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Este é um podcast da Rádio Observador. Pode ouvir a rádio também em 98.7, na Grande Lisboa, e 98.4, no Grande Porto. Junta-se a nós, como é habitual, de segunda a sexta-feira, o Eduardo Sá. Boa tarde, Eduardo. Bem-vindo, mais uma vez.

Olá, Ana Filipa.

Olá, viva, Eduardo.

Olá, João, viva, como está?

Eduardo, nós fomos recebendo ao longo destes dias muitas perguntas, muitos pedidos para comentarmos também consigo este caso. Hoje é um dos casos que marcou esta semana: o professor que alegadamente agrediu um aluno de 13 anos numa escola em Lisboa. Tudo terá acontecido depois do aluno usar o telemóvel na aula. O Ministério da Educação, entretanto, abriu um processo disciplinar. O professor foi suspenso do exercício de funções em todas as escolas onde lecionava a disciplina de Tecnologias de Informação e Comunicação e vai ser também presente a tribunal em breve. Eduardo, que comentário é que lhe merece então este caso?

Eu tossi logo, não foi? Ana Filipa, fico preocupado, como ficamos todos nós perante este tipo de circunstâncias. Por aquilo que depois vi, que são as reações quase em cadeia a propósito da violência nas escolas, de repente, eu fico ainda mais preocupado, porque parece que no fundo acaba por ser um quotidiano tão banal que também não é muito razoável que nós o assumamos assim, porque às vezes não é. Claro, quem é que pode estar de acordo com um exercício de violência como este? Ninguém no bom senso. Mas eu tenho medo que muitas vezes se fale da violência quando não se deve e às vezes quando se devia, não se fala. Infelizmente, há alguns episódios protagonizados por professores, mas também há muitos episódios protagonizados por alunos. Há professores que vivem num inferno permanente, nomeadamente nalguns alunos que são trazidos pra escola porque, no fundo, não devem estar fora dela e que têm comportamentos de uma violência tão recorrente em relação ao professor, que nem sequer é razoável que eles os tenham, nem sequer é razoável, porventura, que eles estejam na escola, se é pra aquilo que eles lá estão. E de repente, parece-me que a escola, diante deste tipo de coisas, não tem uma ideia muito clara sobre aquilo que devia ser ou não possível. E, portanto, de facto, não é possível, não é admissível que um aluno falte o respeito a um professor, porque a escola é um bem precioso pra todos nós. Não é admissível que um professor falte o respeito a um aluno. E sim, quando um professor passa todos os limites que são admissíveis na relação entre um professor e um aluno, aquilo que é suposto que se faça é isto mesmo: que se ponderse se sim ou não, se ele terá condições pra continuar a exercer aquela atividade. Não é caso único, não com atitudes de natureza física como esta foi. E se calhar desejaríamos todos que professores que têm esse tipo de comportamentos não sejam, de facto, professores. Mas também não é admissível, no sentido contrário, que às vezes a escola também é demasiado condescendente com isso tudo. Portanto, a violência na escola a mim preocupa-me, sobretudo porque em determinada altura não fica muito claro o que a escola pretende perante este tipo de situações.

E este tipo de situações têm aumentado? Há falta de segurança nas escolas?

Pois, está a ver, essa é outra das preocupações que as sucessivas reportagens, e as manifestações de pais, e os cordões humanos, e outras coisas do gênero trouxeram entretanto. Claro que há falta de funcionários nas escolas e, portanto, se há falta de funcionários das escolas, as escolas não reúnem as condições indispensáveis, porventura, para estarem abertas. E acho que se for assim, e convenhamos, é assim em muitas escolas, é de uma absoluta irresponsabilidade tê-las abertas. E acho até uma certa falta de vergonha que, de facto, haja uma carência tão significativa de pessoal auxiliar, que porque estão no quadro das escolas, são absolutamente indispensáveis pra que elas tenham uma atividade normal, nomeadamente também para cuidar daquilo que há de cuidar e proteger quando é preciso proteger. E, portanto, sim, há de facto escolas que não têm os funcionários indispensáveis e, portanto, não têm as condições indispensáveis pra estarem a funcionar, não têm condições de segurança, não só de segurança, mas não têm condições de segurança. E é uma tristeza que seja preciso um episódio tão triste como este para que, de repente, coloquemos na agenda por um dia ou dois. Eu só tenho pena é que seja só por um dia ou dois este tipo de situações, que são de facto graves. As escolas precisam de professores. Há muitos alunos neste país, neste momento, que ainda não têm professores, que fique claro, e as escolas precisam de pessoal auxiliar pra que elas possam funcionar como deve ser e muitas vezes não têm. E, portanto, pergunta-se o que é que se espera das escolas quando, de repente, parece que se exige uma coisa e se dá outra completamente diferente.

Eduardo, outra dimensão desta questão da segurança nas escolas é também a presença dos agentes da autoridade. Aliás, o programa Escola Segura foi até um programa que já foi muito elogiado. Hoje mesmo, a Confederação Nacional Independente dos Pais e Encarregados de Educação enviou uma carta ao ministério em que pede agentes da autoridade nas escolas de forma permanente.

Pois, João, está a ver.

Pede pra dissuadir estes problemas da violência, mas também pra mediarem os conflitos físicos e garantirem a segurança de toda a comunidade escolar. Faz sentido este apelo?

Não, de todo, com todo o respeito pelas pessoas. Porque em determinada altura nós entramos por uma deriva populista que depois tira credibilidade àquilo que merece credibilidade. Os polícias não têm que estar na escola, com todo o respeito pelos polícias e nomeadamente pelo programa Escola Segura. Não têm que estar na escola. Uma escola não é um sítio que seja policiável, que seja policiável através de polícia, seguranças privados, pais Que fazem piquetes nalgumas escolas, mas onde é que já se viu? Ou câmaras que de repente só não filmam os alunos na casa de banho porque parece mal e, portanto, sejamos razoáveis. Uma escola é um sítio onde nós definimos regras de convivência e elas têm que ser tomadas em consideração. Os professores ou o pessoal auxiliar, se for o caso, pode estar uma vez ou outra, às vezes na quantidade indispensável, nos recreios para tomarem em consideração alguns aspectos. Mas, por favor, não faz sentido andarmos neste "ai Jesus!" Parece que as escolas vivem todas num clima de guerra civil e ou pomos polícia nas escolas ou de repente os professores batem nos alunos e os alunos batem nos professores e, peço desculpa, com todo o respeito pela preocupação dos pais, entrarmos por este tipo de argumentos é estarmos a banalizar uma coisa que é de facto excecional, que é grave, todavia, mas é excecional. E quando nós vamos por aqui, estamos a entrar num regime que parece tirar credibilidade àquilo que merece ser credível.

Vamos ouvir a nossa primeira pergunta que nos chega através do nosso número do WhatsApp, é o 917 698 051. Se quiser, pode e deve também participar. Ouvimos então a pergunta da Marta Pereira.

Olá, eu sou a Marta e queria perguntar, senhor professor, às convivências, se isso pode acontecer é porque alguma coisa está a falhar na seleção do pessoal docente. Como é que um pai pode ficar descansado sabendo que há pessoas que usam a violência para conseguir a disciplina na sala de aula?

Marta, obrigada pela sua pergunta.

Marta, não pode, claro que não pode. E claro, quando põe a questão dessa maneira, eu também entendo que para que sejamos professores, não basta unicamente termos uma formação universitária que de alguma forma o justifique. Eu também entendo isso. Todavia, eu devo lhe dizer, Marta, que às vezes fico um bocadinho preocupado com aquilo que se passa com a gestão da lei nas escolas, por uma razão simples: eu tenho a ideia que quando a escola não cumpre a lei, nos dois sentidos, dos professores em relação aos alunos e dos alunos em relação aos professores, quando não cumpre a lei, passa a vida a falar de disciplina, que é uma coisa para a qual a determinada altura já não há quase paciência, porque os alunos não precisam de disciplina, precisam de ter um conjunto de regras e, por favor, poupem-nos o Diabo dos estatutos dos alunos, que são aquele maço de folhas que ninguém lê, que demora horas e horas a fazer, quando no fundo aquilo que é suposto é que haja um conjunto de regras de bom senso, cuja gestão seja dos professores, por alguma coisa eles são pessoas sensatas e são adultos, sejamos razoáveis, e que sejam cumpridos de parte a parte. Dou-lhe um exemplo. Não é suposto os telefones estarem nas aulas. Eu não percebo porque é que o ministério permite que os miúdos entrem com os telefones nas escolas ou, se quiser, porque é que os utilizam. Não percebo porque é que tem que ser assim, porque chega a altura de irem para o recreio, em vez de estarem a viver uns com os outros, estão todos ali a olhar para o telemóvel. Mas sejamos razoáveis, se não se pode usar um telefone na sala de aula, porque é que os professores, enfim, se zangam, e acho muito bem que se zanguem, mas porque é que alguns o utilizam? Porque de repente parece que há duas leis e que nem sempre elas coincidem. Sendo certo que, obviamente, eu acho que é só de má educação, quando um professor está a dar uma aula, que um aluno não esteja a olhar para ele. Pode-me dizer assim: "Mas há professores que não merecem a atenção do aluno." É verdade, mas todavia, é de absoluta má educação que quando um professor está a dar o melhor dele ou pelo menos aquilo que ele entende que é o melhor dele, o aluno esteja divertidamente a olhar para um ecrã. E bom, isto é razoável? Não é razoável. E, portanto, a escola tem que definir um conjunto de regras, tem que as fazer cumprir com bom senso. E com bom senso não é naquele registo do género: vamos domesticar adolescentes rebeldes. Primeiro, porque eles não são rebeldes e depois porque não são domesticáveis. E já agora, os adolescentes, quando têm um professor que os respeite, são as pessoas mais sérias do universo, respeitam-no e admiram-no. Agora, sejamos razoáveis, e o que ele diz é verdade, se calhar nem todas as pessoas têm perfil para ser professores, mas eu acho que nós devíamos levar isso muito a sério, do jardim de infância ao ensino superior.

Eduardo, vamos ouvir mais uma pergunta que nos chegou através do nosso número de telefone. Aliás, foram chegando várias participações através do 917 698 051, do Gonçalo Oliveira.

Quero sublinhar que não estou de forma alguma a defender o uso de violência nem de qualquer tipo de correção física. É óbvio que não é aceitável, mas até que ponto é que estes casos não acontecem porque ninguém garante aos professores apoio pedagógico, ninguém os ensina a interpretar o comportamento das crianças e nós bem sabemos que, nestas idades, elas testam as pessoas até ao limite. Que apoio é que é dado aos profissionais do ensino para que consigam suportar as situações em que, mesmo sem intenção, os miúdos abusam psicologicamente dos professores?

Gonçalo, obrigada.

Gonçalo, nenhum. Os professores vão aprendendo a ser professores, no essencial, movidos pelo seu bom senso. Aprendem a mercer nos adolescentes, quando é o caso de serem adolescentes, por ensaio e erro, sempre à boleia das suas experiências e da sua sabedoria, sendo certo que, como sabe, ter, por exemplo, uma turma do oitavo ano em que temos aquela miudagem ali em redor dos 14 anos, com a cabeça a dar solavancos, tudo dá solavancos à volta deles. Portanto, aquelas turmas às vezes parecem um potro selvagem. E se, de facto, às vezes na distribuição dos professores, porque Gonçalo, vamos também pegar neste pormenor, se me dá licença, muitas vezes os professores que são atribuídos a algumas turmas difíceis não são os mais capazes e os mais experientes. Às vezes são aqueles que estão acabados de chegar. Tipo, toma lá um presente envenenado pra ver como é que te safas. E portanto, há todo um conjunto de coisas que tem que ser levado a sério. Tem toda a razão em relação à formação dos professores, tem toda a razão em relação à ausência de uma retaguarda que os ajude a pôr legendas no comportamento dos grupos ou dos alunos em particular De maneira a que se aprenda a mexer com eles. Mas também é verdade que as direções das escolas, às vezes, criam esse tipo de situações. Note, a maneira como muitas vezes se constituem as turmas é uma batotice pegada, porque às vezes põem-se na mesma turma muitas crianças muito problemáticas. Faz lembrar um bocadinho aqueles bairros sociais.

Os alunos com mais dificuldades ficam todos numa turma e os alegadamente com menos dificuldades ficam noutras turmas.

E às vezes não é só os mais difficultados.

Está a condenar-se à partida também alguns alunos e existe também algum desleixo e a proporcionar-se situações destas.

Por isso é que a escola passa a vida a jogar como se fosse um slogan: "Somos a favor da inclusão", que só é possível quando a escola, no fundo, reconhece que é tudo menos inclusiva.

Eduardo, este caso surgiu e as reações nas redes sociais vão potenciando isso, não é?

Sem dúvida.

As reações foram muitas, de um lado, de outro, o tal treino de bancada que nós às vezes vamos ouvindo também. Nós não andamos a falar o suficiente sobre a escola, o respeito pelos professores com os nossos filhos?

Não. Aliás, a falta de respeito em relação aos professores começa muitas vezes à mesa do jantar lá em casa, quando os pais fazem alguns comentários em relação aos professores que não é razoável que façam, porque de repente é como se as crianças muitas vezes se sentissem numa espécie de fogo cruzado, como se ao admirarem o professor estivessem quase a pôr reticências nalguns reparos que ouvem de alguns pais e vice-versa. E, portanto, eu acho que começando pelos governos por ali abaixo, não é respeitada a função de um professor. Um professor é uma função preciosíssima. Se o mundo é democrático, deve-o ao sistema judicial, deve-o à imprensa, mas deve-o sobretudo aos professores, porque foram eles que o democratizaram, educando. E de repente, são muitas vezes tratados como se fossem um pessoal subalterno na escala da sociedade e não se tem socialmente o respeito em relação ao professor que ele merece ter. E portanto, chegada a hora, quando um aluno já é um aluno complicado, digamos assim, às vezes perturbado, se for o caso, evidentemente, que se apanha um professor muito frágil à sua frente, que acha que ter os alunos na mão é tentar domesticá-los pelo medo, dá uma mistura explosiva que depois no final acaba em determinadas situações, sendo certo, é melhor que fique claro, que ninguém está a pôr pó de arroz num episódio destes.

Não, claro que não.

Mas é evidente que somos obrigados a perguntar se este tipo de professores, que reage assim numa primeira aula, terá o perfil indispensável para ser professor, ainda para mais num estrato etário como aquele em que ele estava a dar.

Porque falamos desse lado, não estamos a falar com os nossos filhos sobre essa questão do respeito, enfim, do que é ser um professor, de perceber o outro lado e o lado contrário também. Será que andamos a ouvir os nossos filhos o suficiente sobre aquilo que se passa na escola, sobre aquilo que vai acontecendo?

Quando eles chegam com uma grandessíssima nódoa negra, nós chamamos a atenção, nós reparamos. Muitas vezes quando eles falam de alguns colegas que são mais desafiadores, falam com um misto de admiração e de receio, tomando-nos o pulso para perceberem qual é a nossa posição. E nós em relação a tudo isso, enquanto as coisas não nos entram pela casa adentro, nem sempre paramos para perceber que muitas vezes esses miúdos, se fossem ajudados pela escola e se os pais ajudassem a escola a ajudar, muitas vezes nunca se chegaria a situações como aquelas que tristemente nós vamos observando, quer quando os professores agridem os alunos, quer quando os alunos agridem os professores.

O Eduardo Sá está sempre conosco, de segunda a sexta-feira. Temos encontro marcado amanhã. Obrigada, Eduardo. Até lá.

Obrigado. Até amanhã.

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