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Como é possível gerir o Natal de pais separados e como facilitar a experiência dos filhos? Olá, Eduardo. Boa tarde.
Olá, Judite. Olá, Bruno.
Olá, Eduardo.
É um tema que implica, provavelmente, uma grande ginástica.
Às vezes implica, é verdade que sim. É verdade, sobretudo quando os pais vivem distanciados uns dos outros, distanciados fisicamente uns dos outros. E às vezes também distanciados emocionalmente uns dos outros. O que faz com que muitas vezes esta gestão seja muito sensível. E sensível não só porque as crianças têm onde se dividir, mas porque a atmosfera nesse processo de divisão não é tão simples. Os pais fazem-no, às vezes, de uma forma pesada. Compreende-se que não gostassem nada de se separar dos filhos numa noite como essa, mas a verdade é que depois quando isso é sentido pelas crianças, é como se elas se sentissem um pouco culpadas numa noite que supostamente deveria ser uma noite de festa e de aproximação. E portanto, sim, é uma gestão difícil. Eu tenho sempre a ideia que é uma gestão que nunca devia meter tribunais, porque há coisas que são da gestão de bom senso, da gestão corrente dos pais em relação àquilo que entendem justo e equilibrado e, sobretudo, o mais equilibrado possível pra que uma criança, no meio de tudo isso, sinta que está no meio de uma festa e não tanto no meio de uma gestão complexa, quase protocolar, em que se medem os tempos ao minuto, porque quando é assim, isto de festa não tem nada.
A perspectiva do copo meio cheio é dizer: "Olha, vais ter duas festas de Natal", um pouco como os aniversários, mas para as crianças, isto é sentido muitas vezes não como uma multiplicação da alegria, mas como uma divisão em que a sua própria lealdade é questionada.
Sim. Duas festas de Natal, como aliás duas festas de anos. Muitas vezes juntas não são mais do que uma noutras circunstâncias. E portanto, elas sentem que independentemente de isso ser apresentado como se saíssem a ganhar, na realidade, saem muitas vezes a perder. E isto é que eu acho que é qualquer coisa de muito escorregadio. Claro que depois há todo o pacote que tudo isso implica. Porque não é só as duas festas, é o modo como estas crianças são acolhidas e acarinhadas nas duas festas e às vezes não são acolhidas e acarinhadas de forma tendencialmente paritária, considerando as outras pessoas que lá estão. E depois há um pormenor sensível, que eu acho particularmente sensível, e que tem a ver com os presentes. É evidente que aquilo que eu vou dizer a seguir vai merecer um comentário do Sandro. Mas em que mundo é que ele anda? Mas eu acho que é sempre magnífico quando os pais, independentemente de tudo aquilo que os separa, são capazes de imaginar em conjunto aquilo que são as prendas dos filhos e, portanto, em vez de ser a prenda da mãe, a prenda do pai, e mais, às vezes haver uma certa competição, considerando os valores de cada prenda, eu acho que é sempre muito mais sensato e muito mais acolhedor outra vez, que haja as prendas dos pais, independentemente da noite de Natal, se passar com a mãe ou com o pai. Se for assim, os pais estão a dar sinais muito sérios do quanto acabam por viver estas coisas com uma maturidade que nem sempre está ao seu alcance, sobretudo porque não querem.
Pois, essa maturidade muitas vezes não existe pra resolver isso. O que acontece, por vezes, é até o exacerbar dessa competição e, em alguns casos, fazer com que a criança sinta que ao estar na outra festa, está a perder alguma coisa, não estando deste lado.
Sim. Mas eu acho que o Natal é uma espécie de teste do algodão em relação à família. Eu sei que esta imagem de teste do algodão serve pra tudo, até pra política, mas eu acho mesmo, que é verdade, que é uma espécie de teste do algodão, porque nós passamos a vida a falar da importância da família e a verdade é que é muito importante, insubstituível, fundamental e tudo mais. Mas todos nós, quando consideramos uma família nuclear, muitas vezes já temos noção. Então quando assumimos uma relação e nos temos que dividir por duas famílias que todavia fazem parte da nossa família, da nossa família maior, já isto é, às vezes, sensível demais Quando as famílias se alargam, as coisas são muito tensas, porque é a maneira como se dividem os tempos, é a maneira como se criam determinadas rotinas festivas numa e noutra família. É a forma como os presentes são usados numa família para simbolizar os vínculos que as pessoas têm de se ligares e noutra, quase como uma forma de ostentação, seja lá do que for. E nesta centralização toda, que é muito feia e que faz com que muitas vezes as famílias não sejam nada bonitas e que isso fique muito mais claro no Natal. Às vezes as crianças andam ali no meio e quando andam no meio, elas são de uma acutilância e de uma sensibilidade absolutamente fora de lugar. Têm muita dificuldade em descrever por palavras aquilo que sentem, mas sentem, ao pormenor, estas discrepâncias, estas tensõeszinhas ou mesmo estas fraturas, com elas ali sendo esticadas de um lado para o outro e às vezes magoadas de um lado para o outro. Porque eu continuo a achar que muitas vezes a maneira como elas são acolhidas numa e noutra família não tem campos de semelhante. Às vezes, é muito diferente, é quase antinômico. Isto agride. E, portanto, por mais que as pessoas troquem presentes, quando se desconsideram a este ponto, não tem graça absolutamente nenhuma. E portanto, quando uma criança é jogada, empurrada para este tipo de tensões, eu acho que aí as pessoas perderam toda a compostura. E depois até vão à missa do galo e falam dos valores cristãos, que são valores de unidade acima de tudo. Mas tudo depois soa a slogan, porque chegada a hora em que têm que ser abertas, humildes, sensatas, bondosas, às vezes fica tudo muito mal esclarecido e as crianças pegando nisto desde muito cedo, percebem que os adultos são crescidos, são sensatos, mas às vezes lhes falta a ponderação indispensável para que depois chegada a hora de dizer que é Natal, seja realmente Natal para todos.
E agora só olhando para a outra parte, como é que os pais lidam com a ausência dos filhos?
É um murro no estômago. Terrível. E então quando é um primeiro Natal e há muitas famílias e muitos pais, para eles é um primeiro Natal, é um murro no estômago tremendo, porque às vezes estão os filhos da pessoa com quem entretanto passaram a viver. Às vezes estão inseridos na outra família onde estão a tentar ganhar um espaço e a descobrir um conjunto de dinâmicas e onde há, de facto, festa no ar. Mas é uma festa que depois, no fundo deles próprios, é uma festa triste, porque falta ali alguém que é muito importante. E nestas circunstâncias, estes pais fazem um esforço tremendo para se envolverem na festa. Mas muitas vezes esta dor muito grande não é percebida por todas aquelas pessoas que estão numa onda demasiado festiva e se calhar estes pais precisavam de muito colo, porque se sentem muito pequenininhos, muito abandonados e se calhar até um bocadinho injustiçados no meio de tudo.
Natal não é fácil.
Não é, Alice.
Eduardo, hoje ficamos por aqui. Amanhã voltamos com mais um tema e um tema relacionado ainda com o Natal. Até lá, continue a escrever-nos para eduardosa@oobservador.pt e ouvir-nos em podcast no site do Observador e nas plataformas habituais. Eduardo, um grande abraço, obrigada e até amanhã.
Até amanhã, Eduardo. Um abraço. Um grande abraço a todos. Até amanhã.