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E na verdade, ao utilizar as primeiras, sua intervenção inicial.

Portugal à fola amanhã quer voltar. Depois do batizado feito, não faltam padrinhos, ô primeiro-ministro.

É essa a lógica.

Srs. Deputados.

A semana passada ficou marcada pelo regresso do antigo secretário-geral do PS, Pedro Nuno Santos, ao Parlamento. A primeira intervenção do antigo líder socialista foi rápida, mas explosiva. Já vamos tentar perceber quais são os planos de futuro para Pedro Nuno Santos, porque antes disso, a sessão do 25 de abril dividiu a bancada do PS e pode ter posto António José Seguro a contradizer Aguiar Branco. Este é o tema do bate-boca da semana.

E essa é uma grande falha, sr. primeiro-ministro.

É uma armadilha pro país.

Por isso, o sr. primeiro-ministro, o país quer saber o que é que vai fazer.

Muito obrigado, senhoras e senhores deputados.

O presidente da Assembleia da República fez um discurso politicamente incorreto na sessão do 25 de abril e logo depois o presidente da República veio pedir mais transparência. Afinal, Miguel Viterbo Dias, as duas principais figuras do Estado têm opiniões diferentes ou complementares?

Boa tarde. Aguiar Branco já tinha ensaiado este discurso nalgumas entrevistas no passado. O presidente da Assembleia da República entende que a classe política está a ser maltratada, que a visão global sobre os políticos é errada e por isso tem começado a procurar lançar as bases pra uma discussão sobre o aumento dos salários, ouvindo o que diz ser o reality show na vida política. Só que desta vez foi muito mais efetivo e disse, sem quaisquer leituras nas entrelinhas, que questões como o salário dos políticos devem ser discutidas de forma aberta.

Medidas dos políticos contra os próprios políticos são sempre muito populares ou populistas, como hoje se diz. E de repente, discutir o aumento da remuneração dos políticos passou a ser um assunto proibido, um tema de que não falamos porque não é popular. Esquecemos o velho princípio democrático, que vem desde os tempos de Péricles, que o serviço público, para atrair os melhores e para ser acessível a todos, ricos ou pobres, deve remunerá-lo bem.

E depois deste apelo ao debate sobre esta matéria, ridicularizou alguns dos detalhes que têm sido pedidos aos titulares de cargos públicos.

Quisemos transparência e fizemos por isso. Não bastava declarar os rendimentos. Era preciso declarar publicamente se a mulher ou o marido é rico, se o primo é pobre, se o enteado é empresário, se a casa tem elevador, quantas casas de banho, se tem empréstimo, se o empréstimo é com taxa fixa ou se é bonificado, se o filho anda no colégio, se é o sogro que paga o colégio, se vai ao hospital privado ou público e indo ao hospital, que tipo de pulseira lhe dão.

A intervenção foi dividindo o hemiciclo. Da bancada do PSD ouviu-se várias vezes muito bem, André Ventura ia rindo com a ilustração de Aguiar Branco e no PS, nomes como Mendonça Mendes ou Elsa Pais aplaudiram de pé, mas Pedro Delgado Alves, no fim do discurso, levantou-se e virou costas ao presidente do Parlamento.

Foi um gesto inusitado, criticado, aliás, por figuras dentro do Partido Socialista e que o deputado justifica como uma reação discreta a um discurso com o qual discordou.

Explicou isso mesmo esta manhã na Rádio Observador. Ora, Pedro Delgado Alves, para que se perceba, é dos deputados mais experientes do Parlamento, é vice-presidente da bancada do PS, um dos mais conhecedores das regras e dos regimentos e também um dos que tem trabalhado mais nas propostas relacionadas com transparência. Diz que, por isso, estes temas preocupam-no mais, mas acrescenta que esta intervenção de Aguiar Branco faz parte do que diz ser um movimento para limitar ou para retroceder nos ganhos adquiridos em matéria de transparência.

Quer-se fazer um exercício de melhorar esse equilíbrio e esse balanço? Pode-se fazer esse raciocínio, pode-se ver se, no caso concreto, há situações que podem ser simplificadas na comunicação de informação. Agora, acima de tudo, não se deite fora o bebê com a água do banho. Não se mate a transparência. E o tema que eu coloco em cima da mesa e o tema que me parece especialmente criticável ontem é esse: há uma narrativa a crescer junto de alguns decisores políticos para eliminar, restringir fortemente a transparência.

Esta narrativa aqui referida por Pedro Delgado Alves, há quem acredite na oposição que começou com uma entrevista de Hugo Soares ao Expresso, em que disse que todo o regime de transparência e de notificação por parte dos políticos estava errado e precisa ser revisitado. Mas Aguiar Branco, pelo menos, faz um diagnóstico diferente do que é feito pela oposição. Diz o presidente do Parlamento que este excesso de detalhe leva mesmo a que a política venha a perder os melhores.

Sendo que logo a seguir a esta intervenção, foi a vez do presidente da República, que defendeu um reforço da transparência, em particular na questão dos donativos atribuídos aos partidos políticos.

Há quem diga que António José Seguro bateu de frente com Aguiar Branco, outros interpretam como complementar. Logo depois deste discurso, que dividiu o PS, o Presidente da República recolheu vários aplausos ao dizer da forma mais transparente possível o que pensa sobre os donativos pra os partidos.

Não há verdadeira liberdade sem transparência no exercício dos cargos públicos. Os cidadãos têm o direito de saber como são tomadas as decisões que afetam as suas vidas. A transparência dos donativos políticos é essencial para garantir uma democracia saudável e justa. Quando o financiamento é claro e acessível, os cidadãos conseguem compreender quem apoia quem e com que interesses.

António José Seguro diz que os autores dos donativos devem ser conhecidos, dá assim força às iniciativas do PS, do Livre e do Bloco de Esquerda, que já apresentaram propostas nesse sentido, depois da Entidade de Contas e Financiamento dos Partidos Políticos ter impedido o acesso aos nomes dos doadores de dinheiro. O bate-boca desta semana, que ainda voltará a ser tema no Parlamento com a revisão do regime dos doadores. Vamos agora aos destaques da semana.

Esta semana pela positiva, Miguel, queres destacar o Presidente da República.

Sim, não é deputado, mas o discurso foi no Parlamento, vou aproveitar. A intervenção do 25 de Abril foi uma boa estreia para António José Seguro. O teste do algodão pode ser, por exemplo, a opinião de André Ventura, insuspeito, que elogiou a intervenção do chefe de Estado. É um estilo totalmente diferente do de Marcelo Rebelo de Sousa, disse o que tinha a dizer quanto à questão dos donativos para os partidos políticos e piscou depois muito o olho aos jovens, deixando uma farpa ao peso dos algoritmos e das redes sociais na construção da opinião política hoje em dia.

E vamos agora a quem está a descer. E o teu sinal negativo, Miguel, vai para Pedro Delgado Alves.

Já se subentende por quê. Quando se fala da normalização do discurso e da atitude do Chega, é bom de ver que iniciativas como a que o deputado do PS tomou no sábado não contribuem para marcar uma diferença face a essa retórica ou a essa semiótica dentro do plenário. Pedro Delgado Alves levantou-se, virou costas à Aguiar Branco durante uma sessão solene, num gesto que gerou até estupefação entre deputados do próprio partido, que quis marcar posição, está naturalmente no direito de o fazer, mas num partido como o PS, este é um gesto que não é habitual de ver e que, em particular no 25 de Abril, acaba por marcar negativamente a cerimônia. Desta vez, nem mesmo André Ventura conseguiu gerar mais celeuma.

Estes são os sinais da semana. Vamos agora à agenda. Esta semana o primeiro-ministro volta ao Parlamento depois de apresentar o PTRR.

Para mais um debate quinzenal, marcado pra quarta-feira a partir das 15h, o primeiro-ministro enfrenta a oposição um dia depois de apresentar o plano de recuperação e resiliência, versão portuguesa. O plano vai ser apresentado amanhã, terça-feira à tarde, que pretende responder à crise provocada pelas tempestades que atingiram Portugal. No debate quinzenal, esse será certamente o tema em destaque, tendo em conta que se realiza um dia depois, quarta-feira, às 15h. Para além do debate quinzenal, destaque também pra apreciação de um outro relatório, desta vez feito pelo grupo de trabalho que analisou o apagão de abril do ano passado. Este relatório vai ser apreciado amanhã, quando se assinala um ano do apagão às 14h. Ainda esta semana e quando o calor começa a ser mais constante em Portugal, e quando surgem também notícias de que o governo quer rever novamente a estrutura da Proteção Civil, vão ser ouvidos na comissão de inquérito aos incêndios rurais, o atual comandante nacional da Proteção Civil e também o antigo presidente da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil. São duas audições úteis para perceber os erros e, sobretudo, para perceber se estas novas mexidas são ou não vantajosas.

Os destaques desta semana para ir acompanhando também hora a hora aqui na Rádio Observador. Agora vamos à conversa de bastidores. Esta semana a vida do Partido Socialista ficou marcada pelo regresso de Pedro Nuno Santos ao Parlamento.

Um regresso com estrondo. Foram apenas três minutos e meio de declarações, mas que serviram para disparar pra todo lado, para o governo, para José Luís Carneiro, também para Mariana Vieira da Silva e Fernando Medina, mas sobretudo para Duarte Cordeiro, amigo de longa data de Pedro Nuno, eterno aliado no partido até este dia. Pedro Nuno Santos criticou os taticistas que estão à espera de melhores dias no PS pra avançar e com esta frase selou mesmo a separação, pelo menos política, de Duarte Cordeiro, e gerou já várias ondas de choque no PS. Os corredores socialistas começam a sugerir a possibilidade de Pedro Nuno Santos ter como ambição voltar a liderar o partido, voltar a mandar no Largo do Rato. Ainda assim, fontes ouvidas pelo Observador dizem que o antigo secretário-geral não tem hipótese, no curto e no médio prazo, de voltar à liderança, pelo que resta aguardar para perceber o que pretende mesmo Pedro Nuno Santos com este regresso, para já, à arena midiática.

Dois dos visados, pelo menos indiretamente, por Pedro Nuno Santos, já vieram responder, Fernando Medina e Mariana Vieira da Silva criticam a postura do antigo secretário-geral.

Nunca foram Pedro Nunistas, criticam agora o tom com que o antigo líder regressou. Mariana Vieira da Silva, à Renascença, recordou o episódio de Pedro Nuno Santos no Congresso do PS, na Batalha, em 2018, em que se afirmou como candidato à sucessão de António Costa, levando, na altura, o líder a dizer que ainda não tinha posto os papéis pra reforma. A antiga ministra e um dos braços direitos de António Costa no governo avisou que quando são os outros é taticismo, mas quando se trata do próprio Pedro Nuno Santos é coragem, em tom irônico, e lamentou também que Pedro Nuno tenha voltado e começado por distinguir ou dividir figuras do PS entre si, ao invés de promover a união no partido. Já Fernando Medina, no espaço de comentário no canal NOW, fala no mau regresso do antigo líder, que disse estar pouco focado na política que interessa verdadeiramente aos portugueses. Fernando Medina avisa até que declarações como as que fez Pedro Nuno Santos podem ser interpretadas como ressentimento face ao que aconteceu no passado recente.

E enquanto isso, José Luís Carneiro vai tentando desvalorizar a polêmica e a imagem de um partido com uma vida interna, vá, pelo menos complicada.

O atual líder dos socialistas atravessa um momento de sondagens positivas pro partido. Não reagiu diretamente ao regresso de Pedro Nuno Santos, mas logo antes desta declaração disse que não existia oposição interna no PS, porque se existisse, tinham apresentado candidatura à liderança do partido. Já em entrevista à Agência Lusa e aí depois publicada depois da declaração de Pedro Nuno Santos, José Luís Carneiro garantiu que não vê Duarte Cordeiro como opositor interno e que na comissão política do partido quis refletir a pluralidade de opiniões dentro do PS. Como sinal também de que não tem medo de sombras, José Luís Carneiro adiantou, nessa entrevista, que conversou com Mário Centeno para o convidar a aderir ao PS, ele que é independente, apesar de ter sido até já indicado como primeiro-ministro de um governo socialista, na altura, de saída de António Costa. Depois essa solução não vingou, mas José Luís Carneiro quer mostrar que não tem medo de sombras e a convidá-lo a aderir ao Partido Socialista. Quanto a Pedro Nuno Santos, sem ninguém conhecer os planos do antigo secretário-geral do PS, veremos quais as cenas dos próximos capítulos agora, que é um daqueles deputados de última fila que vai procurando também ir emitindo algumas opiniões à medida que os acontecimentos se vão sucedendo.

Resta saber qual é o próximo espaço de opinião que vai ter.

Pois, também pode ser uma hipótese, ou um livro de memórias, também se fala. Veremos.

Temos que aguardar. Chegamos assim ao fim do Passos Perdidos com Miguel Viterbo Dias. Estão de regresso na próxima semana.

E, na verdade, ao utilizar os primeiros-- a tua intervenção inicial, eu quero-

Portugal à qual amanhã quero voltar. Depois do batizado feito, não faltam padrinhos, ó primeiro-ministro. É essa a lógica .

Srs. Deputados.