A decisão da Ferrari em produzir o Luce, o primeiro modelo eléctrico da casa, deixando de fabricar exclusivamente veículos em que a alma da mecânica é um motor a combustão, capaz de gritar quase até às 10.000 rpm e vibrar a ponto de fazer perigar os melhores implantes dentários foi certamente uma decisão tão difícil quanto polémica, com uma administração dividida quanto aos méritos (e perigos) da opção. Mas sabe-se agora que o homem da Amazon teve quota-parte.

John Elkann, o actual chairman da Stellantis, neto de Gianni Agnelli (de quem Elkann é herdeiro) e bisneto de Giovanni Agnelli, o fundador do negócio da família (a Fiat), é um orador frequente em conferências. Em 2016 cruzou-se com Jeff Bezos numa dessas conferências, o fundador da Amazon e ainda o maior accionista, ocupando hoje o cargo de presidente executivo, com Bezos a não se poupar a dar dicas sobre os próximos modelos a fabricar.

Ferrari Luce é uma berlina eléctrica com 1050 cv desenhada pelo designer da Apple

Entre outros temas, Elkann confidenciou a Bezos que na Ferrari estavam a pensar produzir um carro eléctrico, pois começava a haver muitos clientes a demonstrar vontade em possuir um desportivo Ferrari sem motor a combustão. Bezos ficou tão animado que não hesitou em afirmar que a Ferrari necessitava de agarrar a ideia de produzir um eléctrico de forma decidida, de acordo com a Reuters, com Elkann a considerar este empurrão como o elemento decisivo que faz nascer o Luce.

Bezos não terá escondido o jogo, ao revelar ao seu colega conferencista que “não percebia nada de carros, mas que estava particularmente à vontade na importância que tem o factor inovação”. Para no instante seguinte aconselhar Elkann a “verdadeiramente pensar duas vezes acerca dos veículos eléctricos”.

Ferrari Luce deveria ser licitado por 1 milhão, mas foi arrematado por 35 milhões de euros

E se a revelação do Luce foi problemática, com muitos fãs da marca (mas não clientes) a criticar duramente a opção, a verdade é que os clientes continuaram a adquirir os Ferrari a combustão, bem como os híbridos e os híbridos plug-in, uma vez que as 500 unidades que a Ferrari se predispôs a produzir do Luce em 2026 já estavam todas encomendadas e pagas. O mesmo acontecendo com os 600 Luce previstos para 2027, de que só restam umas unidades e apenas para o último trimestre do ano. Em caso de dúvidas, basta ver que as acções da Ferrari estavam a ser transaccionadas no NASDAQ a 24 de Maio (o lançamento do Luce foi a 25) a 350 dólares, e hoje foram cotadas a 399 dólares. E não param de subir.