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Está no ar a Operação Stop, na Rádio Observador. Vamos falar do mundo automóvel ao longo dos próximos minutos. É mais um episódio que conta sempre, claro, com Alfredo Lavrador. Alfredo, bem-vindo.

Olá, Miguel. Obrigado.

Hoje temos para falar de IUC e também de carros elétricos, porque não falta quem acuse o aumento previsto para o IUC de veículos vendidos até 2007, que está agendado para os próximos anos, de servir esse aumento para compensar a isenção de que beneficiam os automóveis elétricos deste mesmo imposto. Alfredo, isto faz sentido?

Não faz muito, Miguel. Sobre o IUC, o Observador já se debruçou ao longo dos últimos dias, inúmeras vezes, e está tudo bem explicado nos podcasts sobre o tema. Sobre os elétricos, na minha modesta opinião, é uma questão de necessidade do governo e não uma questão de favorecer quem compra esse tipo de veículos. Eu não sei como é que o Ministro das Finanças funciona, nem vem muito aqui ao caso, mas suponho que o encaixe com os impostos funcione como um bolo único, de onde depois saem as despesas. O que acontece é que, para além de gerir os impostos, o governo tem outras obrigações, como diminuir os acidentes rodoviários, que custam dinheiro, porque a perda de pessoas, sobretudo de pessoas jovens, custa muito dinheiro ao Estado. Aqui é indiscutível que os carros mais velhos são simultaneamente menos seguros do que os carros novos e também são mais poluentes. Sobretudo porque alguns deles circulam em muito mau estado, o que é mais um motivo para o governo elevar os impostos para os tornar menos interessantes. Estes carros são simultaneamente menos seguros e mais poluentes.

Mas tentar, através dos impostos, banir os veículos mais velhos, e por isso também mais baratos, não é uma forma de penalizar a população mais pobre?

Não, aí concordo contigo. Esta medida tem tudo para não ser popular, mas não é um movimento que tenha começado agora. Se tu reparares, e tu circulas em Lisboa, aliás, a Rádio Observador está localizada em Lisboa, não está numa zona zero, aquelas zonas de baixas emissões, mas em Lisboa há várias áreas em que tu não podes circular com carros mais antigos, e isso também pode ser visto como uma perseguição às pessoas com menos posses. No seguimento daquilo que te disse há pouco, este incremento de impostos é mais uma ajuda para desincentivar a utilização deste tipo de veículos e promover o abate.

Defendes então que os veículos elétricos conseguem ser competitivos e atrair clientes sem beneficiarem de subsídios?

Aí a conversa é outra. Para arrumarmos este assunto, temos que recuperar um bocadinho da história.

Certo.

No início do século, já foi há bastante tempo, os cientistas convenceram os responsáveis pela União Europeia que o excesso de emissões de CO₂, o tal dióxido de carbono, que não é um veneno em si, não é um produto tóxico, mas que é aquilo que provoca as alterações do clima. Daí que os construtores fossem forçados a desenvolver veículos elétricos contra a sua vontade, nenhum deles queria, e em simultâneo, os países, como Portugal, foram obrigados a incentivar os seus habitantes a adquiri-los. Daí que faltava resolver só um problema, que era como os carros elétricos eram substancialmente mais caros, os países tiveram que criar um sistema de ajudas ou incentivos para que alguém os comprasse. E nota que nesta trilogia do construtores, países e condutores, apenas os condutores não têm a necessidade de adotar um veículo elétrico. A obrigação de adotar veículos elétricos estava do outro lado, dos países e dos construtores. E daí os incentivos que foram atribuídos. E Portugal, nota, que é dos países europeus que menos ajuda dá à compra de veículos menos poluentes e quando dá esses mesmos incentivos, fá-lo apenas às empresas, faz sobretudo às empresas em detrimento dos particulares.

É tudo uma questão de limitar então as emissões de CO₂ para evitar alterações climáticas.

Sabes que isso é o discurso oficial, mas há outros pormenores que são, na minha opinião, mais importantes. Quanto é o CO₂ faz sentido, mas enquanto a China e a Índia emitirem todo o CO₂ que lhes apetece, produzindo eletricidade com base na queima de carvão, etc, serve-nos muito pouco nós estarmos aqui preocupados com o nosso CO₂. É bom, mas não resolve.

Mas acredita em-

Não, mas deixa-me só. O importante aqui é que, juntamente com o CO₂, os carros a combustão libertam poluentes nos centros das grandes cidades, como partículas de fumo, que são cancerígenas, os NOx, os óxidos de azoto, que são cancerígenos, para além do enxofre e todas essas coisas que provocam as chuvas ácidas, mas não é o maior problema. O problema são os NOx e as partículas. E essas verdadeiramente provocam problemas respiratórios e circulatórios, e verdadeiramente matam pessoas. Eu creio que, sobretudo, o ênfase deve ser colocado em retirar os carros a combustão, substituindo-os por elétricos ou pelos transportes públicos elétricos, porque também estamos a substituir os transportes públicos a gasóleo, se calhar não ajuda O objetivo é esse. O CO₂ é aquilo que se fala muito, mas na prática há emissões muito mais delicadas para a saúde humana e essas, sim, provocam doenças que custam muito dinheiro a tratar.

Sim, mas há esta pergunta: quem hoje conduz um destes carros mais baratos, mais velhos, acreditas que o possa trocar por um automóvel elétrico?

Não, de forma alguma. Nesses carros mais baratos, há uns que podem custar € 5 mil, mas há outros que custam certamente muito menos. De maneira que é impossível saltar daí não só para um carro elétrico novo, como para qualquer tipo de carro novo. Poderão saltar para um carro mais recente, mas também posterior a 2007, também duvido. Nota que, contudo, tem havido uma evolução notável. Por exemplo, lembro-me quando apareceram os primeiros veículos elétricos, custavam € 42 mil. Eram mínimos, não andavam nada, tinham uma bateria que mal dava para ir às compras, quanto mais para fazer o apertar. E custavam uma fortuna. Hoje em dia, foi apresentado há dias, saiu no nosso jornal, um veículo utilitário, ou seja, é o veículo mais vendido em Portugal, são veículos de quatro metros, que dá perfeitamente para transportar uma família pequena, por € 23 mil. Percebes?

E com mais autonomia.

Com muito mais autonomia. Baixou de € 42 mil com uma autonomia de cento e poucos quilômetros e 40 cavalos ou 30 cavalos. E nota que eu cheguei a conduzir esses carros, sempre achei que nem todos os cavalos estavam virados para o mesmo sítio. Havia ali uns do contra e os carros não andavam grande coisa. Para um veículo com 130 cavalos, 400 km de autonomia e ainda assim um preço que é quase metade. Caminha-se no bom sentido, não há milagres, mas a evolução tem sido considerável.

Muito bem. Vamos ver o que dá também o futuro em relação a essa competitividade dos veículos elétricos no mercado automóvel. Está feita a operação stop de hoje. Alfredo, regressamos para a semana. Um abraço.

Abraço.