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Bem-vindo ao podcast da PLMJ. Damos voz ao que interessa, ao que faz mover o país para lá da espuma dos dias. Os negócios, a comunidade, o empreendedorismo, a sustentabilidade, a arte. Partilhamos saber que é feito de experiência e que serve a todos. Move-nos a coragem para imaginar o amanhã e a vontade de criá-lo hoje. Juntos, a comunidade, os clientes, a PLMJ, a Fundação PLMJ, geramos impacto. Fique desse lado. A PLMJ associou-se à plataforma Ephemeral Eternal e à Galeria Underdogs e dinamizou uma conversa sobre o mercado da arte digital e dos controversos NFTs. Tendo como ponto de partida o debate que aconteceu no auditório PLMJ e que contou com vários conhecedores das diferentes perspectivas acerca destes temas, convidámos duas das protagonistas da conferência para transportar para o nosso podcast uma viagem que oscila entre o mundo da arte física e digital. Está conosco Pauline Focel, curadora e empreendedora responsável pela Artpool, com larga experiência enquanto diretora de instituições de arte, galerias e estúdios, e que tem tido um papel decisivo em colocar Lisboa no mapa global da arte contemporânea pública, através da promoção de uma nova geração de artistas urbanos. E Rita João, cofundadora e membro do Pedrita Studio, um ateliê de design multidisciplinar sediado em Lisboa e criado em 2005, e cujos projetos lançam um olhar inquisitivo sobre a cultura de processo e material, promovendo soluções inesperadas e de consciência formal. Bem-vindas às duas e muito obrigada por terem aceitado o nosso convite. Pauline, eu começava por ti e pedir que falasse um pouco acerca dos vários projetos em que tens estado envolvida, nomeadamente a Artpool, e qual a novidade que trazes ao mercado português da arte.

Sim, obrigada, Susana, pelo convite. É um prazer de estar convosco hoje. Então, o meu percurso. Eu penso que é bom reexplicar tudo, porque é basicamente o tempo que me fez chegar aqui agora. Eu comecei na China. Era diretora de uma galeria de arte ali, durante quase três anos. É ali que eu encontrei o Vhils, e ele que me fez descobrir este país, Portugal. E eu cheguei aqui no fim de 2012 para fazer a direção do seu estúdio. E, ao mesmo tempo, tivemos esta ideia de lançar uma galeria, um programa de arte pública e lançamento de edições de arte. E era o Underdogs, que começou em 2013, juntos. Depois disto, eu parei de dirigir o estúdio. Eu voltei para a Ásia. Estava diretora de uma fundação de arte a fazer o fundraising da fundação para financiar os programas de arte em Hong Kong. E ao fim desta experiência, era mesmo incrível de entender como funciona uma instituição de arte, mas também o financiamento do mundo das artes. E eu percebi que o papel do curador era mesmo muito importante. Fazia a curadoria da Galeria Underdogs já há anos, mas tive a primeira ideia do que poderia ser a Artpool. E a Artpool era, ao princípio, uma rede social para curadores das artes. Temos agora mais de quase mil curadores de artes no mundo inteiro. É basicamente um LinkedIn, especialmente feito para profissionais de arte. E já há dois anos eu encontrei os NFT. Estava a pesquisar uma solução para encontrar digitalmente uma nova maneira de fazer novos meios de financiamento para o mundo das artes. E então fizemos o development da Artpool e agora os curadores de arte podem basicamente fazer coleções de arte digitais com os artistas com quem trabalham em exposições, e elas vendem peças digitais, mas as pessoas podem receber uma versão em papel da peça. Então a tangibilidade para mim é importante. Vamos falar disto na parte do físico. E é isso, basicamente estou a continuar a fazer a curadoria da Underdogs com o Vhils. E a Rita é uma nossa artista da plataforma já há muitos anos, porque era o princípio que nós encontrámos. Era o estúdio a contactar a galeria e fomos lá para pensar uma peça pública ao princípio.

Sim. E, de facto, é extraordinário a forma como chegou ao tema da arte digital, como descobriu, como tropeçou no tema. E qual é a novidade que no fundo tudo isto traz ao mercado da arte português, tal como o encontraste ou conheceste ao início?

Eu penso que traz muitas coisas diferentes. Primeiro, há um movimento, que é da criptoarte. As NFT para mim é uma ferramenta, vamos explicar um pouco mais o que é, mas é uma ferramenta para vender Pode ser uma JPEG, um MP3, um MP4. Mas há artistas que começaram a trabalhar completamente digitalmente e era a primeira maneira para eles venderem as obras deles. E isto é um movimento. Depois, há muito mais artistas que podem usar esta ferramenta, artistas de arte física.

Claro.

E penso que é muito interessante explorar este tema. Mas a tecnologia permite muito mais coisas que só vender um ficheiro. Eu vou falar rapidamente.

Sim, se calhar até fazia já essa pergunta, que muitas pessoas que podem estar a ouvir-nos e estão a pensar o que é um NFT.

Um NFT é criado com um contrato. Para mim, a maneira mais fácil de explicar os NFT é um contrato, é um certificado de autenticidade e de propriedade de um ficheiro digital. E este ficheiro pode ser uma JPEG, pode ser um MP3 ou MP4, qualquer tipo de ficheiro digital. Antigamente, não poderíamos ter a propriedade de um ficheiro digital e agora podemos dizer quem criou o ficheiro e quem é agora o proprietário deste ficheiro. Então finalmente temos um valor monetário de um ficheiro.

Que no fundo é a peça, neste caso.

Sim, é o contrato associado à imagem ou vídeo e não podemos mesmo ter a propriedade da imagem, mas é um contrato associado na blockchain, que explica isso.

Claro. Se calhar, Rita, até uma forma de também começarmos a ver como é que isto depois na prática acontece, eu pedia-te primeiro que falasses, claro, um pouco sobre o Pedrita Studios, a vossa história e também depois falarmos um bocadinho sobre, no vosso caso, fizeram a transição para estas novas tendências, como estava a Paulina a contar.

Sim, o Estúdio Pedrita é um estúdio de design. Fazemos projetos de design de interiores, design de equipamento. Nos primórdios fizemos também design gráfico, web design, um bocadinho de tudo. Somos um estúdio multidisciplinar. A equipa vai crescendo conforme os vários projetos que vão aparecendo. Gostamos desta diversidade de temas e de coisas para fazer. E um dos projetos dentro do estúdio, começado por nós, porque o Pedro Ferreira, que é o outro fundador do Estúdio Pedrita, o avô dele tinha um negócio associado à azulejaria industrial, fins de linha, por isso restos de fábrica que teriam que ficar em estoque para, no caso de haver reparações a fazer, poderiam voltar a ser introduzidos em cozinhas, casas de banho, no que precisasse de ser reparado. E é ao olhar para este espólio que nós então pensamos naquele material como um material disponível para fazer o que quer que fosse. E começámos a pensar num sistema, sempre com o nosso know-how e background de designers, um sistema que pudesse então dar saída a este material. E encontrámos um sistema que conseguimos produzir imagens, usamos um azulejo como um pixel e a par com a outra atividade de design, de repente encontrámos um artigo da Galeria Underdogs que dizia: "Se tiverem uma empena onde queiram fazer uma obra de arte, contactem." Por causa do programa da Arte Pública. Lembro-me perfeitamente, ia no avião e acho que era a revista da TAP ou o jornal Público, que eu costumo comprar quando vou viajar, e de ver o artigo onde a Pauline dava uma entrevista, explicava o que era o projeto Underdogs e este projeto de arte pública. E assim tive a oportunidade, escrevi um e-mail a dizer: "Não temos uma parede, mas temos isto que gostávamos muito de pôr numa parede na rua." E depois foi muito interessante ver como de repente fomos desafiados pela Pauline e pelo Alexandre a trazer aquilo para dentro da galeria, porque nós tínhamos um problema de escala, porque o nosso pixel era 15 por 15, portanto isto dá peças gigantes. Daí a necessidade de procurarmos uma empena para começar este projeto com mais força, porque é um projeto que já tem vindo a ser desenvolvido no estúdio desde 2007, talvez, mas com esta dificuldade de produzir peças tão grandes, não tínhamos ainda como fazer aplicações reais. E depois, a convite da galeria, há aqui um arranque da coisa, uma troca de escala. A gente corta o azulejo em quatro, aumenta a nossa base de dados e consegue finalmente produzir peças.

Com a ajuda já também de um programa e de um algoritmo.

Sim, há um algoritmo que nos ajuda a fazer umas matrizes digitais, mas depois há muito trabalho manual por trás, porque o computador não vê.

Eu fiz esta pergunta porque também havia aqui já uma componente digital, mesmo antes de o ser.

É até interessante que a primeira exposição que a gente faz com a Underdogs é a Best Guess for These Images. E há também um algoritmo a ditar-nos o que é que vão ser as imagens para esta exposição, porque o nosso background é design. Design é forma, segue função. Por isso, havia aqui uma necessidade de encontrar o que seriam os temas e as imagens a explorar para esta primeira exposição. E a gente vai buscar esta, há uma coisa do Google Images, que adivinha e faz equivalentes com imagens e de repente há um algoritmo também a dizer que imagens é que nós vamos fazer. Portanto, sim, há uma componente digital de Que já estava presente no trabalho até antes de entrarmos nesta coisa dos NFTs, também é desafio da-

Passava exatamente a perguntar como é que depois foi feita essa transição e também perguntava um bocadinho se é um caminho sem volta, ou seja, quando se caminha para a arte digital, se depois, da perspectiva do artista, o físico mantém-se sempre, mas em que perspectiva?

É um caminho interessante. A minha primeira abordagem foi questionar o sentido que poderia fazer levar o nosso trabalho para o digital. E de repente, quando se faz a lista dos prós e contras, há ali uma série deles que tem a ver, nomeadamente, com o facto do stock ser finito. Nós trabalhamos com azulejos de fábricas que já fecharam, por isso eventualmente o nosso stock vai-se esgotar. Mas ao mesmo tempo existe uma database de desenhos incríveis, que retratam esta azulejaria que equivale a uma época.

Sim, é um marco também da cultura portuguesa.

Da cultura portuguesa, da arquitetura portuguesa. E de repente percebemos que no digital não há limite. Poderemos realmente explorar mais este legado gráfico que tem vindo a inspirar-nos a fazer as nossas peças.

Os prós pesaram mais do que os contras.

E depois havia outra coisa que já andava às voltas na cabeça há muito tempo, que era o adicionar movimento às peças. E de repente é possível, porque estamos no digital e conseguimos efetivamente adicionar o movimento de uma maneira muito natural. E foi assim que começámos a desenvolver, também à procura de softwares.

Para aprimorar.

Que nos deixassem desenvolver esta ideia. Curiosamente, o output parece muito evoluído tecnologicamente, mas é um croché. É muito manual ainda na maneira como chegamos àquele resultado. Por isso continua a ser interessante também por ser preciso ainda muita dedicação para aprimorar o resultado final.

Pauline, chegadas a esta fase, pensar o ponto em que estamos, que estamos aqui a conversar, mas quais são as perspetivas para o futuro? Porque depois há aqui um tema que tem sido também muito controverso, que é o facto de qual será o impacto da queda de empresas, por exemplo, como a FTX, se isso pode representar uma perda de valor também para a arte e o mercado da arte, que está cada vez mais digital, uma vez que as moedas utilizadas nestas transações são sobretudo moedas associadas à blockchain.

Há dois temas na questão. Eu vou falar da parte da FTX super rapidamente. Acontece, estamos num mercado novo e é a prova que a descentralização, que é o tema central do Web 3, tem que acontecer.

Claro.

Mas depois, é complicado, o mercado agora é complicado, mas para mim, estou a olhar o mercado de agora e o mercado do amanhã com os olhos do mercado das artes. Vou explicar. Estamos a trabalhar com artistas que são humanos, que têm carreiras, que estão a trabalhar no CV cada dia, que criar valor precisa de tempo. E criptomoedas ou não, exatamente é a mesma coisa. O valor que a Rita ou outras artistas estão a criar, vai ficar. Não é feito com especulação. E é isso que me interessa. E então o trabalho da Rita hoje ou em três dias ou em quatro anos vai evoluir, o valor vai crescer, porque estamos a trabalhar neste sentido. E exatamente o mercado das NFT ou o mercado das artes, o secundário mercado, é igual. Ao final, se as plataformas e se os artistas comunicarem os preços deles a um momento, os colecionadores podem revender ao preço certo. E as criptomoedas vão upside down, mas ok. Para mim não é tão problemático, mas depende das pessoas, se as pessoas estão aqui no Web 3 para ficar ou não. Eu estou aqui para ficar e os artistas com quem trabalhamos estão aqui para ficar e continuamos a construir coisas verdadeiras.

E já agora, desculpa só interromper, é possível ainda assim fazer sempre essas transações em euros ou em dólares?

Sim, a primeira transação. Quando vocês compram, por exemplo, na Efemerol Eternal ou Artpool, as pessoas podem comprar a primeira peça, a primeira venda pode ser feita em cartões de crédito. Então pode ser comprado em fiat money. Mas depois não. Depois quando as pessoas querem revender, vai ser revendido em crypto. E também atrás de uma pessoa comprar um NFT, os artistas, as plataformas e todas as pessoas que estão no smart contract são pagos em crypto. Eu jogo e uma boa parte da tecnologia também, mas eu penso que no futuro vai ser cada vez mais pessoas na Web3. E Web3 não é só cripto. Criptos, NFT, Metaverse, a identidade digital de cada pessoa, é muito mais que só a cripto e as moedas a tratar de tudo isto, mas há muito mais. As marcas, as pessoas vão estar neste mundo. E cada vez mais que há mais pessoas neste mundo, vamos ter menos especulação também, porque vamos ter o uso mais normal das coisas.

E seja como for, isto já abriu imensas possibilidades e novas oportunidades para os artistas, como ouvimos o exemplo da Rita. E perguntava no caso concreto português, já fez certamente a diferença em muitos artistas.

Sim, muitas coisas já aconteceram aqui em Portugal. Podemos falar da instalação da Camila Nogueira, que foi feita para a Efemeral Eternal na Imminent. Isto é uma aplicação de atrás, talvez, é NFT, mas ao final é arte digital. E é bom de ter aqui em Portugal uma maneira de experimentar arte de uma outra maneira. E eu penso que no grupo dos Cultural Affairs, que é Underdogs, Imminent, Efemeral Eternal, temos esta vontade, porque a vontade da arte pública. É isso, é dar às pessoas um encontro com as artes diferentes. E vais neste sentido de ter uma peça em movimento, de imersão, ao final. Isto para nós é muito importante, mas também fizemos parte com outro projeto na Rare Effect Crypto Art Festival, já há um mês atrás, e era uma exposição com muitos artistas de arte digital. Há também um DAO com quem estamos a trabalhar, que se chama Art DAO. É basicamente um grupo de artistas, é um pouco um novo tipo de galeria, um novo tipo de coletivo.

E sentes que os artistas, por exemplo, e não querendo, obviamente, nomear pessoas, mas que uma outra geração de artistas que de certa forma se tem vindo a cruzar também com o vosso trabalho, tem receptividade, tem interesse e curiosidade em perceber como é que também podem apanhar, no fundo, este comboio?

Sim. Com a Art Pools, falámos com muitos curadores de arte que estão a trabalhar com muitos artistas. Sim, ao princípio, é uma conversa, é explicar, mas quando a mensagem é boa, os artistas sabem apanhar o challenge também.

Claro.

E isto é muito importante. Há muitos artistas a pensar: "O quê? O que é o hype?" Mas não, estamos a explicar que é uma ferramenta, que a tecnologia pode trazer muitas coisas superinteressantes, desta maneira. E os artistas querem desafios também. Não sei, a Rita pode dizer.

Sim, se calhar também.

Sim, na altura, quando veio o desafio, ainda Underdogs, com uma exposição coletiva, foi a primeira vez que fizemos os NFTs. O desafio foi primeiro perceber o que era um NFT e como é que iria funcionar, que dinâmica é que tinha, como é que era a comercialização. Na altura, a primeira exposição foi um leilão, por isso até as maneiras de comercializar os NFTs-

Foram logo também testadas.

Eu tive três experiências diferentes e todas foram comercializadas de maneiras diferentes. E foi interessante perceber aqui como é que o trabalho digitalmente pode crescer, mas também como modelo de negócio. Porque de repente há aqui um desafio para levar o trabalho para o digital, mas há uma maneira estruturada de fazer com que esse desafio, com que essas horas de empenho a desenvolver e a criar essas peças, tenha uma remuneração justa, que justificam também o tempo e o desenvolvimento. Não é só a única justificação, claro, mas é um bom empurrão para realmente dedicar mais tempo à procura do que pode ser esta via digital do que de um trabalho físico.

Claro.

De repente, se abrem aqui caminhos.

Posso adiantar qualquer coisa, porque é interessante o que a Rita está a dizer, que é da parte da obra, da parte da comercialização, mas há uma outra parte que pode ser superinteressante, e eu vou dar o exemplo do último projeto do Wiels, que se chama Layers. É inspirado pelo tipo de média que talvez seja o mais conhecido depois das paredes, que é o billboard. E o Wiels fez um tipo de database muito grande, de retratos, de coisas escritas. Basicamente, são anos de database de obras dele, e as pessoas poderiam comprar um billboard completamente branco, que era o NFT, e depois poderiam comprar ou receber um token, que elas podem aplicar no billboard e revelar A peça.

Então não sabem exatamente o que estão a comprar.

As pessoas não sabem o que elas estão a comprar, e há três token que pode rever um pouco, um pouco mais e completamente a peça. E isto puxa a maneira não de trabalhar, de relacionar com o público. Isto é super interessante.

De chamar um bocadinho o público até ao seu trabalho, uma interação completamente diferente.

É isso que está super interessante.

Eu posso falar aqui um bocadinho da segunda experiência, que foi já a Eternal Ephemeral a dinamizar, que para mim, quando me explicaram o modelo, fez-me imensa confusão. Era uma compra no escuro, por isso as pessoas compraram, houve uma pré-venda onde era uma coleção de 50 NFTs. Nós mostrámos 10, no máximo, para dar uma ideia do que seria esta coleção e as pessoas compraram no escuro, compraram numa pré-venda, no escuro, sem saber o que estavam a comprar. Foi rifas. E na altura, fazia-me imensa confusão como é que isto ia acontecer.

A confiança no trabalho. Eu penso que isto é mesmo super novo na Web 3. Esta vontade da comunidade atrás dos artistas a suportar, que finalmente a estética não é tão importante. É, mas a vontade de fazer um investimento, com certeza, mas também de estar atrás de um artista que as pessoas pensam que vai ser um projeto mesmo novo, diferente, e isso é interessante neste novo mundo.

É quase no sentido de uma colaboração, de fazer parte do projeto, e não de uma forma mais tradicional de arte que nós nos habituamos, da arte ser algo completamente externo, exterior.

Ser uma espectadora, no final.

Exatamente. Paulina, eu perguntava-te em tudo isto que estamos aqui a falar e pela tua perspectiva também internacional, em que patamar é que nós, Portugal, estamos um bocadinho em relação a isto tudo?

Estamos bem posicionados. Vocês deveriam saber, mas há muitas pessoas a chegar em Portugal do mundo da cripto. É um país em que há muitos investidores de cripto agora. Somos pequenos, mas já há muitas pessoas aqui. Há também muitos projetos para o futuro, de ter mais headquarter Web3 com grupo de startups e investidor aqui.

Não ficamos mal na fotografia nesse aspeto.

Não, deveríamos fazer muito mais, mas eu penso que estamos num bom sentido. Vamos ver o próximo ano como as coisas-

E em termos de recetividade do público? Eu vejo, pessoalmente, acho que todos nós vemos que todas estas novas dinâmicas têm sido criadas pela vossa equipa, muitíssimo, até porque alargam depois o espectro da vossa atuação também à música e à comunidade e às comunidades onde estão inseridos. Mas ainda temos um público um bocadinho, ou não, tradicional, da forma como vê, como visita a arte.

É uma questão de divulgar mais também, porque há muita gente dentro do nosso público, há muita gente que ainda não conhece o que é esta coisa dos NFTs e como é que funciona, mas depois quando vê os resultados, quando experimenta a instalação da Camila Nogueira no Festival Iminente ou vê o que é o vídeo que a gente produz como NFT, de repente percebem que isto faz sentido, porque é arte digital, no fundo. É só uma maneira de vender e haver um contrato para legitimar um output digital. Por isso eu acho que é uma questão de divulgar.

E poderá no futuro haver até uma mistura, imagino, e falámos até na conferência aqui na PLMJ sobre isso, num mesmo museu termos tradicional, normal, exposição de escultura, de desenho, de fotografia, e ter também outras salas com arte digital, como já havia o vídeo também.

Fizemos isto há um mês atrás no MAAT. Tivemos uma instalação com a Artpool e o Soliman Lopes, uma experiência imersiva, e temos NFT na venda na loja. Então é possível com instituições, claro. Só para responder, porque isto é o mais importante para mim, é esta parte da educação. O público agora é muito complicado. Primeiro, porque estamos a fazer o foco na palavra NFT. E isto faz um tipo de bloqueamento para as pessoas. É só uma ferramenta, novamente, é uma ferramenta para comprar. O resto é arte. E quando explicamos de uma maneira fácil, e explicamos também que não precisamos saber tudo. Não precisamos saber exatamente o que é blockchain, como funciona as NFT e ver o smart contract e ir na Ether Scan. Não, as pessoas não precisam disto, precisam de entender o uso. E vamos precisar de anos. Tenho a certeza que isto vai ser mass market, mas precisamos de cinco a 10 anos para isso.

Sim, mas essa questão que disseste é de facto muito importante, até porque lá está voltando a querer apanhar não só as gerações que começaram a trabalhar antes destas novas realidades, como também Os mais novos que já só conhecem essa realidade, mas também é importante. Ou seja, este balanço e este equilíbrio vai ter que ser muito conquistado à custa de muita divulgação e muito esclarecimento.

Sim, mas é uma oportunidade muito grande para divulgar mais a arte. É isso que é interessante. Para mim, vai abrir muitas portas e vamos ter esta oportunidade que temos na arte pública, de estar nas ruas. Eu penso que a arte digital vai tocar talvez mais pessoas. Não é mais fácil, mas é uma mídia que as pessoas vivem todos os dias. Elas têm o iPhone.

As novas gerações. Deixa de ser exclusivo de museus ou de casas de colecionadores e a arte passa a ser mais disponível. E se calhar, a propósito precisamente deste tema-chave, fazia-vos ainda uma última pergunta, que acho que faz sentido dirigir a ambas: se é possível a qualquer colecionador privado ou a um museu, ou a uma instituição, como por exemplo, a Fundação PLMJ, fazer também esta transição, se isso faz sentido sequer.

Eu, enquanto artista, vejo como uma oportunidade de reinterpretar as peças de qualquer coleção. Foi uma das questões que se levantou quando me fizeram o desafio, se eu queria fazer um NFT e alguém dizia: "Não, basta ser uma foto da peça". Isso para mim era pouco, ser a foto da peça. Mas de repente, esta peça digital pode trazer mais qualquer coisa, ser mais uma layer em cima da peça física, eu acho que isso pode ser muito interessante. A mim, enquanto artista, seria um desafio muito interessante olhar para peças que existem já fisicamente.

Mesmo peças que já tinhas feito há sete anos.

Sim. Por isso acho que podia ser interessante.

Sim, para a resposta de uma artista, faz sentido. Tenho muitos colecionadores a chamar e a me dizer: "Eu posso fazer um NFT de uma obra minha?" Não. Do meu lado, eu aconselho que não. Se o artista quer, sim. Mas as pessoas, e estamos no sítio certo para falar disso, quando compramos um NFT, não compramos o direito de autor. Está escrito nas plataformas. Se o artista quiser vender e está escrito no contrato, ok. Mas senão, não. E a partir deste momento, vocês têm a propriedade de uma peça física, mas não têm a propriedade de uma fotografia da peça. E não podem comercializar a peça física.

Sempre devia ser revisto o contrato que as pessoas têm com os artistas.

Sim, e normalmente os artistas não vendem o direito de autor para os museus ou os colecionadores privados. Mas se os colecionadores ou museus, fundações querem este direito, pode falar com o artista, se o artista está no nosso mundo. Se não está, para mim é ir e perguntar ao estates ou às fundações dos artistas que não são desse mundo, mas senão eu não aconselho fazer isto. E depois, novamente, por que estamos aqui? Para fazer só dinheiro ou para respeitar a obra de um artista e suportar o trabalho de muitas maneiras?

Claro, até porque se há aqui também outro aspecto que nós não falámos, um pouco mais jurídico, mas que é muito relevante neste tema, é a questão dos royalties e da forma como esta nova forma de negociar a arte preserva essa rentabilidade.

Sim, os royalties dependem das plataformas, dependem do smart contract. Também não é tão fácil, porque há muitas pessoas que estão a dizer: "Só falo dos royalties", mas não é tão fácil, porque a maioria das plataformas vendem com smart contract e depois as pessoas vão revender numa outra marketplace. E normalmente, se a primeira plataforma não faz a recordação, não sei como se chama, na outra plataforma, os royalties não seguem. Então tem que ter esta noção também. Se está tudo feito no OpenSea, por exemplo, que é a mais grande com tudo, está tudo ok. Mas se, por exemplo, está feito na Artpool e não fazemos nada da nossa parte para pôr no OpenSea, os royalties não vão seguir. Não é tão fácil, mas está no smart contract. Então se está tudo bem feito, não há problema. Mas só para acabar na tua questão dos museus e das fundações, para mim é uma oportunidade supergrande. É uma oportunidade para fazer e para ter mesmo um novo tipo de financiamento. E sabemos que os museus e as nonprofit precisam de financiamentos. E é uma nova maneira, porque elas podem fazer todo o resto e completar com isto.

Claro. Fica aqui uma excelente deixa para todas as instituições que trabalham nesta área. Eu queria agradecer muito às duas.

Obrigada.

Obrigada a todos.

Obrigada.

Obrigada.

Este podcast é da responsabilidade da PLMJ.