que estão espalhados por todo o país têm um tempo de duração limitado. Se a energia elétrica não for reposta entretanto, também vão perder estas células, que depois recebem e difundem a informação dos telemóveis, também vão deixar de estar operacionais. E depois há um terceiro aspeto porque isto também falha: é porque nós não temos os telemóveis carregados a 100%. Nenhum de nós tem o telemóvel a 100%. Alguns estão a 30, outros estão a 20 e de repente os nossos telemóveis vão ficar sem energia também.

A não ser que tenhamos um kit de emergência a postos com um power bank carregado.

E nós não temos. Como dizia um amigo meu, com muita piada: "Eu troco dois rolos de papel higiênico por um power bank carregado."

Já é uma série de mercadorias.

Aqui um abraço a estes meus amigos. O terceiro é o sistema da água. O sistema da água vai falhar também. Não falha da mesma maneira, por causa dos depósitos de água serem diferentes nos vários sítios.

Exatamente, não falhou em todo o país.

Não falhou em todo o país, mas acabam por falhar, porque não é só o sistema de bombagem da água, é também o sistema de filtragem, etc., de tornar a água própria para o nosso consumo. E depois ainda há aquilo que eu chamo os subsistemas críticos. São subsistemas que estão a um nível abaixo destes três sistemas, mas que provocam o caos na sociedade. Um é o sistema de transporte. Se nós tivéssemos os autocarros todos elétricos, como é que íamos tirar as pessoas de Lisboa? Nós temos que pensar nestas coisas. Esta ideia da eletrificação até ao limite, o que leva é que o metro para, a CP para, portanto, os comboios param e como é que nós tiramos as pessoas daqui?

Só o facto de não haver semáforos, eu que faço 10 minutos entre Alvalade e Campo de Ourique, demorei duas horas.

Claro. Nós só conseguimos tirar as pessoas de Lisboa porque os autocarros não eram elétricos. Nós temos que olhar para a sociedade também do ponto de vista da resiliência. Nós quando dependemos de um único sistema, estamos a expor-nos a questões de segurança e até do ponto de vista da defesa, que são muito críticos. O sistema aéreo está a demorar imenso tempo a recuperar, ainda não recuperou. E depois há o outro subsistema crítico que eu gostaria de referir, que é o sistema do abastecimento de combustível. Nós temos como backups de todos os nossos sistemas elétricos, temos os geradores. Os geradores precisam de ser abastecidos com combustível. Portanto, o abastecimento de combustíveis é também um subsistema crítico. Em resumo de tudo isto, os portugueses estão de parabéns, passaram o teste. Fomos sujeitos a um teste sem aviso prévio e estamos de parabéns, porque conseguimos manter a normalidade. No dia seguinte, já estávamos todos outra vez. Estamos todos de parabéns. E depois eu tenho que deixar aqui parabéns também a outras entidades, aos engenheiros. Quem nos safou disto foram os engenheiros. Foram os engenheiros da REN, da E-Redes e da EDP, que foram capazes de levantar do zero, sem ajuda exterior, todo o sistema elétrico nacional. Temos que ter aqui uma palavra de agradecimento para a REN, para a E-Redes e para a EDP. Os nossos engenheiros também passaram o teste.

Então, de Portugal para o resto do mundo, nesta semana oscilamos entre a fotografia de Trump e Zelensky sentados frente a frente na Basílica de São Pedro, em Roma, a proposta de Putin de uma trégua de três dias, o otimismo quase irritante de Trump sobre a proximidade de assinar um acordo de paz, o acordo dos minerais, as ameaças nucleares de Medvedev, que sonha em destruir todos os países vizinhos, e até Peskov, que veio dizer que a Rússia tinha a capacidade de mobilizar milhões de soldados para uma guerra na Europa. General Sá de Moreira, numa semana em que os discursos não podiam estar mais desfasados uns dos outros, o que é que é importante, ou melhor, realmente importante?

A verdade é que nós temos uma realidade, mas essa realidade é percebida de forma muito distinta por todas as partes. E eu não sei se nos estão a lançar fumo sobre os olhos ou se, na verdade, têm entendimentos distintos sobre aquilo que se está a passar. Eu destacaria desta semana quatro momentos. O primeiro momento é aquele mais simbólico e mediático.

Olhos nos olhos.

Os olhos nos olhos entre Zelensky e Trump na Basílica de São Pedro. O que eu julgo que todos estávamos à espera era que entrasse de repente um raio de luz que iluminasse aquela reunião, mas esse raio de luz não entrou. De qualquer forma, sabemos, o encontro demorou 15 minutos. Estava previsto, pelo menos pelo protocolo, que haveria mais gente sentada à volta, porque havia cadeiras a mais, mas na verdade, as cadeiras desapareceram e ficaram reduzidas à cadeira de Trump e de Zelensky. E eles estavam relativamente próximos um do outro. Deste encontro muita coisa apenas transpirou que tinha sido produtivo e que poderia ter sido histórico. Mas, na verdade, destes 15 minutos, e do pouco que sabemos, também não é mau sinal sabermos pouco. Significa que as coisas que foram tratadas devem ter sido relativamente importantes, porque se não fossem importantes, provavelmente nós saberíamos mais. E, portanto, pode ter havido aqui compromissos orais estabelecidos entre os dois líderes que podem facilitar, ou que podiam na altura facilitar, dois temas que estavam pendentes. Um dos temas tinha a ver com o acordo dos minerais, de que falarei a seguir. O outro tinha a ver com a suspensão da venda do equipamento do armamento americano à Ucrânia. Estes eram dois temas que certamente terão sido abordados nesta conversa. Bom, o segundo momento desta semana é o da assinatura do acordo sobre os recursos naturais da Ucrânia. Esta versão já não tem nada a ver com a versão original. E Zelensky fez muito bem em dizer que não à primeira assinatura. Esta coisa de sentir que um é gigante e que o outro é pequeno, que um tem as cartas todas e o outro não tem carta nenhuma, não é verdade no sistema internacional. É preciso firmeza na defesa dos nossos interesses. E Zelensky foi capaz de o fazer numa situação muito difícil. Ora, esta versão foi afinada até à última da hora. Consta que ainda houve chamadas telefónicas já quando o avião da delegação ucraniana seguia para Washington. Mas eu salientaria aqui algumas alterações entre o que estava no acordo anterior e o que ficou no acordo que era assinado. A primeira era que, no primeiro acordo, os recursos naturais da Ucrânia eram transferidos para os Estados Unidos até assegurar o montante de 500 mil milhões de dólares, que era a tal dívida que os Estados Unidos diziam que a Ucrânia tinha. Ora, o novo acordo já não diz isto. O novo acordo diz que os recursos naturais da Ucrânia permanecem sobre a pertença da Ucrânia. Isto é um passo muito significativo. Depois, havia a constituição de uma comissão que tinha três elementos dos Estados Unidos e dois elementos da Ucrânia. Portanto, os Estados Unidos estavam à partida em maioria. Acabou essa figura e, neste momento, a comissão é paritária. Três elementos dos Estados Unidos, três elementos da Ucrânia. Depois, no primeiro acordo dizia-se que a Ucrânia tinha que compensar os Estados Unidos pelo fornecimento, pela ajuda norte-americana desde o início da guerra. Quando todos nós tínhamos ficado com essa ideia, Zelensky também, que a Ucrânia estava a fazer uma guerra também em favor dos Estados Unidos. Quer dizer, a guerra que a Ucrânia estava a fazer não era apenas sua, era para defender o sistema ocidental e nesse sentido era também representante dos Estados Unidos. Portanto, a Ucrânia não devia nada aos Estados Unidos, porque a Ucrânia tinha dado o seu sangue, suor e lágrimas durante estes três anos também para defender a ideia ocidental. Pois, o acordo, tal e qual como ele estava desenhado antes, pelo contrário, dizia: "Não, existe neste momento uma dívida da Ucrânia que tem que ser paga à cabeça". Ora bem, isto desapareceu também deste acordo. Não há dívidas anteriores. O que há agora é pagamentos em face daquilo que for a ajuda prestada pelos norte-americanos, o que parece absolutamente justo. Mas ainda havia mais coisas nisto. É que o acordo anterior previa que 50% das receitas atuais da Ucrânia, que eram obtidas da exploração do gás, do petróleo, etc, a Ucrânia tinha que dar 50% das receitas que tem atualmente. Ora, no novo acordo não é assim. Os 50% são apenas sobre aquelas que resultarem do progresso e da montagem deste novo sistema industrial. Portanto, não contam aqueles que são os recursos que a Ucrânia neste momento extrai. Isto é uma diferença brutal, porque a Ucrânia passa a contar com os mesmos recursos que tinha até ao momento. São apenas os lucros que houver sobre os novos recursos que forem explorados que ficam comprometidos neste acordo entre a Ucrânia e os Estados Unidos.

Faz toda a diferença.

Faz toda a diferença.

Grande Zelensky.

Faz toda a diferença. Zelensky defendeu, do meu ponto de vista, muito bem os interesses da Ucrânia. Depois, há o terceiro momento, que é o da trégua dos três dias anunciada por Moscow.

Dia da vitória.

Ora, então e os 30 dias de Trump? Os 30 dias de Trump ficaram sem resposta.

Mas isto está em encontro do que o general disse. Putin é que dita quando e como.

Trump engoliu esta coisa dos 30 dias. Não só engoliu, como Lavrov veio puxar as orelhas aos Estados Unidos e ao presidente Trump. Lavrov, numa entrevista que deu no dia 28, disse o seguinte As medidas de cessar-fogo de 30 dias são inaceitáveis. Isto é uma resposta direta a Trump, não podia ser mais claro. Trump faz de conta que não ouve estas coisas, mas nós ouvimos. São inaceitáveis porque requerem medidas de monitorização muito detalhadas. Isto é contrariar diretamente os argumentos e as pretensões de Donald Trump. Donald Trump o que fez? Ignorou, fez de conta que não tinha ouvido isso. Bom, sobre a trégua dos três dias, a Rússia está irritadíssima, porque a Ucrânia ainda não disse, tanto quanto sei, se respeita ou não respeita esta trégua. Agora há aqui um segredo que nós vamos partilhar, fica só entre nós. Nós estamos a aproximar-nos das duas semanas mais complexas de toda esta crise. São estas semanas que antecedem o 9 de Maio em Moscovo e a parada em Moscovo. São as semanas mais complexas que nós temos. Temos que estar muito atentos àquilo que está a passar. E depois, por outro lado, nós não podemos deixar de salientar que uma guerra entre dois campos não pode ter os intervalos e as suspensões ditadas apenas por uma das partes. Então a guerra para quando me dá jeito? Alto, agora vai me dar jeito.

Agora temos que celebrar o Dia da Vitória e vamos aqui parar.

Mas uma guerra é feita assim? É só uma das partes que diz quando lhe dá jeito, vamos parar as ações de guerra. A Ucrânia deixou tudo no suspenso, se vai ou não vai interferir. Provavelmente vai anuir, certamente, a esta proposta de trégua. Mas é interessante como um país que está em guerra se reserva o direito de dizer assim: "Vocês agora param as hostilidades porque não me dá jeito que haja hostilidades durante esta fase". Bom, acabados de segredo, passamos para o quarto momento, que é o crescente das ameaças sobre a Europa. Houve esta semana declarações de todos os principais responsáveis da Federação Russa atacando a Europa, ameaçando a Europa. Medvedev anunciou mais uma vez que os novos membros da NATO estão agora sujeitos a ataques nucleares da Rússia. E até Peskov, que é aquela personagem que procura sempre ser comedido nas suas palavras, veio esta semana dizer: "Atenção, a Rússia vai poder mobilizar milhões de combatentes para uma guerra na Europa". Portanto, o que é que se está a passar aqui? É o vírus do nacionalismo do 9 de Maio. O 9 de Maio está a influenciar todos os líderes da Federação Russa para um discurso inflamado em que o alvo não são os Estados Unidos, o alvo é a Europa. A Europa que esteja atenta.

A nossa cortina de fundo de hoje incide sobre a assertividade de Donald Trump, que afirmou: "Estou a salvar a Ucrânia", mas logo depois acrescentou que não estava necessariamente do lado de Zelensky, mas do lado da Ucrânia, sim. General, que fumo é este que Trump lança constantemente sobre o presidente ucraniano?

Trump já descobriu uma coisa desde o início. Isto é tudo muito mais difícil do que aquilo que parece ou do que aquilo que ele gostaria que fosse, e já descobriu que a sua válvula de escape é Zelensky. Se tudo falhar, ele já escolheu Zelensky. Portanto, ele está sempre a sinalizar Zelensky e quando fala: "Eu estou do lado da Ucrânia", diz: "Não necessariamente do lado de Zelensky". Portanto, ele já escolheu quem será o responsável no caso de tudo vir a falhar. O responsável parece que nunca é Vladimir Putin. Simplesmente, esta desvalorização de Zelensky tem uma implicação que não sei se Trump já mediu na sua plenitude. Essa implicação é o seguinte: a narrativa da Federação Russa é que Zelensky é um presidente ilegítimo. Ora, Trump não deveria participar nesta narrativa. Trump deveria dizer para os Estados Unidos: "Zelensky é o presidente da Ucrânia e todos os seus atos são legítimos". Ainda não o fez e, pelo contrário, continua a alinhar no discurso contra Zelensky. O que é que vai acontecer? Isto já se lê nas entrelinhas de quem vê a comunicação social russa. Diz a comunicação social russa: "Então, se Zelensky é ilegítimo, nós não estamos obrigados a respeitar um acordo que seja feito com Zelensky. Em qualquer altura, podemos retomar outra vez a guerra". Isto é, mesmo que Trump consiga uma assinatura de um acordo de cessar-fogo ou de paz entre Zelensky e Vladimir Putin, a narrativa russa é que esse acordo não vale, porque Zelensky não é legítimo. Portanto, há aqui uma cortina de fumo. Os dois estão a utilizar Zelensky com o mesmo propósito, mas a mim parece-me que Trump não estará a ver este cenário que se está a preparar na Rússia, que é: sim, senhores, assinamos, mas depois este acordo não tem validade porque Zelensky não é o representante legítimo do povo ucraniano. Coisas muito complicadas de manipulação feita pelo Kremlin, em que Trump se vai deixando enredar.

E o nosso ponto de mira de hoje desloca-se para a Alemanha, que está cada vez mais desperta para a necessidade de se armar e de armar a Europa. O que há de novo nesta matéria, general?

Nós passamos dezenas de anos, desde o 8 de maio de 1945 Que foi a data em que a Alemanha assinou a sua rendição incondicional. E esse é considerado um dia em que a Alemanha se arrepende dos seus pecados e há aquelas cerimónias em que nós até temos um pouquinho de pena dos representantes alemães que têm que estar presentes nestas coisas. A Alemanha acordou. Este sentimento de culpa desapareceu. E desapareceu também por causa de Vladimir Putin. E o que é importante aqui? É que houve uma cerimónia que tem a ver com a adesão à NATO da Alemanha, houve uma cerimónia em Bruxelas. E o que é que disse Frank-Walter Steinmeier, que é o presidente da Alemanha? "Os ventos mudaram. Putin trouxe de volta a guerra ao continente. Hoje, uma Alemanha mal armada é uma ameaça maior para a Europa do que uma Alemanha fortemente armada." Cá temos a Alemanha de regresso. A Alemanha está a perder toda aquela vergonha que tinha acumulado desde 8 de maio de 1945, e está aí para dar e para durar. Entretanto, esta semana, todos os olhos vão estar, sobretudo, na parada militar em Moscovo. Moscovo pretende mostrar ao mundo que é uma potência militar e, portanto, não se vai poupar a demonstrações de força no 9 de Maio. É uma coisa que vamos seguir.

Cá estaremos na próxima semana para falar sobre isso. General Fábio Mourão, muito obrigada.

Foi um prazer.

É sempre um gosto, como sempre. Obrigada para si também.

Muito obrigado.