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Ora já aqui está então o Pedro Jorge Castro, diretor adjunto do Observador, para mais um episódio do Esplendor e a Infâmia. Bem-vindo, Pedro.
Olá, como é que estão?
Bem, obrigado.
Muito bem. Hoje quase a acabar a nossa tarde política, porque vamos dar o Sporting daqui a meia hora, mais ou menos.
Eu estou divertida aqui a ver um suposto anúncio que anda pelas redes daquela marca de móveis sueca, como se estivesse a reagir ao caso de Miguel Arruda. É um outdoor a anunciar um roupeiro com o slogan: "É bom para guardar as suas malas de viagem e as malas dos outros."
Também não sei se é real, mas como não admirar a rapidez do marketing na hora? Mas espera aí, eu acho que já estamos aqui a entrar no tema do esplendor.
Então é melhor começares já por aí. Ora então isso significa, Pedro, que no esplendor queres falar desse caso do deputado do Chega que foi constituído arguido por furtar malas no aeroporto?
Não há dúvida de que é uma história esplendorosa.
Sim, depende do ângulo, mas sim, há aqui um potencial de gargalhadas esplendorosas.
Mas sim, eu até gostava de juntar no esplendor a história do Bloco de Esquerda.
Estás a falar das notícias sobre a forma como o partido de Mariana Mortágua dispensou funcionárias que ainda estavam a amamentar, certo?
Exatamente. E começo aqui com um exclusivo que toda a gente gostava de ter, que é a reação de André Ventura e de Mariana Mortágua ao escândalo um do outro. Vamos ouvir.
Pois é, piu piu.
É, passarinhos a bailar, não é?
Então, ficaram os dois partidos tão atrapalhados que nem os ouvimos a atacarem-se um ao outro, como seria expectável. Senti falta. Em comum, estas duas histórias têm o facto de encurralarem dois líderes partidários no seu próprio labirinto. Acho que todos conseguiríamos imaginar o tom altivo de superioridade moral e de denriste com que Mariana Mortágua falaria desta história das mães despedidas se trabalhassem numa qualquer outra empresa e não no Bloco de Esquerda. E da mesma forma, parece que estou a ouvir André Ventura a gritar vergonha se o deputado furta-malas fosse de qualquer outro partido.
Falta aí um alegadamente.
Toda a razão, Vanessa, sempre a chamar a atenção. E bem, alegadamente furta-malas e alegadamente deputado, porque isto é demasiado rocambolesco para acreditarmos. Aliás, basta ouvir o próprio Miguel Arruda a falar no Parlamento para sabermos o que ele diria se fosse outro deputado qualquer a ser constituído arguido numa circunstância destas.
O que eu disse, e volto a repetir, é que o sistema está muito permeável. Ouça, tenha respeito, por favor. É que o modelo está permeável à burla e à aldrabice. Permeável.
Um sistema permeável e permeável à aldrabice. Eu estaria a falar do transporte de bagagens pelos aeroportos.
Não era seguramente, não é? Isto é um chuto de uma das muitas trocas de galhardetes que ele tem mantido com a Francisca. Mas podia ser, se calhar aplica-se quase na perfeição.
O advogado de Miguel Arruda já veio desvalorizar a história, dizendo que apenas foram apreendidas três malas contra ele e que o próprio deputado diz que é mentira.
Pois, o Público diz que ele confessou que é verdade, que andava a roubar malas. Temos estado a dar esse noticiário. Pois olha, eu acho que estamos aqui num puzzle de galhofa, ao qual ainda falta acrescentar muitas gargalhadas, ou pelo menos eu tenho esperança nisso, e vejo potencial para isso. Neste momento, a alegada história do furto das malas ainda tem demasiados buracos para preenchermos com a nossa imaginação. E olha, em mim abundam as perguntas: se isso for verdade, começou quando? Isso foi ainda antes de ser deputado? Será uma doença ou um distúrbio? E como é que é o alegado modus operandi? Ele topa as malas com melhor aspeto e se derem uma volta inteira sem ninguém as recolher, pega nelas e vai-se embora? Já terá sido apanhado alguma vez pelo verdadeiro dono da mala a correr atrás dele no aeroporto? E diz o quê? Faz-se de parvo, vai à procura de outra mala parecida? E depois, quando chega a casa, faz como? Arromba os cadeados? Sabe aqueles truques de profissionais para desbloquear códigos? E quando abre, vai à procura do quê? Nas malas que só têm roupa, se for do seu tamanho, arruma no guarda-fatos. Se vir alguma melhorzinha, uma gravata, por exemplo, oferece a André Ventura para lhe dar graxa. Se não for do seu tamanho, lava, passa a ferro e põe à venda na Vinted, no OLX, a trabalhar. Nem quero imaginar. Se for de senhora, oferece à mulher com quem perdeu tempo à procura de uma prenda em cada viagem, romântico. E o que ele faz às próprias malas? Recorta em mil pedacinhos e manda pela sanita para se desfazer das provas?
Tantas perguntas.
Não me digas que só eu é que estou curioso. Espero que vocês também queiram saber as respostas a isto. E depois ainda há a motivação. Será amorosa? Isto é para concretizar alguma conquista? Isto faz-me lembrar o fado "O Ladrão Enamorado", do Rivolto, em que ele pede à amada para pôr a gargantilha e diz que ninguém precisa de saber que a roubou.
Nunca fui grande ladrão. Nunca dei golpe perfeito. Ai.
Não é um alegado golpe perfeito, de facto.
E de resto, André Ventura já prometeu uma reunião de emergência com o deputado. O que esperas que dê esta história, Pedro?
Olha, André Ventura tem muitos defeitos, mas não é parvo. Acho que ele sabe que a base eleitoral de indignados do Chega não permitiria um perdão hipócrita destes. Portanto, ou há uma explicação estonteante, ou o deputado Miguel Arruda arrisca-se a ser condenado até prova em contrário. Ou isso ou então André Ventura nunca mais poderá gritar vergonha sem que a palavra lhe rebente na própria cara como se fosse o balão de uma pastilha elástica.
Ora e no baú, nem a propósito, queres recordar uma outra história de um deputado também com malas.
Pois é, não é a primeira vez que temos um caso em que se misturam as palavras deputado e mala. O caso mais sonante talvez tenha sido o de António Preto, ex-braço direito de Manuela Ferreira Leite no PSD. António Preto foi apanhado com €150 mil em notas, em malas que lhe foram entregues por dois empresários da construção civil. Isto foi em 2002, numa altura em que António Preto se candidatava à liderança da distrital de Lisboa do PSD contra Rui Gomes da Silva, que agora até anda muito próximo do Chega. António Preto foi apanhado em escutas com os empresários a dizer coisas do estilo: "Uma mala, isso até me assusta." Ou: "Estou aqui a receber o dinheiro, como nunca vi na vida, meu Deus."
E como é que essa história acabou?
A explicação de António Preto é que o dinheiro servia para pagar honorários dele como advogado e que precisava dos €150 mil para pagar do seu bolso as despesas da campanha. Ele ficou a ser suspeito de corrupção, tráfico de influências, fraude fiscal, falsificação de documentos. Foi absolvido de tudo, repara bem, em 2016. Portanto, um caso que começou em 2002 para 2016 é fazer as contas, está 14 anos à espera dos tribunais.
E posto isto, vamos à infâmia?
Vamos
E na infâmia, Pedro, queres falar de Moçambique. De resto, tu e o João Porfírio estiveram lá na semana passada em reportagem para testemunhar a crise política e social no país durante a tomada de posse do presidente que ganhou oficialmente as eleições, Daniel Chapo, da FRELIMO. Quais são as infâmias que nos trazes aqui, que nos queres destacar?
Primeiro, dizer que as infâmias são agravadas por Moçambique ser tratado como um país esplendoroso em recursos naturais, beleza das paisagens e nas pessoas, que são de facto especiais.
E o que é que mais te impressionou naquilo que encontraram?
Impressionou-me muito a desfaçatez impune do regime. Eu estou a tentar medir bem as palavras. Uma coisa é nós sabermos que a polícia bate e mata, outra coisa é vermos ao vivo que não têm problemas nenhuns em fazer isso à vista do mundo. Eles não se importam que estejam jornalistas a assistir. Isto foi muito evidente no dia da tomada de posse oficial de Daniel Chapo. Com o descontrole das autoridades, ele ia disparar dezenas de tiros para o ar, de cabeça perdida, para tentar reprimir manifestações onde estavam poucas dezenas de miúdos desarmados. Atenção à desproporção. Eles puseram uns alto-falantes nas avenidas principais de Maputo para o povo ouvir os discursos, mas praticamente não havia povo. Os poucos populares que ousaram ir até junto da Praça da Independência para se manifestarem eram claramente indesejados. Os polícia avançavam em bloco, com cães, para os afastar para cada vez mais longe da cerimónia. E é num destes momentos que dá aquela cena incrível da senhora Venilda Mondlane, que recusa mexer-se. Ela diz que não está a fazer nada de mal, não tem nada que se mexer dali. E vem então um comandante que perde a paciência e lhe dá aquele estalo violentíssimo, mesmo sabendo que está a ser filmado por repórteres internacionais.
É uma cena muito impressionante e deu a volta ao mundo. Depois tu e o João Porfírio falaram com ela lá em Maputo.
Sim, é verdade. Nós assistimos à cena, depois perdemo-la ali no meio daquilo tudo, mas fomos à procura dela no dia seguinte. E para cada infâmia, há o esplendor do heroísmo. A senhora de facto teve enorme coragem e foi compensada no dia seguinte com a oferta de uma pequena fortuna em donativos. As pessoas descobriram o número de telefone dela e começaram a transferir dinheiro pelo sistema moçambicano equivalente ao nosso MB Way. Vimos pessoas a abraçá-la na rua, com o trânsito a parar para a cumprimentar, para a abençoar e para fazerem fotos com ela. Vimos até uma senhora dona de uma loja que a foi abraçar e depois lhe quis oferecer uma blusa. Assistimos a tudo isto, de facto, encantados. É uma senhora humilde, vive com os dois filhos, divide uma casa de banho com nove pessoas de outras três casas do mesmo bairro. Ela trabalha a vender comida na rua. Nessa pequena conversa que tivemos com ela, perguntamos-lhe como é que ela gostava de ocupar o tempo e ela respondeu a cantar esta música. Uma mistura espetacular feita aqui pelo nosso sonoplasta Artur Costa.
Muito bonito.
É bonito, mas a história de Venilda não está a ter um final feliz. Venilda juntou-se a uma manifestação para ir à casa do comandante que a esbofeteou e depois acabaram todos por fugir quando um aнтiado do comandante, que também é polícia, foi buscar uma arma e disparou os tiros. No dia seguinte, começou a circular o rumor de que Venilda tinha sido assassinada. Nós acabamos por confirmar que não foi, que estava viva ainda, mas de facto a polícia tinha ido à casa dela e ela teve de fugir com medo. Não salvou aquele estalo e aquelas duas bastonadas, como ainda tem de andar em fuga, com medo que a matem. Seria muito estúpido fazerem-lhe mal, mas pelos vistos, por aquilo que temos visto em Moçambique, não é impossível.
Também contaram a história do pastor que terá sido o primeiro preso político no mandato de Daniel Chapo, o pastor Marcos Chambule. Foi detido depois de ir a um evento religioso onde estava o Presidente da República a dizer que devia devolver os votos roubados.
Pois é, logo no primeiro dia completo de Daniel Chapo como presidente, aconteceu esta cena extraordinária. Um evento religioso sobre arrependimento etc. E foi lá este pastor e disse-lhe isto. Disse-lhe que ele não estava a mostrar arrependimento e, portanto, que o arrependimento aqui era devolver os votos roubados, isto numa alusão à fraude eleitoral em Moçambique. Então não fizeram mais nada, prenderam o pastor e detiveram-no ao longo de sete horas. Ele foi interrogado por quatro grupos de pessoas, 14 pessoas ao todo, e só o deixaram sair depois de ele gravar um vídeo, deixar claro para o Presidente da República, o vídeo foi gravado pelo telemóvel do comandante da polícia, para ele deixar claro ao Presidente da República que não era para o confrontar a ele pessoalmente. Só assim é que o libertaram. É uma história impressionante, que demonstra mais uma vez que aquilo que acontece em Moçambique não é normal. Há uma simulação de uma democracia, mas isto é uma coisa impensável noutro qualquer país.
Pedro, o vosso primeiro trabalho em Moçambique foi passar dois dias com o Venâncio Mondlane, o autoproclamado presidente do povo, no seu esconderijo em Maputo. Pode ser a solução política para o país.
Pois é, começámos por aí, pelo impacto que ele tem na população. De facto, quando ele fala, é ouvido, ele comunica com as pessoas. Agora que já está em Moçambique outra vez, mas antes, durante os dois meses que esteve no exílio, através das lives, as famosas lives nas redes sociais, que são diretos, conseguem atingir grande alcance. O povo escuta-o em tudo aquilo que tem a ver com paragens, greves, enfim, tudo isso. Para se deslocar a manifestações, não tanto. Ele apelou a grandes manifestações agora nestes três dias. Isso não foi correspondido, ou as pessoas tentaram, mas foram travadas pela polícia. Isto barra-se sempre aqui na questão das armas. Ele tem, de facto, uma grande base popular de apoio, mas não consegue encontrar formas de depois levar isto à prática para derrubar o regime. Não conseguiram encontrar uma maneira de chegar ao Palácio da Ponta Preta e isto extremou-se agora. Ele decretou 25 medidas, que já passaram a 30, aliás, para os primeiros 100 dias de governo, e uma das medidas é o olho por olho. O olho por olho indigna muita gente, obviamente, aqui na Europa, seguramente. Em Moçambique não indigna assim tanto, mas aquilo que ele defende é que para cada civil assassinado, para cada popular assassinado, as pessoas devem ir à procura do polícia que fez os disparos e matá-lo. Isto é chocante, por várias razões, porque isto presta-se a todo o tipo de injustiças, mesmo sabendo que na origem disto está a tentativa de reparação das injustiças iniciais, que é das pessoas que vivem indefesas a ser assassinadas pela polícia. Vamos ver como é que evolui a situação em Maputo, mas este apelo a olho por olho não augura que as coisas venham a pacificar-se tão já. Aliás, pelo contrário, parece que faz o país entrar no pronúncio de uma guerra civil. Vamos ver como é que isso evolui. Em Moçambique não está a ser visto desta maneira. As pessoas queixam-se da impotência que sentem, que não têm alternativa, mas também como vimos no caso da Venilda, que foi lá à casa do polícia manifestar-se. Como há um desequilíbrio gigante entre quem tem as armas e quem não tem, na verdade Pode acabar em as pessoas que vão à procura de fazer esta justiça pelas próprias mãos acabarem por ser também atingidas e feridas ou aumentar o número de vítimas. Entre as outras figuras políticas do país, há uma figura com alguma importância, com quem nós também falámos, que é Albino Forquilha. Albino Forquilha é o líder do Podemos. O Podemos é o partido que apoiou Venâncio Mondlane na sua candidatura presidencial e eles tiveram uma zanga pública, que acabou com Venâncio Mondlane e o seu braço direito a acusar este Albino Forquilha de ser um traidor. Por quê? Porque ele quis tomar posse como deputado, achou que tem uma via pacifista, digamos assim, ou pelo menos é o argumento que ele dá, para tentar negociar com a FRELIMO e ver se consegue, de alguma forma, resolver isto. Este Albino Forquilha transformou-se na pessoa mais odiada de Moçambique. Começaram campanhas extraordinárias, uma a dizer que ele se estava a vender, portanto estava a vender a causa, e então as pessoas começaram a transferir-lhe um metical. Um metical não é nada, é uma bagatela, mas a transferir-lhe um metical pelo tal sistema equivalente ao MB Way, ele recebeu 18 mil meticais por esta via. Um dia acordou, estava cheio de mensagens, pessoas a mandar-lhe um metical e a chamar-lhe precisamente traidor. Já mandaram duas vezes bombas pra casa dele, é insultado e tudo e mais alguma coisa na rua e admite mesmo que se sente o homem mais odiado de Moçambique. Nós conseguimos falar com ele, porque o encontrámos por acaso no hall de um hotel, porque andámos uma semana inteira atrás dele. Conseguimos de facto entrevistá-lo e antes da entrevista, ele posou para umas fotos pra nós e pedimos para ele se sentar ao piano. E então tivemos esta imagem extraordinária, que eu convido os nossos ouvintes a ouvir uma imagem, que é este homem ao piano, num hall de hotel, sozinho, a simular que está a tocar piano e a cantar. Temos aqui um excerto desse som.
Mas era ele que estava a tocar?
Era ele que estava a tocar, claro, é ele que está a tocar sozinho no hall de hotel. O homem mais odiado de Moçambique, sozinho no hall de hotel, a tocar piano, Albino Forquilha. Não sei qual vai ser o papel dele na solução da crise neste país. É algo que vamos obviamente tentar continuar a seguir com muita atenção nos próximos tempos.
É uma grande imagem sonora para terminar este "O Esplendor e a Infâmia", sempre com Pedro Jorge Castro. Estás de volta pra semana, Pedro?
Espero que sim.
Contamos contigo na próxima quarta-feira, depois das 17h.