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Todas as semanas a Rita Camarneiro vai experimentar uma profissão diferente. E onde é que andaste esta semana, Rita?

Olá, Nelson. Nesta semana fui fazer enduro com o Pedro Bianchi Prata. Ele é campeão mundial e sagrou-se muito recentemente.

O que é enduro?

É andar de moto.

Não estavas preparada pra isso.

Não estava.

É uma modalidade, não é?

Pois é, é uma modalidade.

E as botas são um bocadinho diferentes também.

As motas são bem diferentes. Normalmente andam sempre em cima-

Da terra

...poças, lama, terra.

É verdade.

Já percebi também, já vamos falar sobre quais são as melhores condições para fazer enduro. Mas comecemos pelo princípio. Vamos às aulas. A escola fica no Carregado, que é uma zona bem bonita, por sinal.

Porque o conceito da minha escola, do meu off-road center, é preparar pessoas que queiram andar, e andar melhor no off-road e no enduro, mas também dar as bases a pessoas que estão a começar a andar de moto e querem se defender um bocadinho por causa dos perigos da estrada. Aqui aprendem melhor e depois quando vão pra estrada. Porque aqui aprendes sempre num ambiente seguro a andar de moto, com proteções, com tudo.

Não sei, Nelson, tu sabes andar de moto, não é?

Sei.

Tu costumas vir de moto.

É verdade.

Sempre com muito estilo. Aliás, todo equipado.

Quando chove, todo equipado.

E nunca tiveste um susto? Claro que sim.

Já, mas não tenho tido muitos, não.

Nunca tiveste aulas para cair bem, não é?

Não. Sabes com que idade eu comecei a andar de moto?

Quero saber, sim.

11 anos.

11?

É verdade.

Tu és como o Pedro Bianchi Prata, que começou aos oito.

Nada mal.

Nada mal.

Ainda mais cedo.

Comecei com oito anos. Eu acho que toda a minha vida andei de moto. Os meus pais tinham moto e eu andava com eles de moto, mas começar eu a pilotar a moto e andar sozinho foi a partir dos oito anos. Uma tia minha, irmã da minha mãe, no jardim de casa dos meus avós, que me ensinou numa Mobilette, que é aquelas motas que dão aos pedais.

Uma Mobilette, tinha saudades.

Também andaste nisso?

Um amigo meu tinha uma Mobilette. O Pedro Bianchi Prata tem dia que foi pai recentemente, não é? Campeão a dobrar.

Ele foi campeão e no dia seguinte foi pai.

Bela prenda.

Com a Maria Pimentes, parabéns aos papais e o pequeno Vicente, que é o filho de ambos, já está em vantagem na escala de surfistas porque ainda nem tinha nascido e já tinha moto.

Comprei-lhe uma moto pouco depois de sabermos que a Maria estava grávida.

Ok, já estava comprada.

E eu gostava que ele gostasse de andar de moto. Não quero que ele seja piloto. Se ele tiver vontade de ser, eu vou apoiá-lo e vou ajudá-lo no máximo que puder, mas gostava muito que ele gostasse de andar de moto pra nós darmos umas voltas no monte, porque a Maria também gosta e sabe andar. Andarmos os três juntos, fazermos passeios, era giro.

Isto é engraçado porque os pais quando sabem que vão ser pais, começam a comprar coisas pros bebês, o berço. E ele não, comprou uma moto. Logo uma moto.

Já estou a imaginar os três no monte com a Nova Gente.

Cheios de lama. Mas olha, vamos lá a esse campeonato. Ele venceu no Dubai, como é que correram as provas?

Ele contou como as condições eram muito duras, mas no entanto, parece ser algo que não o aquenta muito.

Foi a última prova do Campeonato do Mundo de Bajas. Foi a sétima de sete provas e eu me sagrei campeão do mundo dessa modalidade, na minha classe. E foi uma aventura, foi uma prova muito dura nas dunas, no deserto. Foram dois dias de prova, nós andamos mais ou menos à volta de sete, oito horas por dia e estava muito calor, chegou a estar 46 graus, foi giro.

46 graus, giro. Nunca ouvi.

Pra cima de 27 já não começa a ser giro pra mim.

Exato, a partir dos 25 já é sofrimento. Mas quando há assim muito calor, eu perguntei a ele como é que uma pessoa se protege do calor e quanto mais roupas tiver, melhor.

Isso é que é estranho, não é?

Pois é. Mas pergunta-me, Nelson, o que o enduro me ensinou.

O que o enduro te ensinou, Rita?

Que as melhores condições pra fazer é depois de chover. Que é o contrário na estrada, porque o pó assenta, ao contrário de lá estar na estrada. E também ao contrário do que se possa pensar, ele nunca anda de moto em Lisboa.

Superprático, especialmente por Lisboa, que eu passo horas no trânsito. Mas isso não é por minha causa, não é por causa das motas, é por minha causa, porque eu sei que não consigo andar devagar, depois alguém vai abrir uma porta no meio do trânsito e vai me bater, um carro vai não sei quê.

Quando vês uma poça, passas sempre por cima dela, não?

Sim.

É mais forte que tu.

É, com o carro faço sempre.

Com o carro também?

Sim, isso aí.

Mas é pela adrenalina?

Sim, gosto, acho que é giro ver a água a vir por cima do carro. E de moto também, é muito giro quando vais muito rápido numa corrida, tens poças, passar no meio das poças, até aquaplaning fazes. É claro que é arriscado, mas é giro, é emocionante.

Conclusão: nunca comprem um veículo usado ao Pedro Bianchi Prata.

É verdade, bem visto.

Porque tem as suspensões todas arrebentadas.

Bem visto, sim, deve ter lama ali encrustada. E agora, chegou a parte em que me fui equipar.

Há fotos?

Há fotos, sim, eu vou partilhar. Que parte do equipamento, Nelson, dirias que é mais crucial no enduro?

É o capacete. Mas depois também tem aqueles casacos que têm proteção nas costas. E às vezes até põe uma cinta também, que é pra ir assim mais direito.

Eu quase não me conseguia mexer, convenhamos. Mas não, são as botas. É uma das coisas. Como é que se anda com estas botas? Isso parece muito difícil.

Mas as botas é superimportante, porque é das coisas que mais te protegem na moto, porque podes dar um pontapé numa pedra, tens que pôr o pé no chão de emergência, e se tiveres as botas, estás sempre protegida. Protege-te a canela também, embora tenhas também as joelheiras.

E mesmo o tubo de escape, não é?

Sim, é superimportante

Ficaste um bocado "o tubo de escape, como assim?" Mas é normal.

O tubo de escape é mais perigoso se for alguém atrás na mota, mas no enduro nunca andam duas pessoas de mota, é só uma.

Foi, mas eu andei.

Andaste atrás?

Claro. Eu sou muito má.

Sentes que qual foi a parte do corpo que sofre mais no enduro?

Sim. Vamos ver, vamos ouvir.

Não sei. Acho que quando as pessoas estão mal preparadas, as mãos sofrem muito. Temos que nos agarrar muito à mota e às vezes as pessoas fazem bolhas e coisas assim. Mas de uma maneira geral, é um desporto que é muito completo em termos fisicamente. Nós temos que trabalhar quase todo o nosso corpo.

Como a natação.

Sim, um bocadinho.

Não trabalha os maxilares. Quer dizer, trabalha, camara muito, tens que ter cuidado.

Pois é.

Tanta conversa, mas quê? Fizeste a aula, andaste na mota?

Fiz. Então, equipei-me toda, joelheiras, colete, T-shirt, calças, botas, parecia um robô. Antes de começar a andar de moto, ouvi as instruções, mas sou te sincera, parece que as coisas não batiam certo. Deixa eu ver se consigo. Um bocado mal, mas consigo.

Agora carregas no botão preto pra ela trabalhar.

Ai, mãe! É pena não haver cinto de segurança.

Sente o acelerador. Um bocadinho só. Espera. Quanto mais aceleras, mais ela anda. Se aceleras muito, ela vai sempre disparada. Ok?

Sim.

Isto é a embraiagem, aperta a embraiagem.

Embraiagem.

Aperta bem.

Para quê?

E a embraiagem vais largar devagarinho pra mota arrancar.

Ai, ai, ai. Ok.

Este é o travão da frente.

Sim. O travão demora um bocadinho. Trava-se muito.

Querias uma mota com lanças automáticas.

Sim, era. Ai, não me digas que é longe.

Não, é ali. É ali mesmo.

Então onde é?

Na frente do patinho. Põe o pé no patinho e com a ponta do pé.

Aqui? Ai!

Levanta, levanta. Sem medo.

Estavas a tentar meter a primeira.

Era.

Mas tens que fazer isso, e agora tens que entrar. Percebes? Ok.

Então por que não puseram deste lado? É muito mais fácil.

Isto é a embraiagem.

Embraiagem, mas vou ali sair ali no pedal.

Ai, adoro estas pessoas que trocam.

Não, mas eu acho que estava tudo mal feito.

É sim. Nunca andaste de mota, claramente.

Não, não andei e espero que um dia faça o melhor emprego do mundo como me querem. Mas queres ouvir o primeiro minuto em cima da mota? Vamos então a mais ação.

Quero, mas temo.

Ai.

Podes seguir.

Ok. E agora levanto o pé? Calma, espera. Ok. Está muito rápido.

Isso é que estás a acelerar.

Ai, não, não, não! Não quero tocar, estás a acelerar. Ai, e agora? Ai, mãe! Ai, Jesus! Espera lá, não te quero dar uma cabeçada. E agora, eu não vou fazer mais nada, acabou.

Mas espera lá, estavas na mota com o Pedro Bianchi e Prata.

Estava, sim. Ele estava atrás de mim, com as mãos em cima das minhas, que eu não sabia fazer. Foi bem deprimente. Não conseguia, estava cheia de medo, genuinamente, e ele teve de ir atrás. Éramos dois em cima de uma mota mais pequena e eu sei que ele sofreu. Ok, espera lá, é ir embora. Ok.

Embraiagem.

Embraiagem. Ai, está aqui o dedo no meio. Ai, o que é que eu fiz?

Meteste a primeira.

Ai, mãe! E agora? Ok. Agora aumento. Para cima ou para baixo? Ok, sim, é para cima.

Embraiagem. Calma.

Desculpa, o que é que eu fiz?

Estás a acelerar.

Ah, pois estou. Acelerei e travei ao mesmo tempo.

Que loucura, mas é engraçado, os teus gritos são muito operáticos.

É, não é?

É, parece que podias cantar ópera.

Exato, eu também acho que sim, sou muito dramática. Mas atenção, eu cheguei mesmo a ir pra pista, porque havia mais pessoas lá na pista. Havia mais alunos. Não, estou aqui atrás. Agora estou à frente. Não me ultrapassem, que eu não sei o que é que hei de fazer. Ok, agora está-se bem.

É difícil.

Não, mas também estás tu a...

Vamos tirar o pé.

Tirar o pé de onde? Para fazer contrapeso, não é?

Agora tira o pé desse lado. Isso.

Ainda tem que se tirar o pé.

Agora põe o pé outra vez.

Esta é a parte nas curvas que se mete o pé.

O pé de fora. Para não tentarem cair. Tu parece que estás sempre em primeira, chegaste a meter a segunda ou a terceira na mota?

Não, fui sempre em segunda. Sempre.

Vá lá. Pensei que estavas mesmo em primeira. Que grande berraria, Rita.

Pois é. Eu peço imensa desculpa a vocês, a ti, aos ouvintes, e vou explicar o que me aconteceu para me ter saído tão mal, as chamadas desculpas. E é a última. Não notas, por exemplo, que uma pessoa tem que baixar o som para estacionar? Eu sinto que, como estou toda muito apertada, parece que estou como menos atenta, não sei explicar.

Tu não estás à vontade, parece que não controlas bem o teu corpo, não controlas bem as pernas.

A culpa foi da tensão.

Era, não é?

A culpa foi da tensão que tu sentias e não conseguiste.

Olha, mas foi muito divertido. Obrigada ao Pedro Bianchi e Prata pela paciência. Desculpa as cabeçadas. Ainda por cima ele estava sem capacete e eu estava com capacete e acho que o aleijei. Mas está de parabéns, que é campeão do mundo e no dia seguinte foi pai. Se quiserem ter aulas, é só irem ao site. Aulas de quarta a domingo, no Carregado e também em Marto de Canaveses. E foi o melhor emprego do mundo.

O melhor emprego do mundo com Rita Camarneiro. Hoje foi experimentar enduro com o Pedro Bianchi Prata e sobreviveu. Obrigado, Rita.

Obrigada.

Parabéns. Nada mal.