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Bem-vindos ao "Porque Sim Não é Resposta", com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje falamos de como nos preparamos para a morte de quem amamos. Olá, Eduardo. Começando pelo mais difícil: é possível prepararmos pra morte de alguém de quem gostamos ou isso é uma ilusão?

Olá, Judite. Claro que é uma ilusão. Mas, ao mesmo tempo, há um aspecto que eu acho curioso, porque eu acho que todos nós vamos convivendo com isso muitas vezes, que é esta ideia de estarmos preparados, seja pra o que for. "Eu só vou ter uma nova relação amorosa quando eu me sentir preparado." "Eu só faço isto quando eu me sentir preparado." E eu percebo a ideia. É uma maneira de nós dizermos que tudo que seja precipitado, tudo que seja, de alguma forma, irrefletido, pode não ser razoável, e não é. Mas, na verdade, nós nunca estamos preparados para coisa nenhuma, mesmo quando-- e nós fazemos isso tão bem, Judite. Nós temos uma cabeça notável, que funciona como um argumentista, como um realizador, como um produtor. E, portanto, nós fazemos filmes. Fazemos filmes de uma forma fantástica, fazemos filmes quando sonhamos, fazemos filmes quando imaginamos. Somos únicos a fazer filmes e isso é muito bom, porque é um simulador de voo no seu melhor. E nós, quando convivemos com alguém doente ao nosso lado, ou quando simplesmente sabemos que alguém com a idade dos nossos pais morreu e nos pomos simplesmente a imaginar: "Como é que eu serei capaz de reagir a uma coisa dessas?" Nós fazemos filmes pra nos prepararmos, dando-nos alguma aprendizagem, Judite, mas muito longe da realidade, até por isto. Ironicamente, a realidade às vezes é muito mais simples, é muito mais clara e nós somos muito melhores quando estamos a gerir um acontecimento real do que quando nós imaginamos todas as alíneas que uma preparação, seja lá para o que for, acaba por ter. E, portanto, a resposta é: nunca estamos preparados pra nada, nem pra isso.

E pra pegar nas suas palavras, existe um luto antes da morte, enquanto a pessoa está viva, mas vemo-la envelhecer. Vive-se um luto antecipado?

Judite, gosto tanto quando põe perguntas dessas. Vive, Judite. Para não ir mais longe, às vezes há lutos ainda mais difíceis, que são aqueles lutos que nós fazemos diante das pessoas de quem gostamos muito. Talvez quando elas nos decepcionam, mas nos decepcionam fundo e acabam por ter um comportamento quase completamente ao contrário de tudo o que nós imaginamos. E nós temos a noção de que elas estão vivas e que gostam de nós e que fazem por gostar de nós, e nós por gostar delas. Mas temos a noção de que às vezes há um acontecimento, e às vezes isso são uns, Judite, veja a importância que elas têm. Há um acontecimento que traz um impacto fraturante, e nós temos a noção que elas estão vivas, nós queremos muito que elas estejam vivas, mas há um bocadinho, ainda por cima, precioso delas que morreu. Sim, fazemos muitos lutos em vida, às vezes até de nós próprios, Judite. Mas sim, fazemos lutos em vida que, em boa verdade, não nos preparam para um luto. A única preparação que nos dão, qual é, Judite? É nós percebermos que de cada vez que estamos a viver uma perda muito significativa, e por isso mesmo um luto, que não somos onipotentes, que não é por nós querermos muito uma determinada realidade, que ela se adequa aos nossos desejos. Veja como os algoritmos acabam por distorcer tanto os nossos filhos porque lhes dão ideia exatamente do contrário. Que não somos, por mais que tentemos, às vezes, ser egocêntricos, temos muita dificuldade em sê-lo, porque de fato as perdas nos ajudam a pôr no lugar. Somos pessoas magníficas, mas pessoas todavia frágeis e sensíveis e muito dependentes daquilo que a vida nos dá pra nos sentirmos de coração cheio, sim.

Nós estamos a falar disto à boleia de um e-mail de uma ouvinte que pergunta por estratégias, por ferramentas que ajudem a aguentar essa fase.

Judite, porque nós fomos imaginando que saúde mental era isso mesmo. Era nós nos munirmos de um conjunto de estratégias, de programas, de soluções fáceis E lá vêm algumas pessoas ligadas à psicologia que, de uma forma triste pra mim, foram alimentando esta ideia, como se no fundo, qualquer problema tivesse uma estratégia que fosse rigorosamente uniforme, independentemente do problema e da pessoa que o vive. Não há estratégias pra isso. A grande estratégia, no fundo, é sobretudo esta: quando nós às vezes falamos de saúde mental, e às vezes fala-se bem, às vezes fala-se mal, se há uma característica entre muitas outras-- um destes dias devíamos falar disto, Dite. Quais são as meia dúzia de características que nós podemos dizer: "Isto tudo junto faz a saúde mental". Mas há uma característica que eu acho que é muito importante, da qual se fala muito pouco, às vezes se fala até com vergonha, e que é um sinônimo de saúde mental ao seu mais alto nível, que é a capacidade de estarmos tristes. Se nós formos capazes de estar tristes, nunca estamos preparados pra uma perda, mas verdade seja, não desmoronamos com ela. E isto, sim, faz toda a diferença. E às vezes é muito importante nós percebermos que podermos estar tristes não é querermos a vida a preto e branco, muito longe disso. Podermos estar tristes é não andarmos a fazer de conta que somos a versão mais ao nosso dispor do James Bond e que não precisamos de andar a iludir os nossos sentimentos pra fazer de conta que somos fortes. Quando nós somos capazes de estar tristes, se há um aspecto que ressalta disso, é que somos realmente fortes, Dite. É que não nos partimos quando estamos tristes, o que significa que quando chegar a altura de estarmos muito tristes, temos muito mais probabilidades de igualmente não desmoronarmos e mais, de sermos capazes de ter a bondade de proteger quem está ao nosso lado assustadoramente triste, que às vezes é muito mais difícil do que estar triste. Porque é estar triste com medo de estar triste e com a ideia de que está a ser horrível mostrar a sua tristeza, que, fale a verdade, é aquilo que nós temos de mais saudável.

E já agora, é verdade que há fases do luto?

Oh, meu Deus. Olha, Dite, vistas de uma forma macroscópica, eu mentia se lhe dissesse que não. Porque num primeiro momento, quando nós nos confrontamos com uma perda, a primeira coisa que todos nós fazemos é dizer: "Não é possível, isso não está a acontecer, há aqui um engano". E, portanto, ficamos em choque. Pronto. Encurtando estas etapas, se quiser, há um período em que nós afundamos na tristeza, aquilo a que se chama trabalho de luto, e que é indispensável, como já há uns tempos nós conversávamos aqui, é a necessidade de eu poder estar muito triste, muito tempo, porque a pessoa que eu perdi não pode ser iludida com pó de arroz, como às vezes as pessoas querem. E depois há uma fase de alguma resignação, de alguma aceitação. Eu digo alguma, porque sempre são algumas, Dite, porque as pessoas são tão preciosas pra nós, que nós nunca aceitamos aquilo que, em boa verdade, é um absurdo. Isso é importante que fique claro. Agora, que fique claro também um aspecto: isto é a macroscopia da coisa, Dite.

Nem todos passam pelo mesmo.

Olhe, Dite, depois aquilo que faz a diferença é que uns têm capacidade pra estar tristes e outros não. Os que têm capacidade pra estar tristes falam da sua tristeza, elaboram-na. Tudo dói na mesma, mas vão crescendo com ela, ficam até mais bonitos, se for preciso. Os que não têm capacidade pra estar tristes, barricam-se nas coisas mais inacreditáveis, e aí, por mais que passem por fases idênticas, tudo é mais um empurrãozinho que faz com que uma réplica seja muito pior que um sismo.

Eduardo, um grande abraço. Bom fim de semana.

Outro facismo.

Cá nos encontramos na segunda-feira.

Um bom fim de semana. Até segunda.

Até segunda.