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Todas as semanas, às quintas-feiras, fazemos um ponto de situação e recordamos polêmicas que há um ano estiveram em todas as manchetes dos jornais, mas que entretanto caíram no esquecimento. Todas as semanas, ora a Diana Rosa, ora o João Gama trazem-nos as histórias, os casos e as polêmicas que estiveram a investigar. Primeiro, recordamos a história, vemos os desenvolvimentos e depois contamos com a ajuda de um convidado para compreender, afinal, o que é que está aqui em causa.
E hoje é a estreia do João Gama. Na semana passada, a Diana Rosa trouxe-nos desenvolvimentos sobre a polêmica em torno do ator Nuno Lopes. Hoje, João, vamos falar de unicórnios, mais precisamente sobre o que acontece quando os unicórnios perdem as asas para voar no mundo empresarial. Mas João, precisamos de contexto.
Vamos falar da Farfetch, o primeiro unicórnio com ADN português e por unicórnio estamos a falar de uma empresa avaliada em mais de $1.000 milhões. Foi a 29 de novembro de 2023 quando demos pela primeira vez a notícia. A Farfetch fechava-se a sete chaves, cancelava a divulgação das contas do terceiro trimestre do ano e o jornal britânico Telegraph largava a primeira bomba. A Farfetch estaria a estudar sair da Bolsa de Nova York e na história do dia, desse mesmo dia, contávamos a história assim.
"The shares are surging after The Telegraph reported the company may go private after a troubled New York Stock Exchange listing. Founder José Neves reportedly in talks with advisors at JP Morgan about this."
Primeiro, a notícia do The Telegraph, na terça-feira, que avançava que José Neves, o magnata da Farfetch, assim dizia o título, estava em contactos com outros acionistas para tirar a empresa da Bolsa de Nova York.
A voz é da Sara Antunes de Oliveira. Todos os sinais apontavam para más notícias e a Farfetch via as ações cotadas na Bolsa de Nova York desvalorizar mais de 90%. As ações que antes valiam $20 cada, passavam a valer pouco mais de $2.
Importa talvez lembrar, João, que empresa é ou era a Farfetch.
Talvez o melhor seja deixarmos José Neves, antigo CEO, criador da empresa, responder por nós.
A Farfetch para o consumidor final é uma viagem fantástica pelo mundo da moda. Portanto, permite a uma pessoa em Lisboa ou no Porto, comprar nas lojas de Milão, de Paris, de São Paulo, de Nova York, de uma forma fácil.
Uma plataforma de comércio eletrônico de luxo que foi fundada por José Neves em 2007. Precisou de vários anos para dar lucro. Aliás, foi apenas no quarto trimestre de 2020. Estávamos já em plena pandemia, mas há um ano os lucros esfumavam-se e a Farfetch voltava a apresentar, ainda em agosto de 2023, prejuízos de €30 milhões.
E tudo isto, João, precipitou a venda da empresa. Ainda em dezembro, surgiam as primeiras notícias de que a Farfetch ia ser comprada pela Coupang.
Esteve a Farfetch em silêncio durante praticamente um mês. Apenas foi quebrado quando o grupo sul-coreano, é conhecido como a Amazon coreana, anunciou a intenção de comprar o negócio de todos os ativos da Farfetch Holdings. A poucos dias do Natal, a empresa criada por José Neves recebia a garantia de uma injeção de $500 milhões.
Mas meses depois, já em 2024, José Neves demite-se da liderança da Farfetch e a empresa começa a avançar com despedimentos.
Em massa, com a saída prevista de 25% a 30% dos funcionários. Só em Portugal seriam despedidos 1.000 trabalhadores. O nosso país era, à data, o país com mais funcionários da Farfetch, perto de 3.500, uma parte significativa ali na zona de Guimarães. Os números dos despedimentos nunca foram atualizados pela empresa, mesmo depois de termos pedido números atualizados para fazer este programa, ainda esta semana não havia esses números.
A Coupang assumiu a liderança da Farfetch, fazia uma reestruturação e meses depois os prejuízos acabaram por encolher.
Fechou o terceiro trimestre deste ano, a Farfetch com um prejuízo de €2 milhões, face aos €31 milhões do trimestre anterior. No último trimestre de 2024, a Coupang espera que a Farfetch fique perto de atingir o break-even.
Desde fevereiro perdemos o rasto da Farfetch, mas João, estiveste com uma lupa à procura de novidades. Como é que está a Farfetch um ano depois?
Nós já aqui falamos, Vanessa, dos resultados financeiros, mas a Farfetch Limited continua a enfrentar processos em tribunal. Logo em dezembro de 2023, deu entrada uma ação no Tribunal Distrital dos Estados Unidos, em Nova York. O alvo não era só a Farfetch Limited, mas José Neves, enquanto fundador e ex-CEO, Elliot Jordan e Stephanie Ferro, que era o ex-diretor financeiro e a ex-presidente do grupo. Os investidores acusam os antigos administradores de agir com intenção fraudulenta e de enganar propositadamente quem investiu dinheiro na empresa. E como? Através de declarações materialmente falsas e enganosas, e estou a citar, e relatórios financeiros não confiáveis que pretendiam dar uma imagem ilusória de sucesso aos investidores, enquanto os administradores estariam supostamente cientes do declínio contínuo da empresa no mercado. O processo tem andado para trás e para a frente, como se fosse uma bola de futebol. Deu entrada em dezembro do ano passado em tribunal, acusava a empresa de fraude. Em setembro, José Neves e companhia ripostaram com uma moção para arquivar esta queixa e agora, em novembro deste ano, os investidores voltaram a avançar com uma moção para rejeitar a moção de defesa de José Neves.
E quais foram os argumentos de defesa dos antigos administradores da Farfetch?
Foi isso que tivemos a ver com uma lupa. Nós tivemos acesso a todos estes processos, Judite. Um dos investidores com quem falámos diz que a defesa de José Neves e companhia tenta escapar com tecnicalidades. Na moção de arquivamento, a defesa alega que a acusação não apresenta nenhuma teoria viável de fraude relativa aos investimentos dos acionistas e que não é possível provar a intenção de fraude de que são acusados. O processo contra a Farfetch Limited assenta em 80 diferentes divulgações de resultados durante apenas dois anos, mas a defesa não lhes dá qualquer atenção. Argumenta que o facto de a acusação recorrer a tantas comunicações e em bloco com vários parágrafos, faz com que sejam argumentos de quebra-cabeças, que segue uma abordagem de lava-louças, ou seja, atirar a tudo na esperança de acertar em algum. Os advogados de José Neves e companhia argumentam que a Farfetch fez divulgações detalhadas dos resultados e respondem com exagero cooperativo e expressões de otimismo a estas alegações de fraude. Mas estão confiantes. Dizem que a acusação não consegue identificar uma declaração específica que possa provar que seja falsa ou enganadora.
E João, tu descobriste a nova forma que os investidores estão a encontrar para se organizar num grupo de Telegram.
Vimos o Telegram generalizar-se como forma de comunicação, não só para os investidores, mas para muitas outras coisas. O grupo chama-se o Farfetch Investors, reúne perto de 700 investidores, colaboradores, antigos trabalhadores da empresa. Têm uma coisa em comum: são pessoas que dizem ter sido apanhadas de surpresa com a queda da Farfetch. Falámos com o coordenador do grupo, João Matos. Investiu na empresa pela primeira vez em 2022. Num ano, acabou por perder 150 mil dólares, ou seja, 140 mil euros, por volta disso. Diz que investiu na empresa por causa da informação que a empresa passava ao mercado, que revelava, diz João Matos, um otimismo brutal e que fazia adivinhar que 2023 ia ser o melhor ano sempre da empresa, quando, na verdade, foi o ano que precisou de ser vendida para não declarar falência. A história de João Matos não é única neste grupo. O grupo do Telegram reúne investidores particulares que perderam até seis milhões de euros e colaboradores que recebiam prêmios na forma de ações, que acabaram por perder dezenas de milhares de euros apenas com os impostos que tiveram de pagar quando viram as ações a desvalorizar no mercado. É um grupo de investidores que vai também avançar com uma nova ação em tribunal, mas desta vez em Londres. O caso está a ser construído com pinças contra a Farfetch Limited, por isso ainda não sabemos bem quando irá dar entrada em tribunal.
E quanto a José Neves e à fundação que lidera, sabemos alguma coisa deste último ano?
Vanessa, José Neves assumiu o controle da fundação quando se demitiu da Farfetch. Nós pedimos uma resposta por e-mail à fundação face a estas investigações, mas não tivemos sucesso. Aliás, numa das raras declarações públicas depois do colapso da Farfetch, José Neves veio dar nota de uma parceria com a Fundação Belmiro de Azevedo para ajudar a plataforma Brighter Future a chegar a mais pessoas que procuram tomar decisões sobre o futuro acadêmico e profissional. Sobre a Farfetch, nada. O que sabemos ainda deste ano é que a Fundação José Neves continua a aparecer nas notícias, ora a realizar estudos ligados à produtividade das empresas com maior digitalização, como foi publicado em julho deste ano pela Agência Lusa, ora a desenvolver até aplicações de saúde mental. Em janeiro, vão lançar uma nova aplicação com programas de meditação, exercícios e sessões guiadas ao vivo.
E para nos ajudar a perceber melhor o que aconteceu com a Farfetch, junta-se a nós o Stephan Morais, é diretor-geral da Indico Capital Partners, o primeiro fundo de venture capital português. Conhece bem o universo de startups e enquanto liderou a Caixa Capital, foi ele a propor o investimento na Farfetch. Boa tarde, Stephan, bem-vindo. A Farfetch foi um unicórnio que não conseguiu continuar a voar. Entrou pela porta grande na Bolsa de Nova York, mas há um ano viu as ações desvalorizar acima dos 90% e não teve outra solução sem ser vendida a uma empresa ainda maior, a Coupang, Amazon da Coreia. Stephan Morais, a Farfetch tentou voar alto demais?
Eu não diria que tentou voar alto demais. A ideia original do José Neves era brilhante e foi um grande sucesso durante muito tempo. Mas é certo que estas empresas, a determinada altura, têm que cumprir com as expectativas. E o que aconteceu eventualmente após a entrada em bolsa foi que as expectativas que foram sendo criadas em termos de resultados não se concretizaram e a determinada altura os analistas financeiros e os investidores acharam que as perspetivas da empresa já não eram positivas e, portanto, o preço por ação caiu abruptamente e a empresa acabou por ser resgatada pela Coupang para continuar a existir, mas dentro do universo da Coupang. Ele foi um pioneiro, lançou um serviço de altíssima conveniência para os clientes que queriam comprar aquelas marcas, mas também é muito diferente investir e ter um conselho de administração de fundos privados e depois entrar em bolsa. O tipo de análise e de exigência é diferente.
E ao entrar na bolsa de Nova Iorque, José Neves acabou por assinar a sentença da Farfetch?
Isto não tem a ver propriamente com a entrada em bolsa. O que acontece é que realmente estas plataformas, por vezes, têm que ganhar muita dimensão antes de começarem a gerar dinheiro, a terem EBITDA positivo, a gerarem cash. Porque se não o fizerem, talvez nunca consigam ganhar a dimensão necessária para cobrir os custos fixos para que a empresa se torne rentável. Portanto, é natural durante muitos anos, perca dinheiro, como aconteceu desde a Amazon a muitos dos outros gigantes tecnológicos. Mas efetivamente, a partir do momento em que se entra em bolsa, o critério de análise dos analistas financeiros é bastante diferente, nomeadamente quando se prometem determinados resultados e depois, por várias razões, não se conseguem atingir. E é isso que dita depois a sentença dos analistas em deixarem de acreditar no projeto.
A venda à Coupang tem contornos obscuros, como alegam os investidores que estão a pôr José Neves em tribunal?
Olhe, eu acho que quando as coisas correm muito bem, muito mal ou mais ou menos, há sempre na bolsa de Nova Iorque e nos temas financeiros mais sofisticados, há sempre processos judiciais que podem ter alguma base ou base nenhuma. Eu não tenho nenhuma informação específica sobre isso, mas sinceramente, basta haver, por vezes, um declínio do preço por ações de empresas altamente saudáveis e que não vão à falência e que não são compradas para que os CEOs e os conselhos de administração sejam processados judicialmente por conjuntos de investidores. Isso é uma prática corrente que não quer dizer absolutamente nada, exceto que há um grupo de investidores que acha que as coisas deviam ter sido feitas de uma maneira melhor. Não sei se isto há contornos obscuros ou não, eu imagino que não, mas é claro que ninguém gosta de perder dinheiro e, portanto, haverá queixas legítimas de pessoas que acham que as coisas deviam ser conduzidas de uma maneira diferente. Isso o tempo dirá e os tribunais nos Estados Unidos funcionam de uma forma, em geral, bastante célere e eficiente, mas é verdade que não há nada de especial em haver processos judiciais nessas circunstâncias, que é quase banal.
Stéphano Morais, como é que funciona o mercado de investimento de risco em startups como a Farfetch? Como é que uma empresa como a Farfetch conseguia atrair investidores?
A base é ter realmente uma ideia que revolucione o mercado e que seja muito mais eficiente do que todas as outras soluções para esse mercado. E que o mercado seja também muito grande e que a equipa de gestão seja a correta. Ou seja, neste caso da Farfetch, eles realmente revolucionaram a forma de entregar luxo aos clientes que queriam comprar luxo, que antes tinham que ir a lojas físicas e agora podiam ir a uma montra digital e encomendar aquelas peças que eles queriam especiais das marcas que ambicionavam comprar. E isso realmente foi uma revolução total quando aconteceu há mais de uma década e meia atrás, creio, porque o luxo estava confinado às lojas físicas e as marcas também não gostavam de ser vendidas online porque parecia que havia uma certa depreciação da sua mais-valia, da sua qualidade e da sua marca. E realmente, o José Neves e a Farfetch conseguiram mudar esse paradigma totalmente e conseguiram fazer parcerias incríveis com marcas como a Gucci e muitas outras marcas de luxo e tinham, já na altura quando nós investimos, um ticket médio, portanto, uma compra média na loja em cada pedido de mais de US$ 700 por compra, portanto, foi realmente revolucionário. Isso foi uma grande ideia e é uma ideia que vingou. O que não vingou foi depois que a empresa nunca conseguiu ultrapassar a barreira de cobrir os seus custos de operações com tudo o que implica de investimento, que não é só na venda. Há equipas de marketing, há equipas de recursos humanos, há equipas financeiras e por aí fora. E também fez alguns investimentos que foram apontados como um pouco fora do core business, comprando cadeias de retalho, comprando marcas de moda. E há quem diga que foram investimentos que escusavam ter sido feitos. O que é certo é que ele teve muito sucesso durante muitos anos e é assim que se atrai capital privado, é na base de um sonho de uma empresa que venha a dominar o mercado e eventualmente venha a ganhar dinheiro, obviamente.
Nós já aqui falamos dos processos judiciais de credores e investidores contra a Farfetch. José Neves e outros diretores são acusados de enganar os investidores sobre a saúde financeira da empresa. A Farfetch fez alguma coisa que outras empresas desta dimensão não façam, ou seja, há aqui um jogo que normalmente as empresas jogam quando estão nesta dimensão e neste patamar?
Eu acho que esse jogo começa muito ao início, para o bem e para o mal, no sentido em que os empreendedores acreditam que vão atingir, ou devem pelo menos acreditar e não instigar mentiras ou propagar falsidades com relação às suas ambições, acreditam que vão atingir determinados resultados. Também sabemos que a maior parte não atinge, e isso é normal. Aqui a questão, a linha vermelha não deve ser ultrapassada, que é quando se mente e se pensa que estamos a dizer uma coisa e depois, na realidade, é outra totalmente diferente e a pessoa já sabia que os resultados iam ser piores. Eu não faço ideia se isso foi o caso ou não. Imagino que não e espero que não. Mas esse jogo começa muito ao início da fase de crescimento das empresas, em que também os investidores não vão investir em projetos pouco ambiciosos. Mas, por outro lado, também não se deve investir em coisas totalmente falaciosas e loucas, no sentido que não têm mínima aderência à realidade. Mas não é uma ciência, isto é mais um arte do que uma ciência e há várias formas de olhar para o negócio, porque não estamos a falar de uma fábrica que produz, digamos, chouriços. Estamos a falar de um mercado novo, uma oportunidade nova que está a ser criada, com custos que não se sabe exatamente quais vão ser, com vendas que não se sabe definitivamente quais vão ser. Mas o que é certo é que muitos investidores ganharam muito dinheiro com a Farfetch e quem perdeu dinheiro com a Farfetch foram os que não saíram a tempo e na altura certa, porque também aqui o que é importante é saber entrar e saber sair. Portanto, a Farfetch não foi um mau investimento para toda a gente, muito pelo contrário, foi um excelente investimento para muitos investidores, mas realmente esta última fase da empresa é uma pena que tenha acabado assim, sendo que a empresa continua.
Stéphano Morais, obrigado por ter aceitado o convite para participar neste segundo episódio de "Onde Para o Caso". A investigação neste episódio ficou a cargo do jornalista João Gama. Daqui a sete dias junta-se a nós a Dina Rosa para um novo episódio. Até para a semana.