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"Operação Stop" está com a Rádio Observador, no programa em que falamos do mundo automóvel. Eu sou o Miguel Cordeiro e comigo já está também o Alfredo Lavrador. Alfredo, bem-vindo.
Viva, Miguel. Tudo bem?
Tudo bem. Hoje vamos falar do risco das portas com fecho automático. É um assunto importante. Vamos falar um pouco de segurança também de alguns automóveis, até porque é importante explicar esta história de um dispositivo que muitos veículos possuem, especialmente modelos mais caros, e que, em caso de descuido, nos podem magoar ou até, no limite, cortar alguns dedos.
Tens razão, Miguel, isto não é um sistema novo. Muitos dos nossos ouvintes neste momento vão dizer: "O meu carro tem isso, não tem problema nenhum".
É isso.
Efetivamente não é um dispositivo novo. Quando corre tudo bem, ótimo, mas por vezes, como em tudo na vida, há coisas que correm mal. Para já, este dispositivo chama-se soft close.
Soft close. Ok.
Soft close. Fecho suave, uma coisa do género. E depois o sistema pode ser acionado por um motor elétrico ou por pressão hidráulica, mas isso não muda nada, na prática não muda nada. Na prática, o que é interessante para o utilizador é saber se o sistema tem uma forma de segurança ou não. Ou seja, se continua a fazer força por não detectar que está alguma coisa entalada entre a porta e o pilar, ou não. Isso é que é importante. Esta semana publicámos um artigo em que contávamos a história de um condutor norte-americano. E atenção, há pessoas que desconhecem o sistema, porque há muita gente que vê o carro como um meio de transporte. Não quer saber se aquilo tem um motor de quatro cilindros ou de seis, ou se os vidros são automáticos, não sei o quê, gosta de todas as mordomias, e este é o tipo de utilizador que há muito. E isto não é uma crítica, ou seja, as pessoas têm direito.
Sim, claro. Cada pessoa encara os produtos da maneira como acha melhor.
Com certeza, não tem nada a ver. Querem conforto e os tintins.
É um utilitário, precisam de utilizar algo, neste caso uma viatura, portanto precisam que ande.
Apenas uma ferramenta. E então este condutor estava apoiado com a mão, e todos nós já fizemos isto, no pilar central, aquele pilar que está entre as portas da frente e de trás. O carro em causa era um BMW X5, mas é só um pormenor, só para as pessoas visualizarem o problema. E de repente, uma das portas que estava aberta, segundo ele, cerca de um palmo, estava entreaberta, digamos assim, fechou, seja por ação do vento ou porque alguém lhe tocou, também não vem ao caso, e ao fechar cortou-lhe parte do dedo, uma vez que estava equipada com o tal sistema soft close, que continua a fazer força até fechar devidamente a porta, ou seja, é o que o sistema faz.
Sim.
O cliente que desconhecia o sistema, bem como desconhecia igualmente os seus perigos, não apreciou a experiência, claro está, ficou sem parte do dedo. E depois gostou ainda menos que a marca o tivesse responsabilizado. Basicamente o que a marca disse foi: "Sim, você perdeu o dedo, é parvo. Devia saber que o seu carro está com um soft close e isso pode-lhe cortar o dedo". E então ele não achou muita piada à resposta e foi a tribunal. E o tribunal também não gostou muito da resposta da marca e penalizou-a, obrigando-a a pagar 1,65 milhão de euros ao condutor. Ficou sem um dedo, parte do dedo, mas ficou com a carteira mais recheada. Isto é em dólares, uma vez que o homem era americano, é 1,9 milhões de dólares.
Bem, pelo menos ficamos já a saber quanto é que vale um bocadinho de um dedo.
Não penso nisso em Portugal.
Sim. Antes de mais, vamos falar um bocadinho deste dispositivo, soft close, como é que isto funciona, como é que isto nos facilita a vida, se incrementa a segurança, se não, o que é isto do soft close?
À medida que os carros foram ficando mais rebuscados, mais sólidos, com aquele fecho de porta que todos gostamos, que é aquele aquela pancada seca. Basicamente pancada seca, porque o ar não tem para onde sair, então aquilo faz ali um certo amortecimento e até uma certa resistência quando se fecha a porta. Para evitar que as portas ficassem mal fechadas e tu já passaste por isso, e os nossos ouvintes também, diversas vezes, há certos carros que tu tens que bater a porta uma e duas vezes, porque aquilo é difícil fechar, tens que batê-la com força. E isto é complicado quando, por exemplo, estás entre dois carros, estacionaste entre dois carros, não tens muito espaço para entrar, ainda por cima, nem muito espaço para embalar a porta para fechar devidamente. E então aí as marcas desenvolveram um sistema em que a porta basta dares um toquezito para fechar, quando ela sente que está muito próxima de fechar, aí entra o tal motor elétrico ou a pressão hidráulica. Na maior parte dos carros é um motor elétrico, e mesmo que o motor elétrico crie uma pressão hidráulica, mas portanto é um motor elétrico a puxar aqui tudo, o sistema fecha a porta e obriga a porta a fechar até o engate se dar e a porta ficar devidamente fechada e segura, digamos assim. Isto é basicamente o soft close. Destina-se a ajudar o condutor e os outros ocupantes quando não há muito espaço ou quando o carro é difícil fechar a porta porque é muito bom, digamos assim. Basicamente, as portas só fecham com dificuldade nos carros bons, nos carros caros, digamos assim.
Sim.
Nos carros baratos, aqueles que fazem um barulho tipo latinha quando fecha a porta, aí normalmente não precisam de soft close, porque ela já é soft sozinha. Isso é como funciona. E o objetivo é esse, é facilitar-nos a vida.
Isto parece simples. Pelo menos, a tua descrição parece-me simples. A porta quando está ali muito perto de fechar, naquele período que falta, faz uma força extrema, de forma que tudo fique engatado e a porta fique bem fechada. Isto parece simples, parece útil até, mas de facto essa pressão final para que a porta feche pode acabar nisto, em cortar um dedo se alguém ficar entalado.
Tens toda a razão, aquilo faz mesmo força. Por exemplo, só para dar uma ideia, nós aqui temos outros, normalmente esses motores fazem até 45 PSIs, portanto pound per square inch, libras por centímetro quadrado, que não é a maior pressão do mundo, mas é uma pressão bastante elevada. Só para termos uma ideia, o osso de um dedo, os ossos pequenos da mão, partem-se com uma pressão de 25 PSIs. Isto segundo os médicos, confesso que nunca testei. Só tenho duas mãos e gosto é de manter assim funcionais. Mas é só para as pessoas perceberem que às tantas não é completamente impossível. O que acontece é que aquilo faz uma pressão tal que quando a porta sente que está muito próxima de fechar e está programada para, se eu tiver a X milímetros, este X porque a distância obviamente varia, de estar completamente fechada, aciona o motor e faz força para aquilo fechar suavemente. Isso existe e é útil, nós sabemos que é útil, mas nem sempre funciona em favor do ocupante.
Mas o que é que se pode fazer para evitar esse risco de acidente, reconhecendo que é um sistema que pode ser útil, o que é que se pode fazer para evitar esse risco e ainda assim continuar a usufruir do sistema de fecho automático de portas?
Tens toda a razão. O importante aqui é saber com o que é que contamos.
Claro.
E aqui é bom que tu gostes de fazer sopas e coisas do género e cozinhar, porque vais ter que adquirir uma cenoura daquelas fininhas, compridas, ou então o caule de um aipo, por exemplo. Um legume qualquer que seja comprido e relativamente sólido, mas não muito, com uma resistência similar à do dedo, e tentares fechar a porta, tentares acionar o sistema soft close com a cenoura lá dentro ou com o tal caule de aipo e ver se, por acaso, a porta volta atrás, ou seja, se desativa o sistema quando sente uma prisão. Ou seja, o que tu queres saber é se o sistema soft close tem um sistema de segurança que determine se há pressão, ou seja, se alguma coisa está entalada e aí desiste de fechar a porta. Isso é a primeira dica e é fundamental, porque só assim é que tu evitas que a porta te corte um dedo, que é o que vai acontecer.
Ó Alfredo, há vários vídeos no YouTube, por exemplo, de testes a carros que testam precisamente esse sistema de como ficam os vegetais num carro e noutro carro e fazem essa comparação. E é muito curioso ver.
Eu não te aconselho a recorreres a este sistema para fazeres uma salada.
Não.
Mas sabes que só vendo essas imagens é que tu te apercebes do risco que aquilo pode ter.
Claro. É perceber se há um sistema de segurança ou se temos uma porta que funciona quase como uma fiambreira, na verdade.
Exatamente. Corta fatias mais grossas. E por quê? Porque há efetivamente no mercado muitos carros que têm sistemas de segurança. Porque efetivamente não faz sentido estar a vender uma armadilha desta, uma ratoeira, que efetivamente tem partes boas, mas tem partes más e ninguém vai gostar das más. Logo, faz sentido é os condutores saberem o que é que têm e a partir daí tomarem as devidas precauções. O pior mesmo é ser surpreendido por uma situação destas.
Claro, mas há mais algum dispositivo que vejas que nos ajuda e nos facilita a vida por um lado, mas que por outro nos possa provocar danos graves? Está-me a vir um à cabeça que também nos automóveis, também na porta, que tem um botão que fecha e que abre automático.
Exatamente, estás a referir-te aos vidros elétricos.
Sim.
Que foi o primeiro dispositivo deste género que passou a beneficiar por obrigação. Porque provocou uma série de mortes, sobretudo em crianças, provocou entalamentos graves nas mãos, até de adultos.
Claro.
É melhor nem sequer falar nisso, que é óbvio o que causou. E é o vidro elétrico, tu acionas o vidro para abrir, carregas no botãozinho, tu desces com o dedo e depois carregas para fechar e aquilo sobe até encostar lá em cima e até faz alguma pressão. O problema é se tu introduzes, imagina uma criança, põe o braço fora da janela quando aquilo está a subir. E até pode fazer naquela brincadeira, vou pôr de mantela a mão fora e vou tirar no último momento. Às vezes não consegue, por qualquer motivo, e os vidros sem sistema de segurança, hoje em dia há pouquíssimos, atenção. Ao contrário das portas, que há muitos soft closes que não têm sistema de segurança, os vidros hoje em dia, felizmente, há muitos. Mas já te conto um pormenor que é bom ter cuidado. O vidro para e volta atrás, senão continuava a fazer força e a criança ficava ali agarrada pelo pescoço ou pelo braço, ou pelo que quer que seja, e o resultado nunca seria bom. O que eu te queria contar em relação a este sistema é que Porque alguns têm que haver um limite, o sistema está calibrado para só voltar atrás. O sistema tem que fazer força, porque só assim é que garante que fecha devidamente. E senão, tu em viagem, passas a ouvir aquele assobio horrível, aquele silvo do ar, porque a porta já está mal fechada. Para que isso não aconteça, o sistema tem que fazer força com o vidro no topo da porta. O problema é que tem que haver uma altura a partir do qual o sistema conclui que aqui já não pode haver qualquer entalamento, qualquer objeto que não possa ser entalado entre o vidro e a porta, e faz toda a força que pode. E o problema é uma mão fininha de uma criança, um dedo, etc, não é evidente que não se entala. Mas lá está, aí também os condutores, sobretudo aqueles que têm filhos pequeninos, podem simplesmente comprar uma cenoura ainda mais fininha ou outro calo qualquer e ver até que ponto é que aquilo faz força. É uma experiência, digamos assim, e é uma experiência que nos pode evitar muitos dissabores.
Bem, esperemos que as portas não sejam depois adaptadas no futuro a um possível corta-unhas ou algo do gênero, mas pelo menos um pedaço de um dedo já levou uma porta e já levou também a uma indenização nos Estados Unidos da América.
O que é provável, Miguel, quem nos esteja a ouvir, esteja a pensar assim: "Uma ponta de um dedo por 1.650.000 €. Não vale a pena, e eu que tenho 10 dedos, só 10 mãos".
Eu prefiro ficar com os meus dedos todos.
Eu também.
Ainda me vão dar jeito. Já feita esta edição da "Operação Stop", estamos de regresso na próxima semana. Alfredo, um abraço.
Abraço, Miguel.