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Por pratos nunca dantes navegados na Rádio Observador, em parceria com o TeJornal e com o nosso Manuel Serrão, vamos aí. Olá novamente, Manuel. Bem-vindo.
Bem-vindo.
Vamos a isto, que cá estamos aqui quase a começar janeiro e a vida.
É verdade, passou assim a correr. Hoje rumamos mais uma vez ao sul do país. Uma época que tem mais a ver com o dono da casa do que com o tempo que faz por lá. Não é, Manuel? Que enigma é este?
Eu percebo essa do tempo. Estão a falar do bom tempo, que as pessoas associam sempre o Algarve ao bom tempo.
Sol, praia.
Claro que em janeiro não faz normalmente um calor daqueles abrasadores. Mas para quem é do norte, como eu, posso dizer que já lá estive em janeiro e em fevereiro com uma temperatura que às vezes nem no verão temos lá no norte.
Já ias ao mar.
Quase que ia ao mar, não vamos exagerar, mas havia alguma vez que quase. De qualquer maneira, este enigma, para quem só vai ao Algarve no tempo do calor, até pode achar estranho que nos estejamos agora a lembrar do restaurante do Algarve nessa altura. Mas não. Aliás, desde logo, o turismo no Algarve é cada vez menos sazonal e cada vez tem menos com o tempo, por causa até do turismo do golfe. Turismo do golfe esse que tem agora a sua época alta. Época alta do turismo do golfe começa ali no fim do ano, em outubro, novembro, e vai até março, abril. Época do golfe. É a época alta do golfe. No verão, é a época baixa do golfe, é a época alta da praia, mas é a época baixa do golfe.
Portanto, o Algarve está sempre a bombar o ano inteiro, seja pela praia, pelo golfe.
É o que eu estava a dizer, o turismo lá é cada vez menos sazonal. E também não podemos esquecer os milhares que vivem no Algarve, quer dizer, os algarvios ou residentes no Algarve, que merecem ser tratados da mesma maneira que os lisboetas ou como os portugueses ou como os escalabitanos. Isso só para dizer que eu sei como é que se chamam os habitantes de Setúbal.
Escalabitanos? Que são de Castelo Branco? Não, Santarém.
Santarém, meu amigo. Santarém é que está bem, pois claro.
O Manuel ficou logo em alerta.
Albicastrenses.
Albicastrenses é que são de Castelo Branco, exatamente. É parecido, mas não é.
Já querias enganar.
Peço desculpa aos meus primos de Castelo Branco por esta.
Além deste respeito por estas pessoas que vivem no Algarve o ano todo, acho que também há aqui outra coincidência, que é o dono deste restaurante Veneza, em Paderne, freguesia no Algarve, que é onde vamos hoje, chama-se Manuel Janeiro, portanto, ainda estamos no mês dele. Como estamos no mês dele, acho que é uma bonita homenagem falar deste restaurante do Algarve no mês de janeiro.
Foi por pouco. Já nos deste aqui algumas surpresas, um início pouco habitual. Este Veneza ainda nos reserva mais surpresas para além destas?
Pois, e surpresas que eu acho que a maior parte das pessoas não sabe e há uma pessoa que eu tenho a dizer que não sabe, que é a Filipa.
Vamos lá ver o que é que vai sair daqui.
Eu já a explicar porquê. Vou aqui falar de duas. A grande surpresa deste Veneza é que não se trata só ou apenas de um bom restaurante, o que já de si não era mau, sobretudo aqui para nós. Mas o Veneza é também uma garrafeira, das melhores e mais completas e com mais rotação da região e do país. Isto é o Manuel Janeiro que diz, mas eu acredito perfeitamente. Pelo que podemos fazer o dois em um, ou seja, ir lá jantar bem e depois sair de lá com umas boas espumadas para levar para casa e não para beber no caminho por causa do balão da nossa vida e da vida dos outros. Mas, como eu dizia, eram duas surpresas, a outra surpresa vou guardar para os finalmentes.
Muito bem.
Vamos lá ver, então. Não sei o que é que há de sair daqui.
Essa outra surpresa é que a Filipa não conhece de certeza.
Muito bem.
E vai ficar mais para o fim, é isso?
Vai mais para o fim.
Agora eu quero pensar.
Estamos a ir para a sobremesa, já estou a apostar.
Pronto, é isso. Tirando esta surpresa, que vem aqui mais para o fim, que agora quero saber o que é, sabemos, Manuel, que existem três salas neste Veneza. Devemos ter alguma preferência ou tanto faz? É entrar e pronto.
Eu podia dizer que tanto faz e era mais simples e ficava a coisa arrumada numa penada e acabou. Mas como não estamos aqui para enganar os ouvintes, vou explicar melhor. A primeira sala é para quem quer ver e ser visto. E por quê? Porque é a única com janela para o exterior e a única que tem vista, e quem quer ser visto também, como está na entrada, toda gente que entra vê as pessoas que lá estão. Eu diria que também, além disso, é a melhor sala para quem vai em modo casal. É mais confortável, para quem vai em modo casal, acho que é a melhor e que recomendo. A segunda sala é para quem não quer ser visto e pouco fica a ver também, de castigo, porque é uma sala muito pequena, está entre as duas salas maiores. Qual é a vantagem? Tem um acesso mais fácil, portanto, fica mais perto da fonte dos milagres, que neste caso é a cozinha.
Era isso que ia perguntar.
A terceira, por falar em garrafeira, é que é a ideal para idas em grupo, porque também é maior, tem as mesas maiores, e para os amantes do vinho, porque tem a vista para a garrafeira. Portanto, nós estamos a comer e estamos a olhar, seja para que lado olhemos, vemos vinhos, tabela dos preços, as marcas, vinhos que conhecemos, que estão a bom preço, vinhos que nunca ouvimos falar e que perguntamos o que é. Para os amantes do vinho.
Não está nada mau.
E estar ali uma, duas ou três horas a olhar para aqueles vinhos e depois ter a coragem de sair de lá sem levar conosco um dos vinhos que vimos, que gostamos, mas que vimos que estava excelente preço, ou outro que nem sequer conhecemos e queremos provar, é quase impossível.
Acho que isso é uma estratégia de marketing.
Já sabemos que há bom vinho, já estamos bem sentados. O que é que podemos pedir, afinal? E onde também?
Podemos pedir a quem quisermos e que nos apareça lá, embora eu recomende sempre que se peça ao Manuel Janeiro para ir lá, porque ele é sempre a melhor fonte de informação neste restaurante.
Dar uma recomendação, não é?
Exato. Para quem vai lá pela primeira vez, é melhor mesmo pedir para o Manuel Janeiro vir falar connosco. Outra coisa é assim: eu quando falo aqui de ir a um restaurante, parto sempre de um princípio que é só vai a um restaurante, sobretudo se for pela primeira vez, quem leva fome.
Claro.
Portanto, eu diria que podemos pedir logo a abrir uma sopa de feijão à montanheira.
Essa eu não posso.
Que é uma espécie de versão algarvia da sopa da pedra.
Eu adoro sopa da pedra.
Mas também como a outra não tem pedra nenhuma. E com este ataque fulminante, como eu vos dizia, já se percebe que não vale a pena ir ao Veneza se não levarmos conosco também uma boa fome.
Pois é.
Não é um ratinho.
Podemos levar excelente companhia, mas a fome tem que ser sempre uma boa companhia que levamos. Depois, as recomendações principais vão para os pratos de tacho. É isso que o Manuel Janeiro normalmente recomenda sempre. Borrego assado, língua de vaca estufada.
Já não sou fã.
É engraçado, porque dantes havia língua de vaca estufada em muito lado, no país todo, praticamente. Desde que veio aquela mania das vacas loucas, desde daí a língua de vaca passou a ser uma coisa muito rara. Por acaso, aqui há e eu gosto muito de língua de vaca estufada com aipo-milho e arrozinho branco. Lá fazem muito bem. Há outros sítios, mas cada vez há menos sítios onde é possível comer isto. E também o inimitável cabrito. Depois, também podem pedir, para quem gosta, isto já não é o meu caso, iscas de porco dessolado.
Também não sou fã. Estamos aqui a equipa não iscas.
Fininhas como manda a lei, ou os secretos grelhados com amor e carinho. Atenção que estas duas qualificações das iscas e dos secretos grelhados é o que promete o menu do Veneza.
Só mesmo escrito no menu.
Está lá mesmo escrito no menu. Iscas fininhas como manda a lei, a lei deles, evidentemente, não conheço nenhuma lei que o governo tenha feito para isso, e os secretos grelhados com amor e carinho, imagino que com mais alguma coisa também, com alho. É o que eles dizem.
Pronto, eu digo isto.
Mas eu não me esqueço, não pode ser sempre, mas tenho que atestar a boca os nossos gurus das sobremesas, que agora temos aqui dois. Eles recomendam e eu também, um morgado de amêndoa ou uma torta de alfarroba, molhadinha e tenrinha, como também se diz na ementa. E eu que já provei, confirmo.
Eu ia mais para a torta de alfarroba.
Não sei, fazemos um pijaminha, André, pedimos um de cada e depois comemos metade.
Já ficam preparados para ir para a cama a seguir logo.
É isso mesmo.
Cada um para seu lado.
Não quero nada contigo, André. Um para cada lado. Manuel, já nos disseste muita coisa deste Veneza. Outra coisa que eu quero perguntar: é verdade que o restaurante se chama Veneza porque está rodeado de água e canais por todo lado?
Podia ser, mas é aqui que chega a surpresa.
Agora.
Água nem vê-la, a não ser na mesa, em garrafas ou copos. Este Veneza, aliás, fica a alguns quilómetros do mar, não está na orla litoral, e não tem nem rios, nem lagos, nem canais por perto, a não ser na televisão, que também lá há uma televisão que tem alguns canais, mas outros canais de água, nada.
A Veneza verdadeira está em risco de ir abaixo, não é? De ir ao fundo, aqui não. É um bom sinal.
É que este espaço já nasceu em 1970 com o pai de Manuel Janeiro, só que não era um restaurante, era uma discoteca. E de 15 em 15 dias recebia espetáculos dos mais conceituados artistas da época. Por exemplo, os Doce e o António Variações. São recordações que de certeza a Filipa não terá, mas que lá estiveram com grandes assistências. E aquilo tinha um sucesso muito grande. E o nome Veneza derivava de umas gôndolas e de umas Monas Lisas pintadas nas paredes. E o chão também, como era ondulado, era um chão velho ondulado, fazia lembrar canais, mas sem água. Quando o Manuel abriu lá o restaurante em 83, uns 13 anos depois, não quis perder, como é natural, a notoriedade do nome, porque toda a gente conhecia aquele espaço como Veneza. E apesar de ter trocado as gôndolas e as Monas Lisas por queixadas de porco e outros petiscos, como já aqui vimos, ficou a marca gôndola na mesma.
E Veneza ficou. Muito bem.
Por acaso é o nome que fica.
Sim, Veneza fica bem. Vamos então passar ao que queremos saber. Continhas e garfos, Manuel, que nos trazes?
Eu diria que a notinha verde, se nos contivermos na questão da garrafeira.
Tirando a garrafeira, chega para três.
Se ficarmos entusiasmados e quisermos sair de lá com alguma coisa debaixo do braço, aquelas coisas redondinhas que têm uma rolha no topo, isso aí a notinha verde não chega para os três e até pode nem chegar para um, se nos entusiasmarmos com muita força.
Garrafeira à parte, dá a notinha verde.
Vamos continuar na senda dos garfos dourados. Este, claramente, garfo dourado para o restaurante, que tem também uma garrafeira, que é a primeira vez que aqui falamos. Portanto, nessa categoria, um garfo dourado para o Veneza.
Um assalto ao Veneza, sim, senhor.
Muito bem, grande Veneza. Temos que ir lá.
Muito bem. Por hoje ficamos por aqui, por Pratos Nunca Dantes Navegados, em parceria com o TJornal. Estamos de regresso para a semana, sempre com o nosso Manuel Serrão. Um beijinho, até lá.
Um abraço, Manuel.
Até lá, obrigado.