Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Amanhã à tarde há debate quinzenal, por isso esta semana o Esplendor e a Infâmia chega um dia mais cedo à tarde política. Já está aqui conosco o Pedro Jorge Castro, diretor adjunto do Observador. Bem-vindo, Pedro, como estás?

Estou bem. Só me fizeram uma promessa.

Então.

Que é: por muito que discordem do que eu for dizer a seguir, não me virem as costas, se for possível. Fica estranho.

Não dá jeito, até por causa do microfone.

Exatamente. É isso.

Já estás aqui a dar pistas sobre um dos temas que aí vem. Vamos começar então pela infâmia. Começamos então pelo virar de costas de Pedro Delgado Alves. Pedro, qual é exatamente a infâmia que fez aqui? Um gesto mal-educado na assembleia ou o discurso de Aguiar Branco que motivou essa atitude do deputado socialista?

Muito bem posta a pergunta.

Estava aqui escrita . Foi o que eu li, pronto, que estava aqui.

É mesmo isso. Repara, no nosso passado político recentíssimo, que toda gente tem na memória, não é preciso ver arquivos históricos, não é preciso ir ao baú, temos um primeiro-ministro que ainda está a ser julgado por corrupção, temos um ministro da Economia que recebeu uma avença do BES, temos um governo de maioria absoluta dinamitado depois de três secretários de Estado e governantes terem tido casos complicados em termos de transparência e depois fui saber que o chefe de gabinete do primeiro-ministro tinha €75 mil em notas. No gabinete ao lado dele, em São Bento, temos um primeiro-ministro, o atual, que teve de ir a eleições de novo por causa de suspeitas sobre a sua empresa, a Espirum Viva, tem ainda as obras da casa mal explicadas, também com algumas suspeitas. E num contexto destes, ver o presidente da Assembleia da República elencar aqueles motivos como razões para não conseguirmos atrair os melhores para a política é um bocadinho chocante, deixa-me dizer-te. Pelas duas razões em si. Na verdade, o que ele dá a entender é que os melhores não estão disponíveis para ir para a política porque não estão disponíveis para entrar num reality show. De certa forma é isto. Dando a entender que o nível de escrutínio é elevadíssimo e que ninguém está para se sujeitar a isso. Se não estão para se sujeitar a isso, não são os melhores. Logo, para mim, este é o ponto de partida básico. Admito que os políticos são mal pagos e que isso sim é uma questão que eles não conseguem discutir sem ser envolvida num manto de populismo e, portanto, ninguém quer levantar isso. O tempo que demoraram para eliminar o corte dos vencimentos dos políticos é sintoma disso mesmo, mas eu também não espero que alguém vá para a política por dinheiro. Também não serão esses os melhores, seguramente. Aliás, quem analisar um bocadinho da história política recente do país vê que mesmo quem se interessa por dinheiro e por ganhar dinheiro, sabe que o dinheiro vem depois de eventualmente exercer um cargo político, depois é que acabam por ser convidados para conselhos de administração, onde são muito mais bem remunerados e a contraparte disso é facilitar os contactos que acumularam durante o exercício do poder. Mas eu espero que os melhores sejam aqueles que vão por convicção. Pode ser por ego também, claro, é preciso ter uma grande dose de ego de que se vai conseguir contribuir para fazer alguma coisa pelo país, para mudar alguma coisa, para melhorar as condições de vida dos outros. E não há nada mais nobre do que isso, na verdade. Isso é motivo suficiente para as pessoas irem para a política e eu espero que seja esse o principal aliciante para as pessoas se candidatarem a isto. Quem tem medo do escrutínio, quem não está para prestar contas sobre algumas coisas que tenha feito, quem não quer indicar os conflitos de interesses que tem, quem receia tudo isto, simplesmente, lamento, não tem as características para desempenhar as funções políticas da melhor maneira para todos. Logo no dia a seguir a isto, dois dias depois, viemos a saber essa história de Álvaro Santos Pereira, que eu até já elogiei aqui pelas suas partilhas de serviço público no X sobre outros temas. E ficamos a saber esta história extraordinária de ele ter feito os negócios de ações, ter comprado ações da Galp e da Jerónimo Martins dois meses depois de ter tomado posse deste cargo. E este é um caso que pra mim há aqui qualquer coisa mal explicada, porque custa-me mesmo a crer que ele não soubesse ou que não tenha tido noção do problema que estava aqui. Há de haver uma explicação qualquer que se calhar ainda é pior do que isto. Na verdade, atenção, porque eu percebo que lhe fique mal vir dizer: "Olha, eu não sabia, fui surpreendido e já está resolvido." Neste momento, para já, esta é a verdade oficial. Eu acho estranho que ele, que estava tão participativo nas redes sociais, não tenha vindo já com um estudo sobre precisamente o nível de transparência dos governadores de bancos centrais ou algo desse género. Mais tarde ou mais cedo ele vai ter que dizer alguma coisa sobre isto. Estranho muito. Não sei se está de férias, o que é que pode ser. É impossível continuar na vida pública sem dar esta explicação, por muito que custe e que tenha esses efeitos depois no resto da sua credibilidade. Vamos agora ao gesto de Pedro Delgado Alves. Foi ridículo? Foi. Aquela imagem dele de costas e ver o Pedro Nuno Santos assim a olhar de lado, a tentar desviar-se para ver o caminho, a cara de Isabel Moreira também, ambos meio incrédulos, mas se calhar até com uma pontinha de inveja de não terem sido eles a fazer aquilo. Expôs-se, de certa forma, ao ridículo, sim.Diria quase para sempre, a possibilidade de acusar o Chega de faltas de educação no plenário. Se toda a bancada do Chega agora de repente decidir virar-se de costas, seja para quem for naquele plenário, alguém vai estar ali a dizer piu piu, não pode criticá-los por essa conduta, porque lhes será logo apontado o dedo. Portanto, foi ridículo, foi falta de educação, sim, eu percebo que seja interpretado dessa maneira, mas é o mundo em que vivemos neste momento. Aquilo foi a forma dele de chamar a atenção. Claro que ele poderia ter vindo falar disso depois, em declarações cá fora.

Não teria o mesmo impacto.

Não sei se teria direito a um artigo de opinião no Público no dia a seguir, não sei se se viria ao explicador na manhã seguinte falar sobre isso, se calhar nem nos iríamos aperceber. Assim, ele marcou um ponto de uma forma indubitável. E no ponto, ele tem razão. Independentemente dos pecadilhos dele no percurso da luta pela transparência, dos momentos em que foi menos claro nesse debate e nas propostas que fez, ele tem razão no ponto da exigência, do escrutínio, da transparência. Nós não podemos abrandar nisto. Eu creio que ninguém compreenderia, no estado em que nós estamos, no estado em que está a nossa democracia, com esta sequência de casos, que se diga que a redução do escrutínio é que vai fazer com que venham pessoas melhores para a política. O problema não está no escrutínio, está naquilo que o escrutínio encontrou. O problema está nestes casos todos que foram encontrados. Portanto, tendo arriscado um gesto que pode ser visto desta maneira ridícula, acho que há aqui um ponto que ele tem na questão de princípio. Claro que isto vai persegui-lo o resto da vida. Assim que ele for apanhado em qualquer coisa, lá está: o deputado que virou costas, afinal, tinha ali qualquer coisa a esconder. Mas eu acho que ele tem razão no essencial aqui e Aguiar Branco não tem razão nisto. Acho que ele está a ver mal o ponto. Tudo a favor de atrair os melhores para a política, mas se isso implicar coisas esquisitas e facilitar portas giratórias e tudo isto, acho que estamos mal.

E vamos agora ao baú, a propósito do atirador detido quando se aproximava de Donald Trump no jantar dos correspondentes. Trazes aqui a história de um português que esteve preso por suspeita de tentar matar um presidente norte-americano. Já me deixaste curiosa, conta-nos tudo sobre isso.

Recuemos a 1865.

Gostas de recuar muito. Vamos ao baú, ao fundo do baú.

Foi mesmo. É o ano em que Abraham Lincoln foi assassinado por um ator no seu camarote. Estávamos mesmo no fim da Guerra Civil Americana, ele estava a assistir uma peça de teatro, achava que já estava praticamente ganha a guerra. À mesma hora, outro conspirador entrava em casa do secretário de Estado William Seward para o apunhalar e dias depois foi então preso o português João Maria Celestino, também conhecido como Capitão Celesto, 38 anos. Há imagens da época que o mostram com um bigode imponente e um chapéu. E esta detenção, a mando do chefe dos serviços secretos americanos, foi notícia no The New York Times. Este Celestino, a ocupação dele era comandar uma embarcação que tentava furar o bloqueio naval imposto aos estados do Sul na Guerra Civil Americana, para os abastecer de bens comerciais. Há relatos que o apontam como traficante de escravos, mas também descrições de que andava a passear a cavalo pelas ruas de Washington em grande estilo, com o corpo carregado de ouro. Ele conhecia dois dos conspiradores que andavam a fazer planos para eliminar o presidente americano e na noite do atentado, horas antes de matarem o secretário de Estado e de matarem Lincoln também, ouviram o capitão Celesto a dizer que queria matar o secretário de Estado americano. Ouviram isto. Ele estava a caminho de Filadélfia, foram prendê-lo a Filadélfia, esteve 82 dias preso em solitária, em condições bastante severas. Ele tinha de usar um gorro almofadado apertado no pescoço, isto para não se matar, porque outro dos conspiradores tinha desatado a dar cabeçadas nas grades e suicidou-se. Estes prisioneiros tinham também preso aos tornozelos uma bola de ferro de 34 quilos, que tinham de arrastar de cada vez que se movimentavam. Isto é bastante impressionante. Quatro dos conspiradores foram enforcados, o português safou-se. Os detetives não conseguiram provar a sua ligação ao crime, mas frisaram que ele era perfeitamente capaz de conspirar contra o presidente. O capitão Celesto pediu uma indemnização de $100 mil, que é uma fortuna gigantesca. Há documentação no arquivo do Ministério dos Negócios Estrangeiros, que indica que de facto ele terá recebido alguma quantia. Também há suspeitas que tenha colaborado com os serviços secretos, dando informações sobre os conspiradores. Isto acabou com ele rico e sendo avistado anos mais tarde em São Paulo, no Brasil. É um belo baú.

Grande história.

E hoje passa um ano sobre o apagão e três meses sobre o início do comboio de tempestades. É um dia cheio de efemérides. Fico por isso intrigado, Pedro, sobre como vais dar a volta a este ponto de partida para encontrar um lado esplendoroso.

Pois é, o ponto de partida é triste, de facto. O apagão dá um ano, ainda estamos aqui a apurar responsabilidades. Ainda nem sequer foi definido juridicamente o que é que aconteceu, o que tem impacto para apurar indemnizações. Das tempestades dá três meses, ainda nós hoje de manhã ouvimos aqui na rádio o proprietário de um restaurante dizer que seis dias depois tinha a papelada toda entregue aos seguros para fazer uma apeitagem, ainda não tem resposta, vai acabar com um processo em tribunal contra a seguradora. Isto não é caso único. Há muita gente que ainda não conseguiu resolver os problemas para pagar os estragos com as seguradoras. Isto para lá das pessoas que estão em sofrimento pela perda de familiares, sejam vítimas diretas da tempestade, sejam as pessoas que caíram telhados. Pois bem, neste contexto, apesar de tudo, há aqui uma luz que eu vi, que é: em 15 freguesias de Leiria afetadas pelo mau tempo, vamos ter concertos do pianista Gerardo Rodrigues em igrejas, auditórios e espaços municipais. Isto é uma ideia do artista, desenvolvida depois em conjunto com a Câmara de Leiria. Os concertos vão ser gratuitos. O próprio pianista paga as despesas, abdica de qualquer cachê, vai apenas haver aqui um custo dos direitos de autor, portanto a Sociedade Portuguesa de Autores vai receber a sua parte. Os concertos começam a 8 de maio, depois prolongam-se pelo resto de maio e junho. E olha, acho tudo feliz aqui. O altruísmo do pianista, o intervalo que vai ser propiciado às populações afetadas, no meio de tantas preocupações, e o próprio nome da iniciativa, que é 75 Minutos de Paz. Acho que merecem todos. Eu próprio vou tentar lá dar um salto a um dos concertos.

É sem dúvida uma iniciativa que para quem tem sofrido tanto nestes três meses acaba por ser importante.

Também sabes bem do que estás a falar.

Claro que sim. O Pedro Jorge Castro regressa na próxima semana com mais um Esplendor e a Infâmia.