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Bem-vindos ao "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar de encontrar o amor verdadeiro. Dizem que a probabilidade disso acontecer está entre os 3% e os 5%. Será que isso quer dizer que o amor é raro ou que o alinhamento é que talvez seja raro? Olá, Eduardo. O amor é uma questão de sorte e estatística ou continua a ser, acima de tudo, uma escolha?
Olá, Judite. Eu acho que é, acima de tudo, uma escolha. E já agora, uma escolha que exige trabalho, humildade, muita dedicação e esse sentimento de que, no fundo, sempre que nós damos um passo e estamos perto de conquistar a pessoa que é importante pra nós, temos que trabalhar mais um bocadinho a seguir para que consigamos merecê-la. Portanto, eu acho que é muito difícil encontrarmos a pessoa certa. Longe de mim dizer que é impossível, muito longe de subscrever essa estatística. Claro que sim, mas o que é importante é que eu acho que ainda mais precioso do que nós descobrirmos a pessoa, é depois conseguirmos manter a dedicação e o amor que ela nos dá e vice-versa, porque aí, sim, está, porventura, o maior desafio de todos.
Mas quando se diz que a probabilidade de encontrar o amor verdadeiro é baixa, não vamos olhar aqui a esta percentagem, isto de alguma forma convida-nos a ser realistas?
Não, eu acho que nos convida a desistir, quase. Não é?
Pois.
Dito dessa maneira.
Exato.
É quase como se nos dissessem nas entrelinhas: "Não tenham ilusões, o amor das vossas vidas não existe." E eu acho que isto arrisca-se a ser um bocadinho batoteiro. Se calhar, as pessoas que o dizem de uma forma muito enfática, são aquelas que, por outras palavras, acabam por dizer qualquer coisa como: "Eu, que sou eu, não encontrei, agora hastes de ser tu que vais lá chegar." Eu acho que às vezes se cria a ideia que nós andamos à procura de pessoas perfeitas, quando nós temos a convicção de que é um ou outro, ou variadíssimos aspectos numa pessoa de quem queiramos vir a gostar, que são indispensáveis pra nós. E temos sempre alguém ao nosso lado a zurzir um bocadinho e a dizer: "Andamos a ver muitos filmes, as pessoas perfeitas não existem." O que não é verdade, nós não andamos à procura de pessoas perfeitas. À medida que temos uma experiência de vida, vamos construindo uma ideia do que é importante ter na pessoa que esteja ao nosso lado, mas é evidente que ela se calhar com algumas dessas características, e seguramente com muitas que nós nem sequer tínhamos imaginado, e que só porque ela existe e se tornou muito importante pra nós, de repente se tornam indispensáveis. E, portanto, a nossa capacidade para nos surpreendermos é muito grande. Agora, eu acho que às vezes nós somos um bocadinho medricas. Isto é, faz lembrar os adolescentes quando dizem que não se enamoram, porque não têm a certeza de que aquela é a pessoa da sua vida. E eu acho que é muito importante termos a humildade de perceber que a pessoa da nossa vida é alguém que nós vamos descobrindo à medida que vamos ficando mais velhos e ela nos vai surpreendendo, e de cada vez que olhamos pra ela sentimos que é mais bonita. Mas isto de querermos, no fundo, ter o último capítulo antes de nos lançarmos no prefácio de uma história, acaba por ser, às vezes, uma medrica de nós imaginarmos qualquer coisa como se o amor da nossa vida não vai interconnosco, ele não existe. Como se estivéssemos sempre à espera que numa esquina qualquer, quando deixamos cair alguma coisa ao chão e alguém nos ajuda, de repente descobrimos a pessoa, como se, no fundo, estivéssemos sempre à espera de um filme, quando as coisas quando são vividas, são até muito mais bonitas que nos filmes.
Quando se fala de probabilidades, parece que falamos quase como se o amor fosse uma espécie de lotaria. Até que ponto é que isto desresponsabiliza as pessoas pelas escolhas que fazem nas relações, podendo apontar à sorte ou ao azar?
Judite, eu acho que às vezes a sorte e o azar também existem. Por quê? Porque nós vimos o mundo à altura dos nossos olhos, porque não nos passa pela cabeça que haja pessoas que tenham esta ou aquela dificuldade, só que às vezes tenham um nível de alguma perturbação que não tem rigorosamente nada a ver conosco. E, portanto, também precisamos de nos magoar. É um pouco como quando aprendemos a correr, para percebermos que sentido é que tem uma ou outra escolha que venhamos a fazer. Mas quando pomos as coisas dessa forma, realmente, parece que estamos a remeter pra um Cupido qualquer uma responsabilidade que é nossa. É uma escolha nossa. A maneira como nós nos damos, aquilo que de alguma forma entendemos exigir da outra pessoa. E essa escolha não é uma escolha que se circunscreva a um período até nós dizermos Sim a esta pessoa ou ela nos dizer: "Sim, eu quero ficar contigo." É uma escolha de todos os dias e, portanto, eu não me canso de repetir que quanto mais nós namoramos, mais nos casamos, quanto mais desistimos de namorar, mais nos divorciamos. Hoje um bocadinho, amanhã outro bocadinho. Isto é tão mais fácil do que às vezes pode parecer.
Se aceitarmos que a probabilidade é baixa, significa que só encontramos um grande amor na vida ou podemos viver vários amores verdadeiros em momentos diferentes?
Podemos, Edite. Podemos, porque entretanto crescemos, podemos porque entretanto aprendemos a discernir um conjunto de qualidades que quando éramos mais jovens, às vezes nem imaginávamos que fossem possíveis. Podemos, porque às vezes nós temos uma configuração de um amor que começa obrigatoriamente numa paixão, com borboletas na barriga e aquelas coisas todas que às vezes as pessoas descrevem. E não é assim, uma relação tem uma história, uma configuração completamente diferente à medida que nós vamos ficando crescidos e, portanto, não estamos condenados, se é que é uma condenação, a ter um grande amor na nossa vida. Às vezes, é à medida que nós vamos justamente experimentando o amor, é que vamos percebendo o que podemos querer dele e somos surpreendidos, em muitos momentos, pela vida e, portanto, resta que nós tenhamos a humildade de interpretar os sinais e de não fugirmos deles.
E é mais saudável pensar que há uma pessoa certa algures ou que há várias com quem podemos construir o amor assim tão profundo?
Eu acho que não há pessoas certas. Quando nós andamos sempre à procura de pessoas certas, parece que andamos a configurar a partir de um retrato-robô, como se fosse uma espécie de reconhecimento que fazemos de uma maneira dedicada e mais ou menos incansável. Não há. Há, de facto, um conjunto de aspetos que nós entendemos que são muito preciosos. Não é uma alma gêmea, não é o nosso reflexo. Quantas vezes o amor da nossa vida não começou com uma embirraçãozinha que fomos tendo por aquela pessoa, até que alguém que gosta de nós nos diz: "Tu tens a certeza que, afinal, em vez de ser embirração, não é mesmo uma certa atração que tens por esta pessoa?" E, portanto, não, não há uma pessoa certa. Agora, as pessoas depois aprendem umas com as outras, crescem umas com as outras e aquilo que às vezes podia não ser uma perspectiva de um grande amor, à medida que nós ficamos mais experimentados, mais sensatos e mais capazes de ouvir, de sentir, com outra sensibilidade muito mais educada, menos grosseira, de repente, corre o risco de se transformar na pessoa certa, muito tempo depois de nós imaginarmos que ela, se calhar, era uma espécie de erro de casting na nossa vida.
Só mesmo para terminar. A pessoa certa não existe, mas o momento certo existe?
Edite, às vezes existe, sim. Existe porque, veja, às vezes há um flash que se faz e nós temos a noção que é naquele momento que nós temos que dar um sinal, dizer alguma coisa, lutar por uma intuição que entretanto surgiu dentro de nós e, portanto, sim. No Brasil costuma-se dizer que quando um cavalo encilhado passa por nós, se entendemos que o devemos montar, devemos fazê-lo, porque ele pode não passar por nós segunda vez. Portanto, o momento certo é isto, é nós sentirmos que, de repente, se gerou ali qualquer coisa de tão inimitável, que desperdiçar tudo isso e deixá-lo envolvido por uma bruma pode ser uma perda irreparável para toda a vida.
É, portanto, uma questão de probabilidade mais do que propriamente uma certeza.
Sim, mas às vezes também é uma questão de fé, não é? Nós acreditarmos que se dermos voltas e voltas, chegamos lá e aí, se calhar, as probabilidades aumentam muito mais do que aquilo que os estudos à primeira vista dão a entender.
É isso, não pensem em estudos nestas alturas. Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.
E até amanhã, Edite.