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"Porque Sim Não é Resposta", na Rádio Observador, com Eduardo Sá. Hoje comigo, Ricardo Conceição. Um moderador, apresentador emprestado, Eduardo. Mas eu sinto legitimidade pra vir aqui ao "Porque Sim Não é Resposta", porque afinal de contas, somos os dois fundadores do "Porque Sim Não é Resposta".
Olá, Ricardo Conceição.
Olá, Eduardo. É sempre bom conversar contigo.
Para mim é a mesma coisa. Eu, por mim, nunca teria saído daqui.
Obrigado, Eduardo. Mas infelizmente a vida assim obriga às vezes. Só para os ouvintes que não estão muito habituados a esta dinâmica entre mim e o Eduardo: nós gostamos muito de conversar um com o outro e, por regra, até somos bem-dispostos, mas hoje o tema é um bocadinho pesado. Vamos falar de violência dos filhos contra os pais. E se calhar, Eduardo, propunha daqui fazer uma divisão etária entre os filhos mais velhos numa primeira parte da nossa conversa e na segunda parte falávamos dos miúdos, das crianças, dos filhos mais novos. E queria começar pelos filhos mais velhos. E queria te perguntar se com os idosos a viverem cada vez mais tempo, com os problemas que têm, que às vezes é preciso um apoio, ser cuidadores também desses idosos, se estes casos de violência estão a aumentar, não estão a aumentar, que conhecimento é que tem disto, Eduardo?
Ricardo, é um tema duro, mas que eu acho que é um tema muito importante para nós observarmos por várias razões. Tomando em consideração os mais velhos, como há pouco eu estava a referir. Ricardo, eu receio que os cuidados que nós dedicamos aos mais velhos precisem de uma conversa franca, porque eu tenho sempre a ideia de que nós temos em relação às pessoas mais velhas uma condescendência que me incomoda imenso.
Exatamente.
Porque parte do pressuposto que por serem mais velhos, não são mais sábios, têm muito mais ilhas de demência e, portanto, se deve falar para eles devagarinho, como se não entendessem e como se, porventura forem infoexcluídos, fossem incapazes de perceber os tempos em que se vive. E eu acho que isto é, desculpe-me a franqueza, verdadeiramente repugnante, porque acho que os maus-tratos sobre as pessoas mais velhas não começam com os maus-tratos físicos, não começam com os fenômenos de exclusão que muitas vezes os filhos dedicam aos pais. Começam quando os filhos entendem que os pais não são competentes para gerir uma conta bancária, não são competentes para ter a sua autonomia e não são competentes para terem a sua vida, a sua casa, como muito bem entendem. E eu acho isto absolutamente inquietante e, portanto, tinha muita esperança, tenho muita esperança, que um dia, em relação às pessoas mais velhas, nós possamos ter outros tipos de atitudes. Porque aquilo que eu vejo, Ricardo, é que por mais que eu entenda que é muito difícil nas grandes cidades os filhos darem a assistência que os pais exigem e que os pais merecem, eu fico muito preocupado porque com a forma, às vezes, demasiado leve com que se institucionalizam os pais mais idosos, que se parta do pressuposto que eles são tão tolos que não têm a noção de que muitas vezes aquele tipo de lares que têm os nomes mais abjetos que às vezes se pode imaginar.
Inacreditáveis alguns, é verdade.
Onde entra paraíso e outras coisas do gênero, é como se eles não percebessem que aquilo é uma antecâmara para a morte e como se isso não os matasse mais depressa. E portanto, nesse contexto, acho que nós estamos muito longe de ter em relação às pessoas mais velhas, o respeito e a gratidão, já agora, porque não há um pormenor tão insignificante, que eles mereceriam ter.
Porque quando estamos aqui a falar de violência nestas faixas etárias, obviamente não estamos apenas a falar de violência física, que também há.
Não, quando nós os desconsideramos, basta isso, nós estamos, de facto, a fazer-lhes mal. Nós estamos a magoá-los. E portanto, esta ideia de que nós os desconsideramos porque gostamos muito deles, porque eles não são capazes de nos acompanhar nalguns temas, é uma perfeita parvoíce, desculpe. É nós estarmos de uma forma muito egocêntrica a imaginar que o mundo cresceu até nós e que aquelas pessoas todas que criaram as condições para nós sermos como somos, fossem quase suscetíveis de serem recicláveis, porque não são indispensáveis ao nosso crescimento. E portanto, eu acho muito importante que os pais, quando fazem isso, que não se esqueçam que não vale a pena estarem a dizer aos filhos como se deve fazer, basta que estejam só atentos aos exemplos que lhes dão e que, portanto, não percam de vista que é nos exemplos que dão em relação aos seus próprios pais que os filhos vão buscar a gramática e o vocabulário indispensável que irão utilizar mais tarde, quando for a sua vez de terem os cuidados indispensáveis aos seus pais quando forem mais velhos.
E agora, se quisermos pensar na violência aqui, eu diria, mais física, de crianças contra os pais. Já todos assistimos a esta cena de uma criança que levanta a mão contra os pais Ou de um adolescente que é absolutamente violento, para não dizer outra coisa, com os pais. Como é que isto se resolve, Eduardo?
Eu acho piada que as crianças quando são muito pequeninas, às vezes levantam a mão à mãe ou ao pai. E acho piada por uma razão: é como se elas dissessem assim: "tu és uma mãe, um pai tão mágico, e tu transcendes tudo aquilo que às vezes eu era capaz de esperar de alguém, que fico absolutamente zangado quando não me fazes todas as vontades". E, portanto, eu gosto muito que os miúdos, quando crescem, tenham a veleidade de dizer "não gosto de ti", que é a maneira de dizer, por outras palavras, se fosse uma mãe ou um pai que fossem decentes, obviamente fariam todas as vontades que eu entendesse ter. Até aqui, entre este "não gosto de ti", eu acho que é a linha vermelha. Daqui para frente já não pode ser. E, portanto, filhos a chamarem estúpidos aos pais , Ricardo, por favor, vamos com calma, porque isto não pode ser. Agora, aquilo que me preocupa verdadeiramente é uma onda que se sente nalguns adolescentes e com uma frequência cada vez maior, de adolescentes que tratam literalmente mal os pais, porque os pais foram absolutamente inexigíveis e foram muito complacentes com o lado imediatista que estes filhos foram tendo. Estes pais foram se encolhendo demasiadamente quando se trata de dizer que não, e foram alimentando um individualismo que depois resvala para um egocentrismo e logo a seguir para o narcisismo destes miúdos. E, portanto, quando estes pais finalmente os contrariam, seja em relação ao que for, o que nós temos muitas vezes são miúdos que desafiam de uma forma aberta os pais, como se os pais não tivessem autoridade para serem pais. Ou que têm em relação aos pais, abordagens do gênero: "não me chateies muito", estou a citar alguns exemplos, "porque um destes dias eu meto-me lá e nunca mais quero saber de ti". Isto é uma agressão, não deixa uma nódoa negra. Quer dizer, não deixa na pele, deixa na alma. E aqueles filhos que insultam, mas insultam literalmente os pais, e pior, que muitas vezes os agridem fisicamente.
Como é que isso se resolve, Eduardo?
Os pais resolvem chamando a polícia, que é a coisa mais triste que possa acontecer.
Mas não é a polícia que vai educar os filhos, não é?
Não é a polícia que vai educar os filhos. E, portanto, estarmos a chamar a atenção para isto é estarmos a pedir, ainda por cima no dia em que se comemora a Convenção dos Direitos das Crianças, que os pais deixem de ser pais encolhidos, por favor, e que assumam que a autoridade dos pais é um exercício de bondade em relação aos filhos. E que quando os pais se demitem uma vez, duas vezes, 20, 100 vezes, de assumir, em nome de princípios, de regras e da boa educação, que é uma coisa que não devia estar em vias de extinção, os pais estão a criar um caldo de cultura que faz com que estes miúdos embrulhados nas redes sociais, embrulhados num conjunto de vulgaridades que depois fazem com que eles estraguem, claro. A determinada altura, leva a que pais de adolescentes olhem para os filhos e perguntem: "como é que os bons pais podem criar maus filhos?" Podem, acidentalmente, movidos pelas melhores das intenções, mas não é razoável. E sobretudo quando se fala dos direitos das crianças, é muito importante que os pais não percam de vista os direitos dos pais, que são direitos tão preciosos como os das crianças, e quanto mais os pais compatibilizarem os direitos, melhores pais eles serão.
Obrigado, Eduardo. Eduardo Sá, no "Porque Sim Não é Resposta", às 16h45 na Rádio Observador, de segunda a sexta, e sempre em podcast. Eduardo, é sempre um gosto vir aqui, nem que seja 10 minutos, para poder falar consigo.
Se dependesse de mim, eu obrigava a vir mais vezes.
Obrigado, Eduardo. Um abraço. Obrigado.
Um grande abraço para si.