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Bem-vindos ao "Porque Sim Não É Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Eu sou a Judite França e hoje vamos falar de resoluções de Ano Novo, claro. Estamos no dia para pensar nisso com muito cuidado. Olá, Eduardo. Vamos começar pelo princípio: quantas resoluções devemos fazer para ter a certeza que cumprimos? Isto de fazer 12, depois já se sabe que é demais, não é?
Eu acho que é demais, ainda por cima há rituais que são quase acrobáticos, como fazer cada uma pausadamente em cima de uma cadeira, etc.
Com uma nota de dinheiro na mão, não é?
Um ritual tão complexo que eu acho que depois, certamente por nós não respeitarmos em pormenor, acabamos por não ser tão bafentados, por sorte, quanto devíamos. Seja como for, eu tenho sempre muitas dúvidas em relação a tudo isso. Acho que vale pelo ritual e eu gostava que não valesse pelo ritual. Gostava que nós aproveitássemos estes momentos, como outros quaisquer na nossa vida, e nos propuséssemos fazer um balanço, já agora dá jeito, e depois de fazermos um balanço, perguntarmos o que é que teria mesmo graça se nós fossemos fazendo pela vida de diversas maneiras, alterando hoje algumas pequenas coisas, amanhã outras mais significativas, e assim por diante. Porque eu tenho a ideia que se nós fizermos dessa forma, as coisas ficam muito mais sérias e nessas circunstâncias podem tornar-se exequíveis. Eu tenho sempre a ideia que a vida não se muda de um dia para o outro, nem de fio a pavio, mas também tenho a ideia que se nós formos lá humildemente por pequenas mudanças, hoje umas, amanhã outras, e quando nos demos conta, as coisas vão acontecendo e vão acontecendo a nosso favor e, de facto, a vida pode mudar. Porque nós quando fazemos essas resoluções, temos sempre uma ideia que me parece um bocadinho de escorregadia, que as coisas convêm como ritual, mas nunca devíamos levá-las tão a sério, porque só valem pela encenação e não valem pelos ganhos que vêm daí muito a sério. Isso é que me parece mal.
Precisamos de uma data simbólica para querer mudar ou para decidir mudar, é isso?
Às vezes é, Judite. Às vezes, à boleia de um aniversário, fazemos isso, à boleia de um susto de saúde, quantas vezes nós fazemos isso. E portanto, sim, às vezes aproveitamos essa onda e muito pequeninos, com toda a humildade que isso pode ter, porque o desejo é isso mesmo, não é propriamente uma conquista, é um caminho que se faz passo a passo e à medida que se faz, se vai conquistando. Mas sim, às vezes nós precisamos disso. Evidentemente que pode ser às 14h de um dia qualquer, quando nos apetece, qual e rigorosamente o mesmo. Mas é um bocadinho como nos terrenos, às vezes precisa-se de um marco, de forma a dizermos: "A partir daqui vai ser desta forma". E portanto, um Ano Novo pode ser um marco magnífico para se levar muito a sério e para que a partir daí, nós possamos mudar um conjunto de coisas e elas podem ser mudadas. Volto a dizer, nós temos sempre a ideia que não é para levar a sério, porque as coisas dão um trabalho tremendo mudar. É verdade que dão, mas também é verdade que as mudanças se fazem de pequeninas coisas que todas juntas depois têm sua graça e se tornam exequíveis.
Mas temos desejos e resoluções que temos muita dificuldade em cumprir. Por quê? Depois repetimos muitas vezes os mesmos, não é?
Porque somos batoteiros ou às vezes somos tão generalistas que nos limitamos a dizer, e limitar é uma maneira de dizer, véio Deus, que só queremos ser felizes e já aí, se calhar, vale por 12 desejos. Mas de facto, às vezes ficamos por: "eu gostava muito de..." e gostava é tão no pretérito que nem sequer é exequível, e outras coisas desse tipo. E portanto, quando tudo se coloca dessa forma, nós às vezes temos desejos tão magníficos, tão grandiosos, que é realmente uma forma batoteira de nós pormos as coisas, de maneira a que elas não se concretizem, porque se fossem palpáveis, realizáveis, se calhar nós levaríamos cada um deles muito a sério.
E faz sentido fazer resoluções públicas ou isso transforma-se numa obrigação?
Olha, Judite, eu acho que-
Aquelas resoluções como deixar de fumar e avisar toda a gente.
Eu gosto, sabe por quê? Porque no fundo é um compromisso com várias testemunhas. E quando nós temos várias testemunhas, sentimo-nos sempre mais embaraçados de não os levar tão a sério. Isso eu gosto. Por outro lado, eu também acho que quando nós pedimos um desejo, é bonita a ideia. Isso é muito bonito, porque quando nós o fazemos a pessoas que são muito importantes para nós, a password parece mais ou menos clara. Se a pessoa nos conhecer até ao fundo da alma, é capaz de adivinhar os nossos desejos e adivinhando, uau Isso fica muito sério, porque de cada vez que essa pessoa adivinha um desajo, isso é uma prova de vida da preciosidade, feitas as contas, que nós somos para essa pessoa. E isso é bonito, sem dúvida nenhuma. Mas os outros desajos, aqueles que são públicos, eu talvez goste mais. Primeiro, porque nós nos empenhamos a trabalhar para eles e, em segundo lugar, trazemos uma mão cheia de testemunhas que, no fundo, funcionam como uma entidade reguladora. E de cada vez que nós estivermos a escorregar devagarinho para não as cumprir, há de haver alguém que se chega à frente e diz: "Então, como é que é? Brincamos?" Isso pode ser um auxílio importante.
A melhor resolução pode ser não prometer nada?
Não, eu também não acho que seja, Tita, porque senão faz lembrar os adolescentes quando dizem: "Eu vou tentar", e dizem-no com uma convicção imensa, mas depois o vou tentar dos adolescentes falta-lhes sempre um bocadinho, que é: "Eu vou tentar, só não prometo se consigo." E portanto, ficam sempre a meio caminho, que é uma solução hábil e inteligente. Não, eu acho que quando nos propomos mudar, eu acho muito importante que prometamos e que isso seja um compromisso com o seu quê de solenidade, porque a verdade é que depois de conseguirmos, Tita, nós sentimo-nos de alma tão cheia. Tão capazes de tudo o resto, que às vezes eu acho que é por causa disso que não prometemos mais vezes, porque depois de nós sabermos qual é o caminho para o tesouro, evidentemente, que depois de conseguirmos uma mudança, só não conseguimos aquelas que, feitas as contas, não nos propomos levar a eito pelo dia diante.
Mas é preciso ser específico, não é? Falou há pouco do quero ser feliz. Isso é uma resolução que é difícil de ser exequível porque não há passos. Quais são os passos a seguir, não é?
Pois, é tão vaga. Mas eu já acho graça àquelas pessoas que dizem: "Bom, eu vou propor-me." Depois desta altura. "Eu proponho-me perder dois quilos no próximo mês e proponho-me..." E eu acho isso bonito, é quase um jogo, mas é um jogo de cumplicidades. Está a ver? E quando nós trazemos as pessoas que nos dizem algumas coisas muito importantes para o pé de nós, aí, sim, nós estamos a criar as condições para lá ir, porque quem é que se transforma sozinho? Não, transformamo-nos para alguém, transformamo-nos por alguém e transformamo-nos para merecer a confiança de alguém. E, portanto, nessas circunstâncias, quanto mais preciosas forem as testemunhas, mais sério o compromisso.
Bom, chegamos ao fim deste ano e aquilo que eu tenho para lhe desejar é um excelente 2026 e boas entradas.
Com tudo, tudo, tudo, tudo bom, tudo o que pode ter e mais ainda para si, para os nossos ouvintes, para a equipa da rádio e do jornal "Observador". Porque todos juntos temos tido experiências muito bonitas e só nos deixa gratos.
É verdade. Que 2026 continue a ser assim. Eduardo, um grande abraço. Obrigada e encontramo-nos no dia dois, na sexta-feira.
Um bom ano, Tita.
Um bom ano.