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Vamos a mais um Por Pratos Nunca Dantes navegados em parceria com o TJornal e com o nosso Manuel Serrão. Bem-vindo, Manuel.

Bem-vindo, Manuel. Como é que estás?

Bem-vindos. Estamos aqui para inaugurar o mês de março, sem mais.

É isso, vamos começar em muito bom. E Manuel, claro que há restaurantes em todo lado, basta quase que existam pessoas por perto. Mas um restaurante em Telheiras a passar aqui no Por Prato-

Não é habitual. Mas é aqui pertinho de nós.

Olha, aqui já lá, é um tirinho.

Pois, mas devem concordar comigo que Telheiras não é propriamente uma zona onde se estivesse à espera de encontrar restaurantes que oferecessem alguma coisa muito especial.

Vamos perder os nossos ouvintes de Telheiras.

Não, não, não. Não tem nada a ver com os ouvintes. Aliás, o que é que acontece? É uma zona residencial, Telheiras, relativamente recente. E, portanto, é mais fast food, snack bar. O que eu conheço de Telheiras e como tenho ido, é que é mais esse tipo de fast food, confeitarias para refeições despachadas. Não é propriamente um sítio onde há muitos turistas que vão passear para Telheiras, digo eu. E a maior parte das pessoas que vive em Telheiras sai de manhã e chega à noite. E comem em casa.

É aquelas zonas de dormitório.

É uma zona mais de dormitório. Portanto, por isso é que eu estou a dizer que não era de esperar assim à partida.

Assim um restaurante, pronto, como tem de ser.

Estava-se mesmo a ver que um restaurante em Telheiras, ainda por cima com um nome destes, eu gosto muito do nome, D. Limão e D. Laranja, é assim que se chama, tinha que ter uma história original por trás. O D. Limão e a D. Laranja são pessoas? Existem?

Existe mesmo o Sr. Limão.

Eu já vou contar essa história, mas tinha que dizer que, também em relação ao que estávamos a falar, tem aquela teoria da superação das expectativas. A minha expectativa quando vou a um restaurante em Telheiras é: "Isto deve ser um restaurante normal, não deve ter assim nada de especial. Pode ser bom." E muitas vezes o que acontece é, isto no futebol é igual, quando nós temos expectativas altas, mesmo quando a coisa não é má, corre mal. Quando temos expectativas baixas, mesmo que não seja a melhor coisa do mundo, ficamos sempre muito impressionados.

Sem dúvida.

E eu acho que aqui em Telheiras foi isso que aconteceu também. De qualquer maneira, eu gostava de dizer em relação ao D. Limão e à D. Laranja, que não só existem, como a sua história está afixada nas paredes do restaurante. É por isso que eu também fiquei a saber dela logo mal entrei, não foi surpresa. Não temos tempo aqui para contar a história toda, como devem imaginar, mas vou partilhar convosco e com os nossos ouvintes as partes mais interessantes. Em terra de bons citrinos, D. Limão, empresário, encontrou D. Laranja durante um delicioso repasto na Quinta do Lago, no Algarve. É onde isto começou. Ora bem, D. Limão, homem viajado e muito conhecedor, apreciava a comida gourmet e ficou ainda mais encantado com a D. Laranja quando a soube sabedora das delícias conventuais dos seus tempos de noviça. Foi um amor à primeira vista, ainda bem que não foi nos tempos de noviça, senão a coisa teria sido um bocadinho pior. Mas até poderíamos dizer que foi um amor não à primeira vista, mas à primeira garfada. Enfim, passados 20 anos, D. Limão, que nunca mais largou D. Laranja, aí está uma coisa cada vez mais difícil hoje em dia, quis partilhar com todos os amigos os saberes e sabores por ele experimentados mundo fora, escolhendo com D. Laranja este espaço do restaurante onde todos os pratos são abençoados pela agradável e tão tradicional misto do pingo do limão e da laranja. Esta é uma história de amor que está atrás. Não estava eu à espera, nem ninguém, de chegar ali e encontrar um restaurante com esta história por trás.

Nunca pensei que uma laranja e um limão...

Que bonito.

Quando a laranja é do Algarve, lá está, é mais doce, o limão é mais ácido, fica ali uma coisa.

Faz um bom equilíbrio, não é?

Exatamente.

Bem, Manuel, com uma história destas, que é uma bela história, atenção, o que é que podemos também levar para contar do que nos servem? Porque não estamos aqui só para contar essas histórias da Carochinha.

Ora bem, exatamente.

Queremos é comer.

Mas é uma curiosa história, como já vimos. A outra história, é o que podemos trazer de lá, é também de um serviço completamente informal, mas personalizado, em que as nossas escolhas podem ser feitas logo a partir do menu escrito num papel, num cavalete logo à entrada, não há cá menus impressos. E também por quê? Porque a lista não é fixa. Conversar com o senhor do que há no dia, isso também normalmente é sempre uma boa sugestão, um bom indicativo. Mas o mais seguro, também por isso, é conversar com o D. Limão sobre o que nos apetece e o que ele tem no dia, para chegarmos a um acordo de cavalheiros, ou não fosse ele um cavalheiro à moda antiga. E nada ácido, apesar do nome. Pode acontecer haver peixe do dia grelhado no carvão, ensopadinho de lulas ou línguas de bacalhau com grão, ou até pataniscas com arroz de tomate. Nas carnes, o franguinho assado à algarvia é quase sempre iscas à portuguesa, lombinhos de cerdo ibérico na frigideira. Foi o que me apeteceu quando lá fui. Mas pedi se podiam ser grelhados e não fritos. "Vão ser fritos, que fritos é que eles ficam bons", disse o D. Limão. E assim foi, e tinha razão.

Ele é que sabe.

Ora bem, e assim foi e tinha razão. Mas também nos deixou provar um rabo de boi estufado, que aceitou, vá lá, que isto não é sempre assim, trazer com arroz branco, mas sem grande entusiasmo. E também tinha razão, mais uma vez.

Pois, lá está.

Depois de termos atacado à entrada o escabeche de perdiz que estava irrepreensível e muito bem temperado. Aliás, ervas aromáticas é o que não falta, muito bem escolhidas e casadas com cada prato. É mais um amor à primeira vista entre as ervas e os pratos. Os vinhos também foi ele que escolheu, e bem. Para vocês, que eu sei que andaram-

Ansiosos por saber

...dividimo-nos entre uma mousse de alfarroba e uma tarte de amêndoa, as duas coisas também bem sugeridas por ele e muito bem comidas por nós. É caso para dizer que só faltou ser ele também a pagar a conta, que isto não foi.

Pois, com tanta sugestão.

Isso é que era perfeito. Eu por acaso passo muitas vezes em Telheiras e não estou a imaginar muito espaço para um restaurante muito grande. Teremos aqui, certamente, um restaurante um pouco mais pequeno, mas também já vimos aqui, Manuel, que nos pratos o tamanho não importa muito.

Exatamente. Não é propriamente um restaurante de bolso como aquele que já aqui fizemos, falo sempre do Leza, o restaurante mais pequeno do mundo, entre aspas, mas a sala é pequena, caberão uns 30 Comensais. Mas como tem vidro toda a volta, o espaço ganha outra dimensão em termos visuais. Quando o tempo aquece, tem uma esplanada cá fora que também ajuda a aumentar a dimensão, mas eu fui lá no inverno e de facto era a versão mais curta. Mas como disseste muito bem, não é o tamanho que conta aqui.

Claro que não. Manel, parece que também o Do Limão diz que na sua casa só há uma coisa fraca. O que é esta coisa fraca?

Ele diz uma coisa que eu já tinha ouvido a outras pessoas, mas achei engraçado, que a única coisa fraca aqui sou eu. Quando dizem: "Está bom, este rabo de boi está bom." "Aqui está tudo bom, a única coisa fraca sou eu." O que, claro, é falsa modéstia, porque se há coisa que não é fraca ali é ele. Como quem é capaz de ter um restaurante com esta qualidade, este serviço e, sobretudo, com esta história, claro que não pode ser. Porque lá está, dos fracos não reza a história. E que uma história reza, e reza também esta história toda, tinha que ser forte.

Estava aqui a ver nas paredes do restaurante, eles têm uma árvore com os limões e com as laranjas.

Exatamente. Além da história, também tem a árvore com os limões e laranjas. Do Limão e Dona Laranja, que também é um nome realmente engraçado para um restaurante e que é outra coisa, uma experiência realmente diferente. Com o nome deles, tu estavas à espera de um restaurante completamente diferente, tanto o espaço como o clássico home. Mas é assim e é muito bem. O contraste, às vezes, é inultável. A surpresa.

É isso mesmo. Agora vamos então ao que queremos saber, notinha verde, vamos às pontinhas.

Como está a agradar ao Surpresa, a nota verde ali dá para os três. Ainda podemos levar alguém conosco.

Vamos mesmo.

Sim, com tudo. A nota verde é uma boa, é outra surpresa, mais uma vez. Do Limão e Dona Laranja tratam bem os clientes, têm um binómio qualidade-preço magnífico.

Estamos mesmo a ir visitar então o Do Limão e Do Limão e Dona Laranja, que é mesmo aqui.

Exatamente, é quase à porta de casa.

Então falta saber é o Beldo Garfo.

O Beldo Garfo eu diria prateado, sobretudo na qualidade de restaurante com grande história de amor e grande categoria de serviço.

Ora bem.

Adoro sempre essas categorias do Manel, muito bom. Por pratos nunca dantes navegados na Rádio Observador, em parceria com o TeJornal e com o nosso Manel Serrão. Um beijinho, Manel.

Até para a semana.

Muito obrigado.