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Boa tarde, bem-vindos a mais uma edição do "Porque Sim, Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Eu sou o Bruno Vieira Amaral. Hoje vamos falar da diferença entre mentira e pós-verdade. Pós-verdade é um conceito relativamente recente, mas se calhar sempre existiu, embora com outros nomes. Mas no nosso mundo, a pós-verdade é uma realidade em que os factos objetivos e a verdade factual têm, de facto, menos influência na formação da opinião pública do que apelos às emoções e às crenças pessoais. Ou seja, aquilo em que acreditamos às vezes tem mais força e convence-nos mais do que aquilo que existe. Eduardo, há aqui diferenças significativas entre uma mentira e este conceito contemporâneo de pós-verdade? E boa tarde.
Olá, boa tarde. Eu acho que sim. Eu acho este conceito de pós-verdade muito mais do que escorregadio, verdadeiramente perverso. Porque é como se, no fundo, nos dessem a entender que aquilo que nós vimos, aquilo que nós, de alguma forma, interpretamos, e essas interpretações, aliás, são partilhadas por muitas pessoas, como se fosse suscetível de um conjunto de leituras que nos levam a entender, seja o que for que se passe, as tragédias da humanidade, as derivas da política, os perfis de personalidade de muitas personalidades públicas, chamemos-lhes assim, como se, no fundo, nós vivêssemos cercados de equívocos trazidos pelas nossas interpretações. E eu não acho que seja por acaso que, de repente, muito até por influência da psicologia, pra minha tristeza, se tenha passado a falar de narrativas como se, no fundo, a realidade fosse, o que fosse que ela nos trouxesse, um conjunto de histórias, pouco mais do que histórias, sendo que, todavia, as histórias, já agora, são uma competência inacreditavelmente fantástica da natureza humana e muito mais sérias do que a ideia de narrativa dá a entender. Os políticos adotaram logo a ideia de narrativa como quem diz: "Vamos contar uma historieta". É um pouco mais isso, porque com historietas embrulhamos a realidade e aquilo que as pessoas veem deixa de ser verdade, passa a ser envolvido com interpretações fantasiosas, sejam elas o que forem, como se, no fundo, qualquer interpretação fantasiosa tivesse tanta legitimidade como uma interpretação séria em nome da verdade. E, portanto, nessas circunstâncias, eu acho que grande parte das vezes esta ideia de pós-verdade é muito amiga da falsidade, que é uma coisa pior do que mentir. É uma forma de manipular com o intuito de confundir e tudo o contrário daquilo que, no fundo, a ideia de verdade nos leva a perceber.
É porque se criou aquela ideia de que os factos não são o mais importante, o mais importante são as interpretações. Aliás, bateu-se a diferença ou deu-se até preferência às interpretações relativamente aos factos. E isto acaba por não ser apenas uma leitura da realidade ou uma narrativa em relação aos factos, acaba por ser mesmo uma distorção desses factos.
Sim. E o mundo em que vivemos não deixa de ser fantástico em muitos aspectos e inquietante noutros. E seja qual for o órgão de comunicação, particularmente na televisão, há um comboio de comentadores. E os comentadores introduzem sempre, consoante os seus pontos de vista pessoais, tantas nuances, porventura pra garantirem o comentário a que estão vinculados, que de repente, o palpável, aquilo que nós estamos a ver, parece um equívoco fundamental e isso leva a que nós vivamos num mundo esquisito, mesmo em termos políticos, porque eu acho que às vezes os políticos não se apercebem da sensibilidade, da clarividência, da sensatez das pessoas e da forma como elas, por mais manipuláveis que possam parecer, são tão hábeis a perceber o que é verdade e aquilo que não é, que eu gostava muito que um dia, ao contrário, às vezes, daquilo que se vai assumindo, se pudessem ganhar a decência falando verdade, porque o mundo ficaria tão mais simples e tão mais luminoso, que de repente a política ficava muito mais credível, como todos nós acho eu, anseamos que seja.
Mas não será que, não só na política, mas na vida em geral, a mentira não é mais sedutora do que a verdade?
É uma espécie de Photoshop com uso verdadeiramente catártico, que faz com que cada particularidade da nossa vida, mesmo aquelas que não são mais ilegíveis como coisas bonitas, de repente fiquem embrulhadas num tom mate que esbate muitas das coisas feias que de alguma forma transmitem. Agora, o que eu gostava é que nós nunca perdêssemos de vista que quando nós mentimos aos outros, temos um sentimento de vitória mais ou menos imediato, quando eles são mais crédulos em relação àquilo que nós dizemos. Mas logo a seguir não percebemos que depois nos vamos iludindo a nós a um tal nível, que a determinada altura deixamos de saber quem somos e ficamos numa espécie de meio da ponte sem percebermos o que queremos e para onde vamos. E, portanto, não percebo o que se ganha, mas reconheço que é uma prática comum ao longo da humanidade, não é uma descoberta recente.
Acaba por ter diferentes nomes. Fala-se muito na pós-verdade, no campo da política, sobretudo no campo da política, mas até que ponto é que esta ideia já se infiltrou nas nossas relações pessoais?
Como assim?
Na medida em que há pouco estávamos a falar de mentir e de usar muitas vezes, por exemplo, nas redes sociais, usarmos filtros, formas de enganar, formas de nos apresentarmos aos outros que podem induzir em erro ou não revelar toda a verdade acerca do que nós somos, mas apresentamos essa fachada e isso pode ser utilizado de algum modo para manipular os outros, para não nos revelarmos por completo a quem é mais próximo de nós?
Sim. Eu acho que às vezes, no discurso de todos os dias, utilizamos expressões que são muito elucidativas em relação a isso. "Eu vou ser muito sincero." Ui, obrigado. Parece que no resto do tempo a sinceridade anda mais ou menos à vista ou: "Vamos falar sem filtros." Ah, sim.
É outra expressão. Normalmente quem diz isso depois vem sempre com uma camada de filtros bastante espessa.
Sim. É um bocadinho esquizofrênico o mundo em que nós vivemos, porque de repente com estes filtros todos, parece que andamos sempre a falar ao contrário daquilo que supostamente devíamos dizer. Falarmos verdade é talvez aquilo que de mais apelativo nos traz às pessoas. E eu acho sinceramente que a ideia que temos de felicidade, que não é aquela coisa que se esgota no momento. Não, é sinônimo de verdade. É por isso que eu acho que os sábios são pessoas tranquilas, porque não sentem necessidade de andar a fazer piruetas e a fazer de conta que são pessoas muito resolvidas e que se manifestam fundamentalmente em função das suas dúvidas, das suas perplexidades, das suas convicções, mas que o fazem de uma forma tão transparente que quando comunicam, nos cativam unicamente porque eles são capazes da verdade, que muitas vezes nós não acedemos. E é pena, porque nós não mentimos compulsivamente, não somos é tão verdadeiros quanto podíamos ser.
Estamos a tornar-nos especialistas em disfarçar, em de algum modo apresentar uma imagem que não corresponde exatamente à realidade. Nem estou a falar de nós próprios, às vezes até das nossas relações, de projetar as nossas relações para o exterior de um modo que não corresponde exatamente à realidade.
Branco, eu acho que sim, mas eu às vezes não acho que seja só para o exterior.
Até para nós próprios.
Sim, mesmo nas relações de casal, eu sinto que é tão estranho, que nem sempre as pessoas conseguem ter a transparência que era suposto que tivessem junto de alguém com quem dividem o ar, dividem a vida e dividem projetos, filhos, etc. Mas o que eu gostava que ficasse realmente claro é que a história, aquela história do rei que ia nu, não é um best-seller que foi publicado no ano passado.
É antigo.
Isto tem uma história e nós temos um pouco esta ideia de que o Photoshop veio com as redes sociais. Há tantas formas de nós nos iludirmos. A questão que se coloca é: podemos nós ser felizes vivendo a iludir e a iludirmo-nos? Eu acho que não.
Muito bem, Eduardo, ficou aqui umas pistas de reflexão sobre este conceito de pós-verdade e também de como ele se infiltra na nossa vida cotidiana, sai do campo da política pra nossa vida cotidiana. Chegamos assim ao fim de mais um "Porque sim, não é respostas". Estamos sempre em podcast, nas plataformas habituais, no site observador.pt também e pode enviar-nos questões através do e-mail eduardosa@observador.pt. Eduardo, muito obrigado, um grande abraço e até amanhã.
Até amanhã.