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Jorge Jardim não quer acreditar no que lhe dizem, mesmo que seja a palavra da própria filha. O aviso surge de forma inesperada. Patucha Jardim segue de carro com o marido na zona de Belém, quando perto de uma espanada vê alguém a acenar. É um militar, uma pessoa que conhece. Pede ao marido para parar o carro. Quando abrem o vidro, o militar dá-lhe um recado. "Diga ao seu pai que vai ter um mandado de captura." Patucha vai almoçar com ele nesse dia e assim que chega avisa-o de imediato.
E o meu pai não acreditou. "Ah, disparate", não sei o quê. Foi um drama. Esse dia foi um drama, porque o meu pai era um teimoso dos piores e as pessoas não acreditavam em mim. Que era o que toda a gente dizia: "Mas a propósito de quê? Por quê um mandado de captura? Não tem."
A única hipótese é contactar o homem que a avisou e levá-lo a convencer Jorge Jardim de que tudo é verdade. Passa o dia todo a procurá-lo. O militar não atende o telefone. Vai à casa dele e confirma que não está lá. Só o consegue encontrar já perto da meia-noite. Mesmo tarde, leva-o para falar com o pai, para lhe contar tudo com mais pormenores. E Jorge Jardim finalmente acredita. Só lhe resta uma opção: fugir. Jardim agarra nos documentos, em alguns objetos pessoais e em armas para se defender. Já sabe bem para onde ir. Aliás, já tinha preparado o sítio previamente com alguns mantimentos, para o caso de algum dia ter de enfrentar um cerco. Nunca ninguém o iria apanhar desprevenido. Tudo mudou num só dia, no espaço de algumas horas. Jardim já tinha a noção perfeita de que corria contra o tempo. Nos primeiros meses de 1974, desdobra-se em contactos para tentar pôr ainda em marcha o grande plano da independência de Moçambique. Tinha já sinais de que o regime começava a desmoronar. Só não esperava que tudo se precipitasse naquele 25 de abril. Aliás, tinha o regresso marcado para África no dia seguinte, mas não chega a partir. E, na verdade, nunca mais irá voltar a Moçambique. Este é o misterioso Engenheiro Jardim, uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Lourenço Ortigão, com banda sonora original dos HMB. Episódio cinco: Vamos fazer um golpe de Estado.
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Jorge Jardim tinha um herói. É certo que gostava de James Bond e fazia tudo para copiar o agente secreto fictício criado por Ian Fleming. Mas admirava um outro personagem, alguém que tinha existido, que tinha deixado um legado.
"We shall never see his like again. His name will live in history. It will live in the annals of war. It will live in the legends of Arabia." "Who is he?"
O oficial britânico Thomas Edward Lawrence foi imortalizado no cinema pelo ator Peter O'Toole. Ficaria conhecido como Lawrence da Arábia. Foi um aventureiro de várias caras. Arqueólogo, militar, diplomata, escritor Agente dos serviços secretos britânicos, enviado à península arábica durante a Primeira Guerra Mundial. Acabaria por aproximar-se das tribos árabes e tornar-se o homem de confiança do rei Faysal I, apoiando a revolta contra os otomanos. O filme estreou em 1962, mas Lawrence escreveu as memórias nos anos 20, intituladas "Os Sete Pilares da Sabedoria". Jardim recomendava o livro a toda a gente, em entrevistas ou mesmo no livro que havia de escrever já depois da Revolução do 25 de Abril. E não perdia uma oportunidade para citar Lawrence da Arábia. Ele próprio acreditava ter origens árabes. "E os árabes são os únicos que sabem atravessar o deserto", afirmava Jardim. Pedro Pezarat Correia, que colaborou com ele em operações clandestinas em Moçambique, confirma que o engenheiro Jardim gostava de cultivar essa imagem, e não apenas em privado.
Ele gostava que lhe chamassem, porque havia pessoas que o chamavam Lawrence da Arábia. Lawrence da Arábia português. Porque o Jardim era realmente um homem que se metia em empreendimentos que não passavam pela cabeça do comum mortal. Só com essa característica. Quando ele se metia nas coisas, era para as levar até ao fim.
Há outra semelhança, mais importante ainda. A dada altura, Lawrence sente-se mais árabe do que britânico. Da mesma forma, diz a filha Carmo, Jardim passa a sentir-se mais moçambicano do que português.
Ele sentia-se moçambicano. Aliás, é ele que me ensina a ser e a sentir Moçambique como moçambicana. Portanto, o meu pai era muito moçambicano de alma e coração, muitíssimo mesmo. Estava sempre a pensar no Moçambique de amanhã, no que iria ser Moçambique.
Para ele, não há dúvidas. O Moçambique de amanhã só pode ser independente. Esse passa a ser o grande projeto da vida de Jorge Jardim, o Lawrence de África. Não era apenas um conjunto de intenções vagas. A 12 de setembro de 1973, é tudo colocado num documento oficial, que ficou conhecido como Programa de Lusaka. A proposta é feita pela Zâmbia e conta com o apoio de outros dois países vizinhos, o Malawi e a Tanzânia. É um roteiro para a independência de Moçambique, redigido com a colaboração de Jorge Jardim, após várias reuniões secretas. Primeiro, é preciso acabar com a guerra. Para isso, a Zâmbia oferece-se para mediar as conversações entre o governo português e os independentistas da FRELIMO. Depois, é necessário um período de transição que abra espaço e oportunidade para criar uma sociedade multirracial e multipartidária, explica o escritor moçambicano Adelino Timóteo, autor de um livro sobre Jorge Jardim.
O plano de Jardim é exatamente aquilo que Mandela fez na África do Sul. O poder entrega à maioria, mas respeitando a história, respeitando que a minoria que está nesses territórios também é nacional, é parte dela e que merece ser respeitada.
Jorge Jardim sabe que a independência é inevitável e quer posicionar-se o mais cedo possível. Na opinião do historiador Pedro Aires Oliveira, especialista no período da descolonização, Jardim quer garantir não apenas os interesses dele, mas também os da minoria branca.
Era uma tentativa, de alguma maneira, de perspetivar um futuro político para Moçambique que não a conduzisse a uma completa expulsão e erradicação dos elementos de origem europeia no território, que acautelasse uma transição mais gradual, menos brusca, para uma sociedade mais organizada segundo linhas coletivistas, estatizantes, com o monopólio político da FRELIMO. Eram figuras como Jorge Jardim a tentarem encontrar um lugar na futura ordem das coisas em Moçambique, no cenário de um Moçambique independente.
Mas por muito boas intenções que este projeto tivesse, tinha também falhas que iriam revelar-se fatais. Havia, pelo menos, dois grandes problemas com o que estava a ser preparado em Lusaka. Primeiro problema: Jorge Jardim não tinha qualquer mandato oficial do governo português para agir como negociador. Aliás, escondeu mesmo de Lisboa o que se estava a passar. Por que o fez? Adelino Timóteo acha que foi por calculismo, que Jardim estaria à espera do momento certo para poder confrontar o regime com um programa já desenhado e negociado, quando a questão da independência se tornasse inevitável.
Jardim abriu o jogo porque conhecia a natureza Autoritária do regime, ele sabia que um passo em falso da sua parte seria algo demolidor e podia acabar consigo.
Segundo problema: qualquer solução para a independência de Moçambique precisava de ter o apoio da FRELIMO. Desde o início, a Zâmbia garantiu a Jardim que o movimento independentista tinha abertura para apoiar o plano. E foi isso mesmo que ele relatou à filha Carmo.
O meu pai, a única coisa que sempre mencionou é que naturalmente que a FRELIMO estava completamente por dentro deste assunto, mas em nível muito confidencial. Portanto, só alguns elementos, senão um ou dois, é que estariam dentro deste programa e que teriam aceito, inclusive, este programa de Lusaka.
Mas oficialmente, o movimento nunca se comprometeu com nada. Adelino Timóteo defende que por essa altura, a FRELIMO jogava em vários tabuleiros ao mesmo tempo, à espera do que pudesse acontecer.
A FRELIMO nunca deixa de estar na expectativa dos acontecimentos em Portugal. A FRELIMO joga em dois polos, enquanto Jardim joga apenas numa frente.
E em 1974, quando a revolução acontecer em Portugal, Jardim vai começar a perder o jogo. É um início de ano violento. A 14 de janeiro, uma família de agricultores brancos é atacada em Vila Manica, perto da fronteira com a Rodésia do Sul. Uma mulher é brutalmente assassinada. Os guerrilheiros da FRELIMO estão a entrar cada vez mais no território de Moçambique. E desta vez, as vítimas não são militares, mas civis. O caso provoca a revolta da população branca, e essa revolta vai direcionar-se contra o exército português, com um protesto na messe dos oficiais do Bairro do Macuti. A agitação fica conhecida como a Revolta da Beira. Jorge Jardim chega mesmo a ser acusado de instigar a população branca, com o objetivo de começar a preparar o cenário para uma futura independência unilateral. Nega sempre tudo. Menos de um mês depois, Jardim viaja para Lisboa. No dia 12 de fevereiro, encontra-se com Marcelo Caetano, mas continua sem dizer nada ao chefe do governo sobre o que tinha negociado em Lusaka. Caetano oferece-lhe o cargo de embaixador de Portugal no Malawi. Não é a primeira vez. Pela insistência, Jardim começa a perceber que o querem afastar de Moçambique. A 22 de fevereiro, o general Spínola publica o livro "Portugal e o Futuro", em que desafia a política colonial do Estado Novo e incendeia o país. O ex-governador da Guiné diz que é impossível Portugal vencer a guerra e defende a ideia da criação de uma comunidade lusófona.
Perante si próprio e perante a situação internacional, até que ponto poderia o exército português continuar as guerras em África? Esta era a questão que muitos colocavam. Acontece que um deles era um general que granjeara o seu prestígio precisamente na guerra.
O tempo começa a esgotar-se para Jardim. Encontra-se com o amigo Baltazar Rebelo de Sousa, o ex-governador de Moçambique, que por esta altura é ministro do Ultramar, avisa-o de que o nacionalismo moçambicano dele começa a gerar desconfianças em Lisboa. Ainda assim, Jardim decide contar tudo ao amigo. Apresenta-lhe o programa de Lusaka. E Baltazar responde-lhe que aquilo está fora de questão, recorda o filho mais novo, Pedro Rebelo de Sousa.
Eu julgo que o meu pai, daquilo que é uma leitura pessoal, achou que o programa em si era um programa que tinha dificuldade de ser implementado. Era difícil de vendê-lo internamente, uma vez que o regime estava claramente numa encruzilhada dramática.
Jardim sai de casa de Rebelo de Sousa com a noção de que está cada vez mais isolado politicamente. A 17 de abril, poucos dias antes da revolução que vai acabar com a ditadura, arrisca tudo. Apresenta o programa para a independência de Moçambique ao próprio Marcelo Caetano. Caetano, que um mês antes tinha reforçado na Assembleia Nacional que não iria abdicar das colônias, responde-lhe que foi longe demais. Deveria simplesmente aceitar o cargo de embaixador que lhe estavam a oferecer e esquecer tudo o resto. Jardim percebe então que só tem uma saída. Vai fazer um golpe de Estado.
Sim, ele admite. Ele admite em relação ao que o Marcelo Caetano lhe diz. Não autorizava que Moçambique se tornasse independente, multirracial e multipartidário. Não, o Marcelo Caetano não autorizava, disse que não. E, portanto, ele admitiu então fazer um golpe de Estado. Só que já era tarde. Ele, se tivesse tido tempo, tinha feito o golpe de Estado
O engenheiro Jardim tem tudo pronto para no dia 26 de abril, partir para Paris e dali seguir para a África, mas nunca vai chegar a viajar. Na véspera, é apanhado por outro golpe de Estado.
Aqui, posto de comando do Movimento das Forças Armadas. As Forças Armadas portuguesas apelam para todos os habitantes da cidade de Lisboa, no sentido de se recolherem às suas casas, nas quais se devem conservar com a máxima calma.
Madrugada de 25 de abril de 1974.
Tristemente assinalada por qualquer acidente pessoal.
Assim que é avisado por uma chamada de João Maria Tudela para o quarto no Hotel Sheraton, Jardim sintoniza o Rádio Clube Português para tentar perceber o que se está a passar. Só que isso não é suficiente. Tem de ver com os próprios olhos. Como é habitual, sai à rua no carro da embaixada do Malawi, mas para evitar ser reconhecido, veste o uniforme do motorista. Ainda dá algumas voltas pela cidade, mas da janela do carro não consegue perceber bem a que lado pertencem as tropas que se movimentam nas ruas. Tem de estar mais perto. Decide sair e andar a pé. Mistura-se com a multidão. Ao chegar à Rua do Ouro, avista uma cabine telefônica e liga para o Ministério do Ultramar. Quer falar com o ministro, o amigo Baltazar Rebelo de Sousa. No dia da revolução, Rebelo de Sousa ficou no ministério até às 21h. Contará mais tarde como Jorge Jardim lhe ligou de hora a hora, a fazer o relato em direto do que estava a acontecer. Não é o único telefonema que faz. Jardim vai ligando a vários amigos. Até mesmo do Largo do Carmo, onde Salgueiro Maia consegue negociar a rendição de Marcelo Caetano.
Proclamação da Junta de Salvação Nacional. Em obediência ao mandato delegado-
Já de madrugada, acompanha pela RTP a primeira comunicação dos membros da Junta de Salvação Nacional. Conhece pessoalmente a maior parte deles.
Levado a cabo pela sobrevivência nacional.
Por isso, consegue marcar uma reunião com o presidente, o general Spínola. Vai ser a 4 de maio, um sábado. Na véspera, Jorge Jardim usa o jornal Notícias da Beira, de que é proprietário, para escrever um editorial a apoiar o programa do Movimento das Forças Armadas e para se assegurar de que o general o lê, envia-lhe o texto por carta antes de se encontrarem. Depois de ter apresentado o plano de independência de Moçambique a Baltazar Rebelo de Sousa e a Marcelo Caetano, faz o mesmo com Spínola. Pela terceira vez, ouve um não. Não só não é o momento certo para falar sobre isso, como talvez se possam encontrar outras soluções mais convenientes para Moçambique. Jardim faz tudo para continuar a ter influência política no novo regime. Mas aquilo que durante anos lhe deu um imenso poder, é justamente o que agora se vira contra ele. O segredo sempre foi agir na sombra. Tirando o fato de ter sido deputado por Moçambique, oficialmente Jardim não tinha qualquer cargo político. O engenheiro era um administrador de empresas, dono de jornais e presidente de várias associações, mas as atividades secretas que exercia fizeram-no acumular durante anos uma enorme influência, que foi da diplomacia à política ou às Forças Armadas. Sempre com o conhecimento e apoio de Salazar e mais tarde, de Marcelo Caetano, explica o historiador Pedro Aires Oliveira.
Ele nunca foi desautorizado pela presidência do conselho aqui em Lisboa, portanto, teve sempre votos de confiança reiterados para prosseguir as suas iniciativas e, de facto, naquele xadrez político africano, tudo o que pudesse ser feito para, de alguma maneira também, enfraquecer uma frente africana unida contra Portugal, era muito útil.
Não ter um cargo oficial dava-lhe liberdade de ação. Diz-se até que recusou várias vezes ser governador-geral de Moçambique para não estar limitado pelo formalismo da posição. Mas tanto poder informal também criava anticorpos pelo caminho. Jorge Jardim não era bem visto pelos canais diplomáticos oficiais, que muitas vezes se sentiam ultrapassados por ele. E principalmente, era também encarado com desconfiança pelas chefias militares, recorda Pedro Rebelo de Sousa, filho de Baltazar Rebelo de Sousa.
Sobretudo depois do início da guerra, nos anos 60, meados de 60, as chefias militares achavam que ele tinha poder a mais Que era um poder dentro do poder.
Depois da revolução, muitas dessas chefias militares que desconfiam de Jardim, veem-se agora em posições de poder. E um deles é mesmo o homem que o engenheiro vai passar a ver como o inimigo número um.
Reacionário e outras forças adversas da revolução, tinham intoxicado a opinião de Angola, atribuindo à Junta de Salvação Nacional, intenções derrotistas.
O general Francisco de Costa Gomes é um dos sete militares que integram a Junta de Salvação Nacional e o segundo mais graduado, logo atrás do general Spínola. Em 1965, tinha sido nomeado Subcomandante da Região Militar de Moçambique e dois anos depois, ascendeu a Comandante. A relação com Jorge Jardim até começa por ser de cooperação, mas as divergências não tardam a aparecer e têm início por causa do Malawi. Costa Gomes não gosta da relação privilegiada de Jardim com o presidente Banda, que acusa de ser demasiado permissivo para com a FRELIMO, que defende que enquanto os independentistas ali tiverem liberdade de movimentos, será muito difícil evitar ataques em Moçambique. Também não gosta da influência de Jardim na área militar, que considera uma intromissão. Poucos anos depois, quando voltam a ficar frente a frente, já estão em posições muito diferentes. Em 1974, Jardim é um homem à procura de sobreviver a uma nova realidade política. Costa Gomes é o número dois do poder de transição. E é o nome dele que vai estar num documento que vai mudar tudo. O mandado de captura de Jorge Jardim.
De harmonia com a decisão da Junta de Salvação Nacional.
Quinze de maio de 1974. Já passa das oito da noite. Jardim está a arrumar as coisas. Prepara-se para embarcar dentro de horas para África. O telefone toca. É do Palácio de Belém. O general Spínola, que nesse dia tomou posse como presidente da República, por indicação da Junta de Salvação Nacional, quer falar com ele. Spínola diz-lhe que vá a Belém. Jardim aceita, mas avisa que o encontro tem de ser rápido porque está quase a viajar. É mesmo esse o motivo, revela o novo presidente: "Queremos pedir-lhe que não vá." Quando chega ao palácio, Spínola não está sozinho. Ao lado dele, está o general Costa Gomes. Querem que cancele a viagem. Consideram que a presença dele em Moçambique pode criar instabilidade. Costa Gomes dirige-se mesmo diretamente a Jardim e acusa-o de ter um exército privado, armamento escondido e uma rede de informações, uma espécie de PIDE paralela. Tudo coisas que poderiam perturbar o futuro processo de descolonização. Diz-lhe ainda que sabe que foi ele o grande responsável pela agitação da população branca na beira, no início do ano. Jardim nega todas as acusações, mas a situação era óbvia. Todo o poder que acumulou ao longo dos anos virava-se agora contra ele, na opinião de Pedro Aires Oliveira, especialista no período da descolonização.
Era uma pessoa que estava muito conotada com o anterior regime. E lá está, ele era um pilar do sistema colonial em Moçambique, era uma das figuras cimeiras das forças vivas em Moçambique. Portanto, era alguém visto com muita desconfiança e suspeita por parte de pessoas que agora estavam no poder e que algumas delas também se movimentavam nessas áreas. O general Costa Gomes e o general Spínola não tinham sido ativistas anticoloniais no exílio. Eram pessoas que estavam na condução da política militar de defesa do império e, portanto, lidavam exatamente com os mesmos interlocutores de Jardim. Uma figura como Costa Gomes conhecia bem o perigo que ele poderia representar para uma via de descolonização, que era a via de descolonização preconizada pelos capitães do MFA.
Os dois generais não lhe pedem apenas para cancelar a viagem a Moçambique. Aconselham-no mesmo a não sair do país neste momento. Jardim deixa a reunião convencido de que, especialmente Costa Gomes, teria um plano oculto para a independência de Moçambique e que, por isso, queria afastá-lo a todo o custo desse processo. O engenheiro Jardim, que sempre tinha encontrado escapatórias, começa a ficar sem saídas. Tudo se precipita a partir daquela reunião Dias depois, Jardim é avisado de que se preparam para o mandar prender. Refugia-se no único sítio que considera seguro: a Embaixada do Malawi, em Lisboa. Um edifício cor-de-rosa na Rua dos Navegantes, na Lapa, onde tem um gabinete de trabalho que usa sempre que está de passagem pela capital. Mais um privilégio por ser cônsul honorário daquele país. É lá que passa os dias e noites seguintes, protegido pelo facto de as autoridades portuguesas não poderem entrar. Tem também algum armamento pessoal e mantimentos. Estava sempre preparado para qualquer eventualidade. Multiplica-se em contactos com o presidente Banda e alguns dos colaboradores mais próximos, entre eles João Maria Tudela, o cantor agente secreto. Chega a fazer planos para tentar sair para Londres e dali para África, viajando na companhia do embaixador do Malawi em Lisboa. A 1 de junho, o embaixador é recebido por Spínola. O Presidente da República garante-lhe que não há nada formalmente contra Jardim, mas que convinha que ele não se ausentasse do país. Oficialmente, ainda não havia mesmo qualquer mandado. O documento só é emitido ao final desse dia. Refere que Jardim deve ser preso se sair da embaixada, mas sem invocar qualquer motivo. É um despacho assinado apenas por uma pessoa, o general Costa Gomes. Nessa mesma noite, a embaixada é cercada por elementos da Polícia Militar. Jardim mantém-se irredutível. Liga a amigos que têm contactos com as Forças Armadas e pede-lhes para passarem um recado a quem de direito. Avisa que se estiverem com ideias de entrar para o prender, está sentado numa cadeira com dinamite e um isqueiro e tem explosivos suficientes debaixo da secretária para mandar todo o prédio pelos ares. Por esta altura, a filha mais velha, Patucha, é a única que está a viver em Portugal. Todos os dias vai à embaixada levar o almoço ao pai. Passa sempre pelo dispositivo policial à porta do edifício e repara que os prédios em redor também estão a ser vigiados.
Na casa de trás andava um tipo de metralhadora atrás da janela, aquilo tinha uma varanda, estou a ver como se fosse hoje, e estava um tipo de metralhadora também a controlá-la, assim como cá embaixo estava o COPCON, aquele se calhar era COPCON, não faço ideia. Só que aquelas janelas de trás passaram a nunca mais ser abertas.
A partir de certa altura, começa a suspeitar de que está a ser constantemente seguida. Todas as filhas tinham sido treinadas pelo pai para identificarem esse tipo de situações.
Porque nós, já na Beira, éramos muito perseguidas pela PIDE. Eu não ando 10 km, só se for na autoestrada, com o mesmo carro atrás de mim. Porque abrando, encosto. Eu sei perfeitamente que um carro vem atrás de mim, percebe? Não ando. Eu vou na rua e vou a ver pelas janelas ou pelos vidros das portas, ou por, se vem alguém atrás de mim. E se vem alguém atrás de mim, paro e encosto. Nada a fazer.
Nas muitas conversas que têm ao longo destes dias na embaixada, Jardim faz uma promessa à filha: não vai fugir. Doze de junho de 1974. Jardim pede à filha para, no dia seguinte, ir à embaixada mais tarde do que o habitual. Diz-lhe que está doente, com paludismo, que tomou os comprimidos e quer descansar. Dá-lhe mesmo as chaves para entrar sozinha.
Eu acreditei piamente que ele se estava a sentir mal e não estava a querer dizer, de maneira que só venhas às 15h. E eu acreditei piamente.
Passam 23 dias desde que Jardim se refugiou na embaixada. A filha está quase a sair de casa quando recebe um telefonema. Uma voz que não conhece confirma-lhe que já pode ir. Diz-lhe que quando chegar ao escritório do pai, o auscultador do telefone vai estar fora do gancho. Ela deve voltar a pô-lo no sítio. Quando entra, não encontra ninguém. Vê apenas três cartas em cima da secretária e o telefone pousado ao lado dos envelopes. Cumpre a instrução que a voz lhe tinha dado antes de sair de casa. Segundos depois, o telefone toca. Do outro lado, ouve um homem com sotaque francês.
Pega nas cartas e sai imediatamente. Eu, certo, peguei nas cartas e fui tão cobarde que não consegui ir ao quarto do meu pai. Tive tanto medo que ele estivesse morto ou qualquer coisa
A filha sai da embaixada assustada. Leva nas mãos as três cartas. Uma é para o irmão do pai, a outra é para a cunhada e a terceira é para ela. Mas essa é uma história para o último episódio. No último episódio.
O Jorge Jardim não faz sentido. Neste momento, é para descartar.
Passou a ser alguém que era contagioso.
Assim que entrei, as portas trancadas. Achei logo aquilo esquisito.
Tinha um cianetozinho que ele dizia que andava com ele porque no dia em que fosse preso e no dia em que não tivesse mais hipótese de salvação, então metia o comprimido na boca.
"O Misterioso Engenheiro Jardim" é uma série para ouvir em seis episódios e faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Lourenço Ortigão, e tem banda sonora original dos HMB. O guião e as entrevistas são de João Santos Duarte. A sonoplastia é de Mariana Sousa Aguiar. O design gráfico é de Miguel Ferraz Cabral. A edição é de Tâmia Pereirinha e de João Santos Duarte. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio ouvimos sons retirados do YouTube. Se gostar desta série, pode seguir, dar cinco estrelas e comentar o episódio na Apple Podcasts ou no Spotify. Pode subscrever e gostar no YouTube. Assim, recebe uma notificação sempre que houver um novo episódio. Podcast Plus do Observador. É mais do que um podcast.
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