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Começa agora mais um "Por Pratos Nunca Dantes Navegados", em parceria com o "Tejornal" e sempre com o Manuel Serrão. Bem-vindo.

Olá.

Tudo bem?

Manuel, bem-vindo.

Tudo bem, muito obrigado. Como estamos?

Hoje vamos a Gondomar pela primeira vez. E já sabemos que a primeira novidade pode ser a forma de lá chegar, Manuel.

Filipa, vamos até Gondomar, ou Rio Tinto, que é Red River, como se diz lá, que é freguesia de Gondomar. Normalmente vamos para o restaurante, nós todos vamos de carro, de táxi ou de Uber, de boleia, a pé, talvez de autocarro, metro. Agora, de comboio, a minha dúvida: algum de vocês foi alguma vez de comboio para um restaurante?

Não, de comboio, não.

Ai, não, que me lembre, não.

Já fui de comboio para a praia, já fui de comboio para o futebol.

Para o restaurante, não.

Mas como posso para ir a um restaurante, apanhar um comboio?

Não.

Não creio.

Eu também não. Mas tenho um grupo de amigos, portanto estamos empatados, que estudaram em Lisboa como eu, e vivíamos no Colégio Pio XII e costumávamos fazer a nossa ceia de Natal neste Armazém Pacheco, que é o nosso restaurante de hoje. E há um destes amigos que mora no centro do Porto e que vai sempre de comboio. Por quê? Porque este restaurante tem uma paragem de comboio mesmo em frente à porta do restaurante.

Mas isso é super prático. Dá muito jeito.

Sim, acabo por ir de comboio também.

Aproveito para dizer que isso fica na Rua Manuel Serra, ou seja, mais um O e um til, e a rua é minha.

Tinha aqui uma ruazinha.

Sim, exato. A alma deste Armazém Pacheco são dois irmãos, não é? Não são gêmeos, Manuel.

Pois, se fossem gêmeos, nos dias de hoje era muito mais midiático. Mas estes dois irmãos são gêmeos só naquela categoria com que nos servem e na importância que ambos têm e tiveram para este Armazém Pacheco chegar onde chegou e onde está hoje, e ter a enorme clientela que continua a encher o restaurante todos os dias e quase todas as noites.

Muito bem.

Durante muitos anos, na zona de Campanhã, no Porto, havia também uma Adega Pacheco. Teria alguma coisa a ver com o nosso restaurante de hoje, Manuel?

Eu tenho a impressão que a Filipa quase não era nascida quando isso existia.

Possivelmente.

Manuel, qualquer coisa que o Manuel diga, provavelmente a Filipa ainda não era nascida.

Até parece. Vocês...

Não, mas a história é muito simples de explicar. Este Armazém Pacheco começou primeiro, como é evidente, mas foi nessa Adega Pacheco que eu conheci os irmãos Toninho e o Serafim, porque eles a dado momento da sua vida decidiram dar a exploração do armazém que tinham em Gondomar, e têm outra vez, a um terceiro e apostaram num salto para o Porto, isto nos anos 90. Instalaram-se na Adega Pacheco, um restaurante pequenino em Campanhã, quase nas traseiras da famosa Casa Aleixo, que também já não existe e que fechou vítima da pandemia e de outros sobressaltos. Ainda antes da pandemia, quem tinha ficado a explorar este Armazém Pacheco desistiu do negócio, não lhe correu bem a vida, e os irmãos resolveram regressar à casa partida e ressuscitaram o Armazém Pacheco com sucesso crescente até aos dias de hoje. Portanto, a Adega Pacheco desapareceu, mas ressuscitou o Armazém Pacheco pela mão de quem sempre soube mexer naquilo.

Certo. Então, Manuel, vamos falar de comida, vamos falar daquilo que mais importa. E eu, tanto quanto sei, percebi que no Armazém Pacheco há um prato icônico que o Manuel nunca dispensa.

Ora bem, já vi que estão muito bem informados. Isto aqui, ser jornalista na pesquisa não falha nada. Esse prato icônico, e que também acho que é o único em Portugal, pelo menos que eu conheça, porque nunca estive num outro restaurante em que ele fosse servido, são as chamadas costelinhas adobadas. Já ouviram falar?

Nunca ouvi falar.

Nunca ouviram falar. Há muita gente que nunca ouviu falar. Essas costelinhas adobadas é uma receita galega, passada e feita pela mãe dos dois manos, que é galega, nasceu na Galiza, e são umas costelas de porco com um tratamento que as deixa com uma textura e um sabor excelente e diferente de outras costelinhas que já comi. Come-se costelinhas de muita maneira, em muito lado, mas costelinhas adobadas com este tratamento, nunca. E de qualquer maneira, isto também é uma deixa para uma discussão que podemos lançar aqui, que é: pergunto-vos, gostam de comer à mão?

Gosto, por acaso gosto.

Gosto muito.

É mais prático.

É isso.

Mas comem à mão qualquer coisa?

Não, qualquer coisa também não. Intercosto como à mão, mas também depende do sítio, depende do que encontras.

No restaurante é outro.

Pois eu estou a falar no restaurante. Mas o marisco, por exemplo, o marisco em geral, amêijoas, conquilhas, berbigão.

Tem de ser.

Ou o próprio franguinho de aguia, aquele franguinho pequenino.

Eu aí acho que já arriscava no garfo.

É isso. Eu também estou como tu, André. No frango ainda vou para os talheres, mas no marisco não há.

E as senhorinhas, sabem o que são as senhorinhas? As senhorinhas são de um outro restaurante que acabamos de trazer aqui também, são umas cebolas novas que se arrancam da terra e que depois se mergulham em vinho tinto e têm que se comer à mão, que de outra forma não se consegue comer. Têm que se molhar no vinho tinto e depois comê-las à mão. Eu acho o seguinte: eu gosto que tudo que é de comer à mão é obrigatório, temos que estar à vontade. Porque eu gosto de comer à mão, não gosto é de ficar com as mãos sujas. Ora, não há melhor de dois mundos nisto. Mas é uma discussão, porque há muita gente que às vezes perde o melhor por não gostar de comer à mão. No caso dessas costelinhas adobadas, quem não comer à mão vai perder o melhor da costelinha adobada. Essas costelinhas adobadas é o tipo de prato que é obrigatório comer à mão. Rilhar, como se diz lá, não sei se aqui também se diz. Rilhar a costelinha tem que ser à mão e é obrigatório.

Pronto, então lá terá de ser, comer à mão.

Perder a vergonha.

Exato, é isso mesmo. Manuel, para além destas costelas adobadas que já falamos aqui, o que é que se recomenda mais neste restaurante?

Eles também lá têm, nós naquele tal jantar de Natal, além das costelas adobadas, que é sempre obrigatório, costumamos mandar vir também bife ao alho. O bife ao alho parece uma coisa muito simples, mas aquilo tem o sabor original e a maneira como está cortado e feito é prometedor. É uma coisa diferente. Não é um bife normal, digamos, refogado em alho ou salteado. Não, um bife ao alho é uma coisa mesmo que tem que ser provada lá. E também as plumas e os secretos de porco, que eles fazem lá muito bem. Depois, ao sábado, têm os calhos, lá está, que são as tripas à moda espanhola. Com grão-de-bico, tripas à galega, digamos assim. E logo nas entradas também têm bom presunto, um queijo magnífico, um chouriço e umas saladas mistas que são excelentes, estão tão bem temperadas que aliás elas entram como entrada e depois ficam para as saídas, vão continuando por lá na mesa. Toda a gente quer também. E as costelinhas adobadas com estas saladas mistas também ficam muito bem. Para quem gosta muito de batata frita, claro que eles também trazem batata frita. Mas eu que sou mais arrozeiro, o arroz também não é mau.

Eu também sou mais arroz.

Mas essa salada lá tem um tempero, o que eles lá põem, não é o tempero normal de azeite e vinagre, eles põem lá mais qualquer coisa.

Também não devem revelar.

Eu perguntei, mas da próxima vez vou perguntar.

Já deste aqui um vislumbre das entradas e das saídas. Nós normalmente começamos por aí, fomos já para os pratos fortes. Em termos de entradas e saídas, o que nos recomendas?

As entradas já fui avançando. Mas as saídas, o que lá tem uma coisa que também é rara, acho que nunca falámos aqui, que é a pera bêbada.

Eu não sei se não falámos aqui uma vez, ou então fui eu que comi.

Se calhar.

É possível.

A pera bêbada lá é muito famosa. Normalmente é a sobremesa que se recomenda a toda a gente, tem outros doces, mas a pera bêbada é o ex-libris da casa como sobremesa. E depois com o café, aliás, muita gente passa à frente da sobremesa e depois já sabe que no café vêm as telhas, que é umas bolachas com amêndoa, chama-se telha por causa da forma da bolacha, que é assim uma bolacha côncava. E depois também os seminaristas. O que é? O que são os seminaristas? São uns jesuítas pequeninos.

Eu gosto tanto de jesuítas, eu em Guimarães comi tantos jesuítas.

Eu por acaso não é a minha praia os jesuítas, mas esses seminaristas, talvez porque são mais pequenos, entram mais para essa minha praia, porque os jesuítas são muito grandes.

Muito bem, Manuel, vamos então fazer continhas, uma notinha verde. Dá para aqui para a malta?

A nota verde dá perfeitamente, e podemos sair de lá com uma telha das boas. Porque às vezes saímos com uma telha que é mau sinal, mas essas telhas lá podemos sair com uma boa telha, uma telha positiva. E clássico, eu diria, um garfo dourado na qualidade ou na subcategoria de restaurante a que se pode ir de comboio.

É verdade, não nos podemos esquecer deste detalhe. Muito bem.

Não esquecer.

Incrível.

Mas o comboio é um comboio normal?

É um comboio, sim, é um comboio, sai do Porto e segue, não sei qual é a linha, mas passa em Gondomar.

Podia ser daqueles comboiozinhos que há assim na praia, que são próprios para turistas.

Não.

Já estás a pedir mais.

Isto é um comboio à séria. Enfim, a gente já sabe que os comboios em Portugal não funcionam todos os dias, mas se tivermos o cuidado de verificar se está a funcionar, é um bom meio de transporte.

Muito bem, este "Por Pratos Nunca Dantes Navegados" fica por aqui. Obrigada, Manuel, por mais um episódio. Voltamos para a semana para mais um "Por Pratos Nunca Dantes Navegados", em parceria com o "The Journal", na Rádio Observador. Até lá.

E vão embora. Pouca terra.