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Estamos de volta para mais uma dose de sugestões com esta gente ilustre que faz o pop-up todas as semanas. Por falar em ilustre, Pedro Boucher Mendes, vamos ouvir as tuas sugestões. Eu estou muito curioso, porque sugiriste dois nomes que rimam: um é Tony e outro é Phony. Vais começar por qual?

Falávamos no programa da semana passada de inteligência artificial. E esta série, que se chama "Phony", phony no sentido falso, portanto P-H-O-N-Y, que está na Disney Plus, é uma das melhores ideias de série, talvez de sempre.

Isso é muito ambicioso.

É uma série normal, passa-se num liceu, uma mãe, um filho. E depois o filho tem um desastre automóvel no primeiro episódio. É americana a série, com a extraordinária Connie Britton no papel principal e o Sam Neill como o filho. Ele tem um acidente e a mãe, quando acorda do acidente, safa-se do coma, a mãe é outra pessoa.

Ui!

É a mesma atriz, é a Connie Britton, e através de manipulação digital, é como se fosse maquilhada, imagina com o nariz maior ou com os olhos diferentes. O espectador percebe que é a mesma pessoa atriz, mas ela é outra pessoa que tem outra cara. E então o puto: "Esta não é a minha mãe". Mas todas as pessoas à sua volta se comportam como se fosse a mãe. É uma série de high school típica americana, daquelas onde eles estão sempre de mochila e estão sempre a namorar e a jogar basquete ou beisebol, ou o que eles jogam. Daquelas escolas onde eu nunca andei, não sei se andaste.

E têm campos maiores que os do Benfica campus e do Sporting.

Mas ao mesmo tempo é uma série de mistério ou terror.

Parece que tem um bocadinho de "Black Mirror". Eu nunca vi.

Mas não tem aqueles artefactos técnicos, não tem aquelas músicas, não tem aqueles planos.

Ok.

E será que a Connie Britton, o personagem é bom, é mau? O que ela está a fazer, o que se esconde? É uma extraordinária ideia.

E isso está mesmo onde, diz lá?

Na Disney Plus.

Disney Plus.

Chama-se "Phony".

E já viste tudo?

Não, ainda só há três episódios available.

Sim, senhor.

Na Prime está, e eu li aqui a crítica da Susana Romana no Observador. "Tony".

Tony.

T-O-N-Y, Tony, que era como chamavam Anthony Bourdain, que é o melhor amigo de muitos portugueses. Infelizmente, tirou sua própria vida há quase 10 anos. Era um homem alto.

Junho de 2018.

Charmoso. Que eu acho que as pessoas não conheciam. Os seus programas, ele parecia um tipo descontraído, leigo, acessível, mas era um tipo bastante torturado. Tanto que assim foi que tirou a sua própria vida. E este filme é sobre uma parte da sua vida que ele relata no seu livro, "Kitchen Confidential", que foi o seu primeiro livro, que lhe deu algum estrelato. Quando ele era jovem, um jovem que teve sempre umas juventudes como eu nunca tive, infelizmente, que passa por dormir.

Fazer tudo e mais alguma coisa. Ele fez coisas, realmente...

E lá está. Mais uma vez, perguntei à IA algumas coisas e é interessante. Perguntei: "Este filme tem cenas de nudez?" Sabendo eu se tem ou não. "Não te posso responder essas coisas." Pronto.

Será que tu tens um filtro menor?

Posso ter. O filme é o Tony Bourdain, que quer ganhar uma bolsa para escrever livros, mas depois não consegue. Depois vai atrás de uma miúda gira para uma espécie de Comporta ou de Baleal, onde vai trabalhar no restaurante.

É mais Baleal porque é mais frio.

Que é de um português.

É no Massachusetts.

Mas é o Anthony Banderas.

É o Anthony Banderas.

Não é o Anthony, é o António Banderas. Eles estão sempre a misturar coisas de português com espanhol.

Com espanhol, pois.

Eu acho o filme um desperdício de recursos. Vale a pena porque o ator é bom e faz lembrar, de facto, o Bourdain. Vale a pena porque eles exploram, não sei se viste o filme.

Ainda não vi.

A mãe do Bourdain trabalhava na "New Yorker", na revista "New Yorker". E a mãe é uma pessoa que sabe muitas coisas, mas infelizmente aparece pouco. Eu acho que devem ter cortado minutos ao filme e cortado o papel da mãe, que é ótimo. Do tipo, o Bourdain está a ter uma conversa de tentar engatar a miúda. Não sei se se pode dizer engatar.

Então não pode.

Ainda se pode.

Então não pode aqui.

Aqui pode-se. E está a explicar que as pessoas que são canhotas são pessoas amaldiçoadas pelo diabo.

Ui!

Por isso é que se diz sinistra. E quando se diz ambidestro, eu nunca tinha pensado nisso, significa que são as duas mãos destras, as duas direitas. Ele explica isso à miúda.

E ela fica?

Não, só saca a miúda mesmo no fim. É um bocado um desperdício de recursos, mas mesmo assim é muito watchable, sobretudo em casal, é um daqueles filmes para se ver em casal. Eu vi sozinho, obviamente, mas é muito watchable. "Tony", sobre os primeiros anos do Anthony Bourdain, não tem nada de programas de televisão, nem nada dessas partes mais picantes. Disponível na Prime. Finalmente, um livro muito mais interessante do que eu pensava, devo dizer, da Relógio d'Água, do Dan Wang. Este Wang é um nome chinês, chama-se "Velocidade Vertiginosa: A ambição da China de entregar o futuro à engenharia", que no fundo, a China vê um problema, mobiliza engenheiros, Estado, capital e mão de obra, constrói. Estados Unidos e Europa. Aqui compara com os Estados Unidos, mas a Europa também aplica. Vêem o problema, regulam, há leis, há debate. Será que vale a pena fazer uma terceira travessia do Tejo? Sim ou não? No fundo, os chineses já teriam feito. O autor não defende propriamente uma das teses, mas de facto a China teve uma ascensão fulgurante nas últimas décadas, por ter construído muita coisa: estradas, hospitais, cidades, ferrovias. Enfim, dominam a construção dos automóveis. E isto fez-me lembrar do Portugal dos anos 90, em que muita da coisa que saudamos hoje sobre essa memória desse tempo, não é tanto as ideias e o debate, mas sim o que ficou de obra.

Exato.

Portanto, da engenharia. A Expo desde logo, e a ponte.

E o CCB.

Exatamente. E é interessante como as nações, de facto, se instituem e ganham protagonismo através da construção de infraestrutura, através da engenharia. Portanto, aqui o autor chama engenharia. E convém ser uma ditadurazinha para as coisas andarem mais depressa, como é evidente. Mas o livro, como disse, eu não estava à espera que fosse tão interessante. Aconselho vivamente "Velocidade Vertiginosa", da Relógio d'Água, de Dan Wang.

Bruno Vieira Amaral, tens para aqui muita coisa.

Muita coisa. São três coisas.

Vais começar por onde?

Eu começo pelo Matthew Perry, que tem agora um documentário na Netflix, agora que passaram três anos da morte precoce, prematura e trágica de Matthew Perry. Posso dizer que é só conhecido por ter um papel na série "Friends", que nunca teve tradução.

Teve, foi dublado e tudo em português.

Como é que chamavam em português?

Isso até está ali no meu livro.

É "Amigos", chamavam-se "Amigos".

E a Rachel chamava-se Raquel. E a voz era a Maria João Luís, aquela senhora que vimos agora na manifestação.

Sim, na manifestação, claro, Maria João Luís.

Que era a voz da Telecel.

Que é muito famosa nos anos 90.

"Deixe mensagem." Lembra-se? O que está a ser feito?

Foi um fio narrativo extraordinário.

O convidado achou extraordinário.

Não estava à espera do fio narrativo. Desculpa.

E pronto, era o Chandler Bing. São três horas de documentário.

Preparem-se.

Cadê? São 13?

Três.

Três. Que são três episódios.

Três episódios em que as pessoas ouvidas são essencialmente a irmã e uns dois ou três amigos, e depois vão aparecendo outras pessoas, mas o grosso dos testemunhos está a cargo da irmã, que explica depois no final porque é que o pai não entra no documentário, não participou no documentário. E o que eu posso dizer? É um caso humano muito comovente até, porque o Matthew Perry era uma pessoa doente, uma pessoa com problema muito grave de dependências várias, desde praticamente a adolescência, que se foram agravando com o tempo. Mas do ponto de vista artístico, a sua história é muito limitada. É limitada àquela personagem, que é uma personagem, é uma série com grande impacto cultural, não só nos Estados Unidos, mas em particular nos Estados Unidos, mas ele não revolucionou verdadeiramente nada. Aqui na semana passada tinha trazido aquele documentário sobre o Norm Macdonald, que é uma figura como aquelas que eu disse do Saturday Night Live, muitas. É conhecida essencialmente nos Estados Unidos. O Matthew Perry não, por causa do alcance global da série, do "Friends", mas se olharmos para aquilo que ele fez, ele realmente não fez praticamente mais nada. Não fez mais nada pelo qual ele seja reconhecido hoje.

Ele tentou fazer, mas tinha comas a seguir.

Ele tentou fazer e correu tudo mal. Até participou numa série do Aaron Sorkin, depois do West Wing, em que ele também participou, menos. E a série foi cancelada. E depois ele escreveu uma série que também foi cancelada ao fim de poucos episódios. Portanto, as coisas não decorreram muito bem na sua vida paralela ao "Friends" ou depois do "Friends", da série. E não haveria muito para explorar. Eu acho que são três horas que estão ali à volta a martelar as mesmas situações da vida pessoal dele e do problema de dependência. Eu acho que é um retrato, não do Matthew Perry, mas de um toxicodependente, de uma pessoa dependente de várias drogas e de como é difícil sair e libertar-se dessa dependência. Porque enquanto ator, enquanto artista, há muito pouco para explorar. Tanto que também no documentário não são ouvidos os parceiros dele da série. Aliás, foi uma decisão tomada, pelo menos a da Jennifer Aniston e da Courtney Cox, foi uma decisão tomada em conjunto de não participarem no documentário. Ainda assim, apesar de tudo, recomendo esse documentário. Trago um livro publicado pela Guerra e Paz: "Sexo, Ciência e Censura, as Verdades Tabu da Guerra de Gênero". Nós vivemos mediaticamente, até do ponto de vista das universidades, num período de guerra, de batalha cultural, entre quem defende a primazia do gênero enquanto construção e aqueles que tentam, se calhar ingloriamente Defender que o sexo não é uma construção biológica. O gênero é também uma construção cultural, mas o sexo não é uma construção cultural. Tem uma raiz, tem bases sólidas na biologia, o que não significa ser determinista e dizer que o sexo determina tudo o que tu és e todas as tuas preferências. E este livro tenta explicar, mostrar como tu passaste de uma visão unicamente biológica do gênero, para uma ditadura do gênero enquanto construção cultural. Quer dizer, basicamente, tu é que escolhes o teu gênero. O gênero é simplesmente uma construção, e quem não concordar com isto e quem quiser tentar encontrar aqui as raízes, as bases biológicas do gênero, no fundo é um fascista, ou é homofóbico, ou é transfóbico, ou é um defensor do patriarcado, quando muitos dos comportamentos e muita da construção do gênero assenta, de facto, em bases biológicas. E este livro, da autoria de Peggy Sastre e Leonardo Orlando, são dois investigadores, procura mostrar até que ponto esta cegueira ideológica está a encaminhar, para onde é que está a encaminhar, nomeadamente as universidades, mas também as editoras. No fundo, o meio intelectual. É um livro que, a par de outros que a Guerra e Paz tem publicado sobre o tema, se pusermos aqui em oposição a ideologia woke e uma ideologia mais conservadora, está do lado da ideologia conservadora. É verdade que o gênero é também uma construção social e cultural, mas é um erro, e este livro tenta demonstrá-lo, é um erro esquecer as bases biológicas também da construção do gênero. Por último, e uma sugestão muito rápida, porque eu ainda não vi, no momento em que estamos a gravar este programa, ainda não vi a peça, mas vou ver: "Medida por Medida".

Pois, eu também a sugerir coisas que ainda não vi.

Pronto, do William Shakespeare. E eu tenho que fazer isto porque depois eu esqueço-me.

Pois.

E depois as coisas passam e lá se vai a sugestão. E é uma peça do Shakespeare, uma das comédias do William Shakespeare, e que vai estar em cena, pelo menos durante o mês de novembro, no Teatro Municipal Joaquim Benite, de Almada, pela Companhia de Teatro de Almada. E eu recomendo, ainda antes de ter visto.

Não disseste foi o nome.

"Medida por Medida".

Disse.

Tinha dito.

É para estar na calma.

E pronto, não eram muitas sugestões.

Não eram, só a brincar. Olha, eu tenho duas coisas para dizer muito rápidas. Uma, um livro de Anne Patchett, que foi publicado agora pela Particular, em Portugal, chama-se "Whistler". É um livro que não sei se já viram a capa por aí, pelas coisas internacionais. É uma capa que tem feito algum sucesso, que tem um cavalinho, é o desenho de um cavalinho, ficam já com esta ideia. É dos livros, é das histórias que eu gosto, que é uma história sobre um detalhe que aparentemente não tem nada interessante, mas é por isso que eu acho tão interessante. Só vou dizer o início. A história começa com um reencontro de uma mulher com o padrasto que ela não vê há décadas e que desapareceu da sua vida quando ela era muito criança e com quem ela tinha uma relação de enorme proximidade e afetividade. Isto acontece num museu em Nova York, o cenário é ótimo, as vidas são aparentemente perfeitas, mas depois não são e há imensas coisas nestas vidazinhas.

E vai dar um filme, correto?

Não sei se vai.

Só essa sinopse.

Mas pronto.

Encontram-se no museu, vão ver as cenas do Metropolitan.

Ainda não terminei, confesso, porque a vida não é fácil, mas estou a apreciar bastante e aconselho a toda a gente. E de ler a história destes desencontrados reencontrados. E depois, um filme que estreia esta semana, quinta-feira, dia 5, é uma das estreias mais esperadas deste final de ano. É quase Natal, rapaziada. Chama-se "A Bola Negra", é um filme espanhol realizado pelos dois Javis, Javier Calvo e Javier Ambrossi. Eu fui ao cinema com a Maria Ramos Silva, fomos os dois ver esta fita de duas horas e meia.

Que é oscarizável.

Eu gostei muito do filme.

Eu também.

Não vou estragar nada. É um filme que parte de uma história do García Lorca, de uma peça inacabada, que se chama precisamente "La Bola Negra". A história passa-se no início da Guerra Civil de Espanha. É um épico ao longo de várias décadas, que começa nos anos 30 e acaba no século XXI. Espanha em diferentes momentos. É uma história de amor, é um romance também. É uma história sobre perseguição, ou ostracização, se quiserem, em relação a homossexuais. O nome Bola Negra vem daí, quer dizer, a bola negra que rejeita uma certa pessoa de um certo sítio porque ele é homossexual. Isto durante a Guerra Civil de Espanha. E há ali uma parte que eu-

Que era dispensável.

Sim. Entra ali uma personagem que se calhar não era preciso ser tão concreto, mas isto é só a minha opinião, não interessa nada, absolutamente.

Sim. E também é muito uma coisa de reconciliação da própria Espanha com os seus demónios e segredos.

Dito isso, o pra frente e pra trás do tempo está muito bem feito.

A fotografia é incrível.

É um filme muito bonito. Ficas: "Epa, sim, senhor". E depois, tem um nível de produção absurdo Passas a fronteira e de facto estás noutro mundo em várias coisas.

Gigantesco.

Mas a nível de cinema, já vi várias pessoas a usar a palavra épico, acho que se aplica muito bem. Deduzo que seja nomeado para melhor filme estrangeiro ou melhor filme, não sei.

A quem estejas a falar já é melhor filme.

Não me surpreenderia que ganhasse alguma coisa. Guitarricat de la Fuente, que é um cantor e é um dos protagonistas, faz a canção que é candidata a ser nomeada aos Oscars de melhor canção. Não me admira que ganhe também.

É o "Bella Ciao"?

Não. É uma canção melancólica, dramática, intensa.

Política, não?

Cheia de lágrimas. É uma canção de amor. E é uma estrela que está lançada e que vai seguir o caminho de outras estrelas que têm saído da pop espanhola, que de facto é uma fábrica que está imparável. É isso e tenistas. E pilotos de Fórmula 1.

Eles têm muita coisa. De facto.

Têm muita coisa.

E os portugueses continuam a dizer que não gostam dos espanhóis.

Eu não percebo. Maria Ramos Silva, não sei se também apreciaste o filme, acho que sim.

Apreciei.

E não dás pelo tempo.

Sim, passa bem.

Não te canças.

Mas está nos cinemas?

Estreia esta quinta-feira, dia 5.

Aliás, já estreou, não é?

Não.

Ai, não, estreia exatamente.

Vai estrear.

Não estamos aqui a antecipar. Gostei muito. Acho que partilhamos exatamente as mesmas coisas, aquela leitural no final que talvez fosse uma nota desnecessária. Também não lhe rouba propriamente o brilhantismo essencial, mas acho que é uma belíssima obra, acho que é visível esse contraste gigantesco em relação à produção, quando pensamos no que se faz aqui. Os números são: figurantes, guarda-roupa, tudo aquilo é absolutamente extraordinário. Bom, portanto, ir ver.

Aliás, a Maria saiu do cinema e julgava que estava em Espanha.

Já vinha a falar castelhano.

Meu Deus.

Ora bem, agora coisas menos simpáticas. Mas uma belíssima recomendação.

Traz para aqui um título que vais dizer provocadora.

Do quê?

Não, estou a brincar.

Do livro? Queres que possa começar por aí? Olha, também passa por esta fase. Não em Espanha, mas em Portugal, e aqui haverá algumas afinidades até históricas. É um livro, uma edição da Dom Quixote, chama-se "O Lugar das Mulheres é na Cozinha?" É importante este ponto de interrogação.

Só para não lançarmos aqui o caos.

A Guida Cânedo é uma investigadora na área da alimentação, já tem escrito várias coisas sobre o assunto e nesta edição viaja aqui aos perfis e à história também em termos de produção e edição das pioneiras, as primeiras autoras portuguesas de livros de culinária. Isto é uma história que começa ainda no final do século XIX, em 1894, chega até 1967 e, portanto, já Maria Lurdes Modesta, à frente da televisão, dos programas de culinária na televisão e à produção que continua a ser feita nas receitas. É um retrato absolutamente interessante sobre não só esta escrita muito prática, estas fórmulas, como é que se faz um bacalhau assim, como é que se faz uma torta assada, mas também ilustrativo de como é que se abordava a economia doméstica, a organização na cozinha, a própria voz, o empoderamento, o papel que estas mulheres tiveram a partir daqui, de resistência até. Passando I República, Estado Novo, certamente iria passar também por esse período enquanto havia guerra civil do outro lado da fronteira. E é muito curioso, porque é daquelas obras que eu acho que mereciam ser mais replicadas, ou seja, trabalhar-se mais estes temas, porque nós muitas vezes ficamos na dúvida, e eu fico sempre quando leio estes livros. Se os pomos na cozinha ou numa estante mais erudita lá em casa, porque há aqui um vastíssimo trabalho de investigação sociológica, antropologia. Porque de facto nos dá um retrato a partir de informação que à partida não parece muito nobre. O que é que nos diz uma receita? Não é propriamente um tratado muito erudito, mas a verdade é que nos dá informação absolutamente preciosa sobre a forma como se comia em Portugal e como também incorporamos uma série de influências estrangeiras desde o início. Ainda por cima, ela deu-se ao trabalho de fazer cada uma das 50 receitas que estão neste livro e fotografá-las, portanto, foram mesmo testadas.

Pois é.

E podemos fazê-las em casa, até porque boa parte destas coisas continuam a ser perfeitamente fazíveis e comestíveis. Depois, trago uma sugestão no Disney+, "Super Scamy". É a nova série da jornalista de investigação portuguesa, a Mariana Van Zeller, que desta vez andou pelos esquemas online de engate. Nós falámos da IA no outro dia.

Estava a pensar se podemos falar de engate.

Podemos e devemos, de facto, o tema desta semana também é engate. Não há outra forma de falar disto. E neste caso, com contornos que também têm a ver, inevitavelmente, com a IA e com todas essas ferramentas que permitem estar a conversar com alguém que está do outro lado do mundo, a fingir que está muito apaixonado por nós e que na verdade é ali um gigantesco criptoesquema. Eu acho que levanta questões muito interessantes, porque ela cria mesmo um perfil, disfarça-se, em tabula, conversa com uma pessoa, chega mesmo até bater à porta desta pessoa. Imagina a história entre uma ligação entre uma pessoa que está nos Estados Unidos e outra que está no Gana, onde vão perceber que isto é mais frequente acontecer do que podemos imaginar. E de facto é extraordinário, sobretudo porque nós quando lemos estas histórias, eu acho que há uma tentação para achar: "Epa, que bando de totós que achavam que estavam mesmo a falar com o Bon Jovi". Mas eu acho que depois de veres isto, olhas para os casos-

Empatizas de outra maneira.

Sim, não só pela sofisticação do esquema, mas porque depois eu acho que se levanta aqui uma outra camada muito interessante, preocupante até, que é anterior à própria IA, que tem a ver com aquele que é pra mim um dos derradeiros tabus até para lá da morte. Eu acho que nós, enquanto sociedade, vamos resolvendo a questão da morte de uma maneira ou outra.

Até porque não temos hipótese.

Sim, também por isso. Mas há aqui uma coisa que para mim ainda é mais pesada em termos de resolução, que se chama solidão. E quando vês este tipo de esquemas e quando vês a facilidade com que estas pessoas, que depois acabam por ter ali perfis também muito particulares, cedem a isto, acho que nos faz pensar. E há todo o trabalho de investigação que a Mariana faz e que vale a pena verem. Depois, só para fechar, banda sonora, para irmos agora todos a cantar, de Olivia Tremor Control. Isto é gente que tu sabes certamente de quem eu estou a falar.

Ainda esta semana falei disso com o nosso amigo Nelson.

Pronto, isto é gente que vem dos anos 90, depois acabaram, recomeçaram, morreram.

Não faziam um álbum quase há 70 anos.

Pronto. Eles duraram uns 20 anos muito turbulentos, de altos e baixos, têm uma mistura entre o indie e o psicadelismo, e agora têm um álbum, que é o "The Same Place".

É uma ótima fritaria.

E que é maravilhoso. E é um belíssimo regresso, portanto, impondo vão ouvir.

Sim, senhora. Sugestões entregues, sempre disponíveis em podcast. Sigam-nos, não percam nenhuma destas doses. Nós voltamos na quinta-feira. Até lá.