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Iniciamos a semana no "Porque Senão É Resposta". Eu sou a Ana Filipa Rosa, conosco está o Ricardo Conceição e também o Eduardo Sá. Olá, bem-vindos.

Olá.

Olá, Ana Filipa. Olá, Ricardo.

Tivessem vocês esta vista que eu tenho hoje aqui para a ria de Aveiro.

Que maravilha. Hoje é literalmente cada um em seu canto.

Sim. Estamos distantes, mas é só mesmo isso. Ora bem, estamos próximos na rádio e vamos falar de discussões por SMS. Eduardo, recomenda respirar fundo quantas vezes antes de carregar no botão e enviar aquela mensagem mais complicada numa discussão por SMS? O que, se calhar, nem sequer é muito recomendado.

Ana Filipa, eu recomendaria, sobretudo, falarmos da vista magnífica da ria de Aveiro. Do sol de Aveiro, que é um sol absolutamente incrível, com uma luminosidade fora do lugar, porque estas nuvens negras que no fundo representam as discussões por SMS, atrapalham e atropelam tudo, até porque eu acho que a determinada altura nós devíamos assumir que discussões que se prezam se fazem de olhos nos olhos. Primeiro, porque são palavras ditas no meio de uma fúria. Às vezes nós ficamos tão zangados, tão cheios de ira, que dizemos o que queremos e o que não queremos, e às vezes, de uma forma irrefletida, apetece-nos magoar a pessoa de quem gostamos no sítio onde sentimos que ela fica mais melindrada. E quando nós fazemos isto tudo por escrito, é um drama, porque fica ali uma prova. E uma prova é um Deus me livre. Tu disseste-me isso na mensagem 39 que me enviaste. Na verdade, será a 31. E é tão sem sentido discutir dessa maneira. A verdade é que há pessoas que passam dias a discutir por SMS.

Mas o problema aí é mesmo esse, é porque fica escrito, Eduardo, e podemos regressar àquelas mensagens de vez em quando. Olha aqui o que escreveste.

Sim, porque depois a pessoa pode até dizer: "amor da minha vida" e coisas do gênero, Ricardo.

Ou mandar outra mensagem a dizer "amorzinho".

Sim. Que quando nós andamos ali para cima e para baixo, vamos parar à mensagem errada e o amorzinho vai a par de outro tipo de manifestações um bocadinho insultuosas, às vezes, vacuitosas, sobretudo, que estragam todas as coisas boas que se podem dizer a seguir. E, portanto, sim, fica lá tudo escrito. Qualquer coisa, por mais que dás a recordar, o que é que se ganha? Não se ganha muito.

Portanto, Eduardo, se calhar somos mais impulsivos ou muito pelo contrário, às vezes pensamos um bocadinho mais naquilo que vamos dizer e portanto não somos tão espontâneos, tem esse lado também, tem aqui os dois a dificultar as contas. A pessoa fica com essa prova, pode sempre voltar a ler e a reler, pode interpretar aquilo como quiser, porque não temos aqui o tom. Eduardo, quando a pessoa vê a mensagem e não responde?

Olhe, estamos em Aveiro, se estivéssemos no Porto, as pessoas no Porto, quando alguém não nos responde, põem a cabeça fora do carro e dizem uma coisa generosa, do gênero: "Olha, ao menos mande não sei para onde", que é uma maneira de dizer, por outras palavras, tudo o que seja indiferença e desprezo magoa mais. E repares, eu acho bonito que as discussões sejam exageradas. Acho mesmo, dentro de alguns limites, claro, porque significa que nós gostamos muito daquela pessoa, que nos magoamos às vezes com coisas que não lembram a ninguém, mas só nos magoamos porque aquela pessoa é mesmo importante para nós e falhou onde não devia. E de repente, não estamos cá com cerimônias e fazemos as nossas birras. É só uma birra, uma discussão. Mas é uma birra feia, para todos os efeitos. Não nos mandamos para o chão, mas há pessoas que partem louça, infelizmente. Há outras que não partem louça, mas partem louça mandando mensagens. E portanto, este lado espontâneo é um lado bonito. Claro que é acalorado, claro que é exagerado, mas vale o que vale. Se depois com isso nós formos capazes de emendar a mão e formos capazes de fazer um reencontro. Agora, há sempre um bocadinho de frieza quando nós estamos a fazer uma mensagem, porque depois queremos magoar e depois não. Voltamos atrás e pensamos: "Como é que eu hei de magoar um pouco mais?" E isto já é tão mais frio e é tão mais áspero, que é muito melhor uma discussão como deve ser, nem que seja ao telefone. Então por videochamada, ainda melhor do que tudo, menos mensagens. É assim.

Sobretudo naquela fase, e quem usa WhatsApp acho que vai perceber isto que eu vou dizer, aquela fase em que amorzinho está a escrever e nunca mais escreve. E nunca mais sai. Portanto, o amorzinho escreve, apaga, volta a escrever, corrige. E nós ficamos naquela ansiedade: "Mas afinal, o que é que vem agora?"

É uma aflição, Ricardo Conceição, porque de repente nós percebemos que está a escrever. Nós já dissemos uma parvoíce qualquer e já estamos prontos a emendar a mão. Depois não queremos perder a fase como quem diz: "Não, agora vou dar parte fraca, vou esperar pela resposta." A resposta nunca mais sai. É uma aflição grande demais para uma discussão, sobretudo se for uma discussão de pessoas que gostam uma da outra.

O Eduardo há pouco dizia que nós às vezes demoramos algum tempo a escrever, porque estamos ali a pensar na melhor forma de magoar o outro.

Sim.

Mas é chato, não é, Eduardo? É suposto estarmos a pensar como é que vamos magoar a pessoa? Não torna isto tudo muito mais perverso?

É chato magoar o outro.

É chato. Pronto, foi a expressão que eu encontrei.

Desculpa, achei graça.

Nós todos temos direito a quotas de perversidade e até a quotas de estupidez. E a verdade é que nós esgotamos estas quotas, sobretudo com as pessoas que são mais seguras para nós. Nós temos tantas expectativas, às vezes, em relação a pessoas de quem gostamos tanto, que magoá-las assim num impulso parvo e irrefletido, é uma maneira de dizer, por outras palavras: "Mas tu não podias ter magoado desta forma. Às vezes era melhor dizer isto assim." Mas as pessoas são um bocado atarameladas com as palavras, não são muito claras naquilo que dizem. E, portanto, às vezes dão uma canelada e ficam muito ciosas do seu nariz, fazem-se de vítimas de seguida. E depois veja o embrulho que isto dá quando as pessoas que entretanto já escreveram o que não deviam, fazem-se de vítimas, porque sempre há uma passagem numa mensagem qualquer a que elas se vão agarrar e depois nunca mais saímos daqui.

Eduardo, então a melhor solução para a discussão, porque elas acontecem, devemos evitá-las, mas elas acontecem por SMS. A melhor solução é pôr sempre um emoji ou não, porque pode ajudar-nos a salvar nos futuro.

Depende do emoji.

Claro, o smile, sempre um smile.

Não, nós estávamos tão nervosos naquela altura que queríamos acertar no emoji correto e acertamos ao lado. Há sempre uma desculpa mais airosa. Agora quando as palavras estão escritas, não há tremideira de mão que justifique termos dito aquilo que dissemos da forma como escrevemos.

E devemos ser mais impulsivos? Eu há pouco criei aqui este cenário. Devemos ser mais impulsivos naquilo que vamos escrevendo ou, pelo contrário, devemos respirar as 10 vezes primeiro, pensar duas vezes, a melhor forma de magoar o outro, enfim, qual é que deve ser a postura ideal?

Olha, Filipa, eu contrariando o nosso queridíssimo amigo Ricardo Conceição, acho que as discussões são ótimas.

Eu não digo que não.

Como diz a Ana Filipa, Ricardo, são chatas. Agora, é naquela, às vezes são indispensáveis. Nós andamos com tanta poeira colada à pele que de facto precisamos quase de um pretexto. Às vezes é mesmo um pretexto. Mas ainda assim, eu acho tão estranho que precisemos respirar 10 vezes para falar de um melindre ou para falar de uma ira de circunstância que nos atalhou o caminho, porque significa que a determinada altura temos até medo de nós. Ora, quando nós fazemos figuras parvas numa discussão, e todas as pessoas saudáveis já as fizeram, nós temos a noção que somos parvos, sim, mas somos só parvos, ou seja, não veio dali mal ao mundo, não fomos violentos, fomos, sobretudo, parvos. E isso é tão mais saudável quando nós nos podemos desmanchar e pôr-nos a nu, nem que seja para discutirmos, que pensar 10 vezes. Não, Ana Filipa, porque fica mal.

Mas evitar as maiúsculas.

Ai, nem te falei disso.

Sim, as maiúsculas são horríveis.

Aí é que não há volta a dar.

Não, isso é um murro no estômago, Ricardo. E depois com muitos pontos de exclamação, ou quando alguém vai buscar uma mensagem que nós escrevemos três ou quatro meses antes e responde. Não pode ser, é um quebra-cabeças.

Eduardo, aqui que ninguém nos ouve, nós se calhar temos algumas pessoas no carro a pensar: "É porque as mensagens nessas discussões depois dão muito jeito para encaminhar para os amigos a pedir opinião." Devemos criar quase conselhos de opinião.

Desculpa, mas isso é muito chato.

Nas discussões que temos por SMS ou não?

Não, uma espécie de conselho de opinião? Não.

Certo, exatamente.

Não, por favor.

Mas as pessoas fazem isso?

Não.

Há quem faça, Ricardo.

A sério?

Sim. E eu acho que uma discussão tem que ser uma coisa íntima, absolutamente íntima, entre duas pessoas que se dão ao luxo e à liberdade de discutir. É ótimo discutir, é uma espécie de andar à bulha. Vale o que vale com quanto pesa e medida. Assim nós sejamos capazes depois de lá ir e apanhar o tom. Agora quando entra por um conselho de opinião ou por dois conselhos de opinião de parte a parte, mana Filipa, nunca mais ninguém agarra a discussão, porque depois são palpites sobre palpites. "Eu se fosse a ti respondia desta maneira. Não, provavelmente é melhor desta." E a determinada altura, aquilo que era só uma birra violenta, fica um labirinto de onde nunca mais se sai. E, portanto, não, não escreva enquanto discute. Guarde a discussão para uma relação face a face e depois logo se vê.

Isso pode até levar a outra prática, que é dar ao amigo ou à amiga o telefone para ela responder.

Como dantes quando se queria escrever uma carta.

O problema é que a carta demorava uma semana, no mínimo.

Sim, Ricardo, mas a verdade é que quem nos conhece bem também percebe o nosso estilo e, portanto, ainda é mais grave que de repente, no meio de uma discussão por escrito, através de SMS, apareça lá um pedacinho em que nós intuímos que não foi escrito pela pessoa que nós estávamos a tentar magoar. E aí é pior a emenda que o soneto. E, portanto, não. Uma discussão tem que ter uma impressão digital identificável. E se for alguém do tal conselho de opinião a escrever um bocadinho da mensagem, bom, aí estragamos tudo, porque de repente corremos o risco de deitar uma relação a perder.

Portanto, conclusão: é preferível deixar o telemóvel de lado ou pelo menos não discutir por SMS, mas por telefonema.

Sim.

Por videochamada é o indicado.

Não, respirarmos um para cima do outro, por favor. É tão mais saudável, Sara. E fazermos cara de mau e tudo.

É melhor pôr o telefone a carregar durante um bocado ou enviar um GIF animado, pode ser que ganhe algum tempo.

Sim. Ou qualquer coisa do gênero: "Precisamos de ter uma conversa", que é uma maneira de dizer: "Logo quando chegarmos a casa a coisa vai ficar feia, Ricardo."

Ai, por favor, de manhã enviar essa mensagem a dizer: "Precisamos de conversar ao fim do dia." Não, isso não, não é, Eduardo?

Não, isso é cruel. Sim, claro.

Isso é que é chato.

Muito chato.

Ora bem, voltamos à conversa.

Pior que chato.

É pior que chato. Voltamos à conversa no Porquê Sim, em resposta amanhã comigo, Ana Filipa Rosa, com o Ricardo Conceição e com o Eduardo Sá. Entretanto, aproveito para recordar o nosso e-mail. Pode sempre enviar sugestões de temas, fazer perguntas. O e-mail é simples: eduardosa@oobservador.pt. Meus senhores, até amanhã. Obrigada.

Até amanhã.

Até amanhã.

Olá, eu sou a Ana Filipa Rosa. Obrigada por ouvir este podcast. Se gostou, pode sempre partilhá-lo com alguém e ouvir a Rádio Observador. Estamos online, mas também no FM, na Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4. Obrigada.