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Boa tarde, bem-vindos a mais uma edição do programa "Porque sim, não é resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Eu sou o Bruno Vieira Amaral. Hoje vamos falar de uma estranha arte, a estranha arte de se engonhar. E parece que há uns especialistas nesta arte. Eduardo, boa tarde. Os adolescentes são especialistas na procrastinação ou é só impressão nossa?

Não, são mesmo bons.

Eu conheço alguns adultos que também não são nada maus.

Claro. São mesmo bons. E têm um cardápio de expressões a esse nível que eu acho que é fascinante. O mais delicioso nos adolescentes mais crescidos, alguns já não são só adolescentes, é aquela expressão de guardar tudo pra última hora. Por quê? "Porque eu trabalho muito melhor sob pressão".

Quem nunca?

E portanto, eles são ótimos nisso, eles são ótimos na suposta distração. É tão engraçado. E não são só os adolescentes, os nossos filhos mais pequenos. Nós pedimos pra eles irem à cozinha fazer isso ou aquilo, e eles parecem nunca fazer tudo dentro do que nós lhes solicitamos.

"Levanta a mesa", por exemplo. Fica sempre lá alguma coisa.

Sempre.

E por quê? Todos nós já nos perguntamos por que há esta tendência de deixar sempre alguma coisinha por fazer.

Porque os serviços mínimos são uma espécie de grito de liberdade e, portanto, eu aceito que tenho que fazer isto, pra mim é uma seca, todavia. E portanto, se eu fizer isto com um toquezinho pessoal, faço, mas também não é como eles querem, que é uma coisa que eu acho que é deliciosa. Ou, às vezes, quando nós chamamos os nossos filhos. Nós chamamos uma vez e eles dizem: "Sim," chamamos duas e eles dizem: "Sim." Tecnicamente, eles respondem sempre, só que depois nunca vêm quando é pra vir. E este registro de chutar pra canto é uma coisa tão engraçada, porque é quase como se eles dissessem: "Já repararam que há coisas mais importantes e mais inadiáveis que eu tenho em mãos, como, por exemplo, brincar, estar a acabar um episódio de um desenho animado qualquer ou, de repente, estar a trocar mensagens." E isto faz parte, é uma arte, sem dúvida nenhuma, ternurenta, muitas vezes hábil, tão inteligente, mas que às vezes tem que ser também um bocadinho educada.

Tem que ser combatida, não deve ser completamente tolerada.

Tem, sabe por quê? Porque depois eles chegam à escola e como qualquer miúdo muito intuitivo, quando chega à escola e percebe que há trabalhos para entregar, os adolescentes de 12 e 13 anos, quando nós percebemos, têm às vezes dois ou três trabalhos que têm que entregar no dia a seguir, sendo que às vezes confidenciam isso no final da tarde. Nós ficamos em pânico.

E eles também.

Mais ou menos, porque há sempre uma inteligência artificial qualquer a lhes dar uma ajuda importante. E, portanto, eles são ótimos a perceber todas as nesgas de criatividade que o mundo lhes traz, apanham-nas de uma forma tão acutilante, tão sábia, em boa verdade, mas depois nem sempre isto os ajuda. E, portanto, nós temos que andar permanentemente a fazer este papel de entidade reguladora, às vezes chatos, mas com essa sensação de que este jeitinho especial que eles todos têm, tem que ser um bocadinho disciplinado. Por quê? Porque o grande desafio que todos temos na vida, e nós, as pessoas crescidas, estamos tão longe às vezes de conseguir compatibilizar isso tudo, é encaixarmos aquilo que são as coisas importantes da nossa vida com o nosso trabalho, com as nossas relações, com os nossos compromissos sociais, sejam eles quais forem, etc. E se nós os obrigarmos a ir compatibilizando tudo isto, mesmo que lhes tapem os pés e tapem a cabeça e vice-versa, estamos a dizer-lhes: "Sim, a tua vida é uma coisa importante. Sim, ninguém quer que a tua vida se deite fora, muito menos que tu não respires de cada vez que a mãe ou o pai te pedem seja o que for, mas agora vamos ter que andar aqui, às vezes, a chocar de frente uns com os outros, pra que depois se crie uma alternativa, uma nesga de espaço em que tudo parece fácil de conciliar." Às vezes ninguém repara todo o trabalho que isso teve até se chegar a uma situação de sucesso.

Eu estava aqui a pensar que muitas vezes também atribuímos esta tendência dos adolescentes, dos mais jovens, à preguiça. Ou seja, não querem colaborar, não lhes apetece fazer as coisas. Estava aqui a pensar se não seria um mecanismo ainda de resistência à rotina, ao desempenho, à execução de tarefas rotineiras que nós, adultos, já estamos completamente programados para fazer e que a eles, este caráter rotineiro de certas tarefas ainda é estranho.

Às vezes, é verdade. É como se isto fosse o tal grito de liberdade, mas cuidado, Bruno Vieira Amaral, porque preguiça é um mito urbano. Adoro dizer isto. Porque tenho a ideia que muitas mães ficam muito nervosas. "É mesmo um mito urbano, por quê?" Porque aquilo que era a preguiça há uma geração atrás, agora não é preguiça, agora é só baixa autoestima. E já está mais próxima da verdade, porque tem muitas vezes, em muitas circunstâncias, a ver com episódios de insegurança que eles têm em relação a certas coisas e, portanto, quanto mais guardam para o mais longe possível o confronto com algumas dificuldades, muitas vezes vão se iludindo com elas, como se no fundo fossem capazes de tudo e quanto mais tarde tenham de as olhar nos olhos, melhor. Mas neste pacote todo, entram muitas coisas diferentes. É importante que a sensibilidade dos pais esteja atenta às nuances que tudo isso traz.

É porque essa tendência para a procrastinação, que deriva certamente também de alguma insegurança, convive com uma postura dos adolescentes que é, em alguns casos, uma postura de grande confiança, pelo menos de manifestação exterior dessa confiança. As duas coisas não são incompatíveis.

Não são, Bruno, mas uma coisa é a confiança que eles demonstram quando estão em casa, com a retaguarda muito protegida pela presença dos pais, e aí são donos do mundo, estão até capazes de o mudar, se for preciso, porque aí os sonhos e os desejos parecem ser razoavelmente fáceis. Outra coisa é a confiança que eles não têm no dia a dia, quando se confrontam em terreno aberto com os colegas e percebem que são ótimos em muitas coisas, não são os melhores do mundo, como se compreende, nem têm de ser. E às vezes, quando se confrontam com essas inseguranças, criam estes arabescos. Eu vou dar mais um tempo, que é muito comum. Aliás, estamos na altura das candidaturas ao ensino superior, e esse é um dos exemplos. Eles que sabem exatamente qual é o modelo de tênis que querem, qual é o pormenor aqui ou ali que perfilham, etc. Muitas vezes, quando não se sentem seguros de uma candidatura que querem fazer a um curso, vão chutando para frente e dizem: "Não sei ainda muito bem o que é que eu quero, o que é que eu escolhi", que é uma forma, mais uma vez, hábil de lidarem com as inseguranças, sendo que eles não nascem equipados com tradutor simultâneo e nós temos que ir afinando a nossa sensibilidade para percebermos exatamente o que é que estas nuancezinhas todas querem dizer.

E também procurar dotá-los de instrumentos que os ajudem a organizarem-se a si mesmos e a disciplinarem-se, porque esses instrumentos, quando são fornecidos pelos pais, ainda numa idade jovem dos adolescentes, são instrumentos depois para a vida toda.

Para a vida toda. Para a vida toda, por uma razão simples: porque quando de uma forma sensata, mas que tem que ser um bocadinho firme e não precisa de ser esganicada, pode ser serena. Nós os obrigamos a afrontar as suas dificuldades, e é aí que eles ficam mais fortes, porque quando nós vamos pondo a mão por baixo de algumas dessas inseguranças, estamos a alimentá-las. Às vezes não nos damos conta que protegê-los demais é torná-los mais frágeis. E aquilo que todos nós queremos, pais, educadores, todos nós, é que quando os nossos filhos dizem assim: "Eu tenho este sonho", eles vão lá, mesmo que as probabilidades às vezes não sejam tão grandes. E aquilo que nós muitas vezes vimos, na forma como escolhem um curso, na forma como escolhem a pessoa com quem querem namorar, Bruno. Eles dizem assim: "Qual é a pessoa mais gira da escola? Ok, eu escolho outra. O que é que me daria um gozo imenso de estudar? Tenho medo de não ser capaz de entrar, vou fazer uma escolha defensiva." E as escolhas defensivas pela vida afora não são um apelo ao realismo, são um apelo à mediania. E os miúdos quando têm uma alma grande, têm é que ir atrás daquilo em que acreditam e depois magoam-se uma vez ou outra, mas vão aprendendo a ganhar. O que se faz perdendo aqui e ali, como todos nós sabemos.

Como acontece a todos nós. No fundo, é transformar essa confiança que eles tantas vezes ostentam, numa confiança real e com utilidade para a vida no dia a dia. Eduardo, chegamos ao fim do programa de hoje. Estamos sempre em podcast, nas plataformas habituais e no site observador.pt. Enviem-nos questões, dúvidas e partilhas para o e-mail eduardosa@observador.pt. Eduardo, muito obrigado, um grande abraço e até amanhã.

Até amanhã, um abraço para si, Bruno.