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Este é um podcast da Rádio Observador. Pode ouvir a rádio também em 98.7, na Grande Lisboa, e 98.4, no Grande Porto.
Viva, Nuno.
Viva, como estão todos?
Estamos bem.
Olá.
Que bom ouvir as vozes lá ao fundo.
Que bom também ouvir-te, Nuno. Hoje vamos falar de um fenómeno: a automedicação. Eu achava que quando os nossos animais domésticos estavam doentes, os donos iam a correr com eles ao colo ao veterinário, mas parece que não é bem assim. Há pessoas que praticam a automedicação nos seus animais. É isso?
É isso, é verdade.
E isso encerra riscos?
Encerra bastantes riscos. Para ser completamente rigoroso, a automedicação é quando eles atacam o armário dos medicamentos e comem eles sozinhos. Ou seja, eles automedicam-se e, na realidade, infelizmente, uma das grandes fontes de intoxicações que nós temos nos cães, nos gatos, são eles atacarem os medicamentos que não devem. Começando na não muito exata automedicação dos animais, sim, infelizmente, é preciso ter cuidado.
E também os armários das bolachas. Eu tive uma cocker que atacava e teve vários problemas de saúde.
Repare, eu já assisti cães que atacam o saco da comida, o saco da comida normalíssima, e comem a comida toda de uma vez.
É a autoalimentação.
A autoalimentação. Mas voltando um bocadinho atrás, a gente outro dia fala desses assaltos que de vez em quando existem. Voltando um bocadinho atrás, nós devemos ter o cuidado de proteger os medicamentos, da mesma forma que os protegemos das crianças. Infâncias, ou melhor, as crianças, os medicamentos. Porque eles podem sentir algo atraente, podem sentir que aquilo tem, até, porque muitos comprimidos têm, na sua envoltura, uma cobertura um bocado adocicada.
Para tornar mais fácil a sua ingestão.
Principalmente para as crianças e para as pessoas. E não é raro termos intoxicações por antidepressivos, termos intoxicações por anti-inflamatórios, apesar desses não serem assim tão palatáveis, mas comprimidos muito pequeninos e muito concentrados aumentam o risco, porque uma das coisas importantíssimas que as pessoas devem ter a noção é: um cão, um gato, não são a mesma coisa, da mesma forma que também do ponto de vista farmacológico, não são uma criança, não é uma dose de criança que se pode dar. As doses nunca são iguais, variam muito e há fármacos, há medicamentos que não podemos usar. Por exemplo.
Nuno, isso acontece muitas vezes? As pessoas, por exemplo, que tenham cães e gatos, darem os medicamentos que são supostos dar só aos cães, dar aos gatos e vice-versa?
Infelizmente, sim. Uma das intoxicações mais frequentes que costuma acontecer são, por exemplo, aqueles spot ons, aquelas pipetas para matar pulgas e carraças, em que aqueles que são para cães, usam em gatos. E às vezes até têm o cuidado de fazer uma dose mais pequenina. Não é uma questão de dose, é uma questão de intoxicação. Os gatos não podem, muitas das vezes, receber as mesmas moléculas, os mesmos fármacos que outros podem receber. Uma das coisas que é gravíssima e que infelizmente é frequente, é quando as crianças têm temperatura, quando as crianças estão com uma infecçãozinha, dão Paracetamol, dão Ben-Uron. E infelizmente, até a publicidade do Ben-Uron tem um cachorrinho, para mostrar como é uma coisa suave, que não vai fazer mal à criança. O Ben-Uron é fatal para gatos. Só uma dose pode causar a morte de um gato, por exemplo. Portanto, apesar de ser um medicamento que nós olhamos para ele como relativamente inofensivo até para as crianças, nos gatos é fatal.
E para os cães é possível usar?
Não é possível de levar da mesma ligeireza que se faz com humanos, por exemplo. A gente toma um Ben-Uron porque tem uma dor de cabeça, a gente toma Ben-Uron porque lhe dói o ombro, a partir de uma certa idade, então dói tudo e a gente toma sempre, a toda a hora é festivo. Mas para os nossos gatos é gravíssimo, não deve ser usado. Para os nossos cães, atingem doses tóxicas com doses muito baixinhas, ou seja, uma pequena quantidade pode dar complicações que, ao contrário dos humanos, não iria dar. Portanto, mesmo quando nós olhamos entre a medicação de um cão, de um gato, de uma criança, de um adulto humano, as doses não correspondem. Nós podemos usar até o contrário. Às vezes há fármacos, há medicamentos, que nós usamos doses altíssimas, porque é a dose certa, num cão ou num gato, quando comparada com a dose dos humanos, por exemplo.
Mas isso acontece, Nuno? Tu és veterinário, portanto, tens prática clínica relacionada com os animais há muitos anos. Isso acontece mesmo? Pessoas que administram medicamentos aos seus animais, medicamentos que são desenhados e criados para humanos?
Sim, acontece.
Há medicamentos para animais que podem ser comprados nas farmácias.
Exatamente. Há medicamentos desenvolvidos para humanos que têm sido utilizados em animais.
Exato.
É verdade. Portanto, nós podemos prescrever medicamentos que são, apesar de que hoje em dia a legislação e os regulamentos europeus obrigam a que o médico veterinário só pode passar uma medicação Destinado a humanos, se não houver o equivalente destinado aos animais. Apesar disso, as moléculas muitas das vezes são as mesmas e são iguais. E também temos outro problema, que infelizmente não é só com os animais, é com as pessoas, é com tudo, mas que é um problema que a gente não pode deixar de falar e de alertar, que é: nós sabemos que a razão número um de morte no mundo são infecções, principalmente infecções por bactérias multirresistentes, bactérias que aguentam tudo e mais alguma coisa. E uma das causas é o mau uso de antibiótico. Infelizmente, há pessoas que acham que o seu cão tem uma infecção urinária, seu gato está com uma infecção qualquer e tem lá em casa um antibiótico que o médico tinha receitado a ela, ou mesmo até para o próprio animal, mas já foi há um ano atrás, e usa esse antibiótico. Isso só vai contribuir para que se desenvolvam mais infecções resistentes. E o problema é que ao desenvolver infecções resistentes nos humanos, as bactérias depois vão ser resistentes também nos animais e vice-versa. Nós hoje em dia vivemos tão intimamente ligados uns com os outros, humanos e animais, que as resistências dos antibióticos vão se cruzando entre animais e pessoas.
E essa questão dos antibióticos é interessante também no sentido em que os antibióticos normalmente têm que ser tomados durante vários dias. Como é que os donos conseguem convencer os animais a tomar os medicamentos? É que muitas vezes não é fácil. Por acaso eu não tenho esse problema, porque normalmente pensa sempre que é um biscoito e está tudo bem, mas sei que muitos donos têm, de fato, dificuldades. É preciso enganá-los um bocadinho.
Sim, é verdade. Tudo sai da relação que nós temos com os nossos animais. Há animais que têm uma relação, que confiam tanto naquele tutor, naquele dono, que aceitam tudo e mais alguma coisa. Depois, por outro lado, nós também os vamos conhecendo. Ou é com biscoito, ou é com um bocadinho de atum, ou é com carne.
Enrolado em queijo.
Enrolado em queijo, enrolado em fiambre, o que seja. Nós desenvolvemos uma técnica e eles acabam por aceitar. Aqueles que não aceitam, a gente abre a boca e põe lá embaixo, também, na garganta, e eles acabam por engolir. Portanto, há sempre uma alternativa para se conseguir fazer. Mas de uma forma geral, que seja pensado, que seja indicado, e evitarmos ao máximo esta automedicação, quer automedicação da parte deles, quer nós, humanos, a querermos dar medicamentos, porque achamos que eles são iguais a nós.
Portanto, a melhor maneira de fecharmos o Pet Radio desta semana é dizer, e vou dizê-lo devagar: em caso de persistência dos sintomas, consulte o seu médico ou veterinário. É isso, não é, Nuno?
É exatamente isso.
Bom fim de semana.
Bom fim de semana para todos.
Bom fim de semana.
Obrigado!
Rádio Vet