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"Operação Stop" na Rádio Observador. Todas as semanas, as principais novidades do mundo automóvel, como sempre, com o Alfredo Lavrador. Alfredo, seja muito bem-vindo. Como é que foi essa semana?

Foi boa, José Rafael. Obrigado por me perguntar, mas vamos àquilo que interessa, porque temos aí umas novidades giras.

Ora bem, esta semana vamos falar de uma mudança nos carros relacionada com a segurança. Desde 7 de julho que todos os carros novos trazem caixas negras e câmaras que vigiam o condutor. Alfredo, a União Europeia está a apertar a malha, passou a obrigar todos os carros novos matriculados a trazerem o que é apelidado de pacote GSR2. O que é que muda com este palavrão novo, quando entramos num carro comprado novo a partir de agora?

Olha, José Rafael, muda mais do que as pessoas poderiam pensar e gostar. A mudança, basicamente, é radical. Atenção que há uma série de equipamentos que eu estou a mencionar, que já faziam parte dos carros comercializados, da maior parte dos carros comercializados, mas passam a ser obrigatórios a partir de agora. Nenhum carro novo pode ser matriculado na Europa sem uma série de sistemas avançados de assistência ao condutor. São os chamados ADAS. Passamos a ter, obrigatoriamente, travagem autónoma de emergência, o que é muito bom, porque evita o atropelamento de peões, ciclistas, etc. E até de bater no carro da frente, também é importante. Passamos a ter assistente de manutenção de faixa de rodagem, que é algo que mantém o carro ao meio da faixa, sem invadir a faixa do lado e causar acidentes, para além de sensores ou câmaras de marcha atrás, e o assistente inteligente de velocidade. Este lê os sinais de trânsito e avisa se aceleramos demais, se estamos acima do limite de velocidade. Mas atenção, aquilo que nós falávamos no início, no arranque do podcast, é que a grande novidade desta fase é a introdução obrigatória de câmaras focadas no condutor, na cara do condutor e, por tabela, em tudo aquilo que o envolve, nos passageiros que o envolvem, para detectar a fadiga e a distração. É a famosa caixa negra para registo dos dados, uma vez que o carro deixa de ser apenas uma máquina e passa a ser um copiloto particularmente atento.

Alfredo, isso leva-nos diretamente a uma questão que há muitos condutores que já começam a colocar, que é ter câmaras constantemente a olhar para nós e uma caixa negra instalada no carro, não é, de certa forma, transformar o automóvel num autêntico Big Brother sobre rodas? É a expressão que tem sido utilizada.

O receio é legítimo, mas há nuances importantes, José Rafael. O sistema de monitorização de distração através de câmaras, microcâmaras, até, direcionadas para o rosto e olhos do condutor, destina-se a, sempre que retiramos os olhos da estrada, nem que seja por breves segundos, para olhar para o telemóvel, para a pessoa que está ao nosso lado ou para a paisagem que nos envolve, o carro apita e faz tremer o volante. Parece intrusivo, e na realidade é, mas a legislação europeia obriga estritamente ao armazenamento e à transmissão destas imagens, basicamente impedindo-as. O processamento é feito em circuito fechado e no próprio momento. Contudo, é importante realçar que a caixa negra, que em parte se alimenta dessas imagens, mas de outros sensores, a caixa negra, dizia eu, o EDR, grava parâmetros de condução como a velocidade, a travagem, o ângulo do volante. Mas atenção, ela funciona em loop, ou seja, grava sobre ela própria, sobre as imagens anteriores, o que significa que só estarão disponíveis os dados guardados nos cinco segundos anteriores ao embate ou nos três segundos posterior ao embate. Não serve para espiar o nosso dia a dia, serve apenas para investigação criminal e dos seguros após um acidente grave. Ou seja, acabou-se aquela mama do: "Ah, senhor guarda, eu ia a 60 à hora", quando ia a 120. "Senhor guarda, eu ia pela minha mão", quando, na prática, ia na mão do outro condutor.

Tudo isto, Alfredo, é feito em nome da segurança e há uma meta europeia de zero mortes na estrada até 2050. No entanto, ainda assim, estes sistemas não correm o risco de, de certa forma, irritar o condutor e ter um sentido inverso?

José Rafael, o importante aqui, a ênfase é na redução do número de mortes, de feridos graves, de feridos ligeiros e de todo o tipo de feridos e mais algum, que hoje em dia acontece na Europa e obviamente em Portugal também. Admitindo que este é o grande desafio dos condutores, não consegues fazer omeletes sem partir ovos. Ou seja, quando concebes uma ideia, uma tecnologia para aumentar a segurança, há sempre contrariedades. E neste equilíbrio entre segurança e irritação, acaba por ganhar a segurança, porque efetivamente importa reduzir o número de mortos. O assistente de velocidade, o ISA, por exemplo, pode ser bastante persistente com alertas sonoros, se passarmos um quilómetro acima do limite naquela determinada zona. A lei dita que estes sistemas ligam-se obrigatoriamente e de forma automática sempre que o carro começar a trabalhar. O condutor pode desligá-los através dos menus do ecrã. Deixe-me corrigir. Agora ainda pode desligá-los através do menu no ecrã central Mas terá de fazer esse processo em todas as viagens, o que, convenhamos, é um bocado aborrecido. Há o risco real de fadiga dos alertas. Se o carro passa a vida a apitar por tudo e por nada, o condutor deixa de ligar aos avisos e desliga o sistema por completo, anulando o tal propósito da segurança. O segredo vai estar na calibração do software, mas atenção, muito em breve, este sistema vai ser obrigatório e não vai ser possível desligar. Mas não é que é melhor que a gente se habitue a ele, porque ele não vai desaparecer. Nós podemos gostar ou não gostar, mas os legisladores europeus decidem que ele vai ficar.

Alfredo, temos ainda dois minutos e a minha pergunta é se esta tecnologia salvaguarda mesmo vidas humanas ou é também, de certa forma, uma desculpa para tentar encarecer os carros novos e empurrar os condutores para o mercado de usados?

José Rafael, salva-vidas, sem dúvida. Eu e tu somos condutores e eu sou o último tipo que gostaria de ver essas intrusões na minha liberdade e na minha forma de guiar. Mas a verdade é que gostaria ainda menos de ver pessoas que me são queridas, que me são conhecidas, serem mortas em acidentes de carros. Já me aconteceu várias vezes, e é sempre uma experiência muito negativa. A prevenção rodoviária estima que estes sistemas possam evitar milhares de mortes e reduzir as colisões em mais de 20%. É um valor considerável, é o preço do progresso. No entanto, há uma fatura econômica evidente. Equipar um utilitário, um pequeno veículo, que é barato por tendência, com este tipo de câmeras, radares e caixas negras, encarece, e muito, o custo da produção. Ou seja, os carros novos vão estar cada vez mais caros e o prêmio dos seguros também pode ajustar-se com base nesses casos. O que eu estou a dizer é que os preços do prêmio dos seguros vai descer. O efeito perverso é que, ao encarecer o acesso a carros novos, muitas famílias vão manter os seus carros velhos e menos seguros por muito mais tempo. Mas a fasquia foi lançada e o automóvel analógico, como nós o conhecemos e sempre o tivemos nos últimos anos, morreu. Daqui pra frente, conduzir na Europa implica aceitar que estamos a ser assistidos e vigiados pelo próprio veículo.

Chegamos ao final do nosso tempo, Alfredo. Muito obrigado, Alfredo Lavrador. O "Operação Stop" está de regresso pra semana. Até lá, um grande abraço.