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Bem-vindos ao "Porque Sim Não é Resposta". Eu sou a Judite França, comigo está o Bruno Vieira Amaral e estamos sempre, claro, com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar de pais que dizem aos filhos: "Eu dei-te tudo." Eduardo, boa tarde. Isto é chantagem emocional?
Olá, Judite. Olá, Bruno.
Olá, Eduardo.
Olá, Judite. Não. Sabe como é? Os pais quando ficam desolados, fazem os desabafos mais espontâneos que conseguem fazer. Não medem a consequência dos seus atos, porque às vezes estão tão embrulhados naquilo que estão a sentir que escorregam, metem os pés pelas mãos, de trambolhão em trambolhão. Mas de facto, quando dizem isso, já significa quase uma rendição, como se dissessem: "Mas o que eu devia ter feito mais, que eu não consigo enxergar? Por que tu pareces estar sempre a querer um bocadinho mais para além do que eu te dou?" E de facto, às vezes os pais não se dão conta que aquilo que falta não é tanto mais uma versão sofisticada de um jogo de computador, nem outras coisas do gênero, é mais um bocadinho de mãe, um bocadinho de pai. E às vezes os filhos, que de vez em quando escorregam para alguma demagogia, é verdade, quando protestam, estão a dizer: "Mas por que eu não tive tanta mãe, tanto pai?" E de facto, nessas circunstâncias, se a mãe e o pai fossem insignificantes e de deitar fora, de certeza absoluta que os filhos não reclamariam mais mãe e mais pai, como muitas vezes nestas circunstâncias fazem. Mas sim, muitas vezes dizem: "Eu dei-te tudo o que estava ao meu alcance", o que é rigorosamente verdade, mas nem sempre o que está ao alcance dos pais é o quanto basta de que os filhos precisam.
Eduardo, essa frase dos pais: "Eu dei tudo" não é defensiva, acima de tudo? Não é o pai ou mãe a dizer que: "Bem, independentemente daquilo que não te dei, eu dei-te aquilo que conseguia dar." Mas isso também é, ao mesmo tempo, quase que não reconhecer a legitimidade dos filhos exprimirem os seus pontos de vista e comunicarem e expressarem aquilo que acham que não receberam.
Os pais, numa circunstância dessas, ficam desolados, porque, na verdade, os pais dão muitas vezes tudo aquilo que conseguem, às vezes fazem sacrifícios tremendos para conseguirem mimar os filhos com um telemóvel, uns tênis de marca e outras coisas do gênero, que em condições normais, talvez não devessem ser aquele modelo e outros quaisquer significativamente mais econômico, por hipótese. Todavia, os pais dão, de facto, o melhor que conseguem, com uma convicção tremenda. Os pais também têm a noção que não conseguem estar em todo lado ao mesmo tempo. Aquela expressão linda, que diz: "Como Deus não podia estar em todo lado ao mesmo tempo, criou a mãe", faz com que a mãe sinta ainda mais uma pressão sobre tudo isto. E as mães desdobram-se. Os pais trabalham o que podem e o que não podem para garantir condições. E, portanto, quando um filho faz uma observação destas, não está a dizer: "Pai, mãe, não vos queria dizer, mas vocês fizeram tudo mal." Muito longe disso. Por mais que os pais fiquem tão assustados, como se, no fundo, tivessem falhado em toda a linha, que de facto é importante estarmos a começar. Isso quer dizer que contradição simultânea significa: "Sim, não tenho dúvidas nenhumas que vocês deram tudo aquilo que foram capazes e só porque estiveram um bocadinho distraídos ou não foram capazes de estar tão atentos é que não deram mais. Mas porque eu reconheço que têm capacidade para lá chegar é que eu estou a dizer: façam lá mais um esforço." E os pais muitas vezes não percebem isso e, portanto, reagem como se, no fundo, ficassem ali na versão de vítimas. "Não, eu não posso suportar uma coisa dessas." E depois os filhos respondem com aquele clássico: "Eu sei que não posso dizer nada e temos tudo estrangado."
É normal.
Desculpa, Bruno. Força.
É normal os filhos dizerem aos pais que lhes faltou alguma coisa, que não receberam tudo, e é normal também que os pais não vejam aquilo que falta aos filhos, porque se concentraram em dar-lhes outras coisas, aquilo que eles podiam dar. Haverá aqui uma divergência entre o material, o lado material e o lado emocional. Os filhos são mais rápidos a recriminar pela ausência do tempo, ausência física também dos pais, e os pais estão mais concentrados em reclamar créditos por lhes terem dado o conforto e as condições necessárias para eles crescerem e terem uma boa educação.
Vamos lá ver. Quem é mãe ou pai sabe que por mais que dê, nunca dá tudo. Felizmente, por outro lado. Até porque nós estamos muitas vezes atorpelados por não sei quantas coisas que nos preenchem a cabeça, e mais, porque muitas vezes Baralhamos na vida dos nossos filhos as nossas próprias histórias ou às vezes até as historietas, que não são assim tão importantes, mas que depois se enredam todas neles. E, portanto, às vezes as coisas não são tão simples como nós gostávamos que elas fossem. Todavia, é normal que os filhos digam isto aos pais e é normal que os pais digam: "Mas o que é isto?" O que é que no fundo os filhos estão a dizer? Os filhos não valorizam, sobretudo, as questões materiais, sinceramente. Às vezes podem argumentar de uma forma batuteira: "Faltou-me isto ou faltou aquilo", mas não é isso o essencial. Os filhos querem sempre mais e melhor mãe e mais e melhor pai. E nessas circunstâncias, no fundo, o que os filhos estão a dizer é mais ou menos assim: "Eu não tenho dúvidas que me deste todo o teu amor, mas nem sempre foste capaz de perceber a password exata em cada momento em que o teu amor se tinha que adaptar às minhas necessidades." E é verdade que não conseguimos sempre fazer isso, por variadíssimos motivos. Mas calma, eu acho que quando nós somos capazes de protestar em relação a uma mãe ou em relação a um pai, significa: "Sim, não me deram tudo, mas sim, eu reconheço que vocês têm a capacidade de perceberes que eu posso protestar. Vocês deram-me o privilégio de poder protestar. Se vocês fossem autoritários, tirânicos ou às vezes frágeis, eu nem sequer teria coragem para protestar." E agora vai lá, apanha a bola e faz aquilo que a mãe ou um pai faz, que é, de repente: "Bom, vamos lá fazer um ato de contrição e vamos lá emendar a mão e aprender a crescer com este cidadão que às vezes andou ao meu colo, eu andei a mudar fraldas, não pesava e de repente está-me a interpelar até ao fundo da alma e eu fico aqui numa tremideira como se não fizesse nada direito", quando, meu Deus, as mães e os pais fazem toneladas de coisas bem feitas, mas fazem tantas que não precisam de dar tudo. Precisam só de dar o essencial.
Os filhos devem mostrar gratidão, não para com coisas materiais, mas para com o sacrifício que é observável naquilo que os pais fazem para que ele tenha tudo ou, pelo menos, para que ele tenha o essencial.
Os filhos manifestam sempre gratidão. E eu sublinho sempre. Quando é que muitas vezes isso parece tudo muito enviesado? Quando uma mãe e um pai dão aquilo que são capazes convictamente de dar, mas ao mesmo tempo parecem educar como quem pede permanentemente desculpa. Desculpa por não ter feito aquilo, desculpa por não ter herdado seja o que for. E às vezes os filhos, quando sentem os pais permanentemente a pedir desculpa, ficam muito magoados, porque a intenção dos pais não é passarem a culpa para cima dos filhos. Mas de facto é muito complicado quando nós somos filhos e sentimos uma mãe e um pai sempre culpabilizáveis, porque sem que eles o digam, nós sentimos qualquer coisa como: "Ok, então eu chego à conclusão que tudo aquilo que eu sou não chega para que esta aragem de culpa se dissipe de cima da minha mãe e de cima do meu pai. Portanto, eles estão a passar a culpa quando eu não me sinto culpado." E aqui, de facto, depois há comunicações muito ao contrário umas das outras ou muito ao contrário daquilo que deviam ser. Mas são gratos, inevitavelmente gratos. Agora, repare-se, os filhos às vezes também são muito pequeninos e às vezes também são muito inseguros. Não vale a pena nós termos toda a gratidão explícita num gesto de um filho quando ele tem 11 ou 12 anos, ou 13, ou 14, e está naqueles períodos em que o mundo parece todo virado do avesso. A gratidão é um gesto que se consolida pela vida afora. Portanto, os pais que não tenham a ilusão de que os filhos andam distraídos, porque eles têm uma noção milimétrica de tudo aquilo que os pais dão e são inequivocamente gratos, tão gratos, que aquilo que os filhos mais tentam fazer é copiar o melhor que conseguem as qualidades dos pais. Não fossem eles gratos e seguramente jamais tentariam fazer isso.
Eduardo, nenhum pai consegue dar tudo e os filhos também não podem ser absolutamente gratos, não há uma gratidão absoluta. Às vezes os pais esperam essa gratidão absoluta dos filhos, que é uma gratidão que também não questiona, que não põe em causa certas coisas que não funcionaram tão bem na perspectiva dos filhos.
Bruno, eu tenho a ideia que a gratidão é como o contraditório no sentido de justiça. Uma gratidão que não aguenta uma interpelação, não é uma gratidão, é um sentimento de dívida, é uma coisa diferente. E eu gosto muito que os filhos, de vez em quando, chamem a atenção dos pais daquilo que eles podem melhorar, porque os pais crescem com isso. Aliás, todos nós crescemos com isso. E portanto, nós começamos a crescer quando temos um filho muito pequenininho a chorar e nós a arrancar os cabelos a perguntar-nos por que ele está a chorar. Se está seco, não tem cólicas, mamou agora, o que eu vou fazer? E os filhos passam a vida a pôr-nos problemas, que é a função indispensável de um filho. Isso não é incompatível com a gratidão. Pelo contrário, a gratidão permite que nós queiramos sempre mais de quem amamos. E portanto, nós, quando somos gratos, somos tudo menos aqueles cãezinhos que antes existiam nos automóveis, que diziam que sim a tudo. Não, a gratidão começa quando somos capazes de dizer que não. Já viu, é tão engraçado, porque significa que eu amo loucamente aquela pessoa a quem eu estou a dizer que não, tenho tanta convicção que ela me ama, que não se parte com o meu não, não tenho dúvidas que sabe ouvir os nãos, de maneira a depois construirmos um sim que seja compatível para os dois e, portanto, não é quase sinônimo de gratidão. E às vezes nós viramos as coisas ao contrário, porque confundimos gratidão com dívida e os filhos são gratos. Eu anseio para que não haja filhos com sentimentos de dívida, porque aí sim, se calhar crescem com uma tonelada de peso em cima e isso não faz bem a ninguém, nem à relação que eles têm com os pais, claro.
Até porque sentimentos de dívida resultam em sentimentos de culpa, e portanto isso é sempre mau sinal. Eduardo, bom sinal é que nós estamos cá amanhã, outra vez.
Que bom.
Estamos sempre disponíveis também em podcast, nas plataformas habituais. Qualquer coisa é só escrever para eduardosá@observador.pt. Estamos sempre muito atentos. O Eduardo está sempre muito atento a esse e-mail. Quanto a nós, então até amanhã, Eduardo. Obrigada e um abraço.
Um abraço grande para os dois.
Até amanhã, Eduardo.
Até amanhã.