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Bem-vindos ao "Porque Sim Não É Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje falamos de uma mãe que nos relata uma inquietação comum, mas pouco falada. Há crianças que desde cedo parecem precisar de uma melhor amiga, mas acabam por escolher vezes sem conta relações ou desequilibradas ou dominadoras. Olá, Eduardo. Por que algumas crianças ou pré-adolescentes parecem procurar estas amizades muito exclusivas e muito dependentes?

Olá, Judite. Eu não acho que estejam à procura de amizades com esse tipo de configuração, mas há um pormenor. Acho que em muitas circunstâncias, quando há uma grande necessidade e às vezes uma pressa muito grande de se encontrar uma melhor amiga, eu tenho medo que se coloquem numa postura que não é tão paritária e que, portanto, é um pouco oblíqua, quase como quem diz: "Eu até estou disponível para aceitar condições que em circunstâncias normais nunca aceitaria, só para merecer a tua presença ao pé de mim." E esse registro é que complica tudo, não é, Judite? Porque esse registro tem a ver com o quê? Com alguma insegurança que alguns de nós temos. Se calhar, nós também fazemos isso em outros contextos relacionais. E, portanto, quando estamos um pouco inseguros, parece que o mau feitio que faz parte dos nossos dias bons foi de férias e, de repente, damos conta de estar a aceitar ou a condescender, pelo menos, com algumas atitudes que em circunstâncias normais não fariam de todo parte da nossa vida. Portanto, ter um melhor amigo é uma coisa ótima. Ter alguns melhores amigos é uma coisa inacreditável, porque no fundo são pessoas que atravessam a vida e que sabem tudo de nós e às vezes têm a coragem de nos dizer aquilo que até as pessoas da nossa família, às vezes se encolhem, até porque sabem alguns capítulos que nem sempre a mãe ou o pai conhecem. Mas começa-se por um melhor amigo. Mas não é fácil. Não estou a dizer que seja difícil. Mas não é fácil, porque nós vamos ter que ir por ensaio e erro. Às vezes vivemos decepções, às vezes entre aquilo que damos e aquilo que recebemos, as contas ficam um bocado trocadas. E quando queremos isso muito, e sobretudo muito depressa, corremos o risco de fazer concessões que depois, feitas as contas, tudo faz com que corra mal.

Eu ia lhe perguntar exatamente, já nos falou um pouco disto, mas o que estas relações dizem sobre a forma como a criança ou o adolescente se vê a si própria?

Ó Judite.

É essa falta de autoestima?

É. Sabe por quê? Porque às vezes estes melhores amigos, às vezes este tipo de movimento, depois tem um inconveniente acrescido, é que às vezes atrai aquelas pessoas que tecnicamente parecem ser melhores amigas, mas que depois são um bocado manipulatórias. E sendo um bocado manipulatórias, fazem com que um seja o cavaleiro e o outro o escudeiro. E isto baralha tudo. Baralha porque, de repente, o privilégio de termos alguém que sabe coisas muito boas da nossa vida, parece vir equipado com exigências de exclusividade que não são sequer razoáveis. E, portanto, sim, ali uma autoestima um pouco constipada, vamos dizer assim, com esta particularidade. A nossa autoestima, por mais que seja um brilho pegado e que seja radiosa, de vez em quando também se constipa e, portanto, todos nós já passamos por experiências em que fizemos concessões que não devíamos ter feito e que foram andando, e à medida que foram andando, se foram complicando. Mas que é importante nós percebermos que para chegarmos a um melhor amigo, temos que errar algumas vezes. Isso aí, não tenhamos dúvidas. Sendo certo que depois, quando atestadamente é o nosso melhor amigo ou a nossa melhor amiga, ui! Isso é um acréscimo muito significativo a tudo que nós temos.

E que sinais devem alertar os pais para essa possível influência negativa ou uma relação que possa ser prejudicial?

Ó Judite, quando eles estão a brincar distraídos e sem sequer imaginar que estamos a reparar neles, é importante percebermos quem manda na história. Não é que alguém tenha que mandar, mas é que nalgumas circunstâncias há mesmo alguém a mandar e nessas circunstâncias, se for só uma vez ou outra, por que não? Se for continuadamente, já não tem graça. Às vezes há mudanças engraçadas, mas que são tão subtis que nos passam debaixo do nariz e nós não damos conta delas, que é quando um adolescente muda um bocadinho de estilo, mesmo de vestuário ou até de comportamentos, para sintonizar com uma melhor amiga que, afinal de contas, não tem tanto a ver com ela como à primeira vista pode parecer. Acontece nalgumas circunstâncias. Às vezes, com uma agenda, que surpreende os pais, porque é quase como se de um dia pro outro houvesse preocupações, pontos de vista e outras coisas que parecem ter caído do céu, que não têm muito a ver com aquela adolescente e que de repente começam a ser assumidos com uma fúria, nalgumas circunstâncias, para além do razoável. E, portanto, estas mudanças súbitas, não, por favor. Agora, relações assimétricas e melhores amigos, isso são coisas que casam mal.

Há crianças que falam muito pouco sobre a escola e, portanto, é difícil para os pais abrirem espaço para este tipo de conversas sem haver alguma pressão.

Fala um pouco sobre a escola, porque às vezes as mães são chatas, como sabes. A primeira coisa que uma mãe faz quando uma criança põe o nariz dentro do carro é: "Como é que correu a escola? O que foi o almoço? Quais são as tarefas?" E portanto, todos os dias. As crianças adotam uma postura que eu acho uma ternura, que é: "Tu és mãe, não é? Passas a vida a dizer que tens um dedo que adivinha. Pronto, então, faz favor, mostra." Uma mãe ou um pai tem uma acutilância fora do vulgar. Portanto, não precisam de perguntar como é que foi, como é que correu. Precisam só de dar conta se uma criança vem com aquele olhar vivo, com que se chega ao carro, depois de um dia de escola que correu muito bem, ou se vem virada sobre si, um bocadinho silenciosa, às vezes até um bocadinho apática, porque aí mais vale então os pais, por ensaio e erro, porem o tal dedo que adivinha a funcionar. A mãe pode estar enganada, mas muito rapidamente chegamos lá. Agora, os pais não estão tão distraídos, têm uma noção muito clara de que há algumas amizades que não são tão benéficas assim à primeira vista pros filhos. Os pais têm um respeito incrível pelas escolhas dos filhos, e eu acho isso magnífico, mas é importante que também sejam um bocadinho a entidade reguladora, porque os filhos às vezes vão se encolhendo e é necessário que a mãe ou o pai ponham as legendas no lugar e que, se for o caso, e às vezes é preciso, sobretudo nestas amizades que, em boa verdade, são um pouquinho mais tóxicas, que criem ali algumas barreiras de proteção para que uma filha, neste caso, não se prejudique com alguém que está a fazer um casting pra melhor amiga e se vai aproveitando mais do que era suposto disso.

Fica aqui a nota para uma possível intervenção. Eduardo, um grande abraço. Obrigada.

Para ti.

E até amanhã.

Até amanhã.