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Boa tarde, bem-vindos a mais uma edição do "Porque Sim, Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Eu sou o Bruno Vieira Amaral. Foram publicadas as turmas para o novo ano letivo. A ideia hoje, Eduardo, boa tarde, é percebermos aqui como é que funcionam enquanto instrumento pedagógico.

Olá, Bruno, boa tarde. Bruno, eu receio que, às vezes, não funcionem como instrumento pedagógico.

Mas a ideia é essa.

Devia ser, não é? Porque há um aspecto na construção das turmas que me preocupa invariavelmente. E eu sei que isto é um assunto sensível, mas eu também sei que não estou a criar uma realidade que não corresponda à verdade. Estou a falar, em particular, das turmas A, das diversas escolas.

Ó Eduardo, deixe-me só interromper, porque isto é uma curiosidade. Noutro dia estava a relembrar com a minha mulher os nossos tempos na escola preparatória e secundária, e a relembrar precisamente essa diferença que havia entre as turmas e as tais turmas A e B, que às vezes eram as turmas topo de gama.

Pois, que é uma coisa que a mim me preocupa. Eu costumo, às vezes, ser um bocadinho cínico e dizer que provavelmente é coincidência, mas há uma incidência de apelidos com pedigree nessas turmas que são fora de lugar. Apelidos que têm a ver com algumas pessoas mais diferenciadas ou supostamente mais diferenciadas num contexto social. Os filhos dos professores andam mais por lá do que por outras turmas. E logo aqui, eu acho que é uma batice, que não consigo entender. E não consigo entender por quê? Porque a estas turmas não são atribuídos todos os professores ou quaisquer professores. São atribuídos a alguns professores, eles próprios também mais diferenciados ou supostamente mais adequados àquele perfil de alunos, o que faz logo à cabeça com que nós passemos a dizer que as oportunidades são iguais para todos, que os alunos têm, no fundo, na escola, um verdadeiro elevador social, só que há um elevador que começa no primeiro e o outro começa no menos um.

Ou que anda mais depressa.

Ou que anda mais depressa. E portanto, logo aqui nós estamos, de facto, a se batizar. E depois há outra questão que a mim me preocupa particularmente, que é a maneira como as turmas, no fundo, se vão perpetuando. Ou seja, há muitos alunos que começam num determinado grupo, ainda no jardim de infância, sobretudo nas escolas que têm essa continuidade para o ensino obrigatório, e estas turmas, em muitas circunstâncias, numa percentagem muito alta de alunos, mantêm-se mais ou menos uniformes até ao nono ano.

E essa estabilidade faz muita diferença?

Eu acho que é verdadeiramente prejudicial, porque depois nas turmas acontece como nas famílias. Nas famílias há oficialmente o despachado, oficialmente o insolente, oficialmente o mandrião, oficialmente o relações públicas, oficialmente o tímido, é tudo oficialmente. E depois, isto cola-se à pele, e cola-se de tal forma que a maneira como os miúdos se vão relacionando uns com os outros e se vão relacionando com os professores de maneira diferente, acaba por ficar depois demasiado rígida e não pode ser. E, portanto, eu acho que os pais também têm este papel, que é muito sensato na organização das turmas, de chamar a atenção das escolas que não vem mal ao mundo se no final do ano letivo, se partir uma turma em três ou em quatro, baralha-se e volta-se a dar, e que o professor de Matemática num determinado ano a seguir já não seja professor de Matemática dessa turma, que ele diz Matemática, Português, História, etc. De maneira que a mudança obrigue, inevitavelmente, os nossos filhos a readaptarem-se a novas realidades, a conquistarem novos espaços, a fazerem pela vida de uma maneira que objetivamente lhes traga mais valias, porque senão assim, nós desde a constituição das turmas estamos a enviesar imediatamente o ensino. Depois admiramo-nos que umas turmas tenham sucesso e outras não.

Mas essas mudanças de turma ou na composição das turmas não poderiam provocar instabilidade? Não é a pensar na estabilidade que muitas vezes se tomam essas decisões, com esses efeitos que depois podem ser contraproducentes.

Sabe por quê? Porque claro que trazem sempre alguma instabilidade. Note, quando os nossos filhos estão prestes a regressar às aulas, eles começam com algum nervoso miudinho, que é bom. É bem a prova de que, no fundo, a escola traz meia dúzia de surpresas de que eles não estão à espera, começando pelos novos professores Traz um, dois, três alunos, na melhor das hipóteses, dois, três colegas diferentes em relação aos quais eles têm uma curiosidade particular e traz sempre uma questão que às vezes os pais não se dão conta que é: "quem me garante que os meus amigos do ano letivo passado se lembram de mim, continuam a gostar de mim e a fazer questão de ser meus amigos?" Mas à parte disto, claro que traz alguma instabilidade, mas alguma instabilidade no primeiro mês ou no segundo, não significa, no médio prazo, chegados ali a janeiro ou a fevereiro, que isto não se traduza em mais valias. Sendo certo que a vida não é isto, a vida não é fazermos parte de um grupo e mantermo-nos nele interminavelmente. Não. Quanto mais abertos à mudança, mais eles têm que puxar pelos seus recursos e obviamente crescer com eles. E, portanto, alguma instabilidadezinha que eles possam ter, é um fator de crescimento, não é necessariamente uma turbulência que os prejudique em diversos níveis, nomeadamente a nível dos desempenhos escolares. Em termos sociais, não os prejudica, só os valoriza.

A uma composição demasiado rígida, demasiado estável das turmas, não tem de se opor uma composição completamente aleatória. Isto pode ser pensado, mas de forma que também haja essa variedade dentro das turmas e para que não se crie aquilo que o Eduardo estava a dizer, que é no fundo, referindo-me à escola pública, haver duas escolas públicas dentro da escola pública, às vezes, duas escolas públicas dentro do mesmo estabelecimento de ensino.

Não, há duas, há três. Invariavelmente há três. Há a escola da primeira liga, onde está a turma A e às vezes a turma B, há a segunda liga e depois há uma terceira liga.

É a liga dos últimos.

A liga dos últimos, onde se juntam as crianças com algumas particularidades de comportamento e outras coisas do gênero. Eu nem tenho coragem de usar o nome que às vezes eu ouço nalgumas escolas em relação a estas turmas, a quem muitas vezes são atribuídos os professores que estão a chegar à escola, nomeadamente os mais novos e os menos experientes, quase como quem diz: "Pronto, se juntarmos as pessoas neste registo, afinal não se estragam muitas coisas."

Não se estraga uma casa.

Exatamente, quando a ideia será exatamente ao contrário. E, portanto, sim, há a primeira liga, a segunda liga e a liga dos últimos, na mesma escola. Ora, faz sentido? A escola serve para isto? Que sentido é que pode ter? E, portanto, quanto mais homogênea for uma turma, pode aparentemente ter desempenhos mais uniformes, mas o fator de crescimento que a diversidade traz é tão significativo que eu acho que nós não estaremos a medir as consequências como devíamos.

E assim chegamos ao fim do programa de hoje, Eduardo. Estamos sempre em podcast, nas plataformas habituais, no site observador.pt e pode enviar-nos questões, dúvidas, partilhas, através do e-mail eduardosah@observador.pt. Eduardo, muito obrigado, um abraço e até amanhã.

Um grande abraço e até amanhã.