Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Bem-vindo, Pedro, a mais um Splendor e Infâmia. Tendo em conta que estamos neste período de verão, de férias para muitos de nós, foi difícil escolher temas esta semana?
Olá a todos. Nada difícil, há tanta coisa a acontecer. Ou seja, poderia ser difícil se não houvesse quase nada. Apesar de tudo, continua a haver muita matéria-prima.
Já lá vai o tempo da silly season.
Pois é, este ano acho que isto não vai parar. E vêm as autárquicas, portanto estou ansioso que comecem os debates aqui na Rádio Observador. Mas até vou abrir uma exceção e vou regular os suplentes, que é temas que tiveram quase aqui à beirinha de ser mais desenvolvidos e não vão ser, mas que também eram evidentes. Então no Splendor, Trump, com os seus methods, mas da próxima vez que nós nos questionarmos na Europa como é que é possível ele ganhar as eleições desta maneira, podemos lembrar exatamente o que aconteceu esta semana.
Apresenta resultados.
A forma como ele conseguiu, com esta tática negocial de ameaçar com tarifas de 30% e nós ficarmos contentes por serem só 15. Caramba, não havia nada. Eu sei que a resposta pragmática a isto é: isso seria sempre difícil de resolver e portanto isto é menos mau do que poderia ter sido. Mas há um argumento que se usa, que é o da estabilidade. Estabilidade? Mas qual estabilidade com Trump? Não é verdade que haja qualquer espécie de estabilidade ou que isso possa ser entendido como um valor, porque ele pode mudar de ideias a qualquer momento e fazer outra ameaça e ficarmos outra vez neste cerco. Bom, isto era um suplente para esplendor, mas irrita-me demasiado como se nota que até já me estou a extender demasiado. E para infâmia, há umas propostas de alteração recentes, nomeadamente a exigência das mulheres exibirem um atestado em como estão a amamentar logo no início do processo. Também a questão do luto gestacional. Atualmente, quem perde um bebé tem direito a três dias sem ir ao trabalho e parece que há a intenção de alterar isso. Mas são temas, de facto, que me estavam a irritar, como se nota agora, então fui para outras coisas mais relacionadas com a tarde política e vamos a elas.
Então vamos lá conhecer o Splendor.
Vamos então a esse esplendor. Vais focar-te no secretário-geral do PS, José Luís Carneiro, que acaba de completar um mês no cargo e vai hoje reunir-se com o Primeiro-Ministro, Luís Montenegro. O que é que destacas aqui de esplendoroso?
Já perceberam que às vezes os esplendores estão cheios de infâmias pelo meio. Está tudo meio alterado.
É mais ou menos como o Ivanceloré que também há notas negativas.
Exato. Mas aqui há coisas realmente esplendorosas, ao contrário daquilo que tem sido por aí propalado. Eu acho que há um mérito de ele conseguir mostrar que consegue juntar tanta gente. Noventa e quatro pessoas, para já, and counting. Ou seja, presumo que ele tenha tido algumas tampas, até gostava de saber de quem, e que haja pessoas que não se comprometeram para já, ele deu a entender isso, que prometem aparecer lá mais para a frente. E ele não tem nada para oferecer. Ele não tem poder, nem sequer o poder de líder da oposição, ou seja, o poder de convocatória que ele consegue demonstrar nestas condições, a mim espanta-me. Claro que depois entramos noutro campeonato, que é ele promete que este órgão vai reunir de três em três meses. Eu imagino Augustine Silva regressar aos seus tempos de presidente da Assembleia da República, juntar 94 pessoas. Quantas destas 94 pessoas é que de facto vão aparecer de três em três meses numa reunião? O que é que vai sair daqui? E na verdade, eu acho que ele está a criar 94 problemas. Cada vez que alguma destas pessoas tomar uma posição contrária ao PS ou em dissonância com aquilo que é a linha oficial do partido, vai ser notícia, lá vai dar um ar de cisão. Mas neste momento, um partido que estava mais à beira da guerra civil, o que se nota ainda em certas temáticas de política nacional e nomeadamente até nas presidenciais, de forma muito evidente, ele silenciosamente, com aquele ar de carnal , vai conseguindo na substância manter as pessoas unidas, mesmo de fações opostas, na direção dos vários órgãos e vai conseguindo amarrar estas pessoas todas ali institucionalmente. Se o navio for ao fundo, vão todos lá dentro alegremente. Mas pelo menos vão juntos. E eu acho que isto mostra qualquer coisa subterrânea que nós não conseguimos ver ao olhar para José Luís Carneiro. Eu acho que ele tem vários problemas de falta de carisma. De facto não mobiliza as pessoas, eu não sinto isso. Não vejo que ele consiga cativar muitas pessoas e que as pessoas saiam todas de casa atrás dele e estejam ansiosas porque ele tome o poder. Mas em termos subterrâneos, vejo aqui qualquer coisa, vejo aqui uma capacidade de lider, uma paciência, nem imagino a quantidade de cedências que ele tem que fazer a uns e a outros para conseguir isto. E só mais uma coisa esplendorosa, saiu uma sondagem na semana passada que até dá um resultado muito favorável ao PS, quase um empate técnico à AD, dá-lhe números de uma taxa de aprovação bastante superior à que tinha Pedro Nuno Santos. Portanto, isto se calhar a bolha vê coisas diferentes daquilo que vê o resto da população e pode estar aqui a trilhar-se um caminho silencioso. Isto não é impossível que lhe corra bem, ou seja, não é absolutamente impossível que ele consiga ganhar Porto ou Lisboa. No Porto pelo menos há um empate técnico nas sondagens, vamos ver o que é que vai dar. Em Lisboa é tudo muito imprevisível, embora me parece que Carlos Moedas vai com vantagem, mas não creio que esteja feito. Se ele ganhar uma destas duas Câmaras, se conseguir aguentar no resto do país e depois nas presidenciais, se mantiver este cenário, ou seja, ele chutou a decisão sobre o apoio oficial do partido para depois das autárquicas e arrisca-se a escalá-la já com isto resolvido, na verdade. Ou seja, sem o odioso que lhe traria assumir já o apoio a António José Seguro e ver isso transformado numa inevitabilidade, reforçada ainda para mais pelas sondagens e pelos adversários de centro e direita Que se parecem multiplicar desta forma e com esta multiplicação não é impossível que o André Ventura consiga ficar em segundo lugar, que é uma coisa que eu aqui há uns meses acharia bastante improvável. E depois eu acho que numa segunda volta o Almirante pode ter alguns problemas, já vamos a isso na Infâmia. Deixe-me só dizer, apesar de tudo, acho que não é uma boa escolha Santo Silva para presidir este órgão. Ele diz que auscultou várias pessoas que lhe transmitiram isso, mas isto dá uma imagem que eu acho que não lhe fica bem. Santo Silva é um derrotado neste momento. É o presidente da Assembleia da República que não conseguiu ser eleito, não tem uma imagem nada conciliatória, pelo contrário, é das pessoas mais impopulares que o Partido Socialista podia ter para apresentar nesta altura. 40 e tal ex-governantes, um do CDS, ok, não conta, vamos descontar isso.
Filipe Lobo d'Ávila.
Muita gente que já teve a oportunidade de mostrar, de apresentar serviço. Claro, essa experiência é importante, é válida, mas fará sempre lembrar também o pior que tiveram os governos socialistas. Mas ele assinala as figuras da sociedade civil, acho que isso rivaliza quase com aquilo que Luís Montenegro, estando no poder, consegue ter ou atrair para o governo. Se fôssemos fazer uma seleção destes nomes para um governo, não creio que ficássemos, em termos comparativos de currículos, atrás daquilo que conseguiu Luís Montenegro estando no poder. Sobre o José Luís Carneiro é isto, eu acho que há aqui uma dicotomia entre a postura que ele tem e a falta de carisma e os resultados que vai apresentando. Vamos ver como é que isto vai evoluir.
Vamos lá então à Infâmia, claro. Neste segmento quero-lhe destacar o artigo de Enrico Venemel, publicado hoje no Público, com o título "Prioridades para uma agenda mobilizadora". Qual é a infâmia aqui?
Coitado. Parece que é uma coisa gravíssima e não é bem assim. Mas posso te assegurar que isto aconteceu mesmo, eu bocejei três vezes ao ler este artigo. Tive mesmo que ir beber um café, de tão previsível que ele é. Esperar-se-ia um pouquinho mais de alguém que vem de fora. Qual é o problema? O Enrico Venemel esteve este tempo todo sem fazer nada e no topo das sondagens. E agora está em perda. Quanto mais ele faz, mais perde. Quanto mais se expõe, menos garantida parece esta vitória nas presidenciais que o levou a chegar-se à frente. E lemos este artigo e isto é uma sucessão de banalidades. Não há aqui um rasgo. Ele diz "prioridades para uma agenda mobilizadora" e nem sequer consegue fazer um artigo mobilizador. Isto é um bocadinho preocupante. É tudo com o objetivo de não arriscar nada, perder o menos possível, cada linha a tentar garantir que não perde votos. E assim, se calhar, arrisca-se a não ganhar nenhum. Há muita gente que estará indecisa e que estará a olhar com atenção para as propostas do Almirante e para aquilo que o Almirante pensa e se propõe a fazer. E destes três problemas, claro que são gravíssimos, habitação, saúde e imigração, de todos os debates que tem havido, das pessoas que tem ouvido, das pessoas com quem pode conversar, aquilo que ele tem para dizer não é nada muito diferente daquilo que nós vimos até este momento. É uma constatação de que o que está, está mal, mas não há nenhuma medida nova, nenhum rasgo, nenhuma ideia que seja absolutamente surpreendente. E sobretudo, parece-me tudo dentro deste ano da magistratura e influência, que é aquilo que o Presidente da República pode fazer, não me parece que ele consiga com isto cativar muita gente. Ainda tem esta dicotomia em relação aos privados, por um lado, a defesa dos privados na habitação. E claro, correu tão mal o aventar desta hipótese pelo governo de António Costa, que ele quis deixar claro que isso não acontecia, mas depois acusa os privados de estarem a sugar os meios do SNS, quando, se calhar, o problema está na forma como é gerido o próprio SNS. Mas um homem que até nisto, aquilo que toda a gente lhe aponta como grande feito é a gestão do processo de vacinação. Ele conheceu, espero eu, o sistema público por dentro. E daquilo que se vê aqui, não surge nada, não há uma luz, um olhar mais conhecedor daquilo que se viu no SNS. Ou se há, traduz-se nestas banalidades, como os privados é que têm a culpa do estado em que está o SNS, quando na verdade, como sabemos, os médicos vão para os privados precisamente por falta de condições nos públicos. Acho que está aqui a começar-se a desperdiçar uma enorme bolha de esperança que havia para uma parte significativa dos portugueses de que este candidato, completamente fora do sistema, pudesse ser um garante de um pensamento mais original e reflexivo sobre aquilo que se pode esperar dele na presidência da República. Não estou a ver isso de todo.
Com reflexos também nas sondagens, neste caso. Ainda trazes um baú, deixa lá ver se temos tempo.
Temos, mas pouco.
Em dia de alerta de tsunami no Pacífico, trazes uma história peculiar sobre uma história de um tsunami português, é o de 1755.
Como é que adivinhaste? Por acaso, não teria de ser, porque eu estive à procura disto Um trabalho científico do Miguel Miranda, antigo presidente do IPMA, e de Maria Ana Batista, tem um catálogo dos tsunamis portugueses. Eles identificam 17 tsunamis em Portugal desde o ano 60 a.C. Ainda nem era Portugal, mas aqui há voltas neste território onde agora estamos a fazer esta emissão. Mas sim, o de 1755, claro, é o mais impactante. E há este relato que eu acho extraordinário, porque foi feito em cima do acontecimento pelo núncio apostólico, o embaixador de Roma, que estava em Lisboa, escreveu e mandou ao Papa. Esta documentação foi encontrada no arquivo secreto do Vaticano pelo monsenhor Arnaldo Cardoso e está reunida em livro. Olhem só este relato espetacular. Parece que é feito em direto, mas transposto numa carta. "Sábado, festa de Todos os Santos, às 10 horas de França, surpreendeu-nos um terramoto que destruiu Lisboa toda em oito minutos. Acendeu-se logo o fogo, que queimou muitíssimas casas e passando de uma à outra, percorreu toda a cidade e dura ainda, está mesmo muito próxima da minha e vê-se que não há remédio até que tudo passe pelo fogo." Isto parece quase um direto de rádio. Mas transposto para uma carta que só chegaria meses depois ao destino. Eu acho isto absolutamente espetacular. Depois descreve a destruição da Patriarcal, do Palácio Real, e que em Belém arruinou o Palácio Real e o rei escapou em camisa e dorme no campo numa carroça e está de dia na tenda com toda a família real. Mandei pedir-lhe uma tenda, mas ele mandou responder que não a tinha.
Muito bem, fica aqui esta história. O Pedro Jorge Castro vai sempre ao baú buscar histórias surpreendentes, mesmo com sismos que são conhecidos, no caso este de 1755 ficou conhecido, claro, de todos nós, está na história. Pedro, para a semana estás de volta, quarta-feira.
Respeitei o tempo. Não estarei quarta, vou-vos propor uma antecipação para terça-feira. Vamos ver como é que se porta.
Fica na terça. "O esplendor e a infâmia" na próxima terça-feira e fica, claro, sempre disponível em podcast.