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Primeiro episódio do Melhor Emprego do Mundo e em que consiste esta rubrica, Rita?

Olá, Catherine, olá, Diogo. É mesmo isso, trata-se de uma rubrica onde damos a conhecer pessoas que têm o melhor emprego do mundo. Claro que o melhor emprego do mundo é o meu, mas também tenho o privilégio de entrar no mundo de outras pessoas que têm o melhor emprego, pelo menos durante algum tempo.

Sim, e foi o caso da chef de pastelaria Sofia Morais Pinto, em que entraste mesmo no mundo dela.

Sim, literalmente. Ela convidou-me muito gentilmente para ir à sua casa conhecê-la.

Então nós queremos saber tudo, Rita, conta-nos lá como foi.

Meti logo o microfone a gravar, por isso vamos poder ouvir aqueles momentos constrangedores antes de entrar em casa de alguém. Estão preparados?

Não sei.

Ok, desculpem lá, qualquer coisa. Esperando te. Obrigada. Eu fico tão nervosa de ir à casa das pessoas que não conheço. Ok, já estou a suar. Olá, Sofia, desculpa, já estou com o microfone porque é para fazer uma espécie de live on time. Tudo bem? Queres que eu me descalce?

Não.

Não? Ok. É tão bonito o teu elevador, dá perfeitamente para comer lá. Sim, tem um ar de aeroporto. Tem um ar de aeroporto, foi isso que eu disse.

Mas era grande, tinha espaço para uma mesa de jantar.

Eu nunca vi um elevador assim, Diogo.

Mas tinha espaço para uma mesa de jantar?

Tinha, sim, um jantar a dois.

Parece aqueles elevadores dos hospitais, para pôr as macas.

Não, era muito mais. Até porque os dos hospitais não são muito atrativos.

Bom, mas estavas com imenso nervosismo, mas a verdade é que nem precisaste tirar os sapatos. Estavas a fazer cerimônia.

Sim, estava nervosa em vão. Ela recebeu-me muito bem, pôs-me logo confortável, ofereceu-me um café de pressão ótimo e no final já éramos amigas. Não queria dizer café de pressão.

Isto é um expresso ou não?

Não, não era um expresso, era gigante o café. Muito bom.

Rita, mas espera lá, explica lá melhor o que faz a chef Sofia.

Bom, a Sofia Morais Pinto faz várias coisas, mas acho que conseguimos chegar a uma boa definição do que é que ela faz em concreto.

Olá, sou a Sofia, sou uma artista da comida.

Só para perceberem, é isto, nem toda a gente pode ser artista de comida. Vocês sabem, por exemplo, o que é o paladar psicológico?

Não.

Não.

Não? Então eu vou vos dizer.

O paladar psicológico tem a ver com a biblioteca de sabores e tem a ver com a nossa experiência. E é uma espécie de uma capacidade que temos de perceber se determinada combinação de sabores vai funcionar ou não antes de provar. E depois há a parte também de experiência. Já faço isto há alguns anos e há coisas que eu já sei que funcionam e não, que para outra pessoa que não seja da área: "Caril numa sobremesa?" Eu sei que funciona. Eu sei que o caril com fruta funciona muito bem.

Muito bem mesmo. Eu já vos vou explicar o quão bem funciona. E é por isso que ela é uma artista. Tem paladar psicológico, vocês têm?

Não.

Olha, não, eu decididamente não. Aliás, lá em casa nem sou eu que cozinho.

A sério? Diogo, estás à espera que eu traga algo para beber?

Não, mas olha, eu posso trazer porque eu gosto de cozinhar.

Que bom, Diogo. Então já agora que tu gostas de cozinhar, Diogo, vocês ou tu, tens alguma coisa que fazes sempre um ritual qualquer com a comida?

Para além de a comer?

Sim, para além de a comer.

Assim de repente não estou a ver.

Não? Então, a Sofia tem um ritual que passa sempre por...

Eu gosto de cheirar a comida antes de comer, porque consigo intuir ao que é que me vai saber. Mas às vezes não é assim, ou porque a textura não é agradável em boca, ou porque leva algum aroma, alguma especiaria que não está perceptível no olfato, mas que depois em boca está e pode não ser agradável.

É mesmo um instinto, é mesmo um talento isto dos paladares e de combinar tudo. E uma das coisas que me fascinou também foi ela ter praticamente criado o seu próprio emprego. Ela trabalhou durante 10 anos em design gráfico para várias agências, mas cansou-se, abandonou o design e mudou completamente de rumo. E tudo começou por uma paixão: a cozinha.

A gastronomia sempre esteve ali muito presente. Eu fazia imensos workshops, imensos cursos de cozinha. Fiz de sushi, fiz de sopas, de saladas, de tudo e mais alguma coisa. E depois organizava uns jantares em casa com os amigos e dava-me imenso gozo, adorava fazer assim uns menus com as coisas que tinha aprendido e outras que eu inventava, porque aquilo que eu gosto mesmo é de inventar.

E eu aviso já, Diogo, adoro ter amigos assim que fazem questão de cozinhar. Vamos ser amigos, Diogo. Muito bom, é mesmo muito bom.

Então, mas a paixão já estava lá e depois como é que daí para frente acaba por se tornar numa chef profissional?

Então a Sofia desistiu do design, mas antes de ingressar na escola que ela queria muito, a Espai Sucre, foi aconselhada a ter alguma experiência profissional, porque uma coisa é cozinhar para amigos, outra coisa é trabalhar num restaurante a sério, que é bastante diferente.

Comecei literalmente a descascar batatas.

Mesmo do zero.

Literalmente. Eu não sabia nem pegar numa faca, foi o Nuno Barros da Taberna que me recebeu. E eu disse-lhe na altura: "Eu não sei nada, ou seja, nada. Tenho uns workshops, uma coisita ou outra, mas não sou nada profissional, nem pouco mais ou menos."

Ou seja, profissionalizar-se em alguma coisa que nos dá prazer ou que fazemos de forma amadora traz alguns riscos. Ainda assim, a Sofia Morais Pinto sabia que era difícil entrar nesta escola, a Espai Sucre, uma das melhores no que toca à pastelaria, mas seguiu em frente e começou tudo com Uma carta motivacional.

Fiz uma carta motivacional a explicar que era nova na cozinha, que estava a ter a minha primeira experiência na cozinha, que vinha de design, mas que tinha a parte da criatividade. Dei ali assim uma coisa e aceitaram. E lá fui eu pra Barcelona, em teoria pra estudar um ano e acabei por ficar seis anos.

Apaixonou-se por Espanha. Vocês já escreveram alguma carta motivacional e já leram anos depois? Eu, pelas não.

Estamos tentando lembrar daquelas cartas que nos pedem pra escrever quando nos candidatamos a trabalhos. Não sei se é bem uma carta motivacional. Eu não quero falar sobre isso.

É sempre embaraçoso. Eu sugiro vocês irem a essas cartas de motivação que enviaram anos antes. Bem, não sei se já vos aconteceu o seguinte também: estudamos e depois começamos a estagiar e vai daí percebemos que, afinal, na prática, as coisas não são assim tão românticas. Já vos aconteceu?

Já. O que a mim me aconteceu, eu comecei a perceber que aquilo que eu gostava era uma espécie de uma relação amor-ódio. Cada três meses, com a mudança de carta, aquilo era um estresse, mas era isso que eu gostava, porque quando a coisa entrava em velocidade cruzeiro, em que eu já tinha tudo mais do que controlado, aquilo já era uma seca. Era cansativo e já não me dava prazer. E essa foi uma das razões pela qual eu decidi dedicar-me a fazer só a parte criativa.

A Sofia dá muito valor à criatividade, ou seja, aborrece-se facilmente quando as coisas já estão, como ela disse, em velocidade cruzeiro, e precisa de desafios. E afirma também que...

Todos somos criativos. E eu acredito mesmo nisso. Não é só vender a banha da cobra para os alunos ficarem contentes. Não é isso. Só que há pessoas que têm uma criatividade que lhes sai de uma forma mais orgânica, mais natural, e há pessoas que a têm que trabalhar mais. Mas eu acho que todos temos um lado criativo.

Acham? Dizem que é um músculo, não é?

Mas acho que sim, acho que todos temos esse lado, temos que o estimular um bocadinho às vezes.

Em relação ao trabalho da Sofia, a razão pela qual é tão difícil preencher aquele formulário de qual é a sua profissão, prende-se com o fato de ela fazer muitas coisas no mundo da cozinha e não acredita em rótulos.

Eu acho que nós nunca somos só uma coisa, nós somos a junção de muitas coisas que vamos fazendo ao longo da vida. Eu não sou só chefe de pastelaria ou só criadora de sobremesas, ou só food stylist. Porque o que eu gosto mesmo é de ter as ideias, é de pensar nestas fricadas, de meter um caril, de meter uma pimenta esquisita, de pôr coisas que não estamos habituados em pastelaria, pô-las em pastelaria, embora elas sejam associadas à cozinha.

Diogo, eu olhei pra ti e reparei que estás com aquele ar de curiosidade.

Sim, parece-me bem. Quando há pouco a Rita estava a dizer que a Sofia não acredita em rótulos, estava com medo que ela não acreditasse mesmo em rótulos, fosse um revisionista de rótulos.

Que as coisas estavam fora do prato. Não está nada! Mas é verdade, às vezes dizem que está fora do prato, mas aquilo ainda aguenta.

Ainda aguenta um bocadinho.

Se tivesse selado, não é?

Sim.

Mas ela é muito adepta de coisas frescas, produtos frescos. Fiquei aqui curiosa com o food styling. Reparaste, Diogo?

Sim.

Fala um bocadinho mais sobre isso. Sim, tem muito a ver com o trabalho que a Sofia também faz para editoriais e publicidade, e é curioso que este mundo tem muito se lhe diga. As aparências, de facto, iludem e muito, e falou de alguns truques usados que vão muito para além do Photoshop.

Em editorial, dependendo da revista, nós tentamos sempre fazer coisas bonitas, mas são coisas que à partida obedecem a uma receita e nós não queremos enganar as pessoas, portanto, é tudo comestível. Na publicidade, não. Eu fiz publicidade que incluía gelados, e os gelados eram feitos com banha de porco, açúcar, corantes e como esses esquemas, espuma de barbear, há uma série de coisas que se utilizam. Pincéis, por exemplo, pra marcar um bife, da cena da grelha.

Exato. É como tu fazes, Diogo, pra marcar os teus abdominais. Não usas um marcador?

Obrigado pela referência.

Não, desculpa, não faço ideia. Criaram uma imagem.

Está ótimo.

Sim, mas usam palitos para manter a comida em pé, laca de cabelo, alumínio, ou seja, na publicidade tudo vale. No entanto, em editoriais, e ela escreve para revistas de cozinha e receitas, tudo é comestível e ela trata muito bem da comida.

E a Sofia também passou pelo MasterChef Espanha.

Toda a gente lhe pergunta se foi jurada. E não, só lhe faltou mesmo isso, porque fez de tudo um pouco. As gravações foram muito intensas, chegaram mesmo a cozinhar na neve, vejam só, sem usar nada elétrico, ou seja, apenas com recurso a fogo. Por isso, quando lhe perguntam o que fez a Sofia no MasterChef...

Quando me perguntam o que é que eu fazia, o que é que eu não fazia? Era um trabalho muito além de pastelaria. Era um trabalho de produção. Há uma série de coisas, há testes que têm que se fazer, há listas de compras, há ponto com os chefs convidados, a coordenação com a equipa de arte, é um mundo, é muita gente, é muita coisa, é toda uma logística. Montávamos cozinhas e gravávamos em qualquer sítio de Espanha.

Devem ser bons a acampar, não é? Completamente. Olha, mas tanta conversa, Rita, diz-nos, o que hastes a comer? Sim, provavelmente uma das melhores sobremesas que comi na vida e levava caril, para além de pera e framboesas.

É muito improvável.

É muito improvável, mas foi tão bom. Aliás, é melhor ser ela a explicar o que levava a sobremesa.

Isso leva farinha comum Que para quem tem intolerância ao glúten pode substituir por outra farinha, porque não é tudo essa farinha. Leva uma parte de farinha normal, de trigo, normalmente é tipo 55, que é a farinha comum, leva uma parte de flocos de aveia e uma parte de amêndoa moída, que é tipo farinha de amêndoa. Isso tudo é misturado com açúcar mascavado. Hoje em dia é muito raro utilizar açúcar refinado, açúcar branco, uso o mínimo possível.

Depois ela acrescenta que também colocou peras, porque ela gostava de usar a fruta da época e agora a fruta da época é a pera, framboesas e amêndoas. Foi muito bom. Que maravilha! Eu adoro caril, por isso, Rita, espero que- Trouxeste um bocadinho, certo? Sim, trouxe. Está no frigorífico aqui do Observador, está dentro de um tupperware. Ela arranjou-me um tupperware, não tenho de devolver porque é de cartão. É de que cor? É castanho. É para confundir as pessoas. Não sabemos. É um crumble de caril espetacular, feito por uma chef de pastelaria e uma artista de cozinha. Muito bom. E vocês podem provar. Por acaso, ficou algum tempo no meu carro, mas foi só hoje de manhã. Não esteve assim muito calor, por isso eu acho que está bom. E eu cheirei, e está ótimo. Cheirar é que cheirar é comida, lá está, faz parte.

Bom, obrigado pela atençãozinha. Rita, para terminar, por que ser artista de comida é o melhor emprego do mundo?

A Sofia Morais Pinto não só criou o seu próprio emprego, porque foi seguindo aquilo que sentia e que queria, e teve coragem para o fazer, mas acima de tudo, porque faz tudo com amor. Mas o melhor é ouvir pelas suas próprias palavras.

Eu acho que é o melhor emprego do mundo, porque eu fico profundamente feliz quando percebo que as pessoas gostam daquilo que eu fiz. Isso deixa-me mesmo feliz. E para mim, isso é o melhor emprego do mundo. É as pessoas comerem aquilo que eu faço, aquilo que eu pensei, com todas as minhas inseguranças, com toda a minha biblioteca de sabores e paladares psicológicos, e o que a gente queira aqui dizer, e toda a experiência de vida e as viagens. Cozinhar é um ato de amar. Eu já ouvi isso várias vezes e acredito. O que mais gozo me dá é que as pessoas provem e digam: "Uau!" Para mim, isso é a melhor coisa do mundo.

E ela é a melhor.

E melhor do que-

A melhor artista de cozinha

...melhor do que fazer, é comer.

É comer. E aproveito para sugerir, para passarem no Instagram da Sofia Morais Pinto, @sofiomoraispinto_pastrychef, e vão ficar babando. Eu não tenho jeitinho nenhum para cozinha. Eu sempre que ouço os chefs ou mesmo o MasterChef, não posso ver, fico logo cheia de vontade de provar e com fome. Mas pronto, eu até me senti inspirada, mas depois a inspiração também passa depressa. Tens de seguir o Instagram dela. Ela é incrível, genial. Adorei conhecê-la. Recebeu-me muito bem. Nutro muito carinho por ela. E não a conhecia, estava mesmo nervosa em vão. E pronto, e foi O Melhor Emprego do Mundo de hoje.