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Bem-vindos ao "Esplendor e Infâmia", de Pedro Jorge Castro, diretor adjunto do Observador. Pedro, tudo bem? Bem-vindo. Agora sim, com o microfone. Faltava-te o microfone, não é?
Era.
É um pormenor.
Já trataram das compras de Natal, ou não?
Claro que não. Não, ainda não.
Ainda falta o quê? Uma semana?
É isso.
Muito tempo. Eu também gosto muito de tratar no próprio dia. Tenho sempre uma sugestão às pessoas que é oferecerem assinaturas de jornais. A maior parte das pessoas não se lembra, mas é uma coisa: é útil, é sempre tratado, enche a vista e ocupa muito tempo de qualidade, depois ao longo do ano.
Sim, é um ano garantido de presente.
Pronto. Não tem de ser do Observador, isto não é um momento de publicidade, não pusemos o indicador. Qualquer publicação, seja em Portugal, seja lá fora. De certeza que há muita coisa a ter com promoções interessantes.
Eu sou adepto também desse presente.
O primeiro-ministro já teve o seu presente de Natal.
É verdade.
Nas palavras imortalizadas pelo procurador-geral da República, coisas que não se dizem.
Se bem que estava a responder à pergunta de um jornalista, mas não lhe deu guerra.
Mas as respostas só vinculam quem as dá.
Exatamente. Bom, vamos começar pela infâmia. Pedro, queres falar de Donald Trump e André Ventura? O que é que os liga?
Tanta coisa, Ricardo, mas vamos ficar aqui num detalhe específico.
Tenho a certeza que será surpreendente. Será um detalhe surpreendente.
Num detalhe específico desta semana. Isto vem do debate entre André Ventura e Jorge Pinto. É dita muita coisa, eu ainda tentei ver quantas palavras são ditas por cada candidato e sobretudo por André Ventura num debate, são seguramente muitas, depois acabei por não fazer a conta. Mas ali no meio passou uma referência praticamente despercebida, que foi quando André Ventura estava a elencar Armando Vara, José Sócrates e no meio dos dois pôs o nome de Jorge Coelho. E com o gesto dos dedos a gamar, aquele gesto que nós estamos habituados a ver em estádios de futebol, quando os adeptos acusam os árbitros de estar a roubar a sua equipa. Isto já não é bonito no futebol, mas no debate presidencial, menos ainda. E menos ainda sobre alguém que não era seguramente um santo e tomou muitas decisões políticas criticáveis, mas não há nada que indicie que ele ande a gamar. Não há nenhum processo, nenhuma suspeita, nem sequer vou falar de trânsito nem julgado. Mesmo num sentido lato da coisa, é mesmo uma grande lata estar a incluir este nome ali. E pior ainda, não me parece sequer que tenha sido um acaso. Tratando-se de André Ventura, é muito possível que tenha sido premeditado, que ele ache mesmo que se justifica incluir aqui este nome. De facto, parece-me uma indecência. Nós estamos habituados a ouvir muitas coisas de muitos candidatos, e de André Ventura sobretudo, que vão passando. Esta eu acho que não deve passar desta maneira. Curiosamente, nós estamos a fazer aqui a avaliação dos debates, tanto na rádio, no Ivan Estorei, como no nosso site, calhou-me fazer a avaliação deste debate e eu escrevi mesmo isto, mais ou menos o que estou aqui a dizer, com maior eloquência escrita, claro. Atenção que no debate eu até dei a vitória a André Ventura, apesar disto. Mas referi esta ofensa à memória de pessoa falecida, que me pareceu uma indignidade, e depois, por acaso, fui ver os comentários dos leitores e estava um comentário que eu achei interessantíssimo e que vou aqui dar eco.
Recriuzir.
Exatamente. E o comentário dizia assim: "A habitual palhaçada dos opinadores". Portanto, palhaço sou eu, está tudo bem, não há problema, aqui estou. Um deles até decretou que não se pode criticar falecidos, porque já cá não estão para se defenderem. Portanto, quem disse mal de Adolf Hitler deve pedir desculpa. Começamos com o Jorge Coelho e acabamos com Adolf Hitler. Qualquer comparação entre os dois, nem sequer quando usava bigode havia qualquer tipo de parecença. Isto para mostrar que há muitas críticas às avaliações dos debates, que eu acho também interessantes, estamos cá para isso.
E bem.
Exatamente. Há mais críticas a isso do que propriamente aos debates, e eu acho isso tudo enriquecedor no debate do espaço público.
Então e o que o presidente dos Estados Unidos tem a ver com isto?
Muito bem perguntado. De facto, referi-me ao que liga os dois. O presidente dos Estados Unidos deve estar completamente a oeste das eleições presidenciais em Portugal e dos debates que aqui temos, mas nem de propósito, esta segunda-feira, depois da notícia da morte do realizador Rob Reiner, a quem vamos dever para sempre "When Harry Met Sally", nome em português "Um Amor Inevitável", para o caso de alguém ter dificuldade em encontrar. Um filme com diálogos épicos, com aquela cena da Meg Ryan a simular um orgasmo num restaurante em Nova Iorque. Estava o mundo ainda em choque com a notícia da morte deste realizador, ainda por cima em circunstâncias, aparentemente terá sido pelo filho, que foi detido, que matou os pais. Quando fomos surpreendidos com o comunicado de Donald Trump na sua rede social, na Truth Social, onde uma pessoa já imaginaria que não se limitariam a ser palavras de circunstância, ele não perderia tempo com isso. Mas veio dizer que o realizador faleceu alegadamente devido à raiva que causou aos outros através da sua enorme, inflexível e incurável aflição com uma doença mental incapacitante conhecida como síndrome de desequilíbrio Trump, o Trump Derangement Syndrome. Neste caso, depois ainda apareceram uns quantos republicanos a criticar este post do presidente, coisa que no caso de André Ventura, por exemplo, eu não estou a ver ninguém do Chega que fosse criticar o facto de ele ter incluído Jorge Coelho naquele lote Mas coincidência das coincidências, ontem ficamos a saber que a chefe de gabinete de Donald Trump, Susie Wiles, deu uma série de entrevistas à Vanity Fair agora a dizer que Trump tem a personalidade de um alcoólico e também a explicar e a normalizar estes acertos de contas. Ela diz que no princípio combinou com ele que iriam durar apenas 90 dias, que é uma conversa que eu imagino interessante. A chefe de gabinete a dizer ao Trump: "Atenção, pode fazer estes ajustes de contas à vontade, mas só nos primeiros três meses do mandato e depois suspenso."
Usar o aparelho judiciário para isso.
Claro que ele não parou e continuou. E diz ela: "Nalguns casos pode parecer vingança e pode haver parte disso de tempos a tempos. Quem eu culparia? Eu não." E depois diz: "Não acho que ele acorda a pensar em vingança, mas se houver uma oportunidade, ele irá agarrá-la." E foi o que ele fez, mesmo em cima da hora da morte do Rob Reiner, lá fez ele este comunicado. Já nada surpreende vindo de Trump, mas não pode deixar de nos chocar e não quis deixar aqui de assinalar isto.
Vamos ao lado positivo da vida, vamos ao esplendor. E aqui vamos às presidenciais, começando ainda pelo titular, o presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.
Pois é, uma dúvida que me tem assaltado nestas semanas, que é uma impossibilidade, claro, sabemos que há limitação de mandatos. Mas se Marcelo, porventura, fosse candidato nestas eleições, em que lugar é que ficaria? Não é uma dúvida interessante? Académica, claro, mas interessante.
Uma boa pergunta essa, como se diz. Como o próprio.
Hoje temos a divulgação de uma sondagem no Público, da Católica, que dá ao ainda atual presidente uma avaliação de 72%, portanto 72% de inquiridos que o avaliam positivamente.
Não sei se isso chega para Marcelo.
Certo, dizes isso muito bem, porque Marcelo chegou a ter taxas de aprovação de 95% no início do mandato, e mesmo no início do seu segundo mandato, o que de facto é estonteante. Claro que para ele é pouco, fica seguramente aquém, o que justificará a sua melancolia e tristeza que temos visto e também a falta de mimo eventual que tenho sentido da parte da elite mediática, se quiserem, ou dos comentadores. É muito sensível em relação a tudo isso, mas muito possivelmente, se ele fosse candidato nestas eleições, se calhar dava um bigode a esta gente toda. Ainda, mesmo depois de tudo aquilo que correu mal, mesmo depois do escândalo das gêmeas, das polémicas de dissoluções ou não do Parlamento, há de facto uma diferença, apesar de tudo, com todos os seus defeitos, com tudo aquilo que nós viemos a perceber depois, que foi a sua postura comentadeira de tudo e mais alguma coisa. Mesmo assim, há de facto uma distância grande entre ele e todos os candidatos que estão a ir a jogo nestas eleições. E há outro dado curioso nesta notícia do Público, que é a comparação com a popularidade de Cavaco Silva no fim do mandato também, que era de 48%. É bastante superior no caso de Marcelo, o que não deixa de ser um dado interessante. Há várias notícias sobre Marcelo, entretanto. Ele voltou a falar ontem à sede da Gulbenkian, com dois factos relevantes. Um, que vai abdicar da pensão a que teria direito por ter sido presidente da República, vai continuar a receber a pensão que tinha anteriormente. E a outra é não vai decidir ele próprio sobre o gabinete, vai deixar para o que seja o seu sucessor a tomar a decisão sobre se ele tem direito a gabinete ou não e onde é que será.
Os presidentes têm direito a gabinete.
No caso, nem parece que faça muito sentido essa diminuição. Ainda era o que faltava, vermos o futuro presidente a dizer que não tem direito a gabinete nenhum, o que até nem seria impossível com certos candidatos a terem a vitória. Vamos ver o que é que sai daí.
E em relação aos debates, achas que têm ajudado a esclarecer os indecisos?
Acho que têm ajudado, sim. Não sei se têm esclarecido os indecisos, mas têm ajudado, pelo menos que têm vindo daqui contributos muito sólidos para isso. De facto, faz diferença vê-los ali frente a frente, ver a forma como eles lidam com a tensão dos debates. Um debate permite ver muitas coisas. Como é que cada um se preparou. E nós vemos que há candidatos que aparecem ali sem nada de especial preparado e há outros que levam uma linha preparada, independentemente daquilo que o moderador diz, não é isso que está em causa ali. As pessoas podem ver se eles levam alguma coisa preparada, como é que lidam com a pressão e com a tensão, como é que lidam com o inesperado que o adversário lhes diz. E na verdade, isto vai ser muito mais fácil, apesar de toda a dificuldade que nós estamos a ver, do que muitos dias que eles vão ter no gabinete. Eu acho que é muito útil nós vermos e tentarmos transportar isto para as reuniões mais tensas que terão, as reuniões mais difíceis, o golpe de risco que têm num determinado momento, a criatividade, a postura. E eu acho que estamos a ver o facto de cada candidato estar a ir a sete debates. Quem se interessa mesmo por isto, apesar de tudo ainda há algumas pessoas que se interessam, conseguem vê-los em sete momentos de tensão e eu acho que isto vai ser útil. Depois vem aí uma quadra muito especial em que vamos ter muitas famílias reunidas. Eu tenho muita gente à volta que está indecisa entre três candidatos. Numa mistura de famílias e com um dos candidatos a pedir aos netos para falarem com os avós e para apelarem os avós, o que também não deixa de ser interessante. Eu acho que vai haver algumas conversas interessantes à mesa da consoada. Será um tema inevitável e vamos ver o que é que vai sair daí, quem é que vai ser presenteado com mais votos por via disso.
E vamos ver que presente tiras hoje do baú. Queres oferecer-nos uma pista de carrinhos de Fórmula 1, é isso?
Como adivinhaste, Carlos?
Tu sabes tocar no meu coração.
Tu já estás entrosado com isto. Trocas o nome à rubrica de vez em quando. Sempre para o bem.
Mas isso é carinho.
É carinho. "O Esplendor e a Glória" e "A Infâmia". Vamos aproveitar este anúncio do regresso da Fórmula 1 ao Algarve em 2027 para recuar ao primeiro Grande Prêmio de Fórmula 1 em Portugal, que foi no ano de 1958, em circunstâncias muito surpreendentes. Foi num circuito urbano, na Boavista, no Porto. Os carros, que eram muito diferentes daquilo que são hoje os carros de Fórmula 1, iam circular num percurso de cerca de sete quilômetros com casas, linhas elétricas, postes, praticamente sem rails nem proteção. O vencedor foi Stirling Moss, ao volante de um Vanwall VW5 com 252 cavalos. E se calhar um dos episódios mais pitorescos é que este piloto que venceu acabou por testemunhar a favor do segundo classificado, Hawthorn, com quem ele estava a rivalizar pela conquista do campeonato desse ano, e que foi penalizado por ter feito uma marcha à trás em pista. E Moss, o vencedor, testemunhou a favor do rival, explicando que ele não tinha feito nada de errado e portanto ele conseguiu preservar os pontos, que depois seriam muito importantes para a competição desse ano. O vencedor circulou à estonteante velocidade de 170 km/h.
Naquelas condições?
Sim, no centro do Porto.
Naquelas latinhas com 252 cavalos no centro do Porto.
Deve ter sido interessante.
Era preciso ter mãozinhas. E Stirling Moss foi um campeão, faz parte da história da Fórmula 1. E "O Esplendor e a Infâmia" regressam. Não para a semana.
Se calhar para a semana, não. Vamos ver como é que fazemos isto.
A esta hora temos que estar a tratar das couves.
Ainda vamos ver se antecipamos e damos essa prenda aos nossos ouvintes ou se fica só para depois.
Vamos ver. Um abraço.
Um abraço.