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Muito bom dia! Ai, bom dia, adoro este.

Bom dia, Rita.

Antes de mais, eu tenho que vos dizer uma coisa. Já repararam que os copos do Observador estão mais pequenos? Os de água.

Os de água, não.

Não, só reparo eu.

Isso não é bom para a saúde.

É um flagelo. Não é bom para o ambiente, não é?

Sim.

Mas tens de trazer a garrafinha. Sim. Olha, está tudo bem com vocês?

Bom dia, Rita. Como estás? Tudo bem?

A semana foi boa? Respondam, mas rápido.

Sim, foi boa.

Sim, ponto final. Próximo. Não, foi rápida e concisa. Sei que é preciso. Choveu muito, inundações e tal. Tirando isso, está tudo bem. Sim. Ora bom. Vamos a isso.

Então e tu, foste fazer o quê?

Olha, eu fui a Almeirim fazer caralhotas.

Fazer o quê?

Caralhotas.

Ok.

Um pão típico de Almeirim, criado pela avó da dona Emília, que fez este pão típico há mais de 50 anos, tem hoje 75 e conta-nos como tudo começou.

Não foi preciso aprender porque eu já sabia. A minha avó tinha 14 filhos e cozia o pão. Isto é um pão antigo, é um pão com qualidade. É um pão que os antigos, coitadinhos, havia muita miséria e o pão era cozido de sábado a sábado. Depois o pão era escondido nos barrotes lá em cima, tapado para os filhos não comerem muito, porque havia muita fome e aquele pãozinho tinha que ser para toda a semana até ao outro sábado.

Já viram? É assim. Pronto, e já se sabe que vamos querer saber de onde é que vem este nome, caralhota.

É a pergunta.

As caralhotas, em algumas zonas do país, não sei se sabem, é aquilo a que chamamos de borboto. Sabiam?

É aquilo feito das camelonas?

Exatamente. Sim, borboto, sim. E neste caso, eram as sobras que ficavam na gamela. Mas vamos à origem das coisas, como é que ficou assim conhecido?

Antes era. Coziam o pão, ficavam os borbotos da massa pendurados e a minha avó tinha muitos filhos, tinha 14. Uma era Maria e a Maria começou a raspar assim com as mãozinhas a massa, fez uma bola com a mão, uma bolinha, e colocou, mandou lá para dentro. A minha avó disse: "Maria, o que estás a fazer?" E ela disse: "Uma caralhota, mãe".

Que é a resposta que todas as mães querem ouvir.

Claro. Então foi assim que nasceu. E isto já não é considerado património imaterial?

Quase, André, mas a Emília falou várias vezes dessa luta, a luta para que a caralhota seja certificada por Bruxelas. E adivinhem por que ainda não é? Vamos ouvir.

Os sabores da gente são muito bons, é a sopa de pedra, é o melão de Almeirim, é o vinho de Almeirim e é as nossas caralhotas que veem a caminho de Bruxelas o certificado.

Ai é?

É, só que eles não querem assinar para vir o certificado, porque dizem que uma caralhota é uma asneira, mas não é.

É mesmo por isso.

É mesmo por isso, exatamente. É mesmo por ser uma asneira. Queremos mais direitos pela caralhota.

Sim, realmente. Coitados.

E reparem, a Emília não se limita apenas a fazer uma simples caralhota. Há toda uma gama. Calma com ele. É só escolher. Ela inventa muito. Estou a ver aqui que há caralhota com torresmos, caralhota de apelma.

Isto é tudo coisas que eu invento. Eu é que tenho inventado e faço coisas com muito gosto. Temos a caralhota com azeitona, orégãos, azeite e alho. Temos a caralhota de franjeira, caralhota de cebola e queijo, que já aqui está pronta. É só colocar e pôr as fatias de queijo. E temos a caralhota de bacalhau, que também é muito boa. Temos de torresmos e depois temos a doce, que é a caralhota com maçã, com canela e nozes.

Isto foi para aqui uma variedade.

Olha, mas eu gostei muito dessas combinações.

Sim, especialmente a de queijo com queijo e chouriço é espetacular. Ai, quero muito. Devias ter trazido uma, Rita. Pois era, mas não deu tempo. Não deu tempo, ou seja, trouxe, mas já foi há uma semana. Sim, Rita, pois claro.

Desculpas.

Enfim, quero é saber uma coisa. Há segredo? Claramente deve estar na massa. É mesmo isso, o segredo está mesmo na massa, neste caso, na massa mãe. A Emília usa como fermento uma massa que fica um dia e uma noite a repousar. Coisa pouca. É, sim. Depois faz um buraco na massa acabada de amassar e coloca a massa mãe. Desculpem lá, muita massa aqui. Mas há também um livro. Vocês lembram-se aquele livro do segredo? Afinal, está nas caralhotas da caldeira.

Deixo os segredos todos naquele livro que ali está.

Mas tem um livro, não é?

Tenho um livro, que é um livro que não se pode abrir, que é para eles, está a ver?

Mas é o único, não existe nenhuma cópia desse livro?

Não, ainda não.

Aí vas.

Pois, a cópia é a minha boca a falar e a explicar as coisas. Está a ver?

E Emília, atenção, tem cinco filhos, 12 netos e um bisneto. Se por acaso aquele livro arde, também que horror, sou um bocado pessimista, mas como é que vai ser?

Ou, por exemplo, isso é vendido? Ainda deve valer bastante dinheiro.

Fazemos uma cópia, senão lá vai a receita.

Sim, mas a Emília já está reformada?

Sim, mas continua a trabalhar. Guerreira.

Estão tudo bom.

Até porque se se reformar, que já está na idade disso também, não é?

Já estou reformada, minha querida.

Mas ainda assim continua a trabalhar.

Mas ainda assim continuo a trabalhar porque gosto daquilo que faço. Está a ver?

Sim. E não tem stress? Está aí com a Luciana Abreu.

Nada.

Nenhum stress?

Nada.

Já explico. Por exemplo, uma encomenda de...

Eu faço. Deixa lá que eu faço isso tudo. Olhe, está a ver isto tudo? E trabalho com enchidos de Almeirim.

Ela estava à espera de você. Luciana Abreu.

Sim, eu quero saber o que é que a Luciana Abreu ali no meio disto tudo.

Eu estava a ver fotos da dona Emília com muitas pessoas famosas, mas já lá vamos.

Ok.

Pronto, então vou querer escozer isso, mas antes Rita quer perguntar, vai lá, embaça a gente. Claro. Ó Filipa, o turismo ama, de norte a sul.

Maravilhosa, o turismo adora vir às caralhotas. Eu sou a única mulher em Almeirim que coze caralhotas, porque quem coze mais caralhotas, sim, senhora, é os restaurantes, mas é para consumo

Nós devíamos ter feito uma contagem. Sim. Quantas vezes a palavra caralhota- E os estrangeiros, se calar, não sabem a origem do nome em português, mas tendo em conta que Bruxelas sabe e não deu o certificado, os estrangeiros não se metem com ela por causa do nome? Metem-se. Principalmente a malta do norte, não é estrangeira, mas sim. O próximo som está censurado e em vez de pi, usei um bocadinho de uma música da Dina, mas espero que percebam o que dizem em vez de caralhota. Vamos ouvir. Claro que toda a gente faz aquela brincadeira, não é?

É, e eles às vezes querem uma torcida comprida, põem duas embaixo. As mulheres são terríveis. As mulheres do Porto. O Porto vem aqui e diz tantas asneiras que eu até tenho vergonha. A primeira vez que eu ouvi, claro que eu já sabia. Agora chega aqui, diz assim: "Ó minha senhora, ó dona Emília, nós vimos ali do lado do toucinho e ele é que me disse para vir aqui buscar. Eu para mim quero seis." Então diga-me lá. Uma pessoa até ficou aqui a ouvir o homem. Estava tudo cheio de gente aqui.

Eu não sei do que eu estava à espera, mas não consigo verbalizar o que eu estou a sentir. Esta é a parte bota. Sim, senhor. Sim. Mas atenção, não são só clientes anônimos. Lá está, a Emília já esteve com o Marcelo, com o Luciano Abreu. Com o Luciano Abreu, exatamente. E com a Júlia Pinheiro.

Já veio aqui aquele médico do Porto que coitadinho, teve um grande acidente, ficou sem uma orelha, que era dentista, e é a mesma. O processo foi todo aqui, foi lindo. Já veio aqui a Júlia Pinheiro. Veio e chegou à esquina. Está tão engraçado o verso dela. Quando chegou à esquina, já lhe cheirava a caralhotas. E então ela veio, e quando chegou aqui, é mesmo aqui, foi aqui que entrou e trabalhou com um barreto na cabeça, com avental. Isso foi uma reportagem a ver-se diretamente. Direta.

E ela tem boa mão para a caralhota?

Tem, ela é jeitosa. Ela é jeitosa para meter a mão na massa.

Não só. Há também um dentista muito famoso que perdeu uma orelha. Eu acho que isto foram os chumbos mais sofridos. Eu não me posso rir, que eu depois pareço uma arara. Enfim. Sim, mas já passou. Mas perguntem-me. Ok, já recuperei. A dona Emília consome outro tipo de pão ou é só mesmo a caralhota? Vamos ao primeiro bife, e bife é a palavra que descreve conflitos saudáveis, digamos assim. Que bem. Comecemos pelo bife do papo seco. Grande.

Não, não há pão como eu, digo-lhe já. Mas acredite, eu posso ir aos papos secos para os netos. Os netos gostam de um papo sequinho. Mas o papo seco agora está bom, amanhã já está todo a esfarelar. Não tem nada a ver com este que aqui está.

Papo seco, não. Papo seco para morderes, comparado com o pão da Emília para morderes. Não sei se são a par, também da rixa que a Joana Amaral Dias teve na Gleba. Por não ser possível pagar com dinheiro, gritou muito, etc. Está na net. É verdade. Ora, aqui a Emília também falou desta superfície comercial, mas pegou com o pão.

Até há pão de carvão. A minha filha, que mora em Lisboa, "Ó mãe, vou-te ali levar à padaria", que tem cá fora uma bicicleta.

É Gleba.

Sim. Vais a essa padaria para veres as qualidades de pão que lá está. É pão preto, é pão amarelo, é pão branco, é pão azul. Ai, o que é isto, meu Deus? Ai, meu rico pãozinho, o que eu faço?

Queridinho. Meu rico pãozinho. A dona Emília deve dar boas formações para fazer pão, não? Ora pois. Já eu não gostava de estar no lugar de quem lhe dá a formação. Por favor, era o que faltava, porque também já tentaram.

Olhe, quando eu abri esta casa, tive uma engenheira aqui que me disse: "Olhe, eu tenho que lhe vir dar formação hoje." E eu olho para ela, está engenheira, e disse: "A mim, dar-me formação? Formação? Eu tenho que lha dar a si, porque eu é que sei. Você vem-me pedir formação de quê?" "Ai, a senhora já sabe, nós somos obrigados, tem que se dar formação." Pois, dê formação, mas eu é que lha devia de dar a si.

Estou fã. Acabou, eu quero inscrever-me, por favor, num workshop para fazer pão com a dona Emília. Mas ó Filipe, este trabalho também tem partes más. Neste ofício, sabem qual é a parte do corpo que mais sofre? Vamos aos palpites. Mãos? Ia dizer a mesma coisa. Braços? As mãos? Dar, não sei, amassar a massa. Não, mais abaixo. Mais abaixo? Sim. Eu prefiro ouvir. Eu não sei se te queres sentar, está aí em pé.

Não, não é preciso.

Passa muito tempo em pé, imagino.

Pois, por isso é que eu tenho as pernas todas desfeitas, filha. Nem tenho pernas, já até tenho vergonha de ir para a praia. Nunca. Para ir para a praia, tenho que vestir umas calças até baixo.

Então, mas por quê? Varizes? São as varizes, sim. Ela mostrou e de facto. Que era os braços, afinal. Passa muito tempo em pé. Os braços estão impecáveis. Antes de me ir embora, ainda entrou uma cliente. Ela levou uma série de pães e docinhos feitos pela Emília e na despedida reparem como é que se percebe que são amigas há 50 anos.

A limpar, para o lado do forno. É muito bom.

Para o fundo do pau não ficar escuro.

Olha filha, vai descansar que tens má cara. Tens má cara

Que amor!

Tchau, filha. Obrigada.

São engraçadas. Tem muitas amigas aqui?

Sim, toda a gente gosta de mim, eu não sou ruim pra ninguém.

Pois, é mesmo. Ai, filha, vai descansar que sabes como é a cara. É a melhor forma de dizer pra ir descansar. Por favor, alguém que emoldure esta frase.

Andas a puxar pessoas aqui.

Exato. Isso parece, Rita, um bom emprego. É sim, mas muito por causa da Emília, que mantém viva as caralhotas. Atenção, é uma pessoa genuinamente boa e engraçada. Trabalhou durante todos estes anos com o marido, que faleceu há dois meses, mas a Emília diz que sente que ele ainda lá está a dar-lhe força. Porque aquilo, atenção, é um forno a lenha, todo o processo de cozer o pão leva horas, é preciso ter a temperatura perfeita, e ela faz tudo a olho e é perfeita. Grande Emília. Ela própria diz que tem o melhor emprego.

Eu tenho, não há igual, nem ir para um escritório, nem para um banco. Eu acho que eu vivo o que faço. Está a ver, menina? Eu vivo o que faço, por isso faço tudo com tanto amor, como lhe disse há pouco, e trabalho é para ajudar, é para dar. Não há ninguém que não venha aqui comprar pão e que eu não ofereça uma caralhota.

É um amor. Ela ensinou-me um pouquinho a fazer, mas não foi o processo todo.

Como é que correu?

Correu muito bem. Sim, ela é uma boa professora.

É isso.

Fiz um pouquinho, já estava amassado, eu só tirei e amassei e fiz uma bola, uma caralhota. Exato, uma caralhota. Mas fiz uma muito pequenina e uma grande, não havia ali um meio-termo. Não havia intermédia. Pronto. Mas também não importa. Bom, fica o convite. Foi um prazer enorme conhecer a Emília. Aliás, foi uma das pessoas que eu mais gostei de conhecer nesta rubrica, devo confessar. Fiquei com vontade de ser adotada como neta. E fica o convite nas suas próprias palavras.

E quem vem a Almeirim tem que comer a sopinha de pedra, que é o que eles adoram.

Muito bom.

E uma caralhota. E não se esqueçam de vir aqui à Rua Moçambique, perto do Pinheiro, vir às caralhotas de Almeirim, que está mesmo à esquina uma placazinha.

Pois, é muito simples. Eu sabia que tinha de virar no restaurante O Pinheiro, virar pra direita, e aparece caralhotas da Caldeira, não tem nada que enganar.

Nada.

E há estacionamento à porta, que é espetacular. E fica o convite das questões que importam.

O Pinheiro é o restaurante, não é?

Exatamente. Temos de ir a Almeirim.

Quando vir o Pinheiro é sair.

É o restaurante, sim. Temos de ir a Almeirim visitar a D. Emília.

Eu também gostei muito. Obrigado por mo dares as lágrimas.

Exato. Nunca pensei começar assim o dia. Incrível.

Um beijinho para a D. Emília.

Um beijinho, foi o melhor emprego do mundo. Para a semana temos mais. Um beijinho. Beijinhos.