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É um prédio aparentemente normal num subúrbio de Lisboa. É baixo, como todos os outros prédios nesta rua. Tem apenas dois andares, mas há alguma coisa estranha no telhado. Já repararam? Para que servem aquelas antenas no topo? Estamos em 1980, no Centro do Feijó. Os miúdos andam a brincar de um lado para o outro na rua. Passam autocarros, há mercearias e cafés abertos. E depois há aquele prédio com as antenas que saltam à vista.
Ele morava numa dessas portas. Ele até tinha as antenas lá no teto. Ele sempre foi nessa coisa dos OVNIs. Portanto, ele tinha umas antenas ali.
Já passaram mais de 40 anos e Carlos Oliveira ainda se lembra daquelas antenas. Olhava para elas quase todos os dias quando vinha da escola. Toda a gente no prédio sabe que o rapaz que vive com os pais na cave do lado esquerdo é um engenhocas, mas talvez nem todos saibam que ele e outros quatro fazem parte de um grupo obcecado por OVNIs. Na primavera de 1980, o miúdo pacato, que julgam ser responsável pelas antenas no telhado, vai estar em todo o lado nas notícias. O Rui está a voar pela primeira vez, mas não é um passageiro como os outros. Está de pé dentro do cockpit com uma arma apontada aos pilotos. Estamos num voo comercial entre Lisboa e Faro, que ele acaba de desviar para Espanha.
As regras, não escritas, mas que nos eram transmitidas por acaso acontecer, obedeçam. O primordial é a segurança do avião, a segurança dos passageiros. Obedeçam, façam o que lhes mandarem fazer e pensem essencialmente na segurança dos passageiros.
José Correia Guedes, copiloto deste voo, e o resto da tripulação estão obrigados a aceitar tudo o que o sequestrador pede. Só pode ser assim. Há vidas em risco.
Temos que pensar que estamos a voar e que temos não sei quantas toneladas de combustível nas asas. Estamos num ambiente pressurizado. Se eu disparar uma bala e fizer um buraquinho deste tamanho, a pressurização escapa-se toda por ali e faz um buracão deste tamanho. Isso é de evitar qualquer confronto físico. Portanto, a regra número um era obedecer.
O voo 131 da TAP acaba de mudar de rota. O Rui quer ir para Madrid. Só ainda ninguém percebeu por quê. Fora do cockpit, ninguém desconfia de nada. Neste momento, todos acham que o Boeing 727 da TAP está quase a aterrar em Faro, mas Espanha vai receber um alerta e prepara-se para uma resposta armada. Assim que aterrar em Madrid, este avião vai ser cercado pelas forças especiais e vão estar prontas a intervir ao mínimo sinal. Este é o Piratinha do Ar, uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Margarida Vila Nova, com banda sonora original de David Fonseca. Episódio dois: Emergência 7500. Esta é uma história real e é o conhecimento da história que guia a Honda em direção a um futuro melhor. Vamos continuar este percurso juntos, porque a Honda tem muito para contar, mas também tem muita vontade de ouvir. Nesta viagem, os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Honda Automóveis.
Srs. Passageiros, daqui fala novamente o comandante Coutinho Ramos. Por causa da aldeia meteorológica, não podemos neste momento aterrar em Faro. Vamos em direção a Madrid.
A mensagem é transmitida aos passageiros, mas quem já esteve dentro de um avião sabe que nem sempre se entende bem o que é dito pelo sistema de som e, neste caso, muitos não perceberam para onde estava a ir o avião. Os pilotos tinham de dizer alguma coisa. José Correia Guedes, o copiloto, sabe que não pode ser de outra forma. Inventaram a desculpa mais fácil, mesmo que aquilo não fizesse qualquer sentido
Por razões de ordem meteorológica, não podemos aterrar em Faro. Vendo assim, com quase 50 anos de distância, parece humorístico, porque o que é que ele dizia? Coitado, não podia dizer outra coisa. Isto era um fim de tarde, só que era daqueles em que a gente chegava à janela e via a costa toda algarvia de Vila Real de Santo António até Sagres. Andava tudo à vista, estava uma noite fantástica. Os passageiros olharam pela janela, devem ter ficado aterrorizados ou a pensar que o comandante era maluco. Portanto, foi uma mentirinha piedosa.
Mesmo assim, quase todos os passageiros acabam por acreditar. Mas o sindicalista da TAP, Vítor Azevedo, que minutos antes, sem o saber, tinha estado sentado ao lado do sequestrador, percebe logo que algo está errado. O jornalista Miguel Cordeiro falou com Vítor Azevedo.
Eu olhei para baixo e vi as luzes da pista e disse pro meu colega: "Olha, temos quase a aterrar". Continuamos a nossa conversa e passados uns 10 minutos ou assim, apercebimo-nos que já estávamos em altitude de cruzeiro novamente. E o comandante salvo erro, disse que havia mau tempo ou coisa do gênero, e eu disse: "Não, mau tempo nenhum. Com certeza que há aqui uma situação complicada e não é uma avaria, porque se fosse, o comandante não tinha problema em dizer. Se calhar fomos desviados". Disse isso mesmo assim, muito naturalmente.
Na brincadeira?
Sim, na brincadeira, mas com algum sentido, porque trabalhando na aviação, se fosse um problema técnico, o comandante não tinha problema em dizer: "Temos um problema técnico, voltamos à base". Com o tempo tão bom, dizer que é mau tempo, que não podemos aterrar, de facto, não dá para engolir pra quem percebe alguma coisa de aviação.
Sentado ao lado de Vítor Azevedo, Pedro Ferram, que é controlador aéreo em Faro, também não encontra razão para o que se está a passar.
Mas muita gente, acredito, que não estivesse muito familiarizada com o voo, não se tivesse apercebido que havia alguma anomalia. Agora, eu conhecia como a palma das minhas mãos o voo de Lisboa para Faro e sabia que estava a haver ali uma anomalia grande, estava ali a haver uma coisa esquisita.
O avião prepara-se para deixar o território português. Do outro lado da fronteira, as autoridades são avisadas do que está a acontecer.
Os aviões estão preparados com um sistema que hoje é muito conhecido, que em caso de necessidade, basta inserir um código específico e imediatamente o controlador que está de serviço recebe um aviso de alarme e sabe exatamente o que está a acontecer. Porque há várias situações e há códigos correspondentes a cada situação. Só que na altura, Portugal ainda não tinha esse sistema. Esse sistema está inserido numa coisa que se chama radar secundário. Portugal ainda não tinha, mas Espanha tinha. Ou seja, a partir do momento em que nós inserimos o código, o controle trafego aéreo de Espanha foi imediatamente notificado que aquele avião estava sob sequestro.
7500. É este o código acionado para sinalizar um voo sob sequestro. Rui não se apercebe de que o comandante acaba de dar o alerta. Os dois pilotos e o técnico de voo estão sob ameaça. Nas costas, tem um adolescente nervoso a andar de um lado para o outro e a apontar-lhes uma arma carregada.
Tinha esse ar de jovem e o que era ainda mais preocupante, ele estava muito tenso. Ele apontava a arma e tremia. Portanto, era uma coisa que nos preocupava mais. Um profissional estaria completamente sob controle. Um amador, que era o caso, e numa situação daquelas, estava extremamente nervoso, o que podia fazê-lo disparar a arma em qualquer momento, em qualquer instante.
Um avião praticamente cheio está agora sob as ordens de um miúdo de 16 anos. Fora do cockpit, a tripulação começa a estranhar e tenta perceber por que motivo este voo está a mudar de rota.
A chefe de cabine bateu várias vezes à porta, não se deixou enganar com a desculpa do comandante e disse-me ela depois: "O que eu pensei é como se vocês tinham morrido". Nunca lhe passou pela cabeça que fosse um sequestro, nem a ela, nem aos passageiros.
Alguns dos passageiros das filas da frente chamam os comissários de bordo. Contam que viram o jovem entrar no cockpit há minutos. É nesse momento que Isabel Valadas, chefe de cabine, tenta confirmar se falta alguém. É preciso identificar todos os passageiros de forma discreta.
A chefe de cabine passou perto de nós, eu chamei-a e perguntei-lhe baixinho o que se passava. Ela disse-me que havia alguém no cockpit. Então eu disse: "Olha, só se é o miúdo que estava aqui ao nosso lado". Ela viu o saco dele debaixo do banco, foi à galé, abriu o saco e veio-me dizer depois que estava lá um documento de identificação com fotografia e que era o miúdo.
A chefe de cabine, a restante tripulação e alguns passageiros, como Vítor Azevedo e Pedro Ferram, começam a suspeitar que este voo está a ser desviado.
Sim, é que primeiro foi a dúvida: o que será isto? Será algum sequestro, alguma forma de luta política nova em Portugal? Sequestrar aviões. Será alguma coisa ligada com a política? A incerteza.
Dentro do cockpit, o copiloto faz o possível pra acalmar o pirata do ar.
A primeira reação era tentar acalmá-lo. Eu era mais novo no cockpit e por alguma razão se criou uma empatia, uma comunicação entre ambos. Aliás, ele estava sentado na cadeira atrás do comandante. Quem ele via de frente era a mim, eu virava-me
Para trás e ele falava diretamente para mim. O flight engineer estava de costas e o comandante também estava de costas. Comecei a tratá-lo por tu, portanto, tentando criar uma aproximação, uma empatia, e ele reagiu bem. E a primeira mensagem era: vira a pistola para baixo. Nós vamos fazer o que tu queres, mas vira a pistola para baixo, porque essa era a grande preocupação, ele disparar aquilo e arranjar ali um sério problema.
Rui tem dúvidas, mas acaba por aceder ao pedido. Baixa a arma. José Correia Guedes continua a conversa. Para tentar aproximar-se mais do sequestrador, pergunta-lhe como se chama. É que, por esta altura, o copiloto também está a desenhar o seu próprio plano, mas ainda não sabe bem quem tem pela frente.
O Rui era um jovem tranquilo, pacato, nunca o vi metido em nada estranho e, portanto, via-o como um rapaz estudante, que ia para a escola e vinha. Tinha reputação de ser interessado por essas coisas que escapavam um bocadinho àquilo que era o foco de interesse do jovem médio e, portanto, nesse sentido, era, entre aspas, um geek, como nós hoje diríamos, um geek. Mas ninguém esperava que fosse meter-se num avião e desviar um avião.
Manuel Ramos Soares é hoje presidente da Associação Sindical dos Juízes Portugueses. Há cerca de 40 anos, era apenas um jovem a viver no concelho de Almada. Conheceu o Rui, eram vizinhos.
Aquela zona do Feijó era uma zona essencialmente pobre, eu diria um dormitório de Lisboa, mas pessoas operárias, porque naquela altura ainda havia muita indústria na zona de Almada, Barreiro e Seixal. Portanto, era, sobretudo, uma zona de pessoas pobres e também de classe média baixa e com muitos problemas, sobretudo a partir dos anos 80 e um bocadinho mais para a frente, de toxicodependência. E o Rui tinha a imagem dele o contrário, da pessoa que não se metia nisso, como eu e outros, talvez exceção.
Era uma época em que ainda se brincava na rua. Os miúdos agarravam na bicicleta e iam à aventura. Tal como na série "Verão Azul", Rui e os amigos passavam grande parte do tempo fora de casa.
Todos os dias, no verão, estávamos juntos. Não tínhamos nada para fazer, juntávamos. Ou íamos para a praia ou eu ia muito para a casa dele, porque os pais dele estavam a trabalhar e, portanto, não estavam em casa e nós juntávamos na casa dele. Às vezes juntávamos na minha casa também. Nessa altura, íamos brincar para a rua, principalmente no verão. E eu lembro-me perfeitamente, o primeiro a acabar de almoçar saía e ia tocar às campainhas dos outros para virem para a rua brincar. Mesmo às vezes, no verão, nos dias mais longos, a seguir ao jantar, íamos para a rua ainda, brincávamos no nosso quarteirão, digamos assim. Não saíamos ali daquela zona do nosso quarteirão.
Lembre-se de que nesta altura não existiam telemóveis ou computadores. O único ecrã que interessava era o da televisão.
[música de "Espaço 1999"]
"Espaço 1999" foi a primeira grande série de ficção científica a passar na televisão portuguesa. Estreou em 1976 e contava a história de um grupo de cientistas que viviam numa estação espacial na Lua. Há muito que já existiam livros sobre a vida extraterrestre, mas no final dos anos 70 havia um que se destacava e que lançava uma pergunta na capa: eram os deuses astronautas?
Especulava-se sobre as pirâmides. Digamos que não era tecnicamente possível de serem construídas com os conhecimentos da altura. E, portanto, uma explicação plausível é que eram civilizações extraterrestres que tinham estado cá ou que tinham vindo para cá e que tinham outros conhecimentos.
Vítor Teodoro foi professor de Ciências e deu aulas na Escola do Laranjeiro nos anos 70. Lembra-se de ter emprestado o livro a um grupo de cinco alunos que partilhava o fascínio por OVNIs.
Olhando agora, penso também, de certa maneira, é uma forma de ser influencer, como agora se diz, antes dos influencers e usando outros meios. Nesse caso, o influencer era a divulgação das ideias da ciência. Tinham uma curiosidade apaixonada e levavam essa curiosidade à ação, não ficavam só pela contemplação.
Os cinco amigos juntavam-se quase todos os dias depois das aulas. Passavam a vida a recolher artigos sobre avistamentos insólitos de objetos voadores não identificados. Formaram mesmo um clube.
Era o Clube PÉSSIS, que era o Clube de Pesquisa das Cinco Estrelas. Cinco estrelas porque eram cinco fundadores, basicamente.
Renato Ventosa fazia parte dos cinco. Os outros eram o João Pedro, o Zé Gustavo, o Francisco e o Rui. Sim, o nosso Rui, que agora está dentro do cockpit de um avião da TAP com uma arma apontada aos pilotos. Naqueles anos não faltavam casos de avistamentos em Portugal. Basta ir aos arquivos. 1968. Na Base Aérea das Lajes, nos Açores, um militar garante que teve um encontro imediato. Jura que viu um objeto voador a pairar junto do posto e que estavam quatro tripulantes no aparelho. Depois de alguns segundos, deparou-se com uma luz forte e logo a seguir desmaiou. 1975. Um jovem conta que foi perseguido pelas luzes de uns faróis durante a noite enquanto fazia a viagem de carro entre Peniche e Alcobaça. Parou e apercebeu-se da presença de um objeto redondo, um disco voador de grandes dimensões. Diz que era do tamanho da praça de touros do Campo Pequeno e tinha um tom metálico acinzentado. Quando chegou a casa, ninguém da família acreditou. 1977. Em Castelo de Bode, um jovem piloto da Força Aérea assegura que esteve frente a um grande objeto voador não identificado, que pairava a cerca de 2 mil metros de altitude. José Francisco ainda o conseguiu observar durante alguns segundos, antes de desaparecer a alta velocidade. O avião ficou descontrolado e começou a cair a pique. O piloto só conseguiu recuperar o controle quando estava a poucos metros de se despenhar. E 1979, apenas um ano antes do Rui desviar o avião da TAP, um extraterrestre com fato espacial aparece na capa de uma revista portuguesa. A revista chamava-se Humanóide. Era suposto ser bimestral, mas acabou por só ter um número. A primeira e única edição foi publicada em março e custava 10 escudos. Naquela altura, o mesmo dinheiro dava para comprar quatro pastilhas. Dos mil exemplares, só se venderam cerca de 20 a familiares e amigos. Quem estava por trás desta revista? O Rui e os restantes amigos do Clube de Pesquisa de Fenômenos Insólitos. O Rui passou grande parte da adolescência a estudar o avistamento de OVNIs. Por isso, todos juravam que as antenas que estavam no topo do prédio em que vivia serviam para captar sinais de vida no universo. Na verdade, era uma coisa muito mais terrestre. Era um posto de rádio amador criado por um namorado da irmã que vivia na porta em frente. Rui só tinha ficado com a fama. Mas em casa ele também tinha as suas próprias engenhocas. Durante meses, construiu sozinho um amplificador para ouvir música. Tudo aquilo que tinha na cabeça era para levar até ao fim. Desviar aquele avião da TAP não ia agora ser uma exceção. Já vos contei que ele era apenas um jovem do Feijó, mas ainda não sabem como é que ele preparou tudo isto. O Rui era filho de Alexandre Rodrigues, taxista em Lisboa, e de Idalina Rodrigues, empregada num estabelecimento de serviço social. Tinha uma irmã mais velha que já tinha saído de casa. O pai e a mãe passavam o dia fora a trabalhar. Na escola, o Rui não era propriamente um aluno aplicado.
Foi uma pessoa que, do ponto de vista de sucesso escolar, teve os seus percalços, mais do que o normal. Ao contrário de nós, que evoluímos, um ou outro com repetições de ano, mas em geral sem grandes dramas, ele sei que teve algumas dificuldades a partir de determinada altura. Apesar de ser uma pessoa com um potencial bastante grande.
Aos 16 anos, o amigo Renato Ventosa seguiu para o 10° ano, mas o Rui, por causa das más notas, foi inscrito no Colégio Crisfál, em Lisboa.
Tinha se inscrito nesse colégio para fazer o 7°, 8° e 9° no mesmo ano. E nós, na altura, até achamos aquilo estranhíssimo. Quer dizer, tu não conseguias fazer um ano num ano. E agora vais conseguir fazer três anos num ano? Isso é muito estranho. Mas é um colégio privado, se calhar tens lá algumas condições. Lembro-me disso.
Ao contrário do que todos pensavam, nos últimos meses, o Rui não ia para a escola. A meio do segundo período, começou a faltar. A matrícula foi congelada. Continuou a ir para Lisboa, mas não aparecia nas aulas. A 8 de março, pediu o passaporte. Pagou um sinal de mil escudos. A 24 de abril, já o tinha, depois de pagar mais 850 escudos. Terá usado o dinheiro que estava destinado para pagar a escola. O desvio do avião só aconteceu em maio. Durante estes meses, Rui preparou ao pormenor a Operação TAP. Devem estar a pensar como é que ele conseguiu a pistola. Esse é o detalhe mais surpreendente. Certa noite, a arma foi encontrada pelo pai depois de um cliente se ter esquecido dela no banco de trás do táxi. Desde então, estava guardada numa gaveta lá de casa Ele tinha contado tudo aos amigos uns dias antes, mas a conversa caiu no esquecimento. Pelo menos até à noite de 6 de maio, quando os pais do Rui estranharam a ausência do filho à hora de jantar.
Nesse dia à noite, liga-me a mãe era para as 21:30, 22 horas, já não me recordo, para saber se eu tinha visto o Rui, porque estava muito preocupada, porque o Rui não tinha aparecido em casa e a irmã tinha-o visto sair com uma mala de roupa e estava muito aflita. E eu: "Não vi o Rui, desde de manhã nunca mais o vi". Fiquei a pensar: "Saiu com uma mala de roupa? Fugiu de casa". Às vezes, nessa altura, havia miúdos que fugiam de casa. Havia situações, às vezes notícias de miúdos que fugiam de casa, mas não associei. Fiquei assim: "O que é que lhe deu na cabeça?", pensei.
Naquele momento, Renato Ventosa ainda não desconfiou de nada, até que viu na televisão uma história que lhe pareceu familiar.
Última hora. Um avião da TAP foi sequestrado e segue para Madrid.
Ouço na televisão uma notícia que interromperam a emissão: "Desinterrompemos a emissão, uma notícia de última hora". Estamos a falar dos anos 80, portanto ainda só havia a RTP. Notícia de última hora: um avião da TAP que ia para Faro foi desviado para Madrid. Aí caiu-nos tudo, porque tínhamos aquela história que ele tinha contado, agora estava a bater certo.
O Boeing 727 está a aproximar-se de Madrid. Cá fora, o desvio já é notícia, mas aqueles que seguem dentro do próprio avião continuam na dúvida.
Ninguém dizia nada, o piloto comandante não dizia nada, não falava, ninguém dizia nada. E o avião a passar e Faro a ficar para trás e nós a 17 mil pés. De maneira que nós ficamos muito tempo. E portanto, para um controlador que trabalhava em Faro, era uma anomalia total: "Está aqui alguma coisa". Mas ninguém diz nada.
O copiloto começa a pôr em prática o seu plano: tentar ganhar a confiança do jovem pirata do ar. E faz a pergunta que todos querem fazer.
"E então, o que é que tu queres?", perguntei-lhe eu. E ele veio com as suas condições.
Dez milhões de dólares e um salvo-conduto para a Suíça. Sim, ouviram bem. Ele quer 10 milhões de dólares. Fazendo as contas, à taxa de inflação, é o equivalente a cerca de 32 milhões de euros nos dias de hoje. José Correia Guedes pergunta: "A quem queres pedir o dinheiro?" O Rui responde: "À TAP". O copiloto não consegue conter o sorriso.
A TAP já na altura estava falida. Não vais pedir. E o salvo-conduto? Não te vai valer de nada. Isso que estás a fazer é um crime tão grave que tu aterras na Suíça ou no Uganda, num lugar qualquer, tu és imediatamente preso. Isso não existe, não há um salvo-conduto para um crime desta magnitude. "Não quero saber".
Mas o diálogo continua e Rui pergunta então ao copiloto a quem deve pedir afinal o dinheiro. José Correia Guedes responde que não faz ideia e explica que Portugal é um país pobre e que, mais a mais, os bancos estão fechados à noite. O Rui toma uma decisão: "Vamos então pedir ao governo". E insiste no salvo-conduto para a Suíça. Um documento que, na cabeça dele, lhe permitiria não ser detido após sair do avião. Mas o pirata do ar continua a surpreender. Lembram-se de que ele já tinha pedido desculpa pelo trabalho que estava a dar aos pilotos? Quando o avião já está a aterrar em Madrid, pergunta ao comandante: "Acha que estou a pedir muito dinheiro?"
Nós não sabíamos onde é que estávamos a aterrar. Nós não sabíamos que estávamos a aterrar em Madrid. Eu podia dizer que se calhar estávamos em Casablanca ou Marraquexe, ou sei lá, ali num aeroporto qualquer, que não reconhecia daquela altitude a rota. Quer dizer, de Faro a Madrid é quase numa linha reta.
Dentro do Boeing 727, a maioria dos passageiros permanece na ignorância. Logo após a aterragem, o avião é conduzido para a zona militar do aeroporto.
Aterramos em Madrid e logo a seguir aconteceu aquilo que está no protocolo para situações deste género. O avião é enviado para um lugar remoto e é imediatamente cercado pelas forças de segurança. Era um lugar muito escuro. Víamos vultos à volta, eles ainda por cima vestiam de negro
O avião está cercado pelas forças especiais espanholas e estão fortemente armadas.
O avião foi levado para a zona militar do aeroporto, uma zona escura com pouca luminosidade, mas conseguia-se ver os GOE espanhóis, a polícia especial deles, com as armas na mão, a tomarem posição à volta dos aviões. Foi quando eu senti algum medo, porque pensei: se estes fulanos entram dentro do avião, lá se vai o miúdo e se calhar mais alguém, porque eles entram a matar.
Instala-se o nervosismo entre os passageiros. Os homens de negro podem entrar a qualquer momento. Aguardam apenas por uma ordem. Se for necessário, não vão hesitar em abater o Piratinha. No próximo episódio, o primeiro-ministro vai montar um gabinete de crise.
Houve um avião desviado para Madrid. Não há notícias nenhumas, vá já para São Bento.
Dentro do avião, os passageiros começam a ficar nervosos.
Eu vi pela janela do avião a movimentação de jipes militares. Viam-se viaturas a seguir o avião, ao lado do avião.
Os espanhóis estão prontos para avançar.
Naturalmente, iriam liquidar os elementos terroristas que estivessem no avião, procurando salvar os reféns.
O Piratinha do Ar é uma série para ouvir em seis episódios e faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Margarida Vila Nova, e tem banda sonora original de David Fonseca. O guião e as entrevistas são de Miguel Cordeiro. A edição é de João Santos Duarte. A sonoplastia é de Beatriz Martel Garcia, a coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio, ouvimos excertos das séries "Verão Azul", da TVE, e "Espaço 1999", da ITV. Podcast Plus do Observador, é mais do que um podcast. Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Honda Automóveis
