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"Operação Stop" na Rádio Observador. Vamos olhar para o mundo automóvel, para a Secção Auto, e temos connosco, claro, o Alfredo Lavrador. Alfredo, bem-vindo.
Olá, Miguel. Obrigado.
Hoje estamos aqui num programa que vem depois de uma semana em que foi apresentado o orçamento do Estado para 2023. Foi entregue na segunda-feira passada por Fernando Medina, foi entregue no Parlamento, foi depois também apresentado, houve várias entrevistas e, como sabemos, o orçamento tem sempre várias variantes, tem sempre vários sectores, e nós vamos olhar aqui para o mundo automóvel e para onde é que o orçamento toca nisto. Essencialmente porque, Alfredo, tu estiveste a analisar este orçamento do Estado e parece que não encontraste boas notícias para quem está à procura de comprar automóvel. Afinal, o que é que se passa?
Olha, especificamente em relação ao automóvel, uma vez que para os outros sectores, tanto o jornal Observador como a Rádio Observador já analisaram em diversas ocasiões, já esmiuçaram todos os pormenores.
Verdade.
Eu essencialmente concentrei-me na parte automóvel, ou não fosse isto a Secção Auto. E o que me ocorre é que, ao contrário dos anos anteriores e segundo a Associação Automóvel de Portugal, a ACAP, este ano foi introduzida no orçamento uma pequena frase que abre a porta ao abate. Esta é a conclusão de Hélder Pedro, o secretário-geral dessa associação, que afirma que, sendo muito vago, mas ainda assim dá asa que exista uma réstia de esperança. Sinceramente, talvez eu seja um bocadinho mais negativista do que o Hélder Pedro, que tem muitos anos neste sector, mas eu acredito que o mais provável é que, sobretudo devido ao histórico desta medida nos governos portugueses, é que ainda não seja desta que o abate volte a ser contemplado. E eu digo volte, porque já foi contemplado no passado, há muitos anos, e nessa altura foram retirados de circulação cerca de 49 mil carros com 20 anos ou mais. E isto é importante em todos os aspetos.
Estamos a falar dos incentivos ao abate, claro. Alfredo, mas a principal vantagem do abate não consiste praticamente em vender mais carros novos?
Isso é uma das partes. Sinceramente, para mim e para ti, porque basicamente nos interessa as necessidades e interesses dos nossos leitores, não é aquela que mais nos move. Esse é apenas um dos argumentos, mas para o condutor, para o utilizador dos veículos, há outros trunfos. Os carros novos são muito mais seguros, especialmente quando comparados com modelos com mais de 20 anos. Já nem estou a falar que a estrutura ganha ferrugem, ganha folgas, deforma-se de forma irregular em caso de acidente, não protegendo devidamente quem vai lá dentro. Depois, por outro lado, não tem os airbags que hoje em dia se usam, não tem os sistemas de pretenção e de retenção que hoje em dia são vulgares, consegue absorver muito menos energia em caso de embate. Poderia dizer que a segurança proporcionada por um veículo com 20 anos a um veículo novo não tem nada a ver. E tendo em conta que continua a existir um número anormalmente elevado de mortes na estrada, todo o cuidado é pouco. Depois há também o facto de os carros com 20 anos serem muito mais poluentes. Não sendo nós uns furiosos da defesa ao ambiente, não deixa de ser uma atitude responsável preocuparmo-nos com o que emitimos, seja a produzir energia, seja a deslocarmo-nos nos nossos carros, e os carros mais antigos emitem muito mais partículas e muito mais NOx, uns e outros são muito cancerígenos. Logo, não é bom.
Mas caso o governo decida não avançar com o abate, que outras medidas podiam ser implementadas para minimizar os danos ambientais?
Olha, Miguel, há soluções. O ideal seria o abate. Porque o abate verdadeiramente, essa parte da venda é carros novos, esses vendem-se sempre. Poderão vender-se mais uns quantos, mas o nosso mercado tem uma capacidade de 200 mil carros, ou seja, mesmo que se abatam 20, 30 mil, 40 mil, não é por aí. É bom, mas não é isso que faz a diferença. O que é importante é que se retirem carros muito velhos da circulação ou pelo menos que se obriguem a circular de forma correta com os equipamentos que devem possuir. Segundo tu dizias, enquanto soluções mais baratas, basta, por exemplo, que os centros de inspeção sejam obrigados a controlar o número de partículas, a quantidade de partículas que existem nos gases de escape. Isto varia. E nota que não estou apenas a referir-me a carros muito velhos. Todos aqueles carros do tuning, e nós sabemos que há aí muitos, que mudam o chip do injetor da bomba de gasóleo e que gera a pressão do turbo, e para ter mais potência, a primeira coisa que salta é o filtro de partículas. Porque aquilo, obviamente, é uma limitação ou incremento do débito de potência. E esses carros circulam aí, são aqueles que aceleram à tua frente no semáforo e tu deixas de ver Momentaneamente, tudo e mais alguma coisa que passe à tua frente.
Passando para essa alternativa, isto não obrigava a ter um forte investimento em tudo que são centros de inspeção? Teria que haver investimento nessa parte, isso não ia reduzir também, por exemplo, o interesse destas entidades em promover esta solução que estavas a apontar, de pôr mais trabalho nos centros de inspeção ou pelo menos fazer um trabalho mais detalhado e mais rigoroso?
Essa é a parte mais divertida, porque efetivamente não. Quando se falou inicialmente na necessidade de os centros controlarem os gases de escape, o número de partículas nos gases de escape, sendo que eles já controlam os gases de escape, não controlam de forma tão eficaz o número de partículas.
Ok.
Que depende diretamente do bom funcionamento ou até da presença dos filtros de partículas nos carros que o devem ter de série.
Portanto, o que me estás a dizer é que tinham que fazer o mesmo trabalho que fazem, tinham era que fazer melhor.
Não, estou a dizer outra coisa ainda mais estranha, que é: quando o governo falou nesta possibilidade há mais de uma década, os centros de partículas equiparam-se com esse equipamento, ou seja, adquiriram esse equipamento, que continua lá no cantinho, à espera que o governo faça a outra parte. Falta que encomende o trabalho e pague o trabalho. Pressuponho que não seja a encomenda desta análise extra que esteja em causa, será quanto muito o suportar os custos inerentes a essa análise dos gases de escape.
Pronto, muito bem. Temos então aí uma solução alternativa ao abate, que também depende de uma decisão do governo.
Não será necessariamente uma solução alternativa.
Sim, mas ajudará.
Ajuda.
Sim.
Com custos muito inferiores, claro.
Claro. Está feita mais uma operação stop, a olhar aqui para uma fatia do orçamento do Estado. A análise com a ajuda do Alfredo Lavrador.