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"Lado Bom da Vida", da Rádio Observador, de segunda à sexta, na tarde, em direto, depois das 16h30. Hoje, quarta-feira, Tiago Pereira, editor de cultura do Observador. Temos livros.

Temos livros, sim, senhor. Olá a todos.

E a pianada. Hoje não houve pianada.

Hoje é a seco, hoje é a seriedade do universo.

Hoje é à capela. Vamos fazer leitura à capela.

Meu Deus.

Eu trago aqui umas sugestões.

É o que tu fazes normalmente.

Sim, mas atenção.

Obrigado.

Eu trago sugestões graças às dicas de pessoas que realmente leram os livros que eu vou aqui falar.

Pronto, então alguém leu os livros.

Claro. Não, atenção, isto é uma história baseada em factos reais.

Tu não trazes livros que não foram lidos por ninguém. Alguém os leu.

Alguém os leu.

Só não foste tu.

Depende. Tem dias.

Pronto, ok.

Mas quer dizer, é melhor assumirmos aqui formalmente.

Digo já, eu tenho acesso prévio à lista que tu elaboras e não li nenhum destes livros.

Acesso prévio parece uma coisa meio de censura.

Eu podia dizer pior: "Eu não li nenhum destes livros e só parei dois autores".

Meus amigos, vamos começar por um livro chamado "Temporada de Furacões", que é de uma autora mexicana chamada Fernanda Melchor e que está aqui nesta lista desta semana graças à nossa excelsa camarada Rita Cipriano.

Eu já vi qualquer coisa no Observador.

Que me disse algo. E sim, podem pesquisar em observador.pt, está lá um belo texto a explicar por que esta senhora é importante e por que deviam estar a ler este livro em vez de estarem a ouvir este programa.

Deixem de estar a ouvir este programa e vão comprar o livro.

Exato. Vão ler e aprendam alguma coisa. Ela disse-me qualquer coisa como: "Lê isto".

"Tens mesmo de ler isto".

"Tens mesmo de ler isto."

Devia ser uma daquelas críticas que aparece.

Não.

Daquelas críticas do jornal New York Times: "Tens de ler".

Exato. Foi mais ou menos isso.

A must read.

Este livro, para já, vamos começar pelos prêmios, que fica sempre bem. Este livro esteve nomeado para o International Booker Prize do ano passado. Não ganhou.

Pronto.

Mas vocês sabem também que nem sempre aquilo que ganha é...

É peixe.

Nem sempre quem fica em primeiro lugar é o real vencedor.

Pois é.

E aproveitem esta frase.

Essa é bonita.

Qualquer coisa eu não vou dizer.

Na literatura não há vencedores, meu amigo.

Foi isso que pensaste quando venceste um prêmio.

Foi isso que eu pensei, mas depois quando fui ver o saldo bancário...

Ora, sim, senhor, então.

Disse: "Quer dizer, pronto, então, sim, senhor".

Então está bem, passamos à frente.

Então pronto. Afinal, se calhar, há campeões.

Este livro passa-se no México, como devem calcular.

Sim, senhor. Mas por quê? Porque é mexicana a autora. Então as autoras mexicanas...

Não, podia passar-se noutro sítio qualquer ou até noutro planeta, não sei. E conta a história de uma bruxa, ou pelo menos é uma personagem a quem chamam bruxa. A questão é, eu já sei um bocadinho mais e, portanto, não vou revelar tudo sobre esta personagem. Ao que parece, consegue curar maleitas que mais ninguém consegue curar e é muito procurada por muitas pessoas. O que acontece é que ela é morta. E o livro tem dois lados: tem um lado que é o que aconteceu a esta personagem, quem é que a matou, por quê.

Mais para o policial, para a investigação.

Sim, mas com um lado muito violento.

Os policiais normalmente não são fofinhos.

Depende.

São violentos.

Há uns mais intelectuais.

Que o detetive é gastronomo e joga xadrez.

Por exemplo. Mas ao mesmo tempo há aqui um retrato da violência da sociedade mexicana, que está sempre muito presente em toda a história. E este é o primeiro livro, se não estou enganado, a Fernanda Melchor tem pelo menos mais dois romances, mais dois livros de ficção publicados, não em português. Este é o primeiro, é publicado pela Elsinore e diz quem sabe que é uma ótima maneira de começar o ano literário.

Com violência.

Exatamente, com violência. Aceitem isso.

Mas também com uma pessoa que cura maleitas.

Ora bem.

Mas morre.

Mas morremos todos, ó Bruno. "Negro Nunca Mais", de George S. Schuyler. Não sei se estou a dizer bem.

Depois ninguém sabe. Este livro, este senhor George S. Schuyler.

Schuyler. Será?

Algo assim parecido.

Vou pesquisar.

Foi jornalista, escritor e foi aquilo que se costuma chamar de comentador social.

Mas já lhe aconteceu o que aconteceu à bruxa.

Já. Atenção, a história deste livro, "Negro Nunca Mais", passa-se nos anos 30 e foi publicado nessa altura.

Pronto, o senhor compreensivelmente...

Atenção, não foi publicado nessa altura. Foi muito depois, mas o senhor já morreu. Calma, vamos lá com calma. Atenção. Já estou a exagerar.

Mas tens aí a certidão de óbito?

Não tenho. O que é que se passa? A premissa deste livro é: imaginem que em período de segregação racial e em um país racista, assim o podemos dizer, e em que a sociedade está dividida entre brancos e negros, se houvesse um cientista ou um grupo de cientistas que era capaz de transformar negros em brancos, o que é que aconteceria? Basicamente, esta é a premissa do livro. E agora o Bruno fica a olhar para mim com ar muito duvidoso.

Não gosto. Não combino com nada.

Eu acho que os brancos passavam a ser os novos negros, porque os brancos é que são maus. Mas o que é o branco? É a cabeça ou é a pele?

Essa é a grande questão e é uma das questões abordadas no livro. O que é que aconteceria e esse lado, não sei se podemos dizer filosófico ou existencial.

Muito interessante.

Onde é que ficaria e o que é que aconteceria à sociedade? E o livro está agora publicado em português e tem o carimbo da Tinta da China. Ficam a saber.

Muito obrigado.

E temos também para hoje sugestões literais do Tiago Pereira: "Ferry", da Jamila Pereira de Almeida, Relógio d'Água.

Exato. É o mais recente romance da Jamila Pereira de Almeida. A história é de Vera e Albano, que de jovens estudantes de Letras, talvez aqui o Bruno se identifique, se bem que ele estudou outra coisa. Tinha Letras, mas não é isso.

Letras não era.

Como qualquer jovem estudante tem sonhos, desejos e aspirações, mas acabam por passar a adultos presos numa vida de repetições, de dúvidas, de desemprego.

Tivesse ido para uma jota.

Exato. De dificuldades financeiras. E que a tudo isto se junta a descida, acho que podemos dizer descida da Vera, talvez a personagem principal, a um desespero mental, também motivado por um aborto, que também acontece. E a história acompanha este casal, mas acompanha, sobretudo, o processo mental desta personagem, da Vera, e portanto, a estrutura do livro não é linear, tal como o pensamento desta personagem, nessa situação, também não é linear.

Mas o livro é narrado pela personagem em grande parte? Ou vai alternando?

Vai alternando, sim. É mais ou menos isso.

É que eu tenho lá em casa. Gosto muito da Jamila.

Pronto. Pensava que ias dizer: "Vai daqui um beijinho para a Jamila".

Um beijinho, se estiver a ouvir. Não sei se está a ouvir, mas se estiver a ouvir, um beijinho para a Jamila e um abraço ao Humberto.

E cá está. É uma história que acaba por ser como é que se vive um constante limbo entre a possibilidade de superar esta situação ou a derrota completa e a queda numa espécie de ciclo de loucura que não tem saída. É uma coisa muito quotidiana, infelizmente, mas é um belo livro. "Ferry", de Jamila Pereira de Almeida, e é publicado pela Relógio d'Água.

E temos também, Tiago, "Mundos Perdidos", de Thomas Halliday.

Agora, duas curiosidades de não ficção. Este livro é publicado em Portugal pela Saída de Emergência. O Thomas Halliday é um paleontólogo britânico.

Pensava que era familiar do Johnny.

Do Johnny Halliday?

Do Johnny Halliday. Também era um dinossauro, não era?

Também é um dinossauro do rock'n'roll. E o que é que este cientista propõe? É uma espécie de guia através de mais de 500 milhões de anos de evolução do planeta. E o que é que aconteceu às coisas que deixaram de existir, quais foram os cinco grandes momentos de extinção em massa que aconteceram no planeta, por que é que aconteceram, quais foram as origens e as consequências.

E projeta a nossa extinção ou ainda não vai tão longe?

Mas a nossa extinção é enquanto profissionais, enquanto rádios, enquanto espécie?

Dizem que caminhamos para a sexta extinção e que não estamos a ajudar. Não sei se é verdade.

Também não consigo determinar.

Se houver, depois ninguém está cá para contar a sétima.

Nem para escrever livros sobre isso.

Digo eu, não sei. Dizem que as baratas sobrevivem, não sei é se têm capacidade de escrever.

Talvez não.

Não sei.

Aprendem.

Algumas, eu conheço alguma.

Este é engraçado, este rapaz.

É bastante. Temos ainda, para fechar este lado bom da vida de sugestões de leitura, aquilo que poderá ter sido uma espécie de inversão. Foram os piás do John le Carré que foram vasculhar as suas pergaminhos.

Foram os piás, mas atenção, foi o filho do John le Carré.

Então não é bem um espião. Então é abrir o armário de casa.

Ainda é pior. Ajudou aqui a organizar este arquivo de cartas escritas pelo pai, o John le Carré, que morreu recentemente, não sei se estão lembrados, foi o ano passado.

Houve até um programa meio estranho da Rádio Observador em que se falou muito dele. Como é que se chama? É o "PopUp", acho. Não sei se vocês conhecem.

É um programa da telefonia. O filho de John le Carré, que se chama Tim Cornwell, fica aqui a dica se quiserem investigar. E pelo que eu percebi, há cartas, por exemplo, para gente como o escritor John Cheever, mas também para o ator Ralph Fiennes, que eu acho que é sempre divertido.

Ralph Fiennes. É Ralph ou Rafe?

Ralph.

Rafe?

Ralph.

Nas provas a veres a latir um para o outro. Já disse que tinha muitas maneiras, mas assim nunca.

Não sei. Não, é porque é Rafe. É Rafe Fiennes.

É Rafe?

É Rafe. Oh, meu amigo. Coisas de lá deles. Não olhes para mim.

Essas falas fonéticas britânicas, é isso?

Ora, claro. O homem é dessas áreas do globo.

Vou respeitar. Uma carta, eu fiquei muito interessado nisto, porque é uma carta para uma senhora chamada Kirsty Young, que é apresentadora de um programa de rádio da BBC, que também está disponível em podcast, que se chama "Desert Island Discs", em que os convidados vão lá e além de falarem da sua vida, escolhem as canções que levariam para uma ilha deserta.

Isso é muito original.

E ele escreveu-lhe uma carta, mas também escreveu para o antigo chefe da KGB em Londres. E ao que parece, também escreveu uma, vou agradecer para as pessoas perceberem que isto tem fontes, a um artigo da New Yorker em que eles explicam como o John le Carré uma vez respondeu a uma criança de 10 anos que escreveu para o autor a pedir conselhos, que ele queria ser espião e escreveu ao le Carré a perguntar: "Sr. le Carré, como é que eu faço para ser espião?"

Inventa.

E o John le Carré achou que-

Merecia uma carta

...respondeu-lhe e achou que devia aconselhá-lo a não ser espião.

Com ele correu bem, não?

Porque disse-lhe: "Meu rapaz, provavelmente estás à procura de excitação e de-"

Aventura?

"E de viver uma causa e de viver por uma causa".

Não, e aquilo é só cínicos.

E o que ele disse foi: "Procura primeiro uma causa, porque depois esse entusiasmo vem por acréscimo e escusas de estar a tentar enganar pessoas, que é aquilo que fazem os espiões, e a tua vida será muito saudável". Não faço ideia se a criança de 10 anos seguiu o conselho ou não.

Se ela estiver a ouvir agora, não seguiu. Se não estiver, é porque seguiu.

Olha, um beijinho para ti também.

Meu rapaz.

Pronto, um abraço.

E esta coleção de cartas está disponível em inglês, chama-se "A Private Spy", nas livrarias online e todas essas coisas na internet onde podem comprar.

Há um sítio na internet para isso.

Há um, só um.

Há vários.

"Lado Bom da Vida", para ouvir de segunda a sexta na Rádio Observador, tarde em direto depois das 16h30. Às quarta-feira com sugestões de leitura. Espero que tenha espaço na estante. Tiago, um abraço. Até amanhã.

Até amanhã.