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Bem-vindo ao "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar nesta tendência em que parece haver uma espécie de epidemia de diagnósticos para as crianças. Olá, Eduardo. Há esta tendência de medicalizar, acho que não existe o verbo, mas vamos inventar, comportamentos que antes eram vistos como normais.
Olá, Judite. Eu não sei se a tendência é logo no sentido de medicar, mas eu tenho medo que seja uma tendência que vá abertamente no sentido de pôr diagnósticos a comportamentos que, em condições normais, são comportamentos evolutivos e que decorrem em função de um conjunto de circunstâncias e que muitas vezes não são tomadas em consideração quando se coloca, de uma forma, porventura, um bocadinho precipitada, um diagnóstico sobre uma criança, como se ela não vivesse num contexto, não tivesse esta ou aquela dificuldades com os pais, não tivesse uma escola que nem sempre corresponde àquilo que de alguma forma se espera. E, portanto, quando o diagnóstico é sobretudo colocado sobre ela, parece que o problema é dela e não uma questão que surja e que, se for bem gerida e bem compreendida antes de mais, pode resolver-se com o auxílio das pessoas que estão ao lado dela e às vezes ajudando os pais a pôr legendas e a atuar sobre determinados comportamentos de uma dada forma, porque se nós fizermos assim, escusamos de andar a pôr diagnósticos. Os diagnósticos, a existirem, devem existir para os técnicos unicamente como forma de terem meia dúzia de coordenadas para saber como agir, mas acima de tudo, sem colocar os pais à margem das soluções, porque eles são absolutamente dispensáveis e podendo ser, às vezes, um bocadinho do problema, são no essencial, a grande parte da solução.
O que leva agora os adultos, pais, professores, técnicos a procurarem tanto um diagnóstico?
Olá Judite, com todo o respeito do mundo pelos professores, eu tenho sempre o cuidado de chamar a atenção para os professores não se aventurarem por aí. Ou seja, um professor é muito importante, muito preciosíssimo. Aliás, a definir esta dificuldade ou aquela dificuldade, mas muitas vezes as dificuldades das crianças, mesmo no contexto escolar, não são estranhas ao professor, à maneira como ele está a ser professor e às dificuldades que ele está a sentir com aquela criança, com esta tranquilidade. Um professor é igualmente uma pessoa preciosa para 20, 23, 24 crianças, aquelas que tenha na sua turma. Evidentemente que não consegue chegar a todas da mesma forma, até porque umas têm constrangimentos que outras não têm, umas chegam com dificuldades que outras obviamente não resistem. E, portanto, para mim isto parece razoavelmente claro. Aquilo que já não me parece sensato é que quando uma determinada criança que tem sucesso nesta área ou naquela de conhecimento, chega à matemática ou ao português e parece ter um conjunto de dificuldades que não se coadunam com tudo o resto. Valha-me Deus, o motor que ela tem dentro é igual para todas as circunstâncias. Às vezes, é só uma questão de percebermos como é que o devemos afinar. E, portanto, às vezes esta ânsia de se colocar diagnósticos vai muito no sentido da maneira como as pessoas se vão sintonizando com uma certa leitura mais descritiva dos comportamentos e menos compreensiva. Às vezes não se preocupam em perceber: será que esta criança é mesmo agitada ou vive contextos tão difíceis no contexto familiar, que é impossível que ela esteja atenta, sobretudo nalgumas circunstâncias? Isto ou aquilo. E, portanto, se calhar, às vezes, na sequência destes diagnósticos, alguns que eu continuo a dizer que são precipitados, às vezes mal feitos. Bom, chega-se sempre à conclusão, mais vezes, porventura, do que era razoável, que medicar aqui ou medicar ali pode ser uma solução de recurso que soluciona uma dificuldade que demorou algum tempo a manifestar-se. Nada contra a medicação com parcimônia, mas esta ideia de que para cada problema há uma pílula adequada que o resolve, não é verdade. Todos nós sabemos que não é verdade e às vezes ao pôr um diagnóstico, eu pergunto-me sempre qual é a mais-valia. Quem é que chega a um professor a dizer assim: "Olhe, com esta criança deve atuar desta forma". Ou um pai ou uma mãe a dizer: "Olhe, por que não, quando ele faz uma birra ou tem uma teimosia de todo o tamanho, por que não fazer deste ou deste modo?" E às vezes as pessoas ficam tão sozinhas que parece que os problemas surgem nas crianças como questões de desenvolvimento e são, sobretudo, resultado de interações que vão acontecendo Bem, na maior parte das vezes. E assim noutras, e depois quando se vai ver, é como uma febre qualquer, acontece e tem que se perceber por quê, depois finalmente se resolve de forma adequada.
E até que ponto é perigoso transformar essas dificuldades de que falava em sintomas de algo pior? É que depois talvez o tratamento não seja o correto, não é? Ou a forma de tratar essa criança não seja a correta.
Ós dito, não é. E depois, Faza, diagnosticar em saúde mental é uma coisa muito filamentosa, de alguma filigrana. Claro que quando não se tem experiência a esse nível, está-se à espera que os quadros sejam ou preto ou branco. Todos os quadros clínicos nas crianças são sempre do espectro de alguma coisa, que fique claro, porque no fundo, elas são imensamente saudáveis, têm ali um parafuso fora do lugar, que é um parafuso mais preocupante e que de alguma forma precisa de ajuda, etc. E, portanto, a mim preocupa-me que às vezes se pegue numa manifestaçãozinha macroscópica e com essa manifestação se faça um diagnóstico, que é uma coisa normal, quando não se tem uma grande experiência clínica, mas que vai acontecendo amiúde. E de fato é como diz, se nós fazemos uma leitura ao lado ou se nós não fazemos uma abordagem que integra as pessoas na mudança de um conjunto de comportamentos que às vezes têm que se mudar, etc. Nós corremos o risco, na ânsia de resolver depressa, de criar um problema muito maior do que aquele que uma criança teria e de problema maior em problema maior, chega-se às vezes a grandes dores de cabeça que seguramente podiam ser prevenidas com abordagens mais ponderadas e de alguma forma mais participadas por quem está ali ao lado de uma criança e quer ajudar, acima de tudo, claro.
Sobretudo fixar na criança e não só no diagnóstico. Eduardo, hoje ficamos por aqui. Amanhã trazemos mais um tema e até lá já sabem, escrevam-nos para eduardosa@observador.pt. Eduardo, um grande abraço, obrigada e até amanhã.
Até amanhã, Judite.